Cinquenta Tons De Vermelho
6 Capítulo 6: Memórias I (parte I)
Notas iniciais
Tenho duas notícias, uma boa e uma ruim:
Começando pela ruim, vou ter duas semanas de provas e trabalhos de última hora (de vinte páginas cada trabalho), então vou ficar esse tempo todo sem postar. Mas, para compensar, fiz um capítulo bem longo para não sentirem tanta saudade assim da minha pessoa.
A boa é que depois disso entro de férias, então, provavelmente estarei mais do que livre para continuar a escrever até que vocês enjoem de mim.
Este capítulo foi inspirado num doushinji (mangá independente) que achei num site, mas eu dei uma inventada também (tipo, muita). A maioria dos doushinjis são publicados na net em japonês, sem nenhuma tradução para o inglês, mas esse encontrei traduzido. É uma série de historinhas da infância e adolescência da Integra, eu já estava pensando em algo do tipo, contando o início de seu relacionamento com Alucard.
Contudo, como fiquei (muito) exaltada em retratar a infância dela, este capítulo foi divido em dois. E eu não vou postar o resto hoje pois estou SUPER atarefada. Tentarei fazer isso até esse domingo à noite.
OK?
Beijinhos e obrigada para quem comenta!
P.S.:Espero que esta primeira parte não tenha palavras comidas (acho que engordei uns dois quilos por causa disso, mas não tem problemas, eu tô precisando mesmo ^^. Aceito doações de gordura!). Um obrigada especial e um beijo e um queijo para Nirve (sua linda! antes de mais nada,não sou lésbica, tá?), que me alertou sobre este probleminha!!
Alucard despertou cedo de seu sono profundo. Estava muito cansado, na noite anterior passou horas exterminando centenas de ghouls até achar o vampiro. Mas mesmo assim faria de tudo para ver sua preciosa, gentil e delicada mestra.
A menina Integra chegaria da escola a qualquer minuto e ele deveria estar arrumado para recebê-la.
Trocou rapidamente o pijama simples, listrado azul e branco, que ganhou dela depois de uma semana morando juntos. Até pensou em tentar esclarecer que preferia dormir nu, mas ela tinha nove anos e provavelmente ficaria curiosa sobre isso. Melhor não por sua sanidade à prova logo após despertar de uma letargia de anos.
A garota entrou correndo pela sala, quase escorregando no chão que tinha acabado de ser encerado. Alucard a esperava no hall de braços abertos, ela gostava muito dele mesmo sendo um vampiro, provavelmente por tê-la salvo da morte.
Abraçou-o forte, sua cabeça batendo no quadril de seu servo, ele devolveu o aperto. Se fosse sua concubina, Alucard provavelmente a faria lhe felar ali mesmo, sem se importar com a presença de empregados. Já tinha tomado garotinhas mais novas e feito esse tipo de coisa com elas sem nenhum problema de consciência, todavia parecia-lhe improvável e até reprovável fazer esse tipo de coisa com ela. Não por adorá-lo, todas as suas “princesinhas” (era assim que ele chamava as meninas abaixo de dezesseis anos que se tornavam suas amantes) depois de certa idade passavam a adorava-lo tanto quanto ou mais do que ela o fazia. Tinha a hipótese de que talvez fosse o laço de servidão que o impedia.
Se Arthur estivesse vivo isso não aconteceria, e Alucard poderia começar a procura-la quando crescesse. Ou incitá-la a procura-lo.
Desde que foi desperto pelo sangue de Integra começou a deseja-la, fantasiando sobre seu corpo infantil. Ainda que não fosse pelo sangue dela, mesmo que tivesse sido acordado pelo sangue de Richard, ainda a desejaria. Disso tinha certeza. A maioria de seus relacionamentos com suas princesinhas tinham começado com um desejo assim, mesmo não tomando o precioso líquido delas. Fazia quanto tempo que não tomava uma garotinha daquela idade? Duzentos, duzentos e cinquenta anos? Talvez o desejo fosse desenvolvido por isso, por sentir falta de mãozinhas explorando seu corpo e lhe trazendo satisfação.
