Circuito Fechado
2 Memórias dançantes de um demônio
-Já podemos ver ela?
Az estava perguntando aquilo pela centésima vez a nova enfermeira, uma mulher baixinha cujo nome não me lembro. Eu já estava me irritando. Por mais que ele estivesse preocupado, não precisava de tanto escândalo. Entretanto, não adiantaria , mesmo se eu falasse alguma coisa[ E sim, eu tinha dezenas de pensamentos maldosos para alfinetar Azriel ] não adiantaria. Da porta da enfermaria, onde estávamos, ele podia ver a Hime, mas... Bem, se tratando de Yoru, estou surpreso dele já não ter entrado sem permissão mesmo...
-Sim, Marshall-kun, mas não a force, Ok?- Mal a mulher acabara de falar, Azriel já estava dentro da enfermaria e se juntava a Yumemaru, que estava sentado do lado da cama dela, na postura de arma fiel que não se separava da artesã por nada que ele sempre mantinha. Já eu, enjoado daquilo, ainda mais com a cara daquele cão preguiçoso, passei devagar pela porta e me encostei em um dos armários que lá estavam .
- Está melhor, Yoru? — Oh, céus, era aquele tom morno, macio, que ele só usava com ela, e aquilo conseguiu me deixar visivelmente irritado, e só me dou por conta agora que aquilo tinha acionado meu tique de tremer um pequeno músculo acima da sobrancelha. Entretanto, por indelicadeza dele ou por desligo mesmo [ Se tratando da Hime, novamente aposto no último] ele mal percebeu a minha mudança de feição. Continuou com aquilo, falava acariciando os cabelos lisos e negros, que mais pareciam uma noite de lua nova aos meus olhos. Por mais que eu tentasse gostar da Hime, não tinha tanta intimidade para falar qualquer palavra de apoio. Talvez fosse minha culpa mesmo ela estar daquele jeito, como uma vez ele tinha acusado. Aquilo só aumentava minha raiva com a situação. Repentinamente, captei o olhar de Yumemaru voltado, não para sua artesã, mas para mim, como se disse um “ Eu te entendo” silencioso. Eu não precisava da piedade daquele cão preguiçoso! Quem ele pensava que era? Depois de tudo aquilo.... Ele ainda tinha a audácia de me lançar um olhar daqueles!
-Um pouco... — E a voz da artesã fez com que a arma tirasse os olhos de mim e os voltasse para a própria shokunin. Eu conhecia aquele timbre que ela usava, como um tipicamente “não se preocupe, Az, eu estou bem” até que o final da frase me fez quebrar um pouco a muralha de ira que se formava ao meu redor -...mas eu ainda não consigo abrir meu olho.
Aquilo era o preocupante. Agora, sem o tapa olho, era possível ver claramente... A marca da queimadura, que mais parecia ter sido feita a ferro, sobre aquela parte sensível da face da mesma, em forma de uma estrela com sete pontas era o que forçava-a a ficar com aquele olho fechado. Eu já a achava desacreditada, afinal, desde o dia do resgate, quando nós a trouxemos de volta, enquanto todos se preocupavam com coisas mais importantes [ Não para Azriel – para ele, Yoru sempre vinha em primeiro lugar] ela não demonstrava os mesmo poderes de antes, o que automaticamente me fazia pensar no pior...
-Eto... com licença, será que nós podemos entrar?
Saindo de meus devaneios direcionei meu olhar para a porta — era onde estava aquela menina ruiva de outra hora. O que diabos ela estava fazendo ali ? Mesmo com os olhares retalhadores de Az, ela continuou. Parecia que a garota estava ignorando tanto eu quanto Az e Yumemaru
-É que... Bem, eu creio que a culpa por você estar aqui seja nossa...Você está bem ? — E então, eu realmente achei interessante o que tinha percebido — ela falava meio insegura, com a cabeça abaixada.
-Ela está bem, e se dão licença, podem voltar a aula — Az falou curto e grosso, naquele tom seco e imponente, não permitiria interrupções, quase impondo a vontade de aço. O garoto loiro tomou a frene da ruiva, e o olhou sério , como quem diz “Ouse falar mais uma palavra nesse tom com a minha arma e eu te mato”.
-Az, eles não tem culpa de nada, seja mais tolerante com as pessoas. -Era o protesto da Hime, que apertou a mão de Az, como uma forma de conte-lo, já que ele já havia cerrado o punho. Ele imediatamente relaxou e atendeu aquele pedido de calma sem palavras. Sempre quis saber como ela fazia aquela mágica de acalma-lo. No fundo, sei que eu nunca vou saber como é saber lidar com o Az, assim como ele nunca vai saber lidar comigo. Nós somos arma e artesão por um único motivo – o Caos que somente eu e ele conseguimos entender por completo
-Hm, que tipo de cicatriz é essa? — A maldita pergunta foi feita pelo garoto loiro, o tal Saga, que a pronunciou a Yumemaru, e então eu percebi que eles já estavam dentro da enfermaria também. Az e Yoru se entreolharam, o olhar da mesma parecia pedir um misericordioso “Pelo amor de Deus, Azriel, se contenha” .
