Na calada da noite, nenhuma brisa corria, mas fazia um frio de gelar os ossos. Ainda abraçada aos bichinhos de pelúcia e encolhida nas cobertas, Mônica sentia incomodar a lateral do corpo contra a piso gelado e duro. Queria dormir. Fechava os olhos com força a fim de pegar logo no sono, para que tudo aquilo não passasse de um pesadelo e ela tivesse voltado para casa sã e salva... Uma voz cortou o silêncio chamando seu nome. Se pudesse ainda fingir que estava no próprio quarto, deitada em seu colchão macio e quentinho, levantar-se teria sido um problema. No entanto, o próprio corpo em alerta ergueu-se automaticamente. De frente para ela, a silhueta do rapaz, mãos apertadas contra a grade, olhar tristonho...

Retomando a realidade dos fatos, a raiva reaqueceu o sangue. Mônica o encarou de volta como se pudesse matá-lo assim, apenas com o olhar. A primeira coisa que saiu da boca dela foi alto demais, feroz. DC então colocou o indicador sob os lábios, sinalizando para a namorada falar mais baixo, fez também um movimento brusco da cabeça para verificar se alguém vinha de qualquer uma das direções. Nada. O sangue dela subiu ainda mais fervente, fazendo-a levantar afoita e nervosa, ir na direção dele como uma fera enjaulada. Atirou-se contra as grades de sua prisão e viu o rapaz do lado de fora recuar ante o gesto agressivo. Perceber que DC sentiu medo dela a fez se sentir pior ainda. Queria gritar, quebrar tudo, surrá-lo...

– Você me traiu! Como pôde, DC?! Você se aliou àqueles monstros?! – cerrava com força os punhos nas barras de metal, apoiando-se também nelas para não ceder ao peso do corpo.

– Eles não são monstros, Mô, duvido até que sejam más pessoas...

– E ainda por cima está os defendendo! – a garota se sentiu ainda pior, relembrando a cena do jantar, magoada demais por ser ignorada enquanto ele festejava como seus inimigos.

– Eu sei que eles ajudaram o Sr. Dante a te capturar e te prender, mas não acho que sejam monstros, são só pessoas fazendo coisas ruins. Talvez eles só estejam cumprindo ordens por medo dele...

Olhando de volta para o namorado, Mônica não acreditava no que estava ouvindo...

– Você fala como se conhecesse essa gente há muito tempo, como se eles fossem seus melhores amigos desde sempre... Enquanto isso, não se importa nem um pouco com sua própria namorada! Parece que você gosta mais deles do que de mim! Você quer se juntar a eles, não? Se faz tanta questão de ficar no circo, fica com eles então! Some daqui! – as palavras saíram mais alto e mais ácidas do que ela gostaria. Afastou-se das grades, girando as costas para ele – Duvido que você gostasse tanto deles se fosse você preso aqui nesta jaula! Se bem, que conhecendo o DO CONTRA, você até gostaria, né? Porque você não se importa com nada nem ninguém, não liga de nunca mais ver sua família, de nunca mais voltar para casa...

O silêncio dele a irritava. Por que ele não estava mais contrariado com aquela situação? Por que ele não reagia ou tentava se defender das acusações? Quem cala consente. Ele concordava?! Ele realmente queria ficar no circo, não? Por qual outro motivo ele tentaria fazer amizade com os carrascos?! O ódio no olhar dela era quase palpável, chegava a queimar. A decepção que ela sentia ardia no peito: enquanto ela corria perigo amarrada naquela faixa, DC se divertia com os palhaços, ele jantou com eles e riu como se fossem todos amigos de longa data. Nem parecia enxergá-la ali. Mônica queria machucá-lo para descontar nele a intensa dor que estava sentindo. Ela queria que DC de alguma forma sofresse...

– Se o Cebola estivesse aqui, ele saberia o que fazer... – abraçou-se frágil, pensou nos amigos, queria que eles estivessem ali com ela... Ao menos não se sentiria tão só... Voltaram as imagens de Sococó da Ema, os fantasmas da Umbra, aquele sentimento horrível de impotência, medo, fraqueza... Ela só queria sair de lá, voltar para casa... – Eu não ficaria presa, Cebola teria um plano, com certeza. Magali poderia até conversar com aqueles monstros e convencê-los a soltarem a gente, ela que é tão amigável e gentil... Cascão é ágil, encontraria uma saída, buscaria ajuda... Eles não estariam fazendo um acordo com o carcereiro! – girou o corpo e de novo se projetou contra as grades, agarrando-as com fúria.

– É, disto não posso discordar... Com certeza o Cebola teria um plano para tirar você daqui...

O silêncio entre os dois pesou. A comparação com o ex era uma alfinetada, um ataque deliberado do qual Mônica não se orgulhava. Acertou em cheio, ainda que DC não quisesse admitir que feria. Talvez machucasse ainda mais, porque naquele instante Mônica preferia o outro, dizia sutilmente que ter escolhido DC era um erro do qual ela se arrependia.

