Cisne Negro
1 Capítulo ùnico
Notas iniciais
Cisne negro
O purgatório era, bom, o purgatório.
Andar com uma arma em suas mãos era obrigatório, afinal, quando você é jogado em um presídio onde boa parte dos detentos foi posta lá por você é preciso tomar cuidado para continuar vivo.
Ainda assim, Dean jamais pensou que se sentiria tão bem num mundo infestado de monstros.
Se a razão para a existência daquele lugar era realmente a de penitência, então Dean ia fazer seu tempo valer à pena, decepando, cortando e matando qualquer um que aparecesse na sua frente e tratando dele mesmo de expurgar estas almas maculadas. Ele seria o caçador e o executor, já que aquelas eram terras sem lei, e a definição de “sofrimento” era sentida direto na pele, com os cortes, com os as lutas, ossos quebrados e músculos ardendo.
E Dean nunca antes se sentira tão vivo e puro em um lugar. Lá, no Purgatório, não há pecado, apenas os condenados a vagar e agonizar pela eternidade. Não há regras; é matar ou morrer, e para alguém como Dean que foi criado desde cedo como um perfeito soldado obediente, sim, o purgatório era como chegar em casa pela primeira vez.
Sempre que enfiava a lâmina da arma em alguma criatura ele apenas reafirmava isso em sua mente. Entretanto, toda a vez que se deparava com algum infeliz Dean, além da sede de sangue fervendo dentro dele sentia outra coisa cutucando seu crânio, e um sentimento tão potente quanto o do papel de carrasco emergia em seu peito, o fazendo conter a mão que descia sobre o pescoço do vampiro que ele tinha acabado de sobrepujar. Ele queria – e muito – acabar de vez com a vida desse cara, mas, além disso, havia outra motivação correndo em suas veias, o fazendo perguntar:
– Onde está o anjo?
Foram dias, semanas desde que ele havia chegado ao purgatório junto de Castiel, e o anjo havia simplesmente desaparecido. Algo devia ter acontecido com ele, pois Cas não sumiria assim do nada.
Então a cada filho da mãe que Dean matava ele antes fazia a mesma pergunta.
Foi em uma de suas lutas que ele acabou sendo encurralado, e não fosse pela ajuda do – quem diria – vampiro, ele estaria morto agora. Dean ficou incerto durante um bom tempo ao lado de Benny, mas o vampiro naquele mundo não precisa se alimentar, e ele pediu apenas um favor em retribuição da sua ajuda: um passe livre para fora dali.
Tudo bem, Dean podia o enganar até o último momento se isso o desse alguma vantagem até a hora que ele encontrasse Cas.
E no dia, tarde, ou noite que Dean se deparou com o anjo na margem de um rio, ele não se conteve, avançando até o amigo e o abraçando apertado.
Mas Castiel não o abraçou de volta, e a situação inteira ficou estranha dali em diante.
Para manter a grande maioria dos monstros longe de Dean Castiel manteve-se afastado dele, pois como um anjo ele era praticamente um farol brilhando no meio da escuridão.
Saber que ele havia se embrenhando num mundo infestado por bestas sozinho, apenas para proteger Dean, fez o caçador engolir seco. Castiel nada dizia, mas era visível a estima que ele tinha pelo amigo não apenas nas suas ações, mas também quando o olhar azulado dele pairava sobre Dean por mais segundos do que o necessário, apenas o encarando sempre.
No fim das contas, os três conseguiram achar o local onde o portal que levaria a todos para fora dali estava. Benny, apesar da condição vampírica, havia realmente se mostrado como um amigo confiável, e bem, Dean havia mesmo pensado em quebrar sua promessa com ele, mas no último instante foi contra suas intenções iniciais, fazendo o estranho ritual ensinado pelo vampiro que prendia sua essência em Dean.
Okay, depois de tudo o que Dean presenciara aquela com certeza foi a coisa mais estranha do purgatório.
Por fim só faltava a ele e Cas caminharem até o portal e saírem de lá.
– Dean, eu sou um anjo. O portal foi feito para apenas humanos atravessarem – o moreno constantemente o lembrava, porém Dean não dava a mínima.
– Dane-se, Cas. Nós vamos conseguir. Apenas me siga.
E silencioso Castiel o fez, relutante em sair daquele lugar, mas ainda sim seguindo Dean como sempre o fazia, como sempre iria fazer.
No instante em que Dean entrou naquela célula de energia, Castiel pensou em dar um passo para trás, em cair de volta aquele lugar nefasto, de onde ele nunca deveria sair.
– Cas!
Dean gritava com metade do corpo no portal, que começava a se fechar e com certeza acabaria matando o caçador se ele não o atravessasse por inteiro, mas a sua mão continuava estendida na direção do anjo.
Os olhos azuis assustaram-se com essa mera ideia, compelindo Castiel a seguir os gritos de quase desespero de Dean, o chamando sempre, e então ele estica os dedos sujos, tocando a palma de Dean. O caçador fecha a mão de imediato ao redor da do anjo, o puxando com todas as suas forças, trazendo-o para junto dele até o portal.
No último segundo, Castiel vê as dobras do portal se comprimindo ao redor dos dois. Não vai dar tempo, ele acabaria preso no purgatório com Dean cortado ao meio do seu lado.
Num ínfimo instante de desespero – de não querer ver Dean morto – Castiel usa seu último recurso para tirá-los dali.
Enquanto cai para dentro do portal, Dean podia jurar que viu um par de sombras negras nas costas de Castiel, fazendo força para empurrá-los através do limiar da travessia – e estas sombras somem no momento em que o portal de fecha atrás do anjo.
Dean ouve um alto e áspero grito vindo de Castiel, e seus olhos verdes se abrem assustados ao notar duas coisas.
A primeira, é que eles não mais estavam no purgatório, pois aqueles arredores aonde haviam aterrissado parecia-se em muito com as florestas do interior do país.
A segunda coisa que Dean nota, é que Castiel está desmaiado sobre seu peito, suando, e com duas manchas negras e ensanguentadas em suas costas.
(...)
O ronco do motor de um carro próximo faz Castiel abrir os olhos, franzindo o cenho quando uma repentina oscilação chacoalha seu corpo – que começa a arder e latejar dolorido.
– Cas, ei? Está me ouvindo?
Ele escuta a voz de Dean, abrindo devagar os olhos e vendo que estava sentado no banco da frente de algum carro – não o impala. Ao seu lado, o caçador dirige, olhando para a estrada, mas desviando a cabeça na direção de Castiel, parecendo preocupado.
