Claraboia
9 Capítulo 8 - Brothers in Arms
Notas iniciais
Capítulo 8:
Brothers in Arms
Gerard estendeu outra xícara de chá para Helena. Ela balançou a cabeça, sorrindo com doçura.
-Vou acabar explodindo se continuar, querido.
Seria a quinta xícara, Gerard sabia. Para evitar o próprio nervosismo tentava acalmar Helena. O rosto rechonchudo parecia ter ganhado o dobro de marcas de expressão e muita, muita tristeza. Logo, Gerard sentia como se uma faca se remexesse dentro de seu peito.
No seu quarto tinha seu refúgio. Na mala, mais um pacote. Uma carreira mais do que pronta de cocaína para anuviar toda a cena de sofrimento e desespero que viu o dia inteiro e...
“Pare.”
Mikey logo estaria li e Helena precisava dele, lúcido.
Uma buzina.
-Chegaram. – Colocou a xícara na pia, ao lado da gaiola vazia, e estendeu a mão para Helena. – Vamos.
Helena relutou em ficar um tempo em Nova Jersey, na casa dos pais de Gerard e Mikey. Mas concordou. Nova York já era movimentada por natureza. Agora, com o mais recente e abominável ataque terrorista, Manhattan se tornaria algo muito próximo ao inferno.
Mikey já estava parado na porta e os cumprimentou com um aceno. O Impala vermelho de seu pai estava parado em frente a casa, com Frank acabando de se encostar no capô.
-Boa noite, Helena. – disse Mikey, abraçando a avó.
-Oh, querido. Essa noite tem tudo para não torná-la tão boa quanto eu desejaria.
-Pode ir, Helena. Eu e Mikey pegamos as malas. – disse Gerard.
-Claro, claro. Lá vai eu com essa bacia velha como uma múmia. – Ela acenou para Frank. – E quem seria esse lindo jovem?
Com Helena intrertida com Frank, Gerard chamou a atenção do irmão.
-O que ele tá fazendo aqui?! – sussurrou enquanto pegam as malas.
-Tô tremendo demais para dirigir e papai ficou para cuidar da nossa mãe.
Gerard parou de pegar as malas e deixou a que segurava cair no chão. Mikey também parou, com a cabeça baixa. Com apenas um passo, estava abraçando Mikey. Um desesperado e forte abraço.
-Cara, que terrível. – murmurou Mikey.
-Não fala nada. – pediu de olhos fechados.
Helena e Gerard foram atrás e toda a viagem seguiu-se num silêncio de motor de carro gritando por óleo novo. Gerard cumprimentou Frank apenas com um cordial aceno com a cabeça para evitar comentários desnecessários perto de Helena. O moreno com certeza notara que tipo de pessoa era Gerard e ele não queria arriscar deixar a avó ainda mais nervosa.
Sua casa ainda era a mesma. Quente e com o cheiro de sua mãe. Foi recebido por ela que trazia os olhos inchados e a voz fraca que dizia tantas coisas ao mesmo tempo que não conseguiu entender nada. Demorou bastante tempo com ele e Mikey em seus braços até que ela definitivamente se acalmasse.
Dentro estava quente e sem graça demais comparada à casa de Helena. Porém, era um dos únicos lugares que conseguia ver... “luz”.
-Helena vai ficar no quarto de visitas, aqui embaixo. – disse Donald quando Helena foi para a cozinha junto de Donna. Enquanto Donna não se acalmava, ele tentava tomar as decisões que normalmente a esposa tomaria. Era no mínimo uma figura engraçada. – Vocês três podem se arranjar no quarto de Mikey, certo?
-Podemos tentar. – respondeu Mikey.
Gerard teve a ligeira impressão de que na citação do pai, Frank também estava envolvido. Achou melhor não expor suas dúvidas.
-Podem pegar o colchão de casal atrás do armário. – continuou Donald. – Sem mofo, costurado e pronto para o uso.
Gerard riu.
-O Sacolão não é um colchão.
-Mas vai servir como tal.
Frank não conhecia o Sacolão, então Gerard e Mikey o apresentaram. Uma sacola de pano tamanho Fat Family cheia até a borda com restos de pano, retalhos de roupas, pelúcia e x outras coisas que Donna achara que o deixaria mais confortável. Coincidentemente ou não, ele só era usado em casos de extrema urgência devido à sua ‘confortabilidade’.