– Não faço ideia onde estamos, nem como sair daqui. – o tom de voz grave dele pesou – Se nem você consegue arrebentar esta grade, que chances tenho eu? – deixou escapar um sopro em forma de riso, para aliviar a tensão – Se não tem cadeado ou fechadura, então não existe chave para abrir... Se ao menos eu soubesse magia, teria alguma chance... Sinto muito.

O corpo de Mônica cedeu diante do pedido de desculpas, caindo de joelho rente à grade. Compreendeu pelas palavras do namorado a gravidade da situação. Ela também não fazia ideia onde estavam, nem como sair daquela maldita jaula. Não sabia qual a extensão dos poderes dono do circo ou as intenções malignas do raptor. Só sentia o sangue ferver furioso ante sua própria incapacidade de ser mais forte ou mais ardilosa do que o inimigo. Queria então desviar a dor, extravasar seu ódio, mesmo que isso ferisse o namorado e não servisse para mais nada.

– Seu pai estava certo... – DC disse cabisbaixo, sem conseguir encará-la – É minha culpa você ter caído nesta armadilha... Se eu não tivesse insistido... Se eu tivesse conseguido te tirar de lá... – pausou, talvez percebendo a garganta apertar.

Mônica lembrou da insistência do Seu Sousa em convencer a filha a ficar em casa, a deixar o passeio para outro dia, como se pressentisse a tragédia. Sentiu ainda mais remorso. Queria falar com o pai, pedir desculpas por ter sido imprudente, convencida, arrogante, estúpida, cabeça dura... Quis ligar para ele. Procurou o celular no bolso, ou onde deveria estar o bolso da saia, mas não estava vestindo suas roupas. Só aquele collant maldito do circo! Onde estavam as roupas dela?!

– Meu celular sumiu!

– Mesmo que você ainda tivesse seu celular, não conseguiria falar com ninguém... Aqui não é o Limoeiro. – ela o encarou de volta, confusa – Eu cheguei até aqui pulando no palco, num passe de mágica. Devia ser algum portal tridimensional que ficou aberto... Não sei como explicar, mas sei que é magia. Também duvido que dê para sair agora do mesmo jeito... Cada dimensão tem suas regras...

Olhando para o alto, era possível ver apenas a lua cheia, como um holofote falso no pico do céu, banhando tudo com uma luz branca que deixava tudo muito azulado e triste. Diferente do circo, não havia varal de lâmpadas, nenhum poste do século XXI à vista. As árvores que contornavam a clareira agora pareciam mais planas que antes, pintadas contra alguma parede, simulando profundidade por meio de um jogo de cores. A escuridão que os englobava gerava claustrofobia, como se o mundo estivesse contido numa caixa sufocante. O ar parado indicava o quanto tudo estava estagnado, em suspensão. Não se ouvia as pessoas dentro dos carros, nem respirar, nem o barulho de algum inseto ou pássaro da noite. Um mundo morto, falso...

– Eu não tenho um plano... – DC continuou diante do silêncio de Mônica – Pensei que poderia fazer alguns sinais numa plantação de milho para atrair os Ets e eles nos resgatarem... Mas isso não ia dar certo, aqui não tem uma plantação de milho... Também nenhuma garantia que eles fossem nos abduzir com boas intenções, né? – queria ver um sorrisinho esboçar no rosto triste da namorada, aliviar um pouco a tensão, mas não conseguiu – Percebi então que precisava mais de informações antes de formular um plano que funcionasse. Seria mais fácil conversar com os outros se eu me enturmasse, né? Se eles me vissem como um amigo, me diriam como fazem para ir para outros lugares. Duvido que nesta dimensão o Alexandre possa comprar mais garrafas pro jogo dele. Ele e Hércules estavam tão felizes com o dinheiro, pensei que eles tinham um caminho secreto onde comprar as garrafas... Mas não precisou, eles ainda tem um estoque gigantesco no fundo do furgão... O jogo de cartas só serviu para perder as 20 pratas que eu apostei... O restante mantém a boca fechada, talvez por medo do Sr. Dante... Também, como não teriam? Olha a jaula onde ele pôs você...

Os olhares de ambos se encontraram numa cúmplice troca de carinho e compaixão. DC estendeu a mão até o rosto de Mônica, temendo que ela recuasse ante o gesto. Não havia a raiva de antes. O olhar da jovem refletia vulnerabilidade, a necessidade de acolhimento que muitas vezes ela não transparecia por vergonha de ser fraca. Sob o luar daquela noite, ela até se permitiu ser frágil. Separados pela grade, as mãos dos dois se encontraram. Os dedos se entrelaçaram.