– Dean... Onde estamos?
– Numa rodovia. – ele responde – Cas, ei, você não pode dormir de novo!
O caçador pede, uma vez que o moreno começa a fechar os olhos de novo, sentindo-se cansado demais para ficar mais do que um minuto acordado.
– Nós saímos...
– É, cara, a gente conseguiu. – fala sorrindo — Benny já se foi, enquanto você ‘tava dando uma de bela adormecida e-Droga, Cas! Já falei ‘pra não dormir!
Dean grita, tentando sacudir o ombro de Castiel, mas ele quase não consegue mais ouvir o caçador.
– Estou com frio...
– Cas? Cas!
(...)
Respirando fundo, Castiel acorda desnorteado outra vez, mas agora sente um tecido macio debaixo dele. Mexendo os ombros, ele grunhe com a mesma dor de antes, sentando-se devagar na cama. A sua volta está um quarto de motel, daqueles velhos e que devem custar nada mais do que trinta dólares à noite.
Ele se revira no colchão, querendo sentir o piso sobre seus pés, até que o som de uma cadeira rangendo o distrai.
– Ei, Cas.
Virando o rosto, o anjo vê Dean erguendo-se dum canto do quarto e andando até ele. Mas ao invés de parar na sua frente, como geralmente o fazia, Dean se senta na cama, o encarando com preocupação.
– Dean. – ele fala com a voz rouca.
– Como está se sentindo, Cas?
–... Dolorido.
Essa também era a hora que Dean usava para fazer piadas, porém nem isso ele tentou, apenas acenando com a cabeça, e indo apanhar algo de sua bolsa. Ele volta a se sentar na cama trazendo um pacote de remédio e um copo d’água.
– Sei que anjos não precisam disso, mas deve ajudar, por hora.
–... Obrigado.
Dessa vez é Dean quem se surpreende, pois Cas nunca antes precisou comer, ou usar qualquer tipo de medicamento. Bastava apenas a sua graça – ela cuidava de tudo nele.
Pensar nisso apenas deixa Dean mais apreensivo, mordendo o lábio inferior enquanto balança a cabeça e deixa o anjo quieto.
Castiel deixa a água passar pela garganta a sentindo seca, mas a sensação da água é realmente refrescante. Ele se ajeita de novo na cama, fazendo menção de se levantar.
– Woah, calma aí. – Dean o para pondo uma mão sobre seu ombro – Você tem de descansar, cara.
– Eu ficarei bem, Dean.
– É, tá, eu sei, mas ficar na cama vai ajudar, então encosta aí e deita.
– Dean-
– Fica quieto e faz o que eu ‘tô dizendo, Cas.
O anjo encara os olhos de Dean, que andam dum lado à outro nas órbitas, parecendo preocupados. E de fato, se ele pensar pelo o que passaram, ele não deve estar nem um pouco apresentável, sem contar a dor lacerante percorrendo seu corpo. Ele ainda não se lembra ao certo a razão do imenso desconforto, mas por hora, decide ceder ao que Dean está pedindo, suspirando e se recostando na cama.
– Bom. – Dean fala – Eu trouxe algumas roupas. Assim que você estiver melhor, tome um banho e as vista, okay, Cas?
– Okay, Dean.
Não demora muito para que o anjo volte a desmaiar, tendo como última visão a face consternada de Dean o encarando sem trégua.
(...)
Na terceira vez em que acorda Castiel logo se senta na cama, porém ainda sente os músculos arderem. Se para ele está sendo difícil, Cas não consegue conceber o quão doloroso Dean deve estar.
Buscando pelo caçador no cômodo, ele o enxerga sentado numa poltrona. O controle na mão está caído sobre seu colo, e ele parece ter adormecido com a televisão ligada.
Saindo debaixo das cobertas, Castiel consegue, enfim, por os pés no chão, erguendo o peso do corpo devagar, uma vez que ele ainda sente muita dor, porém o analgésico parece ter ajudado um pouco – ele tomou a cartela inteira, pois só assim o remédio faria algum efeito.
Ele procura pelo banheiro, pé ante pé, entrando e deixando a porta entreaberta enquanto liga a luz e dá uma boa olhada ano espelho. A situação é até pior do que ele pensara.
Seu cabelo está desgrenhado e pegajoso, a barba por fazer grande sobre o rosto, sem contar na sujeira. Parece que Dean tentou limpá-lo, mas não terminou muito bem o serviço, deixando alguns rastros de poeira.
Sem pensar duas vezes ele liga o chuveiro, silvando quando se abaixa para girar a torneira, e tendo de se ajoelhar na frente na banheira. Sim, a banheira, seria melhor se ele a usasse.
A água beirava pouco mais da metade quando ele resolveu forçar-se a entrar no banho, despindo-se das roupas numa velocidade quase nula.
Sentando-se na banheira, Castiel teve um alívio sem igual se apossando dele. A água quente batia contra a pele parecendo uma suave massagem, o fazendo relaxar a cada segundo passado. Ele se lembrou de esfregar os braços e as pernas, vendo a sujeira tomar conta da água.
Ele abriu o ralo, como sabia que devia fazer, e encheu a banheira com uma nova leva de água. Enquanto a torneira a enchia, ele deixou os olhos fechados, imaginando porque ele estava respirando, se não precisava necessariamente respirar. Era como se o ato se inalar oxigênio o enchesse de paz.
Em algum momento ele se esqueceu do tempo, pois a próxima coisa da qual se lembra, é ouvir os gritos de Dean o chamando e entrando afobado pela porta do banheiro.
Castiel abre olhos cansados na direção do caçador, que tem o peito subindo e descendo apressado, o fitando de pé na entrada do banheiro.
– Merda!
Dean fala, agachando-se ao lado da banheira, e girando a torneira para fechar a água. Só agora Castiel notou que ele havia inundado boa parte do cômodo.
– O que pensa que está fazendo, Cas?! – ele grita, exasperado, enxugando a mão numa toalha.
As pálpebras de Castiel quase se fecham enquanto ele encara Dean com feições cansadas.
–... Eu não estava... Apresentável. A sujeira saiu, mas eu não, não sei por quê. A água pareceu reconfortante e eu acho que ainda estou cansado... E com frio.
De uma maneira impossível ao anjo de descrever, Dean lhe pareceu mudar radicalmente seu tom exasperado para um cabisbaixo. O caçador olhava para ele como se confuso em meio ao borbulhar de oscilações emocionas com as quais lidava nesse instante. Ele engoliu seco, antes de suspirar.
