Cinza.
1 A cor que os definia era a mesma.
Notas iniciais
Draco Malfoy sempre gostou de definir pessoas por cores. Ele nunca soube quando essa necessidade começou, mas, assim que seus anos letivos na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts seu amor se passou para uma obsessão irritante. Seus amigos não mencionavam cores ao seu redor, pelo simples fato de Draco saber de absolutamente tudo sobre o assunto. Cores o encantavam principalmente saber que cada uma representava uma personalidade, por mais que ele nunca soubesse qual cor ele mesmo seria. Talvez um elegante prateado, ou o verde musgo, dignos de um sonserino.
— Draco! — exclamara sua colega de casa, Pansy, com sua cara de buldogue aparecendo bem em sua frente. Estavam sentados, ele e seu grupinho, no Três Vassouras, aproveitando a primeira visita a Hogsmeade de seu quinto ano, seu uniforme da Brigada Inquisitorial brilhando em seu peito. — Você está viajando de novo!
Ela fez um biquinho muito infantil, os cabelos em um novo corte ridículo, deixando-a com um rosto ainda mais redondo e assustador. Draco a afastou, encarando a todos os outros alunos que curtiam com seus amigos; alguns rindo, contando histórias, todos parecendo animados. Draco reconheceu alguns rostos...
Luna Lovegood estava sozinha em uma mesa, em um canto nos fundos, com sua revista de cabeça para baixo, óculos bizarros e os cabelos louros sujos caindo em suas costas. Aquela garota era a perfeita definição do roxo: misticismo, espiritualidade. Todos sabiam disso; ela estava sempre falando de coisas improváveis que faziam os alunos encará-la torto, com seus olhos arregalados e incrédulos, sonhadores demais. Ela bebericou sua bebida, acenando para uma garota sentada com um menino em uma mesa próxima a dela.
Ginny Weasley andava saindo com um garoto da Corvinal, e, os dois conversavam sobre algo que Draco pouco ligava. A ruiva parecia entretida em uma história, agitando os braços, um sorriso aberto, mas o corvino só observava seus seios com vontade e puro desejo, calando-a com um beijo intenso, que só deixou a Weasley fêmea fazer uma cara de surpresa misturada com nojo. Pelo que sabia de Ginevra Weasley, ela era o vermelho em pessoa, e, não, aquilo não era uma piada por ela ser ruiva ou coisa parecida. Representava a energia, excitação, amor, paixão. Soube disso assim que batera seus olhos no poema que ela escrevera para Potter em seu primeiro ano em Hogwarts e pelas diversas azarações que ela já havia lançado em sua direção. Já havia ido para a ala hospitalar duas vezes por conta daquela Weasleyzinha.
Falando nos Weasley, aqueles dois gêmeos pivetes haviam acabado de passar pela janela, com seu amiguinho idiota Lino Jordan; os três parecendo animados sobre algo, carregando diversas sacolas misteriosas e presentes da Zonko’s, a loja de logros. Draco tinha uma vaga definição dos gêmeos, Fred e George Weasley: amarelo radiante e um laranja bem claro, daqueles que o faziam sorrir mesmo que quisesse chorar. Aqueles dois seres animados representavam o otimismo e alegria, vitalidade e prosperidade, descontração e calor, o mais puro sucesso, principalmente agora que estavam sempre demonstrando apetrechos para sua loja que estavam trabalhando; “Geminialidades Weasley”. Malfoy virou seu pescoço acompanhando os dois, até que os perdeu de vista, sabendo que os pestinhas em seu último ano estariam arrumando grandes coisas como um show pirotécnico para dar um adeus para Umbrigde, aqueles dois eram cheios de ideias bizarras.
O que esbarrou pelos gêmeos fez Draco rir, enquanto o garoto louro gorducho segurando uma planta bizarra caminhava rapidamente por Hogsmeade, encarando o seu redor em puro desespero. Aquele era Neville Longbottom, cujos pais haviam sido torturados até a loucura pela tia de Draco, Belatriz Lestrange (o sonserino não achava divertido quando seu pai contava a história, rindo e trocava olhares exasperados com sua mãe). Falando daquele grifinório estabanado e traidor de sangue, Malfoy sabia que Longbottom não se passava do marrom: uma cor que poucos observavam com carinho e que tinha seus pontos positivos: integridade, sinceridade, seriedade. Assim era o pobre Longbottom, aos olhos de Malfoy, que mesmo fazendo piadinhas cruéis sobre ele desde que começaram a estudar juntos, conseguia sorrir minimamente quando via que o garoto sabia revirar...