– Agora fazemos parte da atração... – Mônica abaixou a cabeça, um ar um tanto derrotado, nada típico para a garota – Mulher-fera... Será um truque de palco ou uma maldição? – olhando para as mãos no colo, ela se lembrou das garras que estavam ali mais cedo...

DC levou a outra mão livre até o rosto dela para fazer com que Mônica olhasse para ele. Ele não tinha respostas, mas queria confortá-la:

– Se for uma maldição, faço Nimbus dar um jeito... Naquele monte de livros dele deve ter algum que preste... Alguma coisa sobre metamorfose, lobisomem, maldição... E tudo que é feito pode ser desfeito. Se o Nimbus não servir, a Dona Creuzaodete cobra um precinho camarada, não? Se for um rim, eu tenho dois, não tem problema... – Mônica o olhou de volta, como se o perguntasse: “E se não der?” – O que importa agora é voltar para casa, certo? Tenho certeza que todos vão ficar muito felizes quando te virem de volta, mulher-fera ou não.

Mônica sorriu para ele, sentindo o calor da palma dele contra a bochecha. Tão gentil. O brilho no olhar dele guardava alguma esperança, contrariando todas as expectativas. Se estavam presos em uma dimensão mágica, não havia uma saída. O portal que se abriu no palco para que os circenses aparecessem do nada e sumissem de uma vez só no fim do espetáculo era algo que o Sr. Dante controlava. Talvez ninguém mais soubesse deste segredo... Também duvidava que alguém saberia. Não tinha saída a não ser fazer parte do espetáculo...

– Por isso que ele disse que você tinha que estar fora do palco antes que acabasse! – a voz dela saiu mais alto do que deveria, emocionada e cheia de esperanças ao se lembrar das palavras do Sr. Dante – O palco é um portal! O próprio Dante disse que tinham que te tirar antes de acabar o show... Só precisamos arranjar um jeito de escapar no meio da apresentação...

Sorrindo de volta e animado, DC respondeu:

– Sim! O difícil vai ser tapear todo mundo... Talvez se você fugir pelos trapézios, ou pela armação da tenda... Não é uma escalada fácil... Ou na comoção das crianças na arquibancada, você pode se mesclar com eles... Dá para se esconder naquela névoa, aquele gelo seco também vem a calhar... De qualquer forma, você tem que sair do palco antes de terminar o show. – DC decretou, olhando nos olhos da namorada e segurando as mãos dela, que voltou o olhar arregalado para ele – Enquanto você corre o mais rápido que puder, eu distraio o restante, sabe como eu sou bom em criar confusão, né? Eles provavelmente vão focar em pegar você, não eu... Só preciso atrapalhá-los o suficiente para você sair...

– Mas se você não conseguir fugir depois?!

DC deixou escapar um risinho nervoso, Mônica não deu tempo a ele para se explicar.

– Sem chance. Não, esse plano é ruim, DC. Não saio sem você, me entendeu? – encararam-se.

Os olhos castanhos dela brilhavam, ardiam com determinação e sofreguidão. Por mais que quisesse acreditar no plano deles, não podia evitar o medo de que tudo desse errado. Ela não poderia arriscar. A não ser que o plano integral de DC, a parte que ele propositalmente não dizia para ela, incluía ele ficar no circo. Acostumada a ser deixada à deriva e não saber todos passos do plano infalível, Mônica temia que DC não mentira quando disse que queria um lugar no circo maravilhoso... E tudo indicava que o namorado escolhia o lado dos raptores...

– DC, me fala a verdade... – disse encarando profundamente os olhos negros dele – Por que você veio para cá? Você queria se juntar ao circo, não?

– Mô... – DC apertou mais forte as mãos dela, encarando os olhos dela com uma doçura desesperada, vulnerável – Eu só queria te encontrar... Quando eu pulei no palco, tudo que eu queria era te achar. Só pedi trabalho para o Sr. Dante para ficar perto de você... Eu não queria ter te abandonado naquela hora, mas não consegui olhar para você presa, sem saber o que fazer... E se eu dissesse algo errado? Se ele te punisse ou me expulsasse de vez? Eu precisava de respostas antes de fazer qualquer coisa idiota, de te colocar em mais risco... Talvez estar aqui agora seja arriscado demais e até estúpido... Mas eu precisava te ver... Não ia dormir sem antes saber que você estava bem...

A sensação de ter a ponta dos dedos dele acariciando o rosto dela era tão boa, que a consolava pelo menos por alguns segundos. Mônica colocou as mãos no rosto dele, alisando de leve as bochechas. Fazendo com DC a olhasse com doçura e sentisse um pouco de alívio. Aproximou os lábios dos dele aproveitando as brechas da gaiola. Um beijo agridoce, um consolo para aquele momento de angústia.

– Vamos dar um jeito então, DC. A gente consegue.