– Termine logo, Cas. E se vista.
–... Acho que não consigo me mover.
O anjo disse ao tentar levantar as pernas. Dean apenas o encarou incrédulo, com a boca entreaberta enquanto observava mais intensamente os olhos azuis dele.
– Posso me secar...
Ele se mexeu na banheira, porém ao fazê-lo soltou um grunhido rouco e precisou apoiar as mãos na borda de porcelana.
– Cas, ei.
Dean o chamou, vendo as feições do moreno se contorcendo duma maneira que ele quase nunca via – do jeito que ele fazia quando em intensa dor.
Os globos verdes depararam-se com a água da banheira, que começava a se avermelhar. Algo estava errado.
Apressado, com um leve desespero começando a brotar nele, Dean segurou o ombro de Castiel, e tentou o virar o mais delicadamente possível, mas mesmo este movimento o fazia chiar com dor. E Dean percebeu a razão logo que ele estava com as costas do anjo voltadas a ele.
O caçador não sabia o que fazer. Em parte, a razão daquelas duas feridas abertas sobre as omoplatas lhe era conhecida. As suspeitas do que havia acontecido quando os dois atravessaram o portal apenas se confirmaram ao deparar-se com a pele aberta e os músculos de Castiel à mostra. Dean sabia o porquê daquilo, ainda assim lhe era difícil acreditar que o anjo havia feito tanto, que ele arriscou tudo.
–... Droga.
É tudo o que ele diz antes de ajudar Castiel a se ajeitar na banheira outra vez. O moreno nada diz, apenas respira fundo.
– Dean, a toalha.
– Fique quieto, Cas.
A voz dele não parece raivosa, mas pelo contrário: Dean tem nas palavras algo como preocupação, zelo, e é com esse mesmo cuidado que ele apanha uma das esponjas de cima da pia e começa, vagarosamente, a esfregar as costas do anjo, assim, sem nem ao menos perguntar ou explicar a razão de fazê-lo, mas sabendo que devia ao menos isso a ele, ao menos isso...
– Dean...
– Você está péssimo mesmo.
É tudo o que ele se admite a falar, continuando a ensaboar as costas de Castiel, que nada mais diz, permitindo-se relaxar com as mãos de Dean passando sobre sua pele e o acalentando.
Longos minutos devem ter passado, pois ao abrir os olhos, Castiel se depara com Dean de pé ao seu lado, segurando uma toalha estendida. Os orbes ainda cansados dele erguem-se até o caçador, que o encara.
– Consegue se levantar? – pergunta Dean.
Castiel tenta duas vezes, e na terceira, bufa, balançando a cabeça. Dean continua em silêncio, talvez porque lhe seja mais fácil agir do que ficar arrumando explicações ou desculpas. Para ele, é mais fácil simplesmente fazer o que se deve fazer sem querer dar nome as coisas, sem querer complicar nada. A sua vida era mais fácil assim, quando não era preciso conversas compridas e sem sentido sobre... Sobre qualquer coisa, como o fato de que ele se abaixou, puxando os braços de Castiel e os pondo ao redor de seu pescoço, enquanto suas mãos envolviam a cintura do anjo o erguendo devagar da banheira.
Uma vez de pé dentro da tuba de porcelana, Castiel deixou parte do peso tombar sobre Dean, que o mantinha de pé, enrolando devagar a toalha ao redor dele.
A frente da testa de Castiel ardia, só de ter de ficar com os olhos abertos, e institivamente seus braços se agarram ainda mais em Dean, o abraçando, com seu peito colando no dele e a cabeça repousando sobre o ombro do caçador.
Dean pareceu congelar por alguns instantes, respirando descompassado, mas a estranha reação dele logo passou, uma vez que era preciso tirar Castiel de dentro da banheira.
Uma perna de cada vez ele o fez, apoiando-se em Dean e ouvindo os comandos dele.
– Vamos, Cas, levante o pé mais um pouco. Isso, agora o outro.
Aquele pequeno exercício parecia ter lhe custado todas as suas forças, pois Castiel quase não conseguia se manter firme no chão.
– Você tem de deitar de novo, Cas.
–... Não se movem... Minhas pernas.
Nisso, Castiel começou a tremer incontrolavelmente, uma vez que era inverno, e o banho quente havia o deixado com o corpo quente, e o choque de temperaturas – na sua condição debilitada – o fez ranger os dentes.
– Mas que... Urgh!
Dean bufa, revirando os olhos ao descer uma das mãos pela cintura de Castiel e o girar devagar, até que ele conseguiu segurá-lo pela parte de trás dos joelhos, o levantando do chão com certa facilidade. O anjo grunhiu com a mudança repentina das posições, mas acabou por entranhar o rosto ainda mais contra o peito de Dean, chacoalhando todos os músculos, que ardiam, doíam e pareciam ser espetados por lanças em brasa. Era como se ele estivesse andando sobre o inferno outra vez.
Suas coxas logo tocaram o colchão, e Castiel notou o quão fraco estava quando mal conseguiu se deitar sobre o travesseiro.
– Cas, ei, agora não! Você tem de por roupas secas.
–... Está frio, Dean... – ele murmura – Não consigo mais me esquentar... As penas... Elas se foram, não é?
Dean abriu os olhos, incapaz de articular uma única palavra, porque o que se deve dizer a um anjo quando ele está nesse estado? O que Dean pode fazer para Castiel, quando ele sabe que a razão de tamanho sofrimento é por causa dele? Por causa do que eles passaram pelo purgatório?
–... Cas...
–... Frio, Dean. Eu só sinto frio.
Em meio aos seus próprios sussurros, Castiel adormeceu pela terceira vez.
(...)
Castiel abre os olhos, e sente-se quente. Olhando para seu corpo, vê um amontoado de cobertores sobre ele, além do fato de que o aquecedor do quarto parece ter sido ligado.
Sentando-se na cama sem muita dificuldade agora, Castiel percebe que está usando uma blusa larga e preta, junto de calças jeans, apesar de não se lembrar de ter se vestido noite passada.
Dean não parece estar no quarto, e ele resolve ir até o banheiro uma vez mais.
Seu rosto parece menos cansado, mas ele sente pequenas pontadas ardentes na sua coluna e braços. A barba ainda por fazer sobre o maxilar o faz aparentar ser bem mais velho – e de fato, um a anjo com milênios de existência o era. Talvez fosse toda essa roupagem do receptáculo que agora usava. Ele havia se acostumado demais com ela, mas isso não parecia o incomodar. Ele gostava de se sentir dono desse corpo, uma vez que agora o habitava sozinho, com Jimmy vivendo no céu seu merecido descanso. Aquilo era ele, pensava, ao passar os dedos sobre a barba.
