Claraboia

2 Capítulo 1 - Nova York


Notas iniciais
Segundo atrasado... Mas tamo aê.Obrigada à srt_Brightside *-* Me mandou um comentárioooo!!!

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Capítulo 1:

Nova York

-Gerard, mais rápido! – sussurrou Debora com urgência.

Gerard sacudiu a cabeça. Acenou positivamente e empacotou mais rápido.

Ultimamente estava muito aéreo e isso estava refletindo em seu trabalho. Tinha sorte de ter os caixas como amigos, senão olhares como o da senhora a quem acabara de entregar os pacotes seriam muitíssimo comuns.

-Volte sempre, senhora. – forçou um sorriso, mesmo que a cliente tenha lhe dado as costas.

Escutou o barulho de rodinhas e se virou para ver Stephany parando ao seu lado. Revirou os olhos e voltou ao seu trabalho. Era amigo dos caixas, agora, dos outros empacotadores...

-O que você pensa que está fazendo? – O tom era doce e podia apostar seu salário que a loira tinha um sorriso cheio de dentes estampado no rosto.

-Nada que vai lhe fazer diferença, Dorothy. – respondeu, indiferente.

-Não me chame por esse nomeee.

-E esse é o seu nome: Dorothy Stephany. Culpe sua mãe, não à mim.

Uma unha muito bem afiada roçou a lateral de seu pescoço. Sentiu arrepios involuntários, principalmente quando ela chegou mais perto e o hálito alcançou sua orelha.

-Way, sabemos muito em que você não me quer como inimiga. – ela brincava com as palavras. Gerard hesitou em colocar a caixa de leite na sacola. – Eu posso muito bem te tirar desse supermercado e acabar com seu ganha pão. Um deslize e acabo com tua vida aqui e na universidade. Seria chato para minha reputação ser considerada uma dedo-duro. Mas se for para me livrar de você, posso fazer um sacrifício. Então, pra começar, não me chama desse nome.

Gerard nem concordou e nem negou. Colocou o leite na sacola, sério como sempre, e terminou de empacotar no mesmo momento que a senhora pagou. Entregou-lhe as duas sacolas, sorriu e recebeu um sorriso de volta. Setephany também deu um aceno de despedida para a senhora. Depois, voltou a se apoiar no ombro de Gerard, extremamente próxima ao seu rosto.

-E aí? O que me diz?

Voltando a empacotar, concordou brevemente.

Recebeu um tapa “carinhoso” na nuca e ela se afastou.

-Ótima escolha, gordinho. Agora... – Claro, também havia isso. – Tenho um dever de casa não muito grande pra entregar essa sexta. Preciso de uma dissertação muito boa sobre as mudanças do estatuto da criança e do adolescente dos últimos dez anos. Tenho algumas festas para ir, mais coisas para fazer... – Ela pausou. – Pode faz para mim?

Dorothy Stephany seria uma advogada do diabo. Fazia advocacia, mas só ia às aulas e dava algum jeito nas provas. Os trabalhos eram para Gerard. Era mimada pelo pai que finalmente teve o bom senso de parar de lhe dar mesada e obrigá-la a trabalhar para ganhar o próprio dinheiro. O problema é que ela fora justo para o mesmo supermercado que Gerard. Desde então, ela lhe pedia favores a base da chantagem. E podia apostar o braço direito que sabia mais sobre a constituição norte-americana do que ela.

-Sim... – respondeu, entredentes.

-Ah, muito obrigada, Way. Você é um amor.

Recebeu outro tapinha no ombro e ela finalmente se foi, patinando alegremente para o outro lado do corredor.

Gerard ficou olhando-a se afastar, sacudindo o rabo de cavalo loiro, como se fosse a maioral. Tão... irritante.

-Gerard! – Debora acordou-o mais uma vez.

-Desculpe-me. – E voltou a empacotar.

~0~0~0~

Pedalar não era nenhum problema, certamente. O ruim era subir a que parecia maior ladeira de Nova York. Empurrou-a, vendo com desânimo os carros passarem por si. Riu de um em particular que teve que descer novamente para pegar embalo.

-É amigo. Pelo menos você não precisa disso. – disse a si mesmo.

Na terceira tentativa, o carro conseguiu subir.