+++++

Mônica acordou ainda segurando as duas pelúcias. O cacarejar de um galo irrompeu no silêncio daquele amanhecer frio. Teve dificuldade de abrir os olhos ainda pesados de sono. O coração apertou quando ela reconheceu o lugar. Se estavam ainda próximos de casa, não tinha como Mônica saber. Aquele lugar era bizarro demais para fazer sentido. A lua cheia deu lugar a um sol falso, um círculo de mesmo tamanho a iluminar tudo do mesmo ponto, mas sem o calor solar. Os carros estavam todos alinhados à beira da clareira, delimitando o espaço como a arquibancada fizera com o palco. Com a claridade, as árvores mais distantes realmente pareciam desenhadas no fundo e as mais próximas eram tão artificiais quanto eram os pinheiros de plástico do natal. Um cenário construído para criar a ilusão. Sua gaiola não permitia ver longe, também Mônica duvidava que havia algo a mais para além da fronteira que os carros impunham. Não parecia haver mundo além do estacionamento. Que espécie de lugar era aquele? A teoria de uma nova dimensão soava plausível, apesar de maluca...

Devagar começaram alguns ruídos. Pouco a pouco o silêncio dava lugar aos sons de passos contra os pisos de madeira abafados, pessoas mexendo em móveis, portas se abrindo, murmurinhos pouco animados... Novamente o cantar do galo. Onde estava? A primeira a aparecer foi Brunilda, com um sorriso amigável na carranca cansada. Cumprimentou Mônica antes de voltar à cozinha. Depois vieram Golias, a Malabarista e o quarteto cigano-pirata. Foram eles quem estenderam as mesas para servirem a comida. As crianças correram não muito depois, ainda mascaradas, mas fantasias diferentes. Pareciam figuras do mar: um pijama que simulava uma estrela-do-mar; saia de tule com penduricalhos iguais aos braços de uma água-viva; fantasias coloridas de peixinhos brincando com uma bola de acabamento aperolado... Dançavam em roda em volta da jaula de Mônica e cantavam entre risos uma canção que a garota não conseguiu decifrar. Afastaram-se quando Golias chamou a atenção deles.

Um pouco depois viu DC se aproximar junto de Alexandre e Hércules, os gêmeos das garrafas. O rapaz tinha olheiras de quem até tentou dormir, mas não conseguiu pregar os olhos. O motivo era ele ter ficado bastante tempo ao lado dela, segurando sua mão, embora tenha sido arriscado demais permanecer ali. Ele parecia sorrir e rir com os novos amigos, evitando de olhar na direção da namorada. Parecia constrangido de ainda vê-la presa e para disfarçar ele tinha de ignorá-la. Mônica notou como DC agilizou o passo e foi até Brunilda oferecer ajuda com o almoço. Qualquer distração seria bem-vinda. Se bem que ele sempre gostou de cozinhar, afinal o garoto tinha aprendido com sua avó como fazer diversos pratos. Dizia contente que isso ainda o conectava à senhora já falecida... No entanto, não era cedo demais para almoçar? Há pouco ouviram o galo cantar. O sol já estava a pino, se é que em algum momento estivera em outra posição. Tudo indicava o meio do dia, a hora perfeita para a refeição. Concluiu que o tempo passava de uma forma muito peculiar ali. Não era o movimento do sol que ditava a passagem das horas, era algo muito mais caprichoso e aleatório, controlado por uma força sobre-humana: Magia. Se era difícil lidar com magia de mentira, o ilusionismo bobo com o qual Nimbus se atrapalhava todo, enfrentar magia de verdade exigiria muito mais... Talvez não bastasse um plano sólido ou um punhado de sorte, precisariam de um milagre...

A mão do rapaz estendendo um prato de arroz com frutos do mar tirando-a dos pensamentos. O sorriso amigável do namorado suavizou a angústia do coração amargo. Mônica aceitou a comida como um sinal de esperança. Daria tudo certo. Era o que os olhos negros dele diziam para ela. DC afastou-se ligeiro, sentando-se alegre com seus novos amigos. Mônica sentiu um aperto no peito, o ciúme com qual estava acostumada. Sentia-se preterida... A lembrança da noite anterior veio confortá-la: enquanto Mônica insistia em não dormir para pensar em um plano e lutava contra o cansaço pesado sobre os olhos, DC segurava sua mão para que ela sentisse segura. Mesmo que ela o visse quase cerrar os olhos, DC respondia que não estava com sono. Teimoso. Ele sorria ante a acusação dela, sem ter como contra-argumentar. Queriam planejar o escape perfeito, mas nenhum dos dois tinha ideia ou energia para isso. Optaram por um apoiar o outro. O sono vencendo, Mônica nem viu a hora que o rapaz voltou para o carro, mas tinha a certeza que apagou segurando a mão dele.