Ela se soltou, contudo ele não queria deixa-la ir. Pegou-a no colo, apesar de ser considerada uma menina muito grande para isso, e a carregou como se tivesse dois ou três anos, usando seu braço direito como cadeirinha para ela. Apanhou a mochila vermelha e foi conversando sobre o que tinha acontecido na escola. Adorava aquela vozinha empolgada.
Entrou na biblioteca e pôs em seu colo, observando-a contar sobre seu dia e como um aluno da sua classe passou mal na sala de aula e vomitou no vestido meio hippie meio oompa loompa da professora.
Ele realmente não se importava se a professora quase vomitou também ou se alguém escorregou e caiu com tudo, apenas gostava de ouvi-la falar. Prestava muita atenção no que ela dizia, mas mais ainda em seus lábios, suas mãos, seus gestos e na ereção que estava tendo. Desde que saiu do cativeiro otomano começou a ter fortes impulsos por crianças. Mais especificamente por meninas.
Tentou se relacionar com meninos secretamente enquanto ainda estava no comando do exército, entretanto mesmo tendo pouca diferenciação entre um sexo e outro nessa idade descobriu que gostava apenas de meninas. Gostava de ter relações com elas. Não as forçava, mas as induzia com seus poderes. Preferia meninas mais velhas, a partir de sete anos, diferentemente de seus soldados, que gostavam das de cinco. Aquilo era normal no fim da Idade Média, começo da Idade Moderna.
Não havia sequer Direitos Humanos, muito menos direitos das crianças. E nem que houvesse seriam respeitados. Aquilo era uma guerra afinal. Muita gente morria, era torturada, abusada. Principalmente crianças. Nem bebês eram poupados.
Muitos meninos foram violados por seus homens, grande parte até o fim de seus dias, lá pelo fim da adolescência, quando os soldados reclamavam que era contra a lei de Deus um homem se relacionar sexualmente com outro. Hipócritas. Era isso o que Alucard pensava deles. Tinham mulheres em casa, namoradas, noivas, esposas, com quem poderiam dar “escapadinha” dos olhares inquisitivos dos outros no meio do feno num estábulo qualquer. Todos entenderiam. Principalmente Alucard que era simplesmente fascinado pelo assunto e também praticava esses encontros secretos com sua Elisabeta. Contudo preferiam acabar com a vida de garotinhos em seus quartos com seus companheiros de batalhão, ouvirem muitos chorarem e chamarem pela mãe ou por Deus. Ou os dois.
Suas princesinhas não eram tratadas assim. Apesar de ele saber muito bem que aquilo estava errado e que não estava fazendo muito diferente de seus soldados, ele sempre as tratou bem. Deu-lhes de tudo: uma boa educação, uma boa moradia, brinquedos e roupas. Atendia às suas demandas, pedidos e manhas, fazendo de tudo para que não tivessem medo dele. Era uma espécie de compensação pelo que fazia com elas.
Todavia elas sempre tinham receio de Alucard por mais bem tratadas que fossem, por mais bem cuidadas que eram. Ele acreditava que era natural teme-lo uma vez que eram defloradas em idade tão tenra, mas quando elas se aproximavam de catorze anos deixavam de ser tão tímidas e passavam até a deseja-lo espontaneamente.
O processo de desfazer-se delas era quase sempre doloroso. Tinha se acostumado com elas e não gostava de mudanças repentinas, as amava de um jeito muito especial, pelo menos era o que ele achava, mas elas já estavam ficand o velhas para ele. Tinha de se ocupar em olhar fichas e fichas de pretendentes a maridos de suas pequenas concubinas, procurando por alguém com o mínimo de decência para que não as traíssem, pelo menos não com frequência, e que fosse dar o mínimo de conforto, sempre procurando por alguém que não fosse muito mais velho do que elas. Apesar de não terem sangue azul, eram muito disputadas para camponesas. Esta tarefa tomava-lhe muito tempo e geralmente começava três anos de despedir-se pela última vez.
