Clara
1 Parte I
Estômago. Ele queimava como se estivesse derretendo de dentro para fora.
Frio. Sua pele doía como se congelasse de fora para dentro.
Tontura. Tudo girava e vibrava como se o mundo fosse acabar.
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Clara sempre fora uma menina muito recatada que por muito tempo morara debaixo das asas protetoras de seu pai e dos olhos ameaçadores de sua madrasta. Cuidava dos afazeres da casa com os empregados da família, nunca se aproximando das duas filhas de sua nova mãe. Mesmo a idade das três sendo tão próxima, não se davam muito bem — até as irmãs de sangue.
Seu pai era uma grande fazendeiro com uma grande fazenda, para chegar ao vizinho mais próximo levava quase vinte minutos cavalgando. Os maiores amigos de Clara eram os empregados do seu pai, o que não incluía nenhuma criança da sua idade. Ela logo cedo aprendeu a montar em cavalos e a rebanhar as cabeças de gado que um dia seriam suas.
Quando estava próximo de se formar no ginasial, Clara perdeu o pai da noite para o dia. Ele se deitara mais cedo reclamando de um grande cansaço e amanhecera gelado como mármore. A menina ficara desolada, seu pai era a pessoa que mais amara na vida e o único parente que conhecia, afinal sua mãe havia morrido em seu parto e nunca alguém viera visitá-los, nem em datas comemorativas.
Clara estava sozinha agora.
Logo os abusos por parte de sua madrasta aumentaram ao ponto de ficarem insuportáveis. Os empregados, que tinham uma grande admiração pai e que nutriam um grande carinho pela menina, colocaram-na em um carro na calada da noite com uma pequena mala e um cartão de visitas roubado da agenda do finado. A governanta olhou dentro dos seus olhos e disse:
– Vá e procure esta pessoa. Ela resolverá não só os seus problemas, mas os nossos também.
E a menina partiu.
Na manhã seguinte, quando a madrasta deu falta da garota, o inferno só piorou. Mas todos aguentaram firmes, esperando pelos dias melhores que Clara traria com a pessoa que tinha o nome escrito no cartão.
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