Tiveram que sair no 2 ou 1. Frank ganhou.
Quando Gerard se deitou para dormir, não conseguiu. Ainda ouvia gritos, agoniantes e altos clamavam desesperadamente por ajuda. Pareciam estar próximos ao seu ouvido, e por mais que tentasse tapá-los, as vozes tinham a mesma intensidade. A pior parte foi perceber que ainda estava acordado.
-Que cara é essa?
Ergueu a cabeça para a porta. Frank estava com o cabelo molhado e só com uma calça de moletom preta como peça de roupa, parado ao pé do Sacolão. Meio curvado para olhá-lo, e aparentando ser igualmente baixinho visto de baixo. Sentiu um complexo de inferioridade incrível com a vista de sua barriga.
-Moleque, ponha uma camisa. – disse, virando-se de lado.
-Estou bem assim, obrigado. Mas você não respondeu a minha pergunta.
Ah, ele era um piadista.
-Respondeu o quê?
-“Que cara é essa.”
-A que minha mãe me deu. Reclamações são com ela.
-Tudo bem. – Escutou passos. – SENHORA WAY!
Gerard se sentou num pulo e encarou Frank, abismado. Ele estava apoiado no batente da porta, aparentemente esperando uma resposta.
-Você é doido?! – perguntou num sussurro urgente.
-PODE DEIXAR! – Frank voltou-se para Gerard. – Eu é que pergunto. Então, cadê o Mikey?
Será que se não respondesse ele gritaria de novo? Preferiu não arriscar.
-Foi pegar alguma coisa pra comer.
Voltou a se deitar. Simplesmente não queria papo.
-Ok...
A cama de Mikey rangeu e depois, silêncio.
No dia anterior havia conversado com esse mesmo garoto. Mas aquele dia aprecia tão distante depois de tudo que não se lembrava de qual foi a sensação. Mentira. Lembrou-se de que foi legal falar com ele e que o assunto entre os dois fluía como água no rio em dia de chuva. Tudo bem. Sua língua estava coçando para falar alguma coisa, e também era falta de educação não falar com a visita.
-Doeu?
Frank não respondeu de imediato. Demorou, até. Falou depois de um tempo.
-Quando caí do céu?
O peito de Gerard vibrou contra sua própria vontade e ele soltou uma gargalhada. Virou-se de barriga para cima. Com Frank de costas, via perfeitamente a abóbora entre suas omoplatas.
-A tatuagem, Narciso.
-Não leio mentes. Pareceu uma cantada. – defendeu-se. – E sim, doeu, mas o resultado foi legal. Não acha?
Bem, cada um com seu gosto. Uma abóbora nas costas. Tudo bem. Era legalzinha na pele muito branca.
-Não vejo dor como algo razoável para obter um... – Revirou os olhos buscando a palavra certa. – ... luxo tão vago quanto ter a pele desenhada.
Frank se virou na cama, para Gerard.
-Você é doido?
Riu. E se sentiu mais a vontade em perguntar.
-O que você tá fazendo aqui? – Bateu na própria testa. – Quer dizer, por que você está dormindo aqui? Não querendo te expulsar, embora eu quisesse muito essa cama...
-Entendi. – cortou Frank. Gerard ficou aliviado com o tom brincalhão. – Aqui é mais perto da universidade. E nenhum dos meus pais mora perto o suficiente e nem querem me deixar morar numa república.
-Seus pais são divorciados?
-São. E não se dão nem um pouquinho bem. Preferi ficar aqui hoje para evitar brigas. Tipo: – Afinou a voz. – “Você prefere ele/ela à mim! Garoto mal agradecido! Depois vem correndo pedir alguma mesada!” Esse tipo de coisa.
Gerard olhou para o teto. Branco, salpicado de adesivos que ele e Mikey colaram durante anos.
-Sinto muito.
-Ih, não sinta. – disse Frank, com uma animação estranha para aquele tipo de conversa. – Até hoje recebo dinheiro como suborno dos dois.
-Então você é um filho do papai.
Frank lhe mostrou uma careta.
