Claraboia
7 Capítulo 6 - 3 anos depois
Notas iniciais
Capítulo 6:
3 anos depois
-Frank, tenho que admitir: esse foi o pior show que você já tocou.
Um comentário tão sincero vindo de Mikey só poderia significar uma verdade inegável, fato que não o abalou tanto quanto deveria.
Por algum motivo, sentiu-se aliviado com a separação da banda. Os poucos fãs que restaram não se importaram e o próprio Frank já esperava que algo do gênero acontecesse, com o mesmo entusiasmo que aguardava o Halloween.
Abanou a mão e olhou para fora da cafeteria.
-Acho que foi o melhor. – Escondeu o rosto nos braços cruzados na mesa e ronronou. Ouviu gritinhos na mesa ao lado. – Preciso de alguém que tenha a voz que acompanhe minha guitarra.
Mikey ficou surpreso.
-A sua não?
-De jeito nenhum. Não dá pra perceber? – olhou para Mikey entre os fios da franja.
Mikey pensou. Uma cena particularmente engraçada para Frank pelo ângulo do qual olhava.
-Uma vez, ouvi um comentário a respeito.
Frank levantou o rosto, atento.
-Sério?!
Risinhos vindos da outra mesa. Mikey dividiu sua atenção entre Frank com a outra mesa. Frank olhou para o lado, onde na mesa sete meninas de idades indefinidas conversavam aos cochichos não muito baixos. Ao verem ele as olhando, risinhos e comentários dispararam como abelhas furiosas.
Rolou os olhos. Agarrou o rosto de Mikey e o forçou a olhá-lo.
-Michael Way, quem comentou isso?! – falou, lançando todas as cargas de ameaça-Frank no olhar.
-Um... amigo do Gerard... Há um tempo, quando você ainda estava no Blood Storm, ele viu sua apresentação e disse que você era muito bom na guitarra, mas sua voz não levaria nenhuma banda pra frente.
Sentiu uma onda de animação erguer seu ego de um modo que não se lembrava de ter subido tanto.
Puxou Mikey e lhe lascou um beijo nos lábios.
Gritos histéricos.
-Mikey, você salvou meu dia! – disse sem conter o sorriso, enquanto Mikey esfregava a boca. – E onde está esse cara agora?
-Em alguma banda em Nova York. Merda! Nunca mais faça isso!
-E você tem contato com ele? – perguntou, ignorando a raiva do amigo.
Mikey lhe lançou um olhar irritado por não ser levado a sério. Por fim, rolou os olhos e respondeu.
-Faz tempo que não nos falamos. O Gerard deve ter, provavelmente.
-Arranja para mim um encontro com ele? Um telefone, e-mail, tanto faz! – Frank parou para respirar e olhou para cima. – Você disse que o nome dele era...?
-Não disse.
-Então, qual é? – Abusar um pouco não faz mal. Mikey coçou a cabeça.
-Ray. Ray Toro.
-Vou tentar lembrar. – Anotou o nome mentalmente. Não era difícil. Dava para lembrar. – Então? Arranja alguma coisa pata mim?
-Até seu aniversário, eu arranjo alguma coisa.
-Não pode ser antes de setembro acabar não?
-Você não faz por merecer.
-Qualé! É o segundo ano do século! Vamos tornar a humanidade mais humanitária!
-Tecnicamente, é o primeiro.
-Mikey!
Ele riu e ergueu os braços.
-Ok. Eu faço o possível. Só que depende de Gerard.
Frank parou de sorrir. Sempre que o assunto 'Gerard' era citado, Mikey baixava sua cabeça. Sua jovialidade e a do próprio Frank ficavam abaladas.
Frank não o conhecia. Nem sequer o vira. Mas o odiava profundamente.
Tinha, não poucas, mas muitas e boas para falar com ele, e explicações a exigir. Mas Mikey não se encontrava com ele quando estava com Frank. Geralmente era exatamente quando ele menos podia acompanhar Mikey. Tudo estritamente calculado.
Então, teve uma ideia.
-Eu... poderia conhecer seu irmão também? – perguntou baixo, sorrateiro.
Mikey teve a mesma reação de sempre. A mesma hesitação na fala, o mesmo temor no olhar.
-Acho melhor não.
-Pois eu acho muitíssimo inspirador. – Juntou os dedos e apoiou o rosto nas mãos. – Cada cantor vale a pena para encontrar a voz que me interessa. E seu irmão, além de cantor, tem contatos. Quero conversar com ele.
“Ele vai ceder.”
Manteve a postura e não baixou a intensidade do olhar. Os risinhos viraram cochichos e depois mais risinhos enquanto Mikey olhava para os lados, evitando encarar Frank, pensando.
~0~0~0~
Finalmente havia se livrado daquelas garotas estranhas. Dava-lhe arrepios saber que elas o estavam perseguindo desde que saíra do campus. Saiu da primeira loja de roupas que encontrou com uma nova jaqueta vermelha e uma boina escura. Estava parecendo um vendedor de amendoim dos jogos de baseball.