A porta do quarto de abriu com um som alto do ranger da madeira, e Castiel andou devagar, vendo Dean jogando o casaco sobre a cadeira.
– Ei, Cas. Sentindo-se melhor? – ele pergunta, pondo algumas sacolas no chão.
– Sim, apenas dolorido.
Dean balança a cabeça, apanhando um novo pacote de comprimidos e entregando a ele.
– Tome, vai ajudar.
–... Obrigado.
– Não precisa agradecer Cas.
– Você está cuidando de mim no meu estado debilitado, como não agradecer?
Dean não o responder, suspirando e balançando a cabeça.
– Deite-se Cas. Eu vou comer alguma coisa.
– Não podemos ficar aqui por muito mais tempo, não é seguro.
– Você não pode sair por aí desse jeito.
– Podemos chamar Sam.
– Não.
– Porque não?
– Porque não, Cas!
– Dean—
– Descanse! Só, só descanse Cas... Por favor.
Havia tanta amargura no pedido de Dean, que Castiel não conseguiu o contrariar, não conseguiu insistir numa briga que lhe parecia, realmente, sem sentido algum. Ele precisava descansar, tinha de recuperar suas forças, e Dean, bom, ele também podia aproveitar alguns dias de folga, uma vez que eles não tiverem tempo para isso no purgatório.
É Castiel quem suspira agora, voltando a se sentar na cama.
– Obrigado, Dean. – ele diz olhando para os lençóis, mas ouve apenas uma longa bufada vindo do caçador.
– Já disse ‘pra não agradecer, Cas.
O anjo franze o cenho, inclinando a cabeça para o lado.
– Porque tanto rancor com a minha gratidão?
– Porque eu não quero sua gratidão, droga! Eu não mereço—
Ele para, passando a mão no rosto em impaciência, olhando para todos os lugares menos o anjo, menos para o rosto da pessoa que ele sabe que feriu.
– No portal, você... Eu vi o que você fez, Cas.
Diz ele, por fim, baixando suas mãos na lateral do corpo, não aguentando mais nem mesmo receber o olhar de confusão do anjo.
Castiel entreabre os lábios, olhando para seu colo.
– O portal estava se fechando sobre você, Dean. Se continuasse naquele ritmo, teria te matado.
– Eu, sei, eu sei disso! Cacete!
Ele bate as mãos na mesa, arqueando os ombros e baixando a cabeça entre os braços.
– Eu devia ter sido mais insistente... – ele murmura.
– Insistente?
– Se eu tivesse tentado por mais tempo, se eu tivesse te puxado com mais força, teríamos passado, nós teríamos e conseguido, e eu não— Droga!
Numa luz de compreensão, Castiel o distúrbio em Dean. Ele compreende, de uma vez por todas, porque ele vem agindo tão cauteloso e comedido. Porque, no fundo, ele acredita ser culpa sua. Como de costume, Dean joga o peso das circunstâncias sobre seus ombros, absorvendo a carga do que acontecera e o sofrimento quando não há necessidade para tal, quando não é, nem por um segundo, sua responsabilidade o que aconteceu com Castiel.
– Dean, você realmente acha que a culpa é sua? – pergunta; incrédulo.
– Como não, Cas?! Como não é?!
O anjo sai da cama e anda até o caçador, parando na sua frente. Dean engole seco, encarando os olhos azuis diante dele.
– Você precisa enxergar com mais nitidez o que aconteceu, Dean. Deixe-me te esclarecer.
Castiel toca a testa do caçador com dois dedos, e num clarão ele repete em sua mente as memórias da saída do purgatório, do portal se fechando sobre ele enquanto Dean segurava a mão de Castiel. O anjo tentava sair do aperto de seus dedos, porém Dean o puxava sem saber por que ele não estava vindo, porque Castiel parecia querer ficar para trás. E então no momento final, Castiel os empurra contra o portal, uma vez que Dean não o deixa se soltar.
Ao reabrir os olhos, Dean vê Castiel agora de pé no quarto, arfando um pouco e suando, com os pés quase não aguentando seu peso.
A raiva momentânea que ele sente pelo o que acabou de ver em sua mente é substituída por consternação, e ele ajuda o anjo a se sentar na cama, ficando do lado dele enquanto Castiel recupera o fôlego.
– Não é culpa sua... – ele diz depois de passados alguns minutos – Fui eu quem causou tudo isso, porque eu queria ter ficado lá, Dean. Eu queria ter ficado no purgatório.
Balançando levemente a cabeça, Dean pergunta, perdendo um pouco a compostura:
– Porque não falou nada, em nenhum momento enquanto nós estávamos indo até o portal!?
– Você não teria ouvido. Você teria achado um meio de me convencer, mas acima de tudo, eu sabia que você não iria sem mim.
– É claro que eu não iria, Cas!
– Entende agora? – ele, vira a cabeça para encarar Dean. – Eu sinto muito por ter mentido, Dean, mas eu não podia te deixar no purgatório. Sei que você tem suas razões, por ser meu amigo você achou que devia algo a mim, mas eu não—
– Que eu devia algo a você?! Cas, mas que—Droga!
Dean se levanta da cama, empurrando a mesa com ambas as mãos, batendo o punho fechado contra uma parede e finalmente virando-se para encarar Castiel.
– Você acha que eu fiz o que fiz porque me sentia em débito com você?! É isso mesmo?!
Castiel franze o cenho, incerto das palavras dele.
–... Estou errado?
– É claro que está errado, Cas! Que merda! Tudo o que eu passei ou fiz até te achar, foi por causa de uma vontade egoísta minha; porque eu não queria te deixar ‘pra trás!
– Por causa da culpa que você sentiria...
– Não! – ele berra, empurrando a mesa de novo e se aproximando mais uma vez do anjo, abaixando o tronco até ficar com os olhos enfurecidos na alturas dos de Castiel – Não, Cas, não é culpa! Eu não podia te deixar, porque isso tudo, tudo o que eu sou e tenho, é você e o Sam agora, então é, eu voltei, eu matei centenas de monstros, não por culpa, mas por necessidade! Porque eu sou a porra de um covarde que não sabe viver sem os outros!
– Dean...
O anjo repete o nome, pois se houvesse alguma coisa a mais a ser dita além do nome de Dean, Castiel não sabia o que poderia ser, não naquele momento, não quando o caçador arrebentava numa correnteza de verdades.
