Dias cinzentos e chuvosos são templos do que já passou.

O que passou traz melancolia, saudade, tristeza. Olhou para cima, para o céu, sentiu seu rosto agredido pelos grossos pingos de chuva.

Lágrimas na chuva não são perdidas. São apenas feitas para apenas os mais observadores perceberem.

Sentia um vazio, e não sabia se era saudade do passado ou ânsia de futuro. Queria poder congelar o tempo.

Era tudo tão estranho... Hoje, eram pessoas que não parecem pessoas, que não querem parecer pessoas. Sentia medo, insegurança, e ainda assim uma insistente teimosia em desejar o passado, ou um futuro, melhor.

Uma contradição ambulante, que não era dele, o acompanhava onde fosse. Era um sentimento de falsidade, a anti-sinceridade encarnada, e o perseguia.

E ele não sabia o que fazer.

Lágrimas na chuva não são lágrimas perdidas. São lágrimas diluídas.

Era tudo muito estranho e ruim. As pessoas, absurdo!, não queriam sequer ser. Conformavam-se com o estar e, quando muito, com o ficar. Mas não havia bom local, e ficar e estar refletiam, assim, apenas um certo conformismo doloroso com o que não merece.

Sabia, ao seu redor, só havia admiração pelo que não é. Pelo que finge ser. Pelo que sorri com mais falsidade.

A diversão de plástico plastificava sua vida; Mas ele preferia assim, ela de fora só o plastificaria externamente, o que é infinitamente melhor que o ser de dentro pra fora, como os outros.

Ele tinha a ousadia de achar-se diferente. A arrogância de achar-se melhor. De crer que só ele pensava.

E arrogante e orgulhoso, preferia o ser do que render-se ao “sistema”.

E reprimiam sua arrogância pedindo-lhe humildade, seu orgulho pedindo-lhe bom-senso.

E ele não sabia.

Queria apenas lágrimas, mesmo que fossem na chuva, diluídas, perdidas ou encontradas por uma pessoa observadora tão esperada.

Mas, arrogante e orgulhoso, preferia isso à ver-se vazio.

Sua consciência, essa sim, sua senhora, o massacrava; Dias chuvosos são o templo de consciências pesadas, do futuro incerto, do presente doloroso, do passado perdido.