Pensou em óculos escuros, mas... não.
Agora, no parque, o problema era encontrar Gerard.
Ou Gerard era muito lendo ou Mikey era um mentiroso. Segundo ele, Gerard não era difícil de reconhecer. E já era a quarta vez que dava uma volta naquela árvore, sem encontrá-lo.
Congelou quase instantaneamente ao ver um ser de sobretudo.
Somando dois mais dois, uma luz se acendeu e outra se apagou. Quase se bateu.
Esconder! Mas onde? Será que ele já o tinha visto? O reconheceria? De repente, não queria ser visto. Não queria conhecer mais a fundo Gerard Way. A partir daquele dia, começaria a ouvir Mikey. É! Quando ele dissesse que era melhor não fazer alguma coisa, não faria.
Como da última vez, não conseguiu sair sem ser notado.
-Com licença.
Travou, de costas. Resistiu à tentação de fingir que não ouvira. Ficaria muito óbvio.
Pé ante pé, virou-se.
Tão ou mais alto que antes, mais magro e ainda mais pálido, o ser de olhos verdes injetados de vermelho lhe olhava mais uma vez.
Agora que sabia o que procurar, viu aqui e ali algumas semelhanças com Mikey, coisas mínimas. Conseguia ver mais diferenças do que qualquer outra coisa.
-Eu te conheço? – perguntou Gerard, curioso.
Uma sensação nova, com certeza. Estava tão acostumado a ser reconhecido imediatamente mesmo por desconhecidos, saberem quem era e de onde vinha que quase, quase, interpretou como uma ofensa. Só não soube como reagir.
-Bem... – Olhou ao redor. Tão poucas pessoas e poucas inspirações. Optou por contornar. – Sou Frank Iero, amigo de Mikey. – Estendeu a mão cordialmente. Gerard a apertou, com sua fria mão. – Ouvi menos de você do que gostaria.
Gerard sorriu... bobamente, de forma ingênua. Frank ficou desconcertado. Era como se ele estivesse feliz com o comentário.
-Como me reconheceu? – Ele perguntou, finalmente soltando sua mão.
-Já vi fotos suas. – mentiu. Na casa dos Way, 'Gerard' era um tabú para Mikey. Os pais não o citavam porque o caçula pedia. Frank tinha a impressão de que desde que passara a freqüentar a casa dos Way, fotos da adolescência de Gerard eram escondidas, deixando só a marca de molduras e resquícios de poeira. A imagem mais parecida com o seu eu atual que Frank havia visto era 30cm menor e uns 15kg mais pesado.
-Bom, se Mikey marcou um encontro para nós, ele deve gostar mesmo de você. Confiar também.
Frank franziu o cenho. Gerard percebeu sua confusão.
-É bem raro ele me apresentar seus amigos. Você é o primeiro que ele manda sozinho.
Ele viera discutir o que mesmo? Era algo sobre Mikey?
Viu-se perdido em pensamentos quando Gerard riu por sua falta de palavras. O riso dele era bonito, um som levemente sádico e, ao mesmo tempo, infantil. Duvidou que, mesmo que quisesse, conseguiria ficar com raiva dele.
Limpou a garganta e apontou para o banquinho de pedra mais próximo.
-Vamos nos sentar?
-Claro.
-Mikey me contou sobre um amigo seu, Ray Toro. – Sentando-se, começou a falar da mesma forma de quando haviam se conhecido: Frágil Formalidade Forçada do Frank. – Sabe se ele planeja montar uma banda?
Gerard fez uma careta ao mesmo tempo que ria.
-Vim aqui pra falar de Ray? Vamo falar de outra coisa, por favor! – Ele cruzou as pernas, pensou e se virou de uma vez para Frank. – Como conheceu Mikey? Você não parece do tipo que faz amizade com nerds. E meu maninho é um exilado da sociedade.
Surpreso pela repentina mudança de assunto, Frank balbuciou palavras incompreensíveis antes de conseguir falar normalmente.
-Nos conhecemos no... Centro Esportivo. Mas, voltando ao...
-Como? – Ele aproximou o rosto, com a franja escura quase lhe cobrindo os olhos brilhantes de curiosidade.
Sua respiração falhou.
-Eu... queria fugir de umas garotas e ele me ajudou.
Gerard gargalhou.
-Você o quê?!
-Elas ficam correndo atrás de mim como psicopatas. É claro que eu fujo.
-E o que você faz para ser famoso? Corre também?
-Nadava.
Perdeu todo o controle que tinha com o assunto. Mas conversaram, e muito. Assuntos que variavam de carros à presidência, passando por coelhinhas da Playboy à animações japonesas.
Era fascinante conversar com Gerard. Tanto que, por um momento – por maior parte do tempo – imaginou estar conversando com Mikey ou com um amigo igualmente de longa data. Riu e discutiu de forma que jamais imaginou que faria com um desconhecido. Nem se incomodou quando ele acendeu um cigarro.