-Bom, quem vai contar ?- Yumemaru perguntou, mas os outros dois continuavam se entreolhando.
-Eu falei para mandar eles embora ...-resmungava Az. Eu não ficaria para ouvir a discussão de quem contaria a historia, e nem a história daquele ferimento em si. Sai do quarto sem ninguém perceber, já que estavam ocupados discutindo sobre quem explicaria. Fui para o meu quarto, onde ao menos conseguiria pensar um pouco.
— 10 minutos depois, no telhado da escola <
Ok, isso não é meu quarto e sim o telhado da escola, mais qualquer lugar solitário é melhor do que a enfermaria-inferno. Deitei-me no cone vermelho que se estendia apontando para o horizonte . Malditas memórias.
— Memórias dançam quer você queira ou não <
Era, novamente, uma luta contra Scarlat. Aquela maldita bruxa parecia não desistir de seu desproposito, e, aquela magia que ela usava era perigosa demais para continuar existindo. A nossa missão era detê-la. Yoruhime já conhecia a magia da bruxa dos Claydoll , almas roubada e modificadas para servir aquela mulher [ E, tenha certeza, você não gostaria de encontrar um Claydoll no meio da rua a noite, por isso, deixo a incumbência de registrar a aparência de um para alguem que escreva mais para frente] – e, acredito eu, contou tudo o que sabia para Az. Estávamos enfrentando a bruxa em território dela, o que tornava a batalha mais temível – milhares de Claydoll\'s naquela especia de campo livre e pantanoso onde os pés de Az pareciam afundar se ele ficasse mais de 5 segundos parado na mesma posição, e ao fundo, aquele castelo em ruínas, onde a bruxa parecia assistir como quem asiste uma partida de futebol. Eu, em meu intimo, sabia que nós quatro já estávamos quase no limite, apesar de mal estarmos perto de terminar de enfrentar aquelas hordas.
Lembro-me que a Hime, antes de sairmos em missão, parecia cabisbaixa . Eu não entendia o porque, mas, algo havia mudado nela. A visão de Scarlat parecia te-la enchido de uma fúria tão profunda... Eu mal estava prestando atenção nela – Dentro do caos da batalha não existe espaço para essas coisas. Porém no meio daquela luta insana, vi que a bela lamina azul em formato oriental e o leque unidos por uma corrente nos quais Yumemaru se transformava abriam caminho mais facilmente que eu, em minha forma de claymore[¹] lapidado em ônix[²]. Na verdade, parecia que o caminho estava-lhe sendo aberto, enquanto aqueles malditos bonecos disformes sem vontade nos cercavam. Azriel, certamente nem havia percebido o que estava acontecendo já que também estava afundado no caos da batalha. Não vi para onde a Hime se encaminhou , mas tinha certeza que ela iria dar o golpe final naquela luta
- Yumemaru!!! — Foi a única coisa que eu ouvi ao longe — A voz dela gritar, e os grandes lances de luz se dirigindo para todos os lados – enquanto se lançava ao encontro da bruxa que postava-se em frente ao castelo esse tempo todo – Eu tive certeza que aquele momento passou rápido demais. Luzes cegantes, e as fortes vibrações da batalha entre as duas mulheres.
Sabia que havia alguma coisa errada com a Hime, mas se eu falasse ao Az agora ele provavelmente perderia o foco da luta e seriamos alvos fáceis, e talvez, esse tenha sido meu erro
Preferi esperar até que nós acabássemos com os aquelas hordas para que assim a bruxa não tivesse para onde fugir. O problema que captei foi um estrondo provavelmente da luta de Yoru, Entretanto, eu não fui o único a ouvir tal som, e antes que eu pudesse conter meu shokunin, Azriel começou a correr em disparada na direção de tal som, virando um verdadeiro retalhador. Eu podia sentir o corpo frio de claydoll\'s sendo despedaçados por meu corpo, eu podia sentir os cortes e as vibrações das almas destruídas sem piedade [ Se tratando de Yoruhime, ele mataria até a mim, se eu o impedisse de salva-la].Até que a visão de uma Hime extremamente ferida, o rosto arranhado e o ombro com um corte suficientemente grande para que até eu me preocupasse, caída de joelhos, olhando o chão [ eu juro que até hoje não sei se o que escorria do rosto dela eram lágrimas ou sangue], o fez parar aquela disparada louca. Ela estava de costas para nós dois, as mãos ocupadas segurando a arma que parecia tão estranha para aquele corpo ferido... Eu senti que Yumemaru também não estava bem – a ressonância entre os dois tinha algo diferente... Azriel quis se aproximar, mas parecia que havia uma barreira invisível entre os dois .