As que lhe eram mais bem quistas eram as mais difíceis. Passavam horas brincando e se divertindo juntos, tanto no sentido literal quanto figurativo. De cerca de setenta concubinas infantas que teve, ficou com quinze. Dessas quinze, duas morreram de morte morrida e o resto, de morte matada, fosse por aldeões enfurecidos ou por caçadores de vampiros. Isso sem contar Nicoleta, mas ela nunca fora sua amante.
Como sentia falta dela. De certa forma era compensado por Integra, porém ela era muito mais velha do que sua filha quando esta veio a falecer. Além disso, ele tinha ereções por causa da loirinha e não se sentia paternal quando estavam perto. Entretanto fazia o possível para que as pessoas o entendessem como um tutor.
Mas mesmo sendo um ótimo ator, treinado por ninguém menos do que o próprio tempo e lapidado pela necessidade, as pessoas que estavam à sua volta e que, querendo ou não, participavam da vida de sua mestra chamavam-no de pedófilo. Como queria dizer que estavam certas. Era um pedófilo moldado pelas circunstâncias de sua criação. Contaria isso a todo mundo sem hesitar ou sentir remorsos. Se pudesse, é claro.
Integra havia mudado de assunto, agora falava de como a comida de sua escola era horrível, apesar de ser a mais cara de Londres. Lembrar-se-ia de preparar Honey Tarts, Ciorba de Pui, mesmo ela detestando sopa, e pão de forma para ela para o almoço do dia seguinte. A pequena diretora descrevia com animação uma observação sarcástica e muito inteligente que um aluno novo da mesma idade da mestra infanta, transferido da Austrália, tinha feito sobre a higiene da cozinha e a vestimenta de trabalho dos funcionários que serviam a comida.
Era um pequeno prodígio da terra do Crocodilo Dundee, o tal Michael Chase. Estava dois anos adiantado em relação à turma de Integra, mas seus horários, para o tormento de Alucard, coincidiam, então eles tomavam lanche e almoçavam juntos. Desde que ele chegou Integra não parava de falar nisso. Não que Alucard não gostasse que ela tivesse um amiguinho da mesma idade para brincar, já que mesmo ela sendo diretora de uma Organização importante e membro da Távola Redonda, ela era uma criança. O problema era que eles passavam muito tempo juntos e o vampiro tinha ligeira impressão de que o australiano estava se apaixonando por sua mestra.
Isso era imperdoável. Ainda que não o conhecesse, sabia muita coisa a seu respeito e já o odiava. Todavia, como seria possível vigiá-la todo o tempo? Poderia dar a desculpa clássica que deveria proteger sua mestra sempre que possível, mas como?
Olhar para ela e pensar que aqueles doces e imaculados lábios poderiam ser cobertos por outros que não os dele o atormentava. Mas teve o que considerou uma brilhante ideia.
Naquela noite ao invés de sair por aí, ou ir ao Moonlight Club, foi deitar-se em seu caixão e dormiu o tempo todo.
No dia seguinte Integra foi ter com seu guardião. Estava terminando a lição de história e não conseguia resolver uma questão sobre a Guerra dos Cem Anos, pensou então em perguntar a quem viveu nesse período, mesmo que ele não soubesse lá muito bem o que realmente ocorreu.
Como o de esperado ele estava em seu esquife descansando. Ela abriu a pesada tampa e deu um grito e dois passos para trás.
Dentro do ataúde não havia certo vampiro com enormes presas que às vezes se sobressaíam por entre seus gélidos lábios. Havia um menino!
Um menino moreno, com pele alva, feições doces e delicadas e cabelos curtos e aparentemente macios.
Ele levantou e se espreguiçou. Quando percebeu a presença de Integra esfregou os olhos e arrumou o cabelo.
–O que foi mestra? Nunca viu garoto pela manhã?- A voz era muito familiar.
–A-Alucard! Você perdeu seus poderes?!- Ela começou a chorar.
–Não, eu juro que não. Só mudei de forma, “morfei” igual a um Power Ranger. A carapaça mudou, mas o interior não, ainda tenho meus poderes. Todos eles.
