Cinquenta Tons de Tristeza

21 Tentada a aceitar.


Notas iniciais
Gente eu juro que tentei postar sábado, mas é que não deu por causa do feriadão. Peço desculpas pelo atraso. Boa leitura.

Guardo as roupas no Closet com a maior paciência do mundo. Uma paciência que eu nunca tive, algo fingido, tento me acalmar, mas é impossível. Eu estou em um lugar ao qual eu não sou acostumada, e vou ter que me acostumar na marra. Respiro fundo pensando em como vai ser daqui para frente.

E mais uma vez na vida eu me vejo presa nos planos de minha mãe. Uma vez, uma vez eu planejei algo em minha vida, algo que eu realmente precisava. A fuga. Me lembro como se fosse ontem, como se eu ainda estivesse presa naquele lugar. Me lembro do frio, da pouca roupa, do inverno Europeu, da pouca comida, dos tapas, dos telefonemas com ameaças que eu recebia quando me negava a fazer algo, me lembro que no dia em que fugi peguei algo deles. E descobri que eles não escolhiam as garotas de forma avulsa. A única que pegaram realmente por pegar foi Dalila. Ela estava comigo e era bonita, e então eles a levaram, e como ela estava ali apenas por estar eles a mataram quando ela se negou a obedece-los.

No começo eu não entendi, o meu comportamento obviamente era pior do que o dela. E depois que ela foi assassinada eu só piorei. Eu realmente me tornei perigosa, eu fingia que obedecia enquanto os cercava e montava um plano de fuga. E deu certo, eu consegui sair de lá e levar comigo várias das outras garotas.

Mas o que realmente me faz pensar é que eles não escolhem avulsamente. Tem uma espécie de organização para isso. Mas eu não me lembro, eu corri, cai e bati a cabeça e tudo parece um borrão misturado com lembranças da morte de Dalila e outras coisas. Mas eu vou dar um jeito de lembrar. Eu tenho que lembrar. Por Dalila.

– Lia.... – Ouço chamarem meu nome mas não consigo prestar atenção, não consigo me lembrar e sinto meu rosto molhado.

– Lia? – Ouço uma voz grave me chamar e alguém tocar levemente o meu braço e olho em direção a voz que me chamou. Eu sai do Closet sem perceber e me sentei a cama. Ana, Phoebe e Christian estão me olhando. E Christian tocou meu braço levemente para me acordar de meu transe.

– Sim? – Eu pergunto assustada. E toco levemente minha bochecha percebendo que eu deixei uma lágrima solitária escapar.

– Você está bem? – Pergunta Phoebe.

– Sim. – Eu digo confusa.

– Vem, vamos jantar. – Diz Christian se retirando do quarto e nós o seguimos.

Descemos as escadas e eu olho para as minhas unhas dos pés. Sinto uma tontura, mas consigo me manter em pé.

Vamos até a sala de jantar e Teddy chega quando Sra. Taylor está colocando uma torta de bacalhau sobre a mesa.

– Desculpa o atraso. – Ele diz sentando-se ao lado esquerdo de Christian, que está na cabeceira da mesa. Phoebe se senta ao lado de Teddy, Ana senta-se ao lado direito de Christian e eu me sento ao seu lado.

– Está tudo bem Teddy. – Diz Ana e então todos começamos a comer calados. Phoebe e Teddy começam a conversar sobre a semana de esportes que terá na escola e que eles vão competir na maioria.

– Você também vai jogar Lia? – Pergunta Christian me colocando na conversa.

– Eu tenho. Preciso de pontos em Educação Física. – Eu digo e volto a comer.

– E em que esportes você é boa? – Ele pergunta.

– Em qualquer um em que eu possa pegar a bola. Principalmente queimada. – Eu digo me lembrando do rosto de Dani contorcido e dor e seu nariz sangrando, e em seguida me lembro do que ela disse e balanço a cabeça retirando esses pensamentos de minha cabeça.

– Acho que você perderia pontos se jogasse queimada. – Christian diz com humor e eu rio. Pelo menos ele não é tão “Tiozinho” assim.

Terminamos de jantar e eu subo para o quarto. Pego as coisas de Lully que Lian deixou aqui comigo mais cedo e vou até a garagem colocar a caminha perto dele. Lully está deitado sobre o tapete e vejo que a sua bacia de comida está vazia. Não é à toa o fato de ele ser tão gordinho.

– Lully, vem cá. – Eu digo e ele anda até onde eu estou abaixada.

Coloco a cesta com as várias almofadas com desenhos de ossinhos onde ele dorme no chão sobre o tapete e o deito na caminha dele. Passo a mão em sua cabecinha e faço carinho nas orelhas. O pego no colo e saio andando com ele em uma mão e a caixinha de areia na outra.

Saio da garagem fazendo ele passar por aquela pequena entradinha para cachorros próxima ao chão e ele passa, em seguida o levo até a parte de trás da casa e o ensino onde está a sua caixinha de areia.