A última coisa que concordaram foi de procurar o máximo de informações com os circenses. O melhor jeito para se prepararem era saber de antemão o que teria no espetáculo. Entre conversas animadas sobre o que pretendiam fazer naquela noite, DC perguntou se haveria novamente a borboleta-humana, pois ele ficou bem curioso para saber como funcionava a instalação das longas faixas de tecido. Mônica também pensou no fauno e a música da flauta, tão hipnótica e sedutora... Todos riram como se fosse uma velha piada e uma das fadas respondeu que no maravilhoso circo do Sr. Dante não se repetiam os números.

– Toda noite é uma novidade! – declarou uma das crianças.

– Desta vez, vamos ter um mergulho na imaginação. – acrescentou uma outra criança seguida das gargalhadas dos outros.

DC quis insistir no assunto, saber como eles se preparavam para o espetáculo, como ensaiavam... Mas a conversa dispersou para outro lugar. Talvez porque cada um do grupo queria falar sobre um assunto diferente, ou fora proposital dissimulação. Não queriam dar respostas. Até mesmo o grandalhão Golias ria descontraído, sem a carranca intimidadora que o conferia como o guarda-costas. Estavam todos lá, aproveitando aquela manhã tardia. Só o Senhor Dante que não estava presente. Comiam em paz.

De novo, DC aproveitou a brecha para perguntar sobre a organização das barraquinhas, como escolhiam o lugar e quem preparava a comida, já que ele queria ajudar. Brunilda explicou que a comida toda estava pronta, não precisava de ajuda. Hércules ofereceu ao rapaz a função de ajudá-lo e ao irmão com as garrafas.

– Este circo não precisa de mais um palhaço, o Coração já trança muito por lá... – um dos ciganos quem disse.

– Algodão-doce para adoçar a vida, balões para levar para longe... Um sonhador... – completou a cigana, com o olhar vazio e distante...

– Pior que isso só as contações de história do velho. O bom é que ninguém escuta.

– Ué, a língua não se aguenta dentro da boca, né?

De novo, a conversa se dispersou em gargalhadas e planos aleatórios.

Atalanta se gabava de conseguir fazer seu martelo mais pesado na noite anterior colocando nele o peso de mais cinco estrelas. A cigana mostrava para a malabarista o novo lenço com o qual iria dançar, enquanto Madame Medusa reclamava que teria de molhar os cabelos. O violino era posto para teste de um novo arranjo, que o velho com o tapa-olho disse que veio para ele em sonho. O homem que cuidava do túnel do amor, Siegfried, engraxava os sapatos da mulher que ficava frente à casa dos espelhos, Regina, por ter perdido a aposta. As crianças corriam, jogavam bola e entoavam canções. Os acrobatas vestiam collants e tocas cheios de glitter, pareciam roupas de nado sincronizado. Mônica, de pé, reparou na própria roupa: o collant da noite anterior transformou-se em um maiô branco cheio de paetês e pérolas, cujas mangas eram um faixa de organza pregadas para ficarem caídas dos ombros. A saia era repartida e começava das laterais do corpo assim permitindo o livre movimento das pernas. Meia-calça com pequenas bolinhas bordadas e uma sapatilha prateada. Algumas tranças no cabelo enfeitado com pérolas esparsadas. Um colar de diamantes colado no pescoço que não enforcava, mas firme o suficiente para sentir a garganta presa. Ela também fazia parte da apresentação.

Ao recolher o prato dela, DC notou como a namorada estava linda e por alguns segundo ficou sem reação. O olhar maravilhado do rapaz a deixou encabulada, sem saber o que dizer. Alexandre e Hércules foram quem o tiraram do transe, obrigando o rapaz a carregar as garrafas. Seria a oportunidade perfeita de saber como sair daquela dimensão e procurar ajuda, então DC os seguiu sem protestar, mesmo que preferisse ficar na cozinha ou de frente para Mônica. O grupo cigano obedeceu ao pedido de Brunilda para alegrar aquele dia e tocaram uma canção. Golias e Madame Medusa ajudavam a recolher os pratos enquanto as crianças se divertiam. Atalanta seguiu com Siegfried e Regina para reforçar alguns pregos soltos e reposicionar alguns espelhos. O trio acrobata seguiu para pintar o carrossel, porque o dono queria que as cores pasteis fossem neon.... Vai e vem caótico de pessoas...

Próximas da jaula de Mônica, as crianças se puseram a jogar, conversavam alto. A garota escutava atenta, mas sem entender direito:

– É uma pena ter que repetir, fomos tão bem...

– Se não fosse aquele intrometido...

– E vai ser no mesmo lugar? Que droga, queria conhecer a nova Môni...

– Pelo menos vai ser diferente, não gostei nada do pólen. Acho que não sai mais...

– É, você espirrou a noite toda...

– Vamos encontrar pólen pelo menos mais uma semana, pior que glitter...