— Draco! — Pansy exclamou desesperada por atenção, mas ele a ignorou, mais uma vez. Havia uma coisa mais interessante para observar: A porta do Três Vassouras se abrira e dali entrou o famoso e querido Trio de Ouro.
Ronald Weasley tagarelava sobre algo, que parecia deixar a sangue-ruim da Granger muito magoada. Ele, assim como a sua irmã mais nova, balançava os braços freneticamente, cheio de expressões engraçadas que fizeram Malfoy cobrir a boca e forçar uma tossida para que Pansy não desconfiasse dele. Ronald seguiu até uma mesa vazia e com seus amigos, tratou de se sentar, os cabelos ruivos muito chamativos entre os três amigos, assim como os fios crespos e feios do cabelo da Granger e os fios bagunçados e “ignoráveis” de Harry Potter. Aquele garoto Weasley era verde, ironicamente falando, já que ele era um grifinório e aquela era a cor principal da Sonserina. Ele, na opinião do Malfoy, representava a sinceridade, esperança e liberdade; o jeito que ele agia pela escola, todo alegre e animado, ou como expressava sua opinião sem medo do que pensariam, era o jeito que Draco gostaria de agir de vez em quando.
Granger então o fez calar a boca com algum argumento seu (Draco e Potter reviraram os olhos ao mesmo tempo) e começou a falar firmemente, com sua expressão séria e determinada depois de pedir três bebidas para o garçom. Hermione Granger, a sangue-ruim que o irritava profundamente era azul, por mais que soubesse ser irritante, era azul: tranquilidade, serenidade e harmonia. Combinava perfeitamente com seus amiguinhos e sempre tinha a resposta certa para tudo. Ela riu e Ronald resmungou, os dois começaram a rebater, por mais que Granger fosse a mais calma entre os dois e Harry Potter os cortou com uma cara irritada.
Ah.
Harry Potter.
A única pessoa com a cor compatível com a de Draco: cinza. Neutralidade; ora em paz, ora isolado. Harry Potter era o inimigo de Draco, e, ao mesmo tempo possuía traços que poderiam envolvê-los em algo ainda mais forte do que uma amizade. Como Draco sabia daquilo? Talvez ele fosse obcecado por Harry Potter de um jeito que Potter nunca seria por ele... Bem, fora aquilo que pensara até começar seu sexto ano na escola de magia.
Com o peso da missão para o Lorde das Trevas em sua mente quase vinte e quatro horas por dia, Draco conseguiu se identificar com vários sentimentos que antes ele nunca nem mesmo pensara em ter. Estava acabado; não comia, não prestava atenção nas aulas, seus amigos haviam se afastado, ele era apenas um ser vagando pelo colégio, apertando sua mochila com os olhos cinzentos grudados em todas as direções, atentos, agitados. Completamente desesperado. Como se esperasse que Você-Sabe-Quem saísse de uma pintura e o matasse logo que o visse.
Estava sufocando sozinho, e, não notou como Potter parecia cada vez mais interessado nele. Sempre rodeando pela sala de aula, os olhos grudados em suas costas durante as refeições: Potter estava realmente ficando pirado. Mesmo namorando Ginny Weasley, sempre rodeado por seus amigos, tendo aulas particulares com Albus Dumbledore, ele não conseguia tirar Draco Malfoy da cabeça.
Daquele jeito, eles se encontravam por corredores, desesperados; verde no cinza, misturando-se em falso ódio, nojo e desinteresse. O que Draco queria era perguntar a Potter como ele aguentava ter o peso de ser O Eleito em seus ombros, todo aquele sentimento ruim o rodeando. O que Harry queria era tirar satisfações com Malfoy, perguntar sobre Voldemort e se ele era um Comensal.
No final daquele sexto ano instável, Draco Malfoy percebeu o motivo de odiar tanto Harry Potter, eram iguais. Depressivos, solitários, eficientes e disfuncionais; com medos parecidos – o medo de falhar. Com desejos parecidos – de proteger aqueles que amava. Potter a seus amigos, Draco a sua família. Encarando-se no espelho, o tom cinza se aprumou.
Harry Potter era corajoso, bom em Quadribol, péssimo em fazer escolhas e sempre imprudente igual à Draco Malfoy, e, por mais diferentes que eles achassem que fossem, a cor que os definia era a mesma. Os dois eram feitos do mais puro cinza.
Notas finais
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