-Não venha Az! — Yoru gritou, se levantando e posicionado em forma de ataque, como anuma declaração final de “Triunfo ou agonia”. A frente, havia uma forte cortina de fumaça castanha como a terra dura e seca que agora pisávamos, encobrindo o castelo e Scarlat — Ela desviou meu ataque para chão levantando essa areia toda... — Ela... era uma nesga de ódio que eu ouvia na voz dela? Não simples raiva, mas ódio, como algo amargo preso nas entranhas e que escorregava lentamente para a garganta, como um veneno .Além do mais, era possível sentir tal sentimento na voz de uma pessoa? Então, era aquilo que eu não tinha detectado na ressonância dos dois ...Ambos odiavam Scarlat, e era por isso que tinham se jogado na frente daquela forma — ...fique longe por enquanto — Completando a frase, entrara vagarosamente sobre a fumaça em busca da bruxa.Eu poderia dizer que aquilo parecia heroico – bardos poderiam ter escrito cançoes em tempos remotos sobre isso — mas eu sabia que era loucura. Loucura é diferente de caos – um único sentimento te leva a loucura, e ela logo passa. Caos é uma teia de sentimentos que se misturam e que ninguem quer adimitir que são a mesma coisa – toda a moeda tem dois lados. Coragem e medo são a mesma coisa. Ela estava se deixando entregar para a loucura do ódio sem racionalidade — aquilo era problemático.
-YORU, VOCÊ ENLOUQUECEU? VOLTE AQUI, AGORA! -Az gritava, mas fomos impedidos de seguir a garota, jpa que uma nova onda de cladoll\'s já nos cercavam – aqueles zumbis não pareciam ter fim, mas para meu shokunin, nada mais importava, somente ela – YORU!?
-Se acalme Azirel! Se você se entregar a essa loucura também, não irá restar mais nada nem para nós, nem para eles! Ela foi por espontânea vontade, não interfira! Essa luta é pelo orgulho dela! -
Eu sabia que estava apelando demais, mas não havia outra forma melhor de tentar contê-lo. Eu estava tentando pelo menos o lembrar que estávamos numa batalha — devo aqui dizer que foi inútil, de certa forma, até que, de repente, no segundo mais longo da minha vida, quatro coisas aconteceram em seguida, mas de tal forma que todas me pareciam eternidades contidas uma dentro da outra. Primeiro, aquelas criaturas que nos cercavam desvaneceram – como se tivessem sido retraídas da batalha. Segundo, a fumaça que envolvia o castelo estava abaixando lentamente, revelando a vencedora da batalha. Terceiro, uma onda furiosa de ódio puro, palpável, tomou conta de Azriel. Quarto, eu fui largado no chão, ainda em forma de arma, enquanto ele corria em direção as duas. Depois disso, eu me lembro de alguem me pegando no colo, e...
> No entanto, toda a ária tem seu final, assim como teve seu início <
-Lúcifer, sua anta — Me assustei com o leve tapa em meu ombro e sai das lembranças do passado para olhar o artesão que estava atrás de mim — O que você estava fazendo esse tempo todo ?
-Nada — Respondi automaticamente, eu não poderia deixar transparecer meus sentimentos a respeito do que estava me lembrando. Por mais que Az e até mesmo a própria Yoru tenham me dito que isso iria acontecer de qualquer jeito, se pelo menos eu tivesse avisado Az, como ele gritara comigo num momento de fúria depois daquilo, teria no mínimo mudado o rumo da batalha
-Aff, eu fiquei te procurando a tarde inteira! Você sumiu da enfermaria — bufou se sentando ao meu lado — Eu tive que contar o que aconteceu para aquela ralé e o Yumemaru só falou ...- Az começou a contar tudo que aconteceu na enfermaria, e eu não estava lhe dando a mínima atenção , ainda estava afundado em lembranças...- LÚCIFER, você esta nesse planeta ainda ou já partiu?
-Hã ? Sim, claro Az — Acho que deveria ter prestado atenção no que ele falava, ele parecia irritado com a minha falta de atenção — pode continuar — tentei dar um sorriso que saiu mais como uma careta.
- Seu mal é pensar demais, Lulu – Ele me chamou por aquele nome carinhoso e me olhou nos olhos. Com isso, eu imediatamente desviei meu olhar para baixo. Não agüentaria a sonda de seus olhos claros, quase brancos, por muito tempo -
- Baka — socou meu ombro e me puxou pelo pescoço. Eu senti meu rosto corar, mas aquilo me fez...me sentir mais vivo, de alguma maneira inexplicável. — Eu já falei que você não teve culpa de nada, e você deveria esquecer o que eu digo quando fico irritado. E, alem do mais, alguma vez eu já menti para você ?- afagava meu cabelo da mesma forma como ele afagou os da Hime algumas horas antes . Era a forma dele de dizer “está tudo bem”. O tom de voz também era o mesmo. Será quele acreditaria que eu achava que ele dava a mesma importância para mim e para ela?
-Não — respondi prontamente. Isso era uma verdade inegável, Az nunca mentira para mim, apesar de eu sempre mentir para ele. Nós dois eramos muito diferentes, apesar de completamente iguais. Me pergunto ate hoje como somos parceiros.
-Então não é agora que eu vou começar – Sorria daquela forma cativante e me soltou daquele abraço desengonçado — Agora vamos, já está ficando escuro – E então, pela ultima vez naquele dia, observei o sol babando, já pronto para ir dormir em algum lugar alem do horizonte, antes de me levantar e seguir Az até nosso dormitório
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