– E se der errado de novo?

– Então vai ter sido bom enquanto durou, né?

– Desta vez, eu provo um bife acebolado, vai que não vou ter outra chance...

Na mesa, os mais velhos terminavam alguns aperitivos. Bebericavam e fumavam o cigarro. Brunilda terminava de mexer o caldeirão, o cheiro de caramelo para maçãs do amor. A cigana ajudava com a embalagem de outros doces, cantarolando uma melodia triste que embalava. Os músicos acompanhavam: o acordeão, o violino, um par de castanholas. Uma flauta distante a soprar triste... Parecia uma despedida. Todos já haviam percebido.

– Não há nada que se possa fazer em relação ao inevitável. – decretou Brunilda, cabisbaixa a mergulhar as maçãs.

Entre um acorde baixo e outro, um atreveu-se a perguntar se não deveriam comemorar o descanso, focar em agradecer o que foi bom. Uma repreensão do olhar de quem sentiria saudades e, portanto, apegava-se ao que tinha. O fim seria a chance de recomeço, alguém mais otimista disse.

– A vida depende do senhor das marionetes, afinal é ele quem anima as cordas. E quem é de papel, tem de aceitar o rumo que lhe dá o escritor... – Golias, terminando de secar os pratos, disse solene.

– Então deixa eu fumar meu último cigarro… – um dos ciganos disse, tirando do bolso um cilindro, sob a recriminação de uns.

De novo, ficou-se um silêncio entre eles. Só era possível escutar as brincadeiras infantis, o trabalho distante de uns e outros. O martelar de um prego, pincéis em baldes de tintas, a bola batendo de mão em mão. Vagarosamente vinha o dono do circo: vestido de um paletó cor azul petróleo no tecido furta-cor, a bengala de marfim, a cartola preta com uma faixa do mesmo tecido, sapatos de verniz escuro. O mico no ombro. À medida que se aproximava do carro, os outros sentiam o dever de terminar as tarefas pendentes, logo iria começar o novo espetáculo. Guardaram a mesa e as cadeiras, logo foram cada um para seu devido canto. Ali, só restaram Brunilda e o Sr. Dante. Ele se sentou no balcão dela, ao lado das maçãs finalizadas com o caramelo vermelho. Sem perguntar, a velha entregou a ele uma maçã. Então tirou do bolso do paletó um canivete e cortou pedaços para dar ao mico. Observava distante o andamento das coisas do circo.

– Não precisa ser muito inteligente para saber que eles querem fugir, não? – alfinetou Brunilda, mexendo o caramelo e afogando as maçãs.

– Não.

– Nem é preciso espiá-los. – ambos sabiam que ela se referia aos bichinhos de pelúcia.

– Você acha que eu não quero me preparar para o plano deles? Saber com antecedência é uma vantagem e tanto. – Dante virou-se para ela e sorriu cínico.

– Por isso você veio a mim, quer saber o que eu vejo no caldeirão.

– Se não for pedir muito... – ainda sorria, agora mais gentil e desarmado.

– Você sabe que uma hora vai chegar ao fim. É inevitável que acabe...

– Por que ela? – o sorriso caiu, perguntou virando o corpo todo novamente, criando uma barreira entre ele e a mulher.

– Não é ela, querido, você bem sabe. É ele quem te mostra alguém que você tenta esquecer todo espetáculo, ele joga na sua cara a verdade. Você não tem o direito de ser tão egoísta e ser vítima não absolve as atrocidades que você escolhe fazer.

– Cruel.

– Nada que você já não saiba, querido.

O Sr. Dante olhava para o nada, oferecendo mais um pedaço de maçã ao mico.

– Por um segundo, parecia ela...

Pausaram um pouco, refletindo nas palavras dele.

– As linhas cronológicas se coincidiram desta vez. – a voz de Brunilda era gentil e consoladora, como se quisesse amenizar a dor – É como se você tivesse a chance de voltar no tempo, de mudar o rumo do que te aconteceu...

A bruxa aproximou-se dele, pousou a mão enrugada no ombro do velho, que recuou. Num movimento de supetão, Dante pôs-se de pé e de costas para ela.

– O preço do altruísmo, o herói trágico... Não combinam comigo.

Brunilda não respondeu.

– Você sabia que ele queria ficar no circo? Ele me pediu um emprego no maravilhoso circo do Sr. Dante, qualquer coisa... Eu bem que poderia trocar de lugar com ele, sabia? – Dante provocou, ainda de costas, com apenas o rosto virado para ela.

– E isso vai te fazer feliz? – uma pergunta que aos ouvidos dele soaram mais tristes do que precisavam. Ele não respondeu.