–Não, você perdeu seus poderes!
–Eu posso provar que não perdi nenhum!
–Então prove!
Ele tentou sair do esquife, contudo suas roupas estavam grandes demais agora que estava em sua forma infantil e ele escorregou e caiu de cabeça no chão.
–Viu só?! Você perdeu seus poderes, você perdeu seus poderes!- Ela gritou.
–Eu não perdi, só estou sonolento!
–Perdeu sim!
–Dê-me um tempo! Acabei de acordar!
–Alucard perdeu seus poderes! Alucard perdeu seus poderes!
O mordomo Walter surgiu por detrás da porta dos aposentos do sanguessuga trazendo o café-da-manhã da pequenina diretora.
–Sir... Alucard!
–Walter, por acaso você tem alguma roupa que sirva em mim nesta forma?- Tinha esquecido esse pequeno detalhe.
–Sim, eu tenho algumas coisas de Arthur e Richard guardadas que podem caber em você assim, só tenho de medi-lo para ajusta-las. Sir Integra, eu vou pôr seu café na mesa do seu quarto, vá se vestir ou vai se atrasar.
Ela se foi e Walter pegou a fita métrica e mediu o corpo infantil do vampiro.
–Onde arranjou este corpo?
–É meu mesmo. Também já fui criança, embora prefira não lembrar.
–E para onde vai assim?
–Para a escola. — Walter ficou surpreso. A maioria das pessoas detesta a escola e fica muito feliz quando termina ou para de frequentá-la.
–Com Integra?
–Sim. Quero escolta-la nas aulas também, nunca se sabe quando um ghoul vai ataca-la e enquanto ela for criança ainda será tão indefesa quanto uma princesa num castelo de conto-de-fadas.
–E esse ghoul chama-se Michael Chase, por um acaso?
–Não sei. Talvez, por um ACASO, ele se chame sim.
–Alucard, seria bom que ela se relacionasse com pessoas da mesma idade, faça amigos e talvez até arrume um namoradinho. – O vampiro estremeceu de raiva por dentro quando ouviu “namoradinho”. “Eu serei o único com quem ela se envolverá desta maneira!”, ele gritou por dentro. – A infância é uma época muito importante no processo de desenvolvimento de uma pessoa e é importante interagir com pessoas da mesma idade. Se isso não acontecer ela pode se tornar uma pessoa muito isolada da sociedade, e nesse tipo de trabalho isso é algo muito perigoso.
–Eu sei. E é por isso mesmo que não quero que ela vá sozinha. Percebi que as crianças de hoje não recebem a atenção e os cuidados que deveriam e que passam cinco horas num local fechado, sem o livre acesso de seus pais ou responsáveis. Isso as torna um alvo em potencial para vampiros, já que uma única pessoa não consegue cuidar sozinha de uma turma de quarenta moleques o tempo todo. É bem capaz de algum se perder durante um ataque e acabe virando lanche da tarde.
–Alucard, você está morrendo de ciúmes. – O mordomo sibilou.
–Lógico que não. É como você mesmo disse: “A infância é uma época muito importante no processo de desenvolvimento de uma pessoa e é importante interagir com pessoas da mesma idade.”.
–Você está ardendo em ciúmes. – Walter sorriu. Conheciam-se há mais de quarenta anos e Alucard jamais conseguiria enganá-lo de forma tão desesperada.
–É claro que não. Por que eu teria ciúmes?
–Está com inveja de Michael Chase porque ele pode se relacionar com Integra e ninguém dirá coisa alguma a respeito. As pessoas até diriam que eles são uma gracinha de casalzinho. E com você, na sua forma usual, sempre diriam que você é um pedófilo até que ela crescesse.
–Diga e pense o que quiser sobre minha decisão. Mas enquanto faz isso me traga uma muda de roupas.