~0~0~0~
Mesmo Helena que detestava televisão assistia com todos aos noticiários, buscando novas informações sobre os ataques. Manhã, tarde e noite, Ways, Helena e Frank ficaram juntos só para se acalmarem naquele pequeno círculo de aconchego.
Por uma semana, não saíram de casa. Por uma semana, todo o EUA parou, e só aqueles que eram diretamente ligados ao auxílio ou manutenção dos danos que o ataque terrorista havia causado trabalharam durante os sete dias. A universidade em que Frank e Mikey estudavam estava fechada por tempo indeterminado, o Cartoon Network era intransitável enquanto os escombros das torres não fossem retirados completamente, Donna e Donald tiraram licença do trabalho para ficarem juntos e tudo na casa, mesmo cheia, era silêncio.
Gerard não tinha muito assunto com ninguém. Só conseguia trocar palavras de verdade à noite, quando dividia o quarto com os outros dois.
Nas poucas vezes que saiu para comprar mantimentos com Helena nas pouquíssimas lojas ainda abertas, Gerard viu cartazes e pessoas. Faixas eram carregadas nas ruas sem trânsito, em luto. Havia imagens de Osama sendo enforcado, com chifres na testa e protestos em relação à suposta farsa de Bush ao dizer que era ignorante aos mísseis antes de serem lançados. Mas eram os rostos cabisbaixos e olhos inchados que o marcavam profundamente. Eram os gritos ainda ecoando pelas ruas, os pedidos para que trouxesse aqueles que amavam de volta que o acordavam toda noite.
Uma criança em especial tornou sua abstinência um pouco mais dolorida. Ela usava um chapéu vermelho e lhe acenou com um sorrisinho inocente quando passaram lado a lado.
“Inocência.”, pensou ao acenar de volta.
Não foi por querer que no fim da semana ultrapassou seu limite de cocaína semanal.
~0~0~0~
-Gerard...
-Oi?
-Canta alguma coisa.
Gerard se remexeu incomodado no Sacolão. Que diabos de pedido era aquele?
Mikey estava deitado e nem o olhava, quieto, aguardando uma resposta.
Frank, de repente interessado, virou-se para os dois no chão.
-Esse colchão tá afetando o seu cérebro. – Deu as costas aos dois.
-Só uma música. – Mikey pediu, novamente. – Pode ser até Madonna.
Ouviu Frank rir. Gerard teve a impressão de que ele e o moreno tinham imaginado a mesma coisa: ele loiro, dançando feito a Shakira com um colante branco.
-Pirou, menino?!
Mikey o olhou divertido com um singelo sorriso.
-Vai. Canta. Como fazia quando alguém nos irritava na escola.
Expurgar com a música. Havia ensinado esse ditado à Mikey. Era um de seus favoritos que recitava com frequência enquanto morava naquela casa.
Deitou-se numa posição mais confortável, olhando para o teto, distraidamente contando as figurinhas. Para expurgar a mente, o que sentia devia ser dito com clareza. Uma música que o definisse no momento.
These mist covered moutains
Are a home now for me
But my home is the lowlands
And always will be
Mikey suspirou. Devia estar agradecido. Então, Gerard continuou.
Someday you'll return to
Your valleys and your farms
And you'll no longer burn
To be brothers in arms
Cantou para as vozes que não se calavam, para os sorrisos que não se iam, para os fantasmas que estavam constantemente rodando a sua volta. E eles se calaram, ouvindo com atenção seu hino.
Through these fields of destruction
Baptism of fire
I've witnessed your suffering
As the battles raged higher
And though they did hurt me so bad
In the fear and alarm
You did not desert me
My brothers in arms
There's so many different worlds
So many different suns
And we have just one world
But we live in different ones
Now the sun's gone to hell
And the moon's riding high
Let me bid you farewell
Every man has to die
But it's written in the starlight
And every line on your palm
We're fools to make war
On our brothers in arms
No fim, sentiu uma lágrima querer desprender de seu olho direito. Ficou parado e em silêncio até que ela se secasse.
Com a cabeça em silêncio, e dois telespectadores tão quietos quanto ele, conseguiu pensar. E a ideia que antes não lhe apetecia tornou-se tentadora.
-Vou montar uma banda. – Virou para Mikey e Frank. – O que acham?
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