– Eu já perdi minha mãe e meu pai.
Dean continua, apenas se lembrando das memórias que ele mais odeia, ajoelhando-se no chão sem nem ao menos perceber que o fazia, pondo as mãos nas laterais da cama ao lado de Castiel.
– Também perdi Sam uma vez, eu já perdi Ellen, Jo, Bobby, e tantas, tantas outras pessoas... Eu não posso me desfazer das poucas que eu tenho, não posso Cas! Então é, eu fui a droga de um egoísta que só queria te char por meus próprios motivos mesquinhos! Satisfeito?!
Ao erguer a cabeça, o caçador se depara com os orbes azuis tão próximos dele, que por um ínfimo instante, ele esquece que é necessário respirar. Castiel o encara com a mesma intensidade de sempre, no entanto há algo a mais como compreensão e surpresa estampada nas esferas azuis.
– Eu não fazia ideia, Dean. – ele apenas diz.
Soltando um riso de escárnio, Dean se ergue do chão e puxa uma cadeira, sentando-se na frente do amigo.
– Claro que não fazia, seu anjo de merda.
– Mesmo depois de tudo o que eu fiz?
As risadas morrem na boca de Dean. Ele apenas segue a tristeza estampado no semblante do anjo, sentindo ele mesmo uma pontada dessa culpa o corroendo o atingindo feito uma bala. Ele conhece esse olhar muito bem, pois ele mesmo já se viu diante do espelho olhando para um reflexo de um homem transbordando em culpa, lamúrias. E nesse momento é assim que ele vê Castiel, com os ombros encolhidos e voz baixa, parecendo tão pequeno e fraco – diferente do imponente anjo que realmente é.
– Mesmo depois de ter traído sua confiança... – Castiel continua, não conseguindo fitar Dean — Depois de ter quase... Acabado com o mundo, como você pode dizer isso sobre mim?
– Ei, eu não sou o príncipe da perfeição. Cada um de nós já fez bastante besteira nessa vida, Cas.
Vendo que o anjo parecia não acreditar nele, Dean respirou fundo, apoiando os cotovelos nas coxas ao chegar o torço para frente, enumerando com os dedos a lista de erros do seu passado:
– Eu vendi minha alma e comecei a droga do apocalipse; o Sam libertou Lúcifer. Tava na hora de você começar a ter suas escolhas ruins.
Castiel, finalmente, ergue seu queixo, com os olhos ainda caídos, porém tentando digerir todas aquelas afirmações de Dean. E por um segundo, ele quase ri, o que Dean conta como uma vitória.
– Nós não somos perfeitos. – o caçador fala — É da natureza humana, Cas.
– Eu não sou humano. – replica, apertando os olhos.
– Você é o anjo mais humano que eu conheço, então cala a boca.
Isso parece divertir Castiel, que finalmente esboça um riso com os lábios pressionados.
–... Okay. – ele diz.
O sorriso no rosto de Dean morre, com seus olhos ganhando um novo aspecto aborrecido.
– Eu também tenho de pedir desculpas, Cas.
– Pelo o que?
– Durante a guerra no céu, eu...
– Não foi sua culpa, Dean.
– Não, não é isso... É como você disse: você sempre vem quando eu chamo, mas quando você precisou de mim eu não estava lá pra te ouvir.
– Dean...
– Se eu tivesse parado de olhar ‘pro meu próprio umbigo por um segundo... Droga... Acho que ficar tanto tempo sozinho no purgatório me fez pensar em coisas estúpidas.
– Eu agradeço por sua estupidez.
– Oh, vai à merda!
Por um instante, tudo volta a ser como antes, e Dean se esquece do purgatório, se esquece das traições e da perda da confiança, porque no fundo, de quem é a culpa? Ele poderia mesmo apedrejar Castiel dessa forma quando ele mesmo tinha tantos problemas mal resolvidos?
Que seja, agora tudo estava acertado entre eles. O passado é o passado.
– Vá ajeitar essa sua cara. Você tá parecendo um mendigo.
Dean fala, indo até o banheiro e procurando por um barbeador e um sabonete, já que creme de barbear é um luxo. Com uma toalha em mãos, ele entrega os apetrechos ao anjo. Em menos de vinte minutos, ele reaparece no quarto, terminando de limpar o rosto, esticando os braços e olhando para Dean, que balança a cabeça, pressionando os lábios para baixo.
– Pronto. Um Cas novo em folha.
Castiel concorda, parando próximo de Dean.
– Eu gosto dessa minha versão.
– Sem barba?
– Não. Esse... “Eu” de agora.
Dean franze o cenho, e o anjo respira fundo antes de continuar:
– Você costuma me encher de dúvidas e questões, Dean, mas ao mesmo tempo, eu acredito que quando estou ao seu lado faço minhas melhores decisões. Essa é a versão de mim que mais gosto.
Dean ignora o fato de que seu rosto arde um pouco com a pequena revelação de Castiel, afinal, quem é ele para ser o exemplo a alguém? Ainda, havia outra coisa o deixando irrequieto:
– Cas.
– Sim?
– Porque você queria ficar no purgatório?
Aquilo estava o incomodando desde que ouvira as intenções do anjo antes de atravessar o portal. Castiel deixa os olhos caírem ao chão, não conseguindo fitar Dean.
–... Para prestar penitência.
– Por quê? – ele franze o cenho.
– Pelo o que aconteceu com o céu.
– Você acha que os anjos querem vingança?
– Provável. Mas não seria os anjos minha maior preocupação.
– O que, então?
O caçador indaga confuso, e o anjo vira o rosto, pressionando os lábios um no outro, deixando os olhos perdidos pelo quarto, até voltar a falar.
– Dean... Quando eu deixei o céu após todo o problema com Crowley e os leviatãs, eu... O céu estava em ruínas. – diz, respirando fundo — Eu não quero voltar, pois se vir o que causei eu acredito... Acredito que não suportaria viver.
No instante que ele termina de falar, Dean põe a mão sobre os seus ombros, o apertando com força, encarando Castiel com olhos em fúria. O anjo nada entende.
– Não diga isso.
– Dean, eu só—
– Não.
Castiel não o responde, mas permanece com os orbes fixos nos olhos de Dean. Há tanta desesperança neles, no azul vivo que puxou Dean do inferno, que ficou ao lado dele, que se tornou seu amigo em meio a tantas incertezas em sua vida. Havia apenas um anjo quebrado na frente de Dean – outro alguém tão estilhaçado quanto ele por essa vida miserável.