++++++

Era noite. No fundo do vagão cheio, ele procurava dormir. De novo, o sonho. Ele estava de volta nos braços dela, por algumas horas. Ele se prometeu nunca mais esquecer seu rosto e a reconheceria não importava como. Mas tinha que admitir que a figura que vinha perturbá-lo em sonho era muito mais vívida e fugaz do que as imagens que ele via acordado, agora carcomidas de uma memória vacilante...

Ele só queria abraçar Mônica... Ouvir a voz dela colada no ouvido dele, depois de traçar com beijos o caminho entre a boca e a linha do maxilar, como ela costumava fazer... A máscara de velho escondia o rosto dele: a caveira do sacrificado, a pele pálida do defunto.

O trato era simples: entregar as almas da plateia invocando-a com a maldita canção, em troca de vê-la mais uma vez. Mas desta vez deu tudo errado. Por quê? Porque era ela! Não, não era... Ele sabia que aquela não era sua Mônica, mas o rosto da jovem era idêntico ao de sua namorada. Era a versão mais próxima da verdadeira, só que de outra dimensão. Por que então prendê-la se esta não era sua Mônica? Porque ele não conseguia evitar. Não suportaria perdê-la novamente...

Escutar dela palavras rudes e violentas era melhor do que o silêncio de nunca ouvir sua voz. Ver o rosto vermelho e contorcido de raiva era melhor do que nunca mais vê-lo. Talvez aquela seja a única chance de poder estar ao lado dela e ele não conseguia abrir mão da oportunidade. Não é um bom plano, mas ele não podia evitar. Se Mônica se tornasse parte do espetáculo, os dois poderiam ficar juntos para sempre, não? Escondê-la na máscara de um monstro, misturá-la às outras criaturas fantásticas seria o único jeito de não ficar mais longe dela, seria o mais próximo que chegaria do seu objetivo. Dante sabia que jamais poderia voltar. A Mônica que ele conhecia e amava jamais o aceitaria depois daquilo tudo. Jamais. Ela nunca o perdoaria. O namorado que ela amava não era um assassino da Serpente, ele não entregaria almas para as trevas. Ela nunca o compreenderia, ou o perdoaria. Mas ele precisava fazer isso se quisesse vê-la novamente. E ele não poderia parar. Afinal, aquela não era a sua Mônica.

De olhos fechados, os sonhos o levavam sempre às mesmas cenas: um lembrete, um pacto, a obrigação de nunca se esquecer. Ele então via Mônica voltar de Sococó da Ema, de correr para seus braços feito menina, sentia novamente a namorada apertá-lo como se estivesse aliviada, mas ainda com medo... De quê? Ela nunca disse. Ele também não se lembrava do que tinha dito para consolá-la, mas Mônica sorriu e o beijou, mais calma. Os dias passaram, o quarteto inseparável se desmanchou. Ele perguntou à namorada o motivo, mas ela não quis falar. As coisas mudaram, dizia apertando mais forte a mão dele, trêmula. Ele perguntava o que havia acontecido, Mônica evitava o assunto. O olhar de Cebola sob o casal havia transformado, ele não sabia exatamente em quê. Cascão tinha se afastado, paranoico. Magali tinha se tornado muito mais taciturna. Liga para eles, vocês ainda são amigos, não? Lembrava de ter dito a ela isso tantas vezes... O conselho dele não servia para nada. Mônica era teimosa e quando não queria fazer alguma coisa, nada a obrigaria... Ela não queria mais ouvir o nome do Cebola, nem dos outros amigos. Mônica se segurou nele como a tábua de salvação. Ele tinha aceitado os termos da namorada, afinal era impossível discutir com ela, jamais poderia contrariá-la. Magali, sua melhor amiga, tinha se isolado em terras distantes, inalcançável. Cascão tinha tomado o lado maligno do tio e sentiu que deveria ser também governante de qualquer coisa... As máscaras de violência que eles vestiram tomaram conta de seus corações a ponto de corromperem seus melhores amigos, explicou Cebola.

Sim, tinha sido o Cebola quem o procurou. Queria fazer as pazes com Mônica, mas conhecia a cabeça dura da garota. Foi tolice, ou seu coração fora bondoso demais para perceber o plano maligno daquela coisa que voltou no lugar do garoto que conhecia desde pequeno. Cebola nunca aceitou perdê-la. Para ele, Mônica era um troféu, posse, um objeto que lhe pertencia por direito divino, inevitável. E o Do Contra era só um problema, um ladrão do seu destino, um empecilho... No entanto, acreditou na proposta gentil de reconciliação, acreditou que Cebola se contentaria somente em estar perto de Mônica, como amigo... Aceitou encontrar o antigo rival, discutir um jeito de reconciliar os quatro. Ele sorria. Por deus, só um monstro para sorrir daquele jeito sabendo o que estava prestes a fazer. Veneno. Uma dose insuficiente para matar, o bastante para que ele desmaiasse.