Volto para a casa e vou diretamente para o meu quarto. Fecho a porta atrás de min e olho para o cômodo bonito e ao mesmo tempo sem graça para min. Antes no meu outro quarto eu podia colocar o que eu quisesse, fazer um grande buraco na parede e pendurar um espelho de duzentos anos se eu tivesse vontade. Mas aqui, eu não tenho nada para me distrair. A televisão, é só uma televisão. Sem videogame.

Entro no banheiro e começo a encher a banheira. Em seguida coloco meu celular no chão ao lado da banheira e começo a tirar a roupa e prendo os meus cabelos em um coque alto.

Entro na banheira e dou um suspiro longo. Essa agua quente é extremamente relaxante. Me lembro que eu adorava tomar banho de banheira com Dalila pois ela sempre massageava os meus pés. Bom, eu adorava fazer qualquer coisa com Dalila. E ela só era chata quando tentava me impedir de entrar em uma briga ou algo assim, mas nós sempre superávamos. Sorrio me lembrando de seus sermões. Eu sinceramente não sei quem era pior, Dali, mamãe ou Tom. Se bem que as broncas de Tom eram mais diretas e as únicas que eu realmente dava atenção. Mamãe sempre falou demais e dá exemplos de sua vida. E eu nunca me importei com o que acontece com os outros, pelo menos não muito. Ouço meu celular tocar e o atendo sem nem olhar o identificador de chamadas.

– Srta. Hertness.

– Sou eu, Nik. – Ele diz com aquela voz que mais ninguém tem e eu sorrio.

– Não precisava dizer que era você. – Eu digo sorrindo.

– Não? – Ele pergunta confuso.

– Nik, a sua voz é inigualável. – Eu digo.

– Obrigado. E se me permite dizer a senhorita também tem uma linda voz. – Ele diz e eu dobro os dedos dos pés e me sinto de um certo modo sem graça.

– Então por que me ligou? – Pergunto querendo mudar de assunto.

– Que horas tenho que te buscar amanhã para você ir para a escola? – Ele pergunta e eu reviro os olhos.

– Você me liga para perguntar sobre coisas ruins.... – Eu digo e ele dá uma risadinha. – Escola. – Eu digo e dou um suspiro.

– Vamos lá Lia! É só a escola. – Ele como se estivesse me estimulando a escalar uma parede de pedra e eu rio.

– As sete e meia. – Eu digo.

– Está bem, boa noite. – Ele diz.

– Boa noite Nik. – Eu digo e desligo.

Saio da banheira e coloco um baby-doll rosa e me deito na cama sob o edredom planejando ter uma perfeita noite de sono.

**********

Acordo mais uma vez e olho em volta. Onde estou? Ah sim, a casa dos Greys. É a sexta vez que acordo essa noite, não dormi nada e estou um pouco tonta.

Passo a mão embaixo do travesseiro e pego o meu celular. Cinco da manhã, desisto de tentar dormir e levanto da cama. Pego a minha bolsa me lembrando do envelope pardo que Jéssica deixou dentro dela e o pego.

Pego os papéis presentes no envelope e vejo que se trata de um contrato. Mas um contrato para que? Começo a ler e vejo que se trata de trabalho.

É um contrato para eu fazer propagandas de lojas de roupas e perfumes. Pelo fato de eu ser pequena a agência não estava contratada em me ter para desfilar. Mas sim para pousar. Depois de ler a proposta vejo que no final tem um telefone para entrar em contato com a agência, e que o salário será de acordo com os tipos de propagando que irei fazer. Eu sinceramente fico tentada em aceitar, mas não sei se é bom criar uma imagem pública agora. Ainda mais pelo fato de que Jared aparentemente está atrás de min.

Era só o que me faltava. Não quero que ele me ache, pois Nik é legal e eu gostei de ter ficado com ele. Sorrio me lembrando que ontem acordei deitada sobre as suas costas e ele estava de bruços nu embaixo do meu corpo.

Guardo o contrato dentro do envelope e o coloco em minha bolsa. Arrumo a cama e sento-me sobre ela e pego minha bolsa e a viro de cabeça para baixo despejando todos os meus pertences ali presentes sobre a cama.

Pego meu notebook e o tablete e os deixo separados dos outros itens. Pego todos os itens de maquiagem e começo a separá-los afim de guardá-los no banheiro mais tarde. Vejo um papel branco e o pego, é uma foto. Não consigo deixar de sorrir ao ver uma foto minha com Cam e Dalila. Estamos os três bêbados e sorrindo como loucos. Nos abraçamos como sempre fazíamos, Cam estava no meio já que ele sempre servia de apoio para nós duas. Sempre achei curioso o fato de ele ficar extremamente bêbado e só começar a cambalear e falar errado quando já estávamos dentro de casa. Era como se o lado super-protetor dele agisse no piloto automático.

Não entendo por que sempre que estava bêbada ele ficava tão cavalheiro comigo se eu era a única que não cambaleava. Eu não relaxava, então a bebida não tomava conta de meu corpo cem por cento. Mas Dalila quase nunca ficava bêbada, mas quando ficava era uma coisa engraçada de se presenciar.