Aconteceu igual a tantas outras vezes; a troca de olhares que durava mais tempo do que eles podiam contar. Sempre acontecia um imprevisto a volta deles, ou o mundo estava acabando ou Bobby, Sam, qualquer pessoa aparecia e mudava qualquer curso distinto que eles poderiam tomar se não desviar a atenção e fingir que nada havia acontecido, empurrando o estranho momento para debaixo do tapete e seguir a regra número um dos Winchesters: não falar sobre sentimentos.
Ainda assim lá estavam eles, azul no verde, por mais tempo do que jamais haviam ficado se encarando.
Uma vez que ali, naquele quarto, não havia mais nada nem ninguém além dos dois, e tudo o que ficava guardado e esquecido, sobressaiu pelos poros da pele, nas respirações curtas e irrequietas, sem que nenhum deles soubesse quem deu o primeiro passo, mas reconhecendo que sim, eles haviam acabado de colar os lábios.
Se Dean não compreendeu em que instante seu corpo moveu-se, ele percebe ao menos que foi o primeiro a partir a boca e tocar a ponta da língua no aveludado lábio de Castiel.
O anjo aceitou ao convite, permitindo que as carnes quentes e molhadas se encontrassem, porém o rápido encontro acabou da mesma maneira que se iniciou: abruptamente.
E os dois voltavam a se encarar.
– Dean, o que...
– Não fale, só-cala a boca, Cas.
O caçador nada mais diz, apenas fechando os olhos e avançando uma vez mais. Castiel faz como fora instruído, não falando uma única palavra, mas sendo movido pelo beijo de Dean, retribuindo a mesma carícia sobre sua boca, e lambendo todos os cantos que podia alcançar do caçador.
Era como se o purgatório tivesse feito exatamente isso: os expurgado das questões, dos inúmeros “e se” que brotavam nas suas indagações pessoais, do que eles conheciam como certo e errado, porque no purgatório cada dia vivido era uma vitória, e algo que Dean com certeza aprendeu foi dar valor as ínfimas coisas que tinha, não as deixando se perder nem esquecendo o quanto cada uma delas era importante.
Como Castiel o era.
Quão intensamente era a firme certeza da vida que tinham um sobre o outro, e apesar dos erros e mentiras que cada qual carregava, havia mais para além delas do que o ressentimento; eles são muito mais do que esses embates aos quais se dedicavam tanto, lhes parecendo tão estúpidos e sem sentido algum.
Só importa o agora, o presente, as mãos escalando os corpos de cada um, a certeza daquilo que eram capazes de fazer um pelo outro, e se Dean tinha qualquer receio quando reencontrou o anjo no purgatório, as marcas negras e fundas no meio das costas de Castiel bastavam como prova do que ele significava para Dean.
Quando Dean o beija, ele não pensa em mais nada, a não ser a estranha força que colocou ele junto de Castiel, dessa alguém tão despedaçado quanto ele, e em como é bom acalentar as incertezas, as dores e as mágoas nos lábios dele; como é magnífico se deixar levar pelo momento em que ele só conseguia pensar em Castiel se matando; no quanto isso o devastaria.
Não, ele não atravessou o purgatório para vê-lo morrer. Ele não matou e torturou para deixar Castiel ir embora, muito menos para o ver se destruindo.
Dean só precisava de Castiel, porque o anjo era importante. Só isso; mais nada.
Eles estão sobre a cama agora. Dean colocou Castiel por cima de seu corpo, evitando tocar as feridas dele, querendo o deixar confortável, pois Dean pode ser ríspido e bruto em qualquer aspecto de sua vida, menos nesse, menos quando ele se importa tanto com alguém.
Erguendo-se devagar, Castiel se senta sobre o colo de Dean, vendo o anjo remover sua blusa. Ele fecha os olhos em alívio quando o tecido desgruda de suas costas, e o caçador mal tem tempo para processar que, sim, ele havia fica excitado com a cena; independente de ser o corpo de um homem, Dean só via Castiel refletido no azul dele. E então, ele se lembra das sombras das asas que Cas tão avidamente sacrificou em ordem de protegê-lo. Um frio percorre sua espinha.
Sentando-se na cama, Dean envolve a cintura do anjo e fica com o rosto próximo do dele.
– Eu vi suas asas... – Dean fala, massageando a base da coluna de Castiel.
– A sombra delas. – o anjo diz.
– Mas as vi. – retruca Dean – Elas eram... Grandes e... E eu sinto tanto, Cas eu só—
O anjo o beija, apanhando com as duas mãos o rosto de Dean.
– Eu daria muito mais do que minhas asas, se fosse preciso.
O semblante de Dean transparece a sua surpresa, sua aflição, pois ele, de súbito, sente-se tão pequeno e insignificante diante do anjo. E Castiel enxerga nos detalhes das linhas ao lado de seus olhos, na boca entreaberta e incerta dele, que Dean não consegue compreender a estima que Castiel possuiu, como o anjo pode sentir esta ínfima afeição por ele...
– Cas, eu não—
Castiel o beija outra vez, sugando o ar dos pulmões de Dean, o deixando desnorteado.
– Se você... – Castiel arfa com a boca ainda colada a dele – Se você pensa que é o único interesseiro aqui, então Dean... Deixe-me te falar o quão egoísta eu sou.
Desprovido de qualquer resposta, Dean permite ser levado de volta à cama, deitando-se, com o anjo entre suas pernas começando a erguer sua blusa, beijando o abdômen e seus gomos, subindo até o peito e arrancando respirações entrecortadas de Dean. Ele para sobre o pulso no pescoço do caçador, o sugando e marcando de vermelho a pele.
– Você me mostrou tudo. – Castiel fala; sua voz reverberando debaixo da orelha de Dean – A ser livre, a ser quem sou.
– Cas...
O caçador sente as mãos do anjo agarrando seus pulsos, usando a força sobre-humana dele para prendê-lo. Dean sente os lábios carnudos do moreno passeando sobre as maçãs de seu rosto, sua testa, e ele quer se soltar, ele quer sair debaixo dele e parar de ser adorado desta forma tão acalentadora, porque por mais que seja isso o que ele deseja; toques gentis, carinhos, não lhes são merecidos. Ele não merece tamanha felicidade, não uma pessoa amaldiçoada como ele; não pelas mãos de um anjo...
Dean se debate, engolindo seco quando Castiel o beija outra vez e ele sente o calor emanando dele.
– Não lute Dean.
–... Não...
Ele range os dentes, falando por entre eles, fechando os olhos. Castiel o beija outra vez.