No passado tinha companhia para subir a ladeira. Até apostavam corrida de quem chegava primeiro no topo. Não ganhou sequer uma vez. Nunca fora para o lado dos esportes, ao contrário de muitos outros meninos. Dele também.

“Ei! Gerard, seu lerdo! Eu vou ganhar de novo?”

Um sorriso sem rosto flutuou no ar e desapareceu como fumaça. Gerard continuou a subir a ladeira.

Nova York era um inferno nos fins de semana. Mentira. A semana inteira uma movimentação inconstante passava nas ruas, com pessoas demais, falando demais. Da universidade para o trabalho, do trabalho para casa, via tanta gente diferente e apressada que a imagem de um kamikaze lhe parecia coberta de razão. Mas se tinha algo legal, era a pessoa com quem morava.

Já longe da movimentação, a pequena casinha, cercada por tantas outras casas iguais entre si, tinha uma diferença assustadora. Como as demais, tinha o gramado bem cuidado, os arbustos secos pela primavera, roupas ainda estendidas no varal, esperando o sol tão fraco secar ao menos um pouco. Mas aquela casinha tinha uma aura artística. Era pintada de muitas cores, desde o batente da porta à calha do telhado. A garagem, sem carro algum, onde só a sua bicicleta ficava guardada estava abarrotada de enfeites, quadros, pratos de argila, esculturas. Alguns ele próprio havia feito. Porém, não eram os mais bonitos e chamativos.

Guardou sua bicicleta e entrou na casa. Sentiu-se muitíssimo agradecido pelo calor oferecido pelo corredor e a sensação acolhedora que tinha aquele lugar.

-Cheguei! – cantarolou para o alto.

-Estou na cozinha!

Deixou a jaqueta no cabide atrás da porta e foi até a cozinha. Toda a casa era enfeitada, colorida, e tinha muitas fotos.

Uma cozinha pequena e estupidamente rica em detalhes. Pratos de porcelana na prateleira, vasos de violeta na janela, panos de pratos por todo lados, forros coloridos, a geladeira entupida de ímãs coloridos e uma humilde gaiola aprisionando um casal de periquitos que cantaram com sua chegada.

No fogão estava sua avó, de costas para Gerard, mexendo em alguma panela.

Helena era um doce de pessoa. Por mais estranho que as pessoas achassem estranho as pontas dos cabelos grisalhos pintadas de rosa, para Gerard era a coisa mais fofa do mundo. Ela sempre usava vestidos compridos que ela mesma costurava e nunca deixava os acessórios de lado. Sempre maquiada e cheirando a jasmim, Helena era um dos seres que mais amava no planeta e que tinha como grande exemplo. Na verdade, ela era seu maior exemplo.

Abraçou a avó por trás e deu um beijo estalado na bochecha mole.

Cheiro de jasmim e sopa de batatas.

Helena riu.

-Como foi seu dia, querido? – Ela mexeu a panela e ergueu a colher de pau até seu ombro, onde estava a cabeça de Gerard. – Me diga o que acha.

-Dia normal. – Soprou a colher fumegante e sorveu o caldo. – Hum... Já disse que você é a melhor cozinheira do mundo?

-Tanto a ponto de irritar.

Gerard riu e se afastou. Pegou uma maçã na fruteira da mesa e se apoiou na cadeira. Deu uma mordida.

-Vou sair hoje. Vai precisar de mim?

-Oh, não, Gerard. Pode ir tranquilo. Só não volte de manhã, tudo bem? Vocês, adolescentes de hoje em dia, entendem 'cedo' como 6 da manhã.

Riu, fazendo migalhas de maçã voarem de sua boca. Tratou de limpar logo.

-Vou tentar.

-Vai cantar de novo?

-Sim, até conseguir um bom emprego como cartunista e poder viver só disso. – A resposta saiu de forma automática, como aquela mentira que sempre se ensaia para tê-la na ponta da língua.

Não. Não era de todo uma mentira. Só omitia fatos.

Fatos que não queria que atormentassem sua avó.

-Com sua linda voz, não vai demorar.

~0~0~0~

-De novo!

A bateria fez sua introdução. As cordas da guitarra vibraram logo em seguida.

Gerard apontou para a provável garota que havia gritado no meio da plateia.