Embora tivesse percebido uma curiosidade faminta de Gerard por qualquer coisa que envolvesse Mikey, Frank não conseguiu falar e nem saber o que originalmente naquele encontro. Por outro lado, tinha ouvido casos para zoar o melhor amigo pelo resto do ano. E reparou o quanto Gerard tinha um rosto bonito.
Quando pensou nisso, quase se bateu. Consequentemente, viu o crepúsculo chegar. E ainda havia prometido à Sra. Way que voltaria para o jantar.
-Droga! – Levantou-se num pulo. Tão logo percebeu o frio da chegada do outono. A jaqueta vermelha valera de alguma forma. – O dia acabou!
-Sinto por ter tomado seu tempo. – disse Gerard se levantando. Calmamente tirou a poeira da calça e puxou um novo cigarro. – Mas foi realmente legal conversar com você.
-É, foi. – Hesitou. Sabia que tinha coisas a perguntar, mas nem se lembrava e nem tinha tempo. – Pode me passar seu telefone?
O belo sorriso adornou seu rosto.
-Claro. Tem papel?
Havia esquecido o celular. Papel, papel... Frank tateou a jaqueta até se lembrar que era nova. Praguejou. Gerard riu.
-Peça para Mikey. Pode ligar a qualquer hora. Depois que eu saí da banda não tenho feito nada para ocupar o tempo.
“Banda!”
-Ah, sobre isso... – começou e Gerard ergueu sua mão, interrompendo-o.
-Melhor não falar disso agora. Vamos terminar bem o dia, vamos?
-Bem... Tá... – Coçou a cabeça. Outro turbilhão de perguntas que faziam sua língua pinicar.
Outro riso parcialmente sádico.
-Foi bom conhecê-lo, Frank. Até mais.
Dito isso, Gerard Way deu as costas e saiu em direção à avenida. Apesar de ainda estar muito magro aos olhos de Frank, ele tinha alguma coisa que o tornava interessante. O sobretudo era soprado com fraqueza da mesma forma que o cabelo, dando, junto com todas aquelas sombras do fim da tarde, um ar de mistério. Um mistério muito sensual.
Frank gostava de mistérios.
Em vento particularmente frio lembrou-o de que tinha mais o que fazer. Uma lista cheia delas.
Dentre elas, pegar o telefone de Gerard com Mikey.
~0~0~0~
-Você deixou meu quarto fedendo a cigarro. – reclamou Mikey, olhando de modo assassino para a pobre panqueca que comia.
-A culpa não foi minhaaa... – cantarolou, limpando a boca num guardanapo. – Está uma delícia, senhora Way.
-Obrigada, querido. – Donna virou a cabeça para a porta. – Donald! Você lava os pratos!
Donna largou a bacia com salada do dia anterior na pia, pegou a chaleira e a colocou na mesa, entre Frank e Mikey. Ela usava um avental que francamente parecia ter pegado emprestado do Bozo de uma apresentação mal sucedida de uma dona de casa, a julgar pela quantidade desnecessária de babados amarelos no pano rosa pink remendado de verde.
Apesar disso, seu sorriso era macio como uma pluma e era uma bela representação de uma matriarca perfeita.
-Comam a vontade. Vou buscar o preguiçoso do meu marido para ele trabalhar.
-Tudo bem. – disseram juntos. Donna riu antes de sair da cozinha.
-Já disse que sua mãe é maneira? – Frank suspirou. – Quem me dera a minha ser assim.
-Você não conheceu a minha avó.
-Doidona?
-Muito.
Frank balançou a cabeça.
-Mikezito, você tem que me mostrar sua família toda. Quando acho que já a conheço, me aparecem com uma coisa nova.
Ainda tinha a imagem de Gerard na cabeça. Há três anos, dera-o como o tipo de pessoa que jamais gostaria que estivesse na sua lista de contatos. Mas depois de falar com ele, Gerard Way não era a representação do irmão malvado de seu melhor amigo que ele havia construído por todo o tempo que havia passado com Mikey. Em certo ângulo, até que gostaria de tê-lo como irmão.
Mikey levou mais um pedaço de panqueca à boca e engoliu antes de responder.
-Não é tão interessante. E você ainda vai ter que tirar aquele fedor de fumaça do meu quarto. – Aponto-lhe o dedo ameaçadoramente. Frank girou os olhos. Teria de esperar que ele esque...
Um grito assustado vindo do segundo andar o interrompeu. Frank sentiu o coração acelerar repentinamente e obrigou-se a acalmá-lo. Mikey e ele se encararam, ambos sentados rigidamente na cadeira, com olhos arregalados.
-Hoje não é seu aniversário, é? – Mikey perguntou.
Frank negou.
-Ainda é 11 de setembro.
Juntos e em igual urgência, dispararam escada acima.
Fale com o autor