– Do purgatório até aqui, você continuou em frente, por mim. Dean, eu te salvei do inferno, mas você me deu muito mais.
Nisso, o caçador entreabre as pálpebras, fitando os orbes de Castiel, que não mentem em nenhuma frase, não o deixam se livrar das verdades que ele diz, as cravando com sua voz pesada e rouca no caçador.
– Vida, Dean. Você me deu uma razão para viver.
Engolindo um breve soluço, Dean recebe o novo beijo de Castiel com todas as suas vontades, deixando-se ser guiado por ele.
As mãos do anjo soltam seus pulsos, e Dean apenas responde envolvendo a cintura dele, ainda receoso de magoá-lo.
– Dean... Você é... O homem mais justo que eu conheço.
– Você devia procurar por melhores exemplos, Cas.
Ele brinca, num meio sorriso, despindo-se da insegurança com piadas.
Castiel sorri.
– Não quero.
Na convicção presente em Castiel, Dean se vê preso novamente, não pela força dele, não pelos dedos do anjo, mas sim pela simples verdade de que Cas o quer; o deseja, da maneira mais torta e impura dele... E se aquilo não fosse o bastante, Dean seria um estúpido em não aceita-lo.
– Eu vou continuar Dean.
Castiel afirma, e o caçador apenas concorda devagar com a cabeça, permitindo o bafo quente sair da garganta enquanto o anjo remove o restante de suas roupas.
Sobre o colchão, Dean sente seu corpo escaldante ser coberto pelo mesmo calor que emana de Castiel, escalando as mãos até a nuca do moreno, apanhando as melenas escuras e se engalfinhando no beijo.
Castiel encerra o ósculo para tornar a lamber o torso de Dean, que se debate levemente sobre a cama toda a vez que ele colide a língua sobre um mamilo, ou quando as unhas do anjo passam pelas laterais de sua costela, porém Dean gemeu realmente ao ter a boca lasciva e molhada de Castiel sugando a ponta de sua extensão.
Arqueando os músculos das costas, Dean segura os lençóis com ambas as mãos, não querendo se entregar duma vez ao prazer, ainda que todos os nervos pulsassem num único acorde para que o fizesse.
Castiel sobre e desce da ponta até a base de uma maneira precisa, como se estivesse estudando o músculo de Dean com sua língua, analisando os diferentes relevos de quando ele atravessa sua boca e toca o início da sua garganta. E ele tenta sugar mais ainda, fechando os lábios e deixando as bochechas afundadas, tamanha é a vontade que sorve Dean. O caçador meramente geme, grunhe e se debate, respirando fundo inúmeras vezes.
Tamanho é o contentamento de Dean que ele só percebe que há algo começando a entrar na abertura abaixo do períneo segundos mais tarde. Ele arregala os olhos, abrindo a boca para dizer algo, para tirar Castiel dali, porém o anjo apenas o fita com os olhos azuis elétricos numa ordem silenciosa, e Dean tão somente consegue ficar parado, hipnotizado pelo anjo.
Ao ter o anelar completamente instalado em Dean, Castiel deixa que a sua saliva trabalhe para permitir que o dedo deslize devagar, ouvindo silvos vindos do caçador, enquanto ele tem os orbes fechados, quase os afundando no rosto.
– Dean...
Ele abre devagar as pálpebras, notando que Castiel está frente a frente com ele, ainda movendo sua mão no meio das suas pernas. E é estranho, dolorido e diferente, de uma maneira que Dean odeia, por não saber o que vem depois, por não ter o controle sobre o que pode acontecer ou sentir, e tudo isso, a insegurança do desconhecido é assustadora para ele.
– Vou cuidar de você. – Castiel o assegura, beijando seu queixo – Você não vai pensar em nada, você não precisa se preocupar mais.
– Cas... Cas, eu não posso, eu não...
– Pode. – afirma o anjo, pondo uma mão na nuca do caçador e puxando de leve os fios, fazendo com que Dean o encare – Você pode perder o controle, porque eu vou estar aqui, eu vou estar sempre aqui, para refazê-lo das cinzas, para tudo o que quiser Dean.
As esferas verdes balançam incertas dum lado á outro, porém por maiores que sejam as inseguranças de Dean ele enxerga apenas certeza em Castiel.
O anjo é um porto seguro onde ele pode ficar mergulhado para sempre.
Jogando a cabeça para trás, Dean permite que sua voz saia vacilante, entrecortada, gemendo e grunhindo o nome de Castiel enquanto o moreno o beija, suga marcas sobre seu corpo. A mão livre de Castiel retorna a dar atenção ao seu membro inchado e vermelho, extraindo as primeiras contas do pré-gozo, enquanto o dígito de Castiel o massageia por dentro, rodopiando numa velocidade lenta e contínua. Os lábios de Cas mordiscam sobre o peito de Dean, volta e meia escalando seu pescoço e roubando o oxigênio dele.
Sempre que pode, Dean morde os lábios e tenta conter seus gritos, e sempre que o faz escuta uma repreensão de Castiel, que volta a segurar seu pulso, o mantendo firme na cama.
Ao encaixar um segundo dedo, porém, Dean não se contém, partindo os lábios em um grande “O”.
– Não dá—Não dá, Cas!
Ele grita engolindo seco, remexendo as pernas. O anjo nada diz, apenas jogando sua cintura contra Dean, colocando as pernas dele ao redor de suas coxas.
– Eu conheço você, Dean. – Castiel fala, a boca grudada na ponta da orelha do caçador – Conheço cada pedaço seu...
Uma corrente elétrica atinge os nervos de Dean junto das palavras roucas de Castiel.
– C-Cas, Cas! Caas!
Dean segura um dos ombros do anjo, enquanto a outra mão se prende acima da sua cabeça no travesseiro, arruinando o tecido do mesmo enquanto o hálito quente de Dean bate no ar gelado da noite, e seus gritos enfeitam o quarto como uma melodia linda, que deixa Castiel satisfeito.
Outra vez ele move os dois dedos, acertando o mesmo ponto no interior do caçador, que geme num tom áspero e seco. Cada toque do moreno sobre o nódulo de tecidos em Dean causa arrepios nele. As pernas vão se afastando mais e mais, e ele só consegue pensar que precisa daquilo; que precisa se sentir tão vulnerável e aberto à Castiel, porque o que o anjo faz a ele é tão bom e único, que pela primeira vez em sua vida, o desconhecido não o assusta; pois se Cas vai continuar a fazer aquilo com ele, ah! Dean só pode desejar por mais.