-Para você, querida. – disse com toda sensualidade que diziam que tinha.

Era o riffle de Jaded, uma música pouco comum naquele bar sempre cheio de pessoas. Dentre elas, garotas que estranhamente amavam que Gerard cantasse músicas do gênero.

Ele só saía ganhando.

Hey! Ja-ja-jaded,

You got your mama's style

But you're yesterday's child to me

So jaded.

A plateia feminina assumia a frente imediatamente. Mãos tentavam agarrá-lo quando se aproximava da beira do pequeno palco. Gerard não era Steven, com certeza, nem tinha uma boca gigantesca. Mas parecia fazer algum sucesso imitando algumas de suas expressões.

Ao fim da música, curvou-se com exagero para os gritos histéricos e levemente forçados. Agradeceu e cedeu espaço para o próximo a cantar. Como de costume, apertava a mão de todos os componentes da 'banda improvisada', só para depois descer do palco e receber soquinhos amigáveis, empurrões costumeiros e parabenizações.

Desde que pisara ali, só ria. Da banda de improviso, do bar tão badalado do subúrbio de Nova York, da sujeira ignorada por tantos, de cantar, da garota a qual havia dedicado a música estar dançando sensualmente durante sua apresentação, olhando para ele. E quando se afastou um pouco do tumulto, a mesma garota agarrou-o pelo braço e o arrastou bar à fora.

Bateu as costas na parede do corredor e logo teve sua boca ocupada. Havia outro casal ali perto, mas Gerard estava mais concentrado em agarrar as longas madeixas castanhas e apalpar tudo que pudesse.

No bar, nem Stephany ou qualquer outro playboyzinho de meia tigela o incomodava. Era seu território, com seus faz e garotas, até que a noite acabasse. Ao passar pela porta, era como se acordasse para outra realidade, da qual não precisava fazer trabalho para ninguém, nem ter que se submeter ou fingir que estava bem, porque ali estava. Era o seu mundo. O sujo e desajustado de Nova York.

Deu um passo e já estava do outro lado do corredor. Ergueu a garota pela cintura e a deixou na sua altura. Num lampejo de raciocínio não-alcoolizado lembrou-se de que nem o nome dela sabia. Mas sabia que seu beijo tinha gosto de vodca e sua pele fervia debaixo da saia, mesmo sob aquela meia-calça negra, que podia facilmente retirar e...

-Gee?

Sem querer, perdeu o fio da meada. A garota, porém, deu toda atenção à sua orelha quando se voltou para a voz.

Um rapaz. Diria que tinha sua idade, mesma altura. Tinha um rosto conhecido, que mesmo que se passassem anos continuaria o mesmo. Moreno, rosto comprido, semi escondido por... um enorme cabelo castanho.

-Ray? – perguntou, incrédulo. Largou a garota e ela caiu com um sonoro 'tum!'. – O que tá fazendo aqui, cara?!

-Eu é que pergunto! – Ray se adiantou, ambos ignorando completamente os murmúrios irritados da garota. – Nem acredito que te encontrei aqui! E cantando!

Trocaram um amigável aperto de mão. Não se contiveram e deram um meio abraço. Ray estava maior do que se lembrava. Da última vez, quase olhava de cima para ele. E não havia mais gordura em excesso. Foram substituídos pôr músculos invejáveis até debaixo da jaqueta.

Gerard segurou o rosto sorridente de Ray com ambas as mãos e não conseguiu evitar sorrir também.

-Cara, você emagreceu pra caramba!

-Você também. Só essa sua cara feia que não muda. – Ray coçou a cabeça, ação que resultou num chumaço desordenado de cabelo. – Gerard, eu tenho muita coisa para te contar, cara. É sorte achar você agora.

Por alguma razão, Gerard sabia que se tratava de coisas sérias. Qualquer outra pessoa teria recebido uma resposta evasiva. Definitivamente, estava correndo de problemas. A intenção de entrar em outra realidade era a de fugir deles. Entretanto, o sorriso não deixava seu rosto.

Segurou Ray pelo ombro.

-Eu te pago uma bebida e você me conta o que tem que contar. Que tal?

-Não é má ideia.

Gerard riu e o guiou para o balcão.

-Bem vindo à Nova York, Ray Toro.

Notas finais
Coments? *-*