Passo a mão sobre o seu belo rosto e sorrio. Ela teria uma ótima vida, um futuro brilhante. Era uma garota extremamente inteligente e doce, e os seus conselhos são os melhores que recebi até hoje. Sinto falta dela, e de não ter a ajuda dela.

**********

Tomo café da manhã com os Greys coloco comida para o Lully e saio da casa dos Greys as sete e vinte em ponto para esperar Nik.

– Quer uma carona? – Pergunta Christian que para o carro e me pergunta.

– Não, um amigo vem me buscar. – Eu digo e ele franze a testa para min. Oh não, ele não está pensando que eu sou Phoebe.

– Um amigo? – Ele pergunta desconfiado. – É seguro?

– É seguro sim. O Nik me ajuda com esse negócio de proteção. – Eu digo.

– Nik.... Eu gostaria de conversar com ele depois. – Ele diz.

– Ta bom. Eu falo para ele vir conversar com você. – Eu digo e dou de ombros.

– Tudo bem. Até mais. – Ele diz.

– Até mais. Boa sorte no trabalho. – E digo e aceno enquanto ele faz o carro voltar a se movimentar e sai da casa.

Depois de cinco minutos que Christian sai Nik chega e eu entro no carro antes que ele possa dar a volta para abrir a porta para eu entrar.

– E então está preparada para ir até aquele maravilhoso lugar de aprendizado? – Ele pergunta tirando sarro de min.

– Ai Nik eu acho que vou me jogar pela janela se você começar a me sacanear. – Eu digo dramática.

– Não reclama. Eu estudei em escola militar dos doze anos até os dezoito, e então fui para o exército. – Ele diz e eu fico calada por alguns minutos.

– Nik, você volta a trabalhar no exército quando? – Pergunto.

– Nunca. Agora eu sou aposentado. – Ele diz sério.

– Aposentado mesmo? – Pergunto.

– É.... – Ele sussurra.

– Então você não pode trabalha recebe um salário? – Pergunto.

– Exato. – Ele diz e posso ver dentro de seus olhos que isso não o agrada.

– Eu sinto muito por você não poder voltar para o exército. – Eu digo.

– É mais seguro Lia. E é melhor eu me conformar. – Ele diz e para o carro no estacionamento da escola.

– Até as quatro horas. – Eu digo e lhe lanço um pequeno sorriso.

– Vem cá. – Ele diz e abre os braços. Vou em sua direção sem pensar duas vezes e o beijo. Ele coloca a língua em minha boca e em vez de batalharmos dançamos. Dançamos a dança das tristezas, somos duas pessoas que já sofreram e que ainda sofrem e infelizmente sempre vão sofrer. Nos separamos em busca de ar e eu respiro fundo.

– Você está me atrasando Nik. Eu tenho que ir. – Eu digo lhe dou um selinho e saio do quarto.

Ando até o portão da escola entrando naquele maldito lugar. Mas fazer o que né...

Entro na sala e me sento em frente à mesa do professor. Todos me olham surpresos, normalmente eu me sento na última carteira e fico olhando para frente como um zumbi, mas hoje não estou tão desanimada assim. O professor de Biologia entra na sala e todos se calam.

– Lia, resolveu se sentar mais à frente. Espero que isso te ajude. – Ele diz e eu continuo a encará-lo sem expressão.

– Bom, semana que vem temos o Interclasse que não vai ser na escola. Os pais vão assistir e vocês vão separados dos pais. Eu como professor conselheiro de vocês espero que vocês sejam vitoriosos. – Ele diz e a turma começa a fazer barulho atrás de min. Adolescentes patéticos.

**********

Saio da escola as quatro horas e estou cansada. Tão cansada que não tirei a roupa de balé, e não pretendo tirar tão cedo.

Nik está me esperando do lado de fora do Cadillac e eu sorrio para ele de longe.

– Você fica fofa com essa roupa. – Ele diz e sorri para min.

– Legal. Vamos. – Eu digo e ele abre a porta para min.

**********

– Pronto chegamos. – Diz Nik.

– Ta, até amanhã. – Eu digo e pego minha bolsa e quando estou prestes a sair do carro Nik segura o meu braço.

– O que você tem? – Ele pergunta.

– Não sei. Não estou me sentindo muito bem. Deve ser a mudança, e eu não dormi direito. – Eu digo e ele assente.

– Eles são legais com você? – Ele pergunta.

– São. Mas eu não os conheço direito. – Eu digo.

– Ta, eu vou deixar você ir descansar. – Ele diz. Me inclino sobre o banco e dou um selinho nele.

– Até mais tarde. – Eu digo.

– Mais tarde? – Ele pergunta confuso.

– Ué, eu não posso ligar para você? – Pergunto e ele revira os olhos.

– A partir de hoje você está proibida de me ligar. – Ele diz com humor e eu rio.

– Ta, tchau. – Eu digo, e lhe dou outro selinho e saio do carro e entro na casa.

Notas finais
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