Puxando o moreno pelos cabelos finos de sua nuca, Dean o toma num possessivo beijo, fazendo Castiel gaguejar qualquer coisa entre os lábios se encontrando, as línguas sorvendo uma a outra, e ele apenas se deita ainda mais sobre o caçador, girando o pulso no “V” das coxas de Dean e o fazendo estremecer em meio ao beijo.
Com a respiração quente de Dean e os olhos foscos dele, Castiel balbucia:
– Mais um...
No mesmo instante, Dean sente um terceiro dedo juntando-se aos dois primeiros, o alargado para os lados e o deixando completamente à mercê de Castiel, que não se cansa de arrancar os sons quebrados de Dean, querendo o fazer se perder em suas mãos num pedaço de carne em busca de prazer; em alguém que confia tão exclusivamente nele.
E quando Castiel remove os dígitos de seu interior, Dean irá jurar até a morte que ele não choramingou. Contudo suas lamentações acabaram quando a ponta do volume de Castiel – tão rijo, estufado e escorregadio – começa a deslizar para dentro, ocupando o lugar que antes eram dos dedos de Castiel.
– Gah! C-Cas!
– Dean... Dean...
O anjo sussurra o nome do caçador enquanto beija seu rosto, em todos os lugares, depois seu pescoço, atrás da orelha, entrando centímetro por centímetro nele conforme o enche de carícias com seus lábios, até por fim dar-lhe um longo beijo, e repousar a testa sobre a de Dean, instalando-se completamente nele.
As pernas do loiro tremem, envolvendo Castiel num apertado aconchego, querendo o ter mais perto, enquanto as mãos dele envolvem o pescoço do moreno.
Respirando apressado, Castiel move, tentadoramente a cintura, e grunhe com a sensação do músculo de Dean em volta da sua carne, o engolindo por todos os lados. É mais belo e puro do que todas as vezes que viu ou soube sobre como os humanos se deitam um com o outro. Ele diria que é até mesmo divino.
Nas primeiras estocadas, Castiel se esquece das feridas, da dor, da perda de suas asas, pois valia tudo à pena e mais, se isso significava que ele podia ficar ao lado de Dean, que o caçador o aceitava.
– Cacete, Cas! – Dean grita, apertando os ombros do moreno – N-não fique só me olhando, se mexa!
Era incrível como de todas as coisas que podiam envergonhar Dean naquele momento, ser observado era a pior delas. Isso só fez Castiel sorrir.
– Como queira.
Numa velocidade que Dean não consegue seguir, o anjo agarra as coxas de Dean e as joga até a altura de seu peito, pondo as mãos na parte de trás dos joelhos e basicamente dobrando o corpo de Dean. O caçador solta um grito engasgado com a repentina mudança, mas logo ele é perdido no meio de tantos gemidos, dos sons da virilha de Castiel batendo contra as suas nádegas, do sabor salgado que escorre da testa de Dean conforme Cas o estoca, acertando com precisão e destreza o mesmo ponto que antes ele explorava com míseros dois dígitos.
Dean podia sentir o preenchimento em seu interior achando que ia transbordar, e quanto mais ele assim pensava, mais ele puxava Castiel em oscilações de seu músculo, ganhando ele também gemidos do anjo.
No entra e sai quase desesperador de Castiel, com seu membro saindo pela metade e batendo com força de volta em Dean, o anjo murmurava o nome do caçador e o beijava, sempre o beijava, reafirmando a ele sua presença, sua constante e imutável presença na vida de Dean.
Entre os dedos do caçador havia o cabelo escuro de Castiel, sendo puxado e envolto pelas mãos dele, trazendo o anjo para perto de seus lábios, que traçavam um movimento fantasma em meio aos urros de prazer.
– Meu...
Dean sussurrou a palavra, e tudo o mais que Castiel conseguiu fazer foi acelerar a moção de sua pélvis, açoitando Dean e o deixando destruído; uma quentura sem igual crescendo no seu baixo ventre.
Num engasgos, Dean agarrou sua própria extensão, sendo seguido pela mão de Castiel, que passou a bombeá-lo junto da palma de Dean, ritmando aos poucos a velocidade de suas estocadas.
Um último solavanco, onde Castiel acertava o íntimo do caçador naquele lugar certeiro, Dean soltou um alto grito, vibrando e chacoalhando todo seu corpo. Ele havia ficado tão, tão apertado, que Castiel não se conteve, empurrando com força para dentro, o enchendo com um único e potente jorro, enquanto em suas mãos ficava o líquido de Dean, morno e viscoso.
Os dois caíram sobre a cama momentos mais tarde, entre beijos sonolentos, respirando descompassados – Dean mais do que Castiel.
Dean podia falar qualquer coisa, inventar desculpas ou mesmo uma razão para afastá-los um do outro, como sempre o fazia. E em meio a tantas frases prontas, o caçador fitou o azul elétrico do anjo, perdendo toda e qualquer razão.
Erguendo um braço preguiçoso, Castiel tocou o maxilar de Dean, arrastando os dedos na barba mal feita dele, sorrindo ao murmurar:
– Meu.
Abrindo bem os olhos, Dean nada disse, enquanto via Castiel se virar para o lado, puxando o cobertor para colocar sobre eles. As marcas em suas costas aparecem brevemente, e, apesar da aparência ter melhorado dum dia para o outro, a lembrança do que elas representavam ainda estava lá, cravada na memória de Dean; no corpo de Castiel.
Passando uma mão lenta no meio das omoplatas de Castiel, o anjo parou sentado na cama, olhando para Dean por cima de seu ombro.
– Suas asas eram negras? Como as sombras, digo. – Dean pergunta sem encará-lo.
Castiel termina de ajeitar os cobertores, deitando-se outra vez com um dos braços debaixo de sua cabeça, enquanto Dean continua a tocar a pele maculada.
– Na sua maioria. – ele responde — Eram como as penas de um cisne negro.
– Um cisne...
Dean murmura, esfregando docemente o meio das costas do anjo. E então ele faz o que raramente, ou nunca, se permite fazer, abraçando Castiel com ambas as mãos ao redor de seu peito.
O moreno fecha os olhos, sentindo Dean tampar a ausência em suas costas com seu peso, o que é tremendamente reconfortante.
A respiração de Dean sobre sua nuca o faz estremecer de um jeito confuso e gostoso, e tão logo Castiel percebera que Dean havia adormecido, ele se aninhou ainda mais contra o caçador, porque de repente, ele não sentia mais frio.
~Fim~
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