Acordou segundos antes do pacto, amarrado ao chão, luzes de velas em volta de uma escuridão lamacenta. Seria pedir demais para que se lembrasse do que Cebola exigiu em troca de sua alma. A escuridão o tomou como se ela fosse feita de graxa densa e tivesse braços tão fortes quanto os da própria Mônica. Um abraço sufocante que reduzia seu corpo a nada, enquanto seu sangue se convertia em graxa e mesclava-se às fitas que o continham. A sensação terrível de seus pulmões queimando enquanto ele gritava sem conseguir emitir um som sequer, desesperado, perdido... Nenhuma morte teria sido tão cruel. Envolvido por algo quase líquido, mas denso, Do Contra não sentia mais o próprio corpo, ainda que tudo enviasse sinais elétricos de dor para dentro de seu crânio... Tentava levar as mãos até a cabeça, mas não tinha mais braços... Seu corpo disforme, sem contornos, ainda era suficientemente seu para arder e doer. A Serpente o abraçou. Sua voz era doce a ponto de embalar, mas estrondosa o bastante para preencher todo o vazio da escuridão. Escutou febril a voz apossar-se do interior de sua mente, vibrando em cada um de seus ossos, dominando todos seus pensamentos:

– Você agora me pertence, cordeirinho. Se você for obediente, seremos bons amigos e você verá como sou benevolente e útil para meus amigos. Porém se você for travesso, ousado ou bobo, dou-te um aviso amigo: não se atreva a tanto...

– Por favor... – a voz sufocada ecoou naquela escuridão palpável e dilacerante...

– Oh, sim, implore, façamos um acordo, meu fantoche, peça o que você quiser...

– Viver... – as lágrimas queimavam num rosto que nem parecia mais seu, tomado pela densa e sufocante treva – Preciso... Voltar para ela...

A Serpente riu satisfeita. Não, o pior que ela pode fazer não é matá-lo. O pior que a Serpente pode fazer é ser generosa e dar exatamente o que lhe for pedido pedir, ou quase isso – a interpretação vai depender da boa vontade dela. E como ela foi tão boazinha, vai pedir em troca qualquer coisa que ela quiser. Um preço alto. Afinal, o que ela mais quer é sangue, gritos, lágrimas, dor... Almas. Vidas. Inocentes ou não. Vítimas presas na armadilha, como insetos na teia para a aranha devorar. O inevitável reencontro. Até vê-la e perdê-la. De novo, e de novo. Voltar para casa? Jamais. Revê-la? Nunca é de fato ela... Mesmo que na plateia ele veja o sorriso radiante dela, os olhos castanhos vívidos, é apenas um vislumbre de alguém conhecido e tão amado, porém insuportavelmente insubstituível. Nunca mais seus beijos, ou abraços. Nunca o aconchego ou a paz. Dante sabia que era um peão descartável que tinha a sorte de ainda estar em jogo. E por mais que ele quisesse desistir, insistia. Precisava insistir, nadar, bater os braços o mais forte que pudesse para não afundar, porque a força do seu desespero era movida por uma esperança cruel e indestrutível: um dia ele finalmente voltaria para sua casa, iria vê-la e tudo que ele fez de errado parecerá então perdoável, justificável, porque finalmente ele poderá abraçá-la. Mas esse dia nunca chega, porque a Serpente é sua amiga, mas ela não é boa.

Ele acorda, como sempre, no vagão do circo. Do lado de fora, o carcarejar de um galo anunciando uma manhã tipicamente teatral... Em volta, bugigangas, penduricalhos, inúmeras distrações coloridas em cima de sua cabeça para afastá-lo dos pensamentos, da saudade. O ambiente de fora é menos claustrofóbico que sua mente. Mesmo que ele feche os olhos, Dante não volta para ela. Um sonho por noite. Um bálsamo? Não, uma droga para que ele sinta naquela dose a necessidade de continuar, ainda que a recompensa não justifique o tamanho do sacrifício. No êxtase de revê-la e sentir novamente os abraços dela, Dante quase não sente o peso da culpa, nenhum remorso. O consolo do amor dela o absolveria dos crimes, o faria esquecer tudo... Voltar à realidade era ainda mais difícil, mas tinha um dever a cumprir. Colocou então sua melhor máscara: um sorriso. Estava pronto para o espetáculo daquela noite.

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Assim que se afastou de Brunilda, o Sr. Dante foi até o meio do terreno, convocou a todos com a batida da bengala. Estavam todos a postos quando a fumaça gélida começou a rondar o terreno circular. Mônica, ainda enjaulada, procurava entender o que estava acontecendo. O holofote o qual achava ser o sol foi diminuindo de intensidade, banhando o mundo todo de sombra. A névoa cada vez mais densa cobria tudo até que a escuridão engoliu a todos. Era hora do show.

Notas finais
Ficou muito dramático? A revelação muito óbvia? Este é meu capítulo favorito, espero que tenham gostado ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.