Alucard tinha conseguido uma identidade, certidão de nascimento e toda a documentação necessária na tarde anterior, quando conheceu Jay, um homem careca no topo da cabeça e com cabelos oleosos que batiam nos ombros e cresciam envolta do aeroporto de mosquito atados num rabo-de-cavalo, era obeso mórbido, daqueles que cheiravam a cerveja e Doritos e vestia uma regata branca encardida e uma cueca samba-canção azul marinho. Jay era um dos poucos ingleses naquela época que sabiam operar um computador com precisão, conhecendo seus hardwares e softwares mais do que os próprios fabricantes.
Aliás, era um dos poucos que tinham um computador. E isso, por si só, era um feito extraordinário. Ele cobrou cento e setenta e cinco libras por toda a documentação e em poucas horas Alucard ganhou um novo nome e uma inspiradora história para completar sua farsa. Agora ele detinha o nome de Jack Sullivan, escolhido por ele mesmo, nascido em Londres, órfão aos cinco anos de idade, era maltratado pelos pais viciados em drogas e foi parar num hospital com ferimentos leves de surra antes de eles morrerem num incêndio acidental causado pelos mesmos, estudou numa escola de nível mediano até que o diretor do orfanato percebeu o quão brilhante ele era e arranjou-lhe uma bolsa de 100% na escola de Integra, já que o orfanato não podia arcar sozinho com as despesas da instituição.
Jay chegou a perguntar para o que era toda aquela documentação, entretanto Alucard foi muito escuso sobre isso e conseguiu se desviar da verdade. O gordo passou a olhá-lo com medo, pensando poder se tratar de um pedófilo que estava prestes a sequestrar uma criança.
Alucard parecia tanto assim com alguém que abusava de moleques?
Bem, isso já não importava mais. Tinha se matriculado por telefone na escola, e, usando seus poderes, providenciou que a secretária que o atendeu o colocasse na mesma sala de aula que Integra. Com sorte se sentaria ao lado dela.
Entrou no carro e se sentou junto de sua mestra, as mochilas dos dois no chão.
–Você vai à escola junto comigo? – Ela perguntou.
–Sim.
–Por quê? Já não terminou os estudos?
–Sim, contudo quero escolta-la em momentos em que estiver muito vulnerável, sozinha e/ou fora de casa.
Ela sorriu alegremente, obviamente acreditando. Walter, que estava no volante, bufou e mordeu o lábio para não rir da ingenuidade da pequena diretora.
–Vai almoçar e tomar o lanche comigo?
–Sim.
–E brincaremos juntos?
–Acho que sim. Não é o que crianças fazem?
Integra concordou com a cabeça, animadíssima com a novidade, mas uma ambulância passou e ela voltou sua atenção ao veículo. “Posso até imaginar você induzindo-a a ‘brincar de médico’ no meio do recreio...” pensou Walter. Alucard leu este pensamento e, como estava sentado atrás do mordomo, chutou com força o banco do motorista. Walter freou bruscamente o automóvel, mas por sorte nenhum veículo vinha atrás e nada de grave aconteceu, todavia a loirinha machucou a cabeça de leve, deixando um filete de sangue escorrendo por entre suas madeixas.
O vampiro limpou o ferimento com seus dedos e lambeu-os, limpando a fronte de sua mestra.
–Está bem? – Ele perguntou.
–Sim, só estou um pouquinho dolorida na testa. – Ela esfregou o local até que a dor passasse.
–Desculpe Sir. Vou tentar ser mais suave nas frenagens. – Disse o mordomo.
–Está tudo bem, Alucard me ajudou a limpar o ferimento.
Integra seguiu falando sobre sua escola sem parar o resto da viagem. O mordomo teve de parar o carro na esquina por causa do intenso movimento de carros na rua da escola. Alucard, ou melhor, Jack desceu e ajudou Integra com suas coisas. Conforme caminhava o casal conquistava olhares de indagação. Todos se perguntavam quem era o rapazinho de cabelos negros que acompanhava uma das meninas mais importantes de todo o Reino Unido.
–Só uma coisinha. – Ele disse. –Me chame de Jack.
–Por quê?
–Por que seria estranho encontrar um garoto de nove anos chamado Alucard, principalmente se ele fosse inglês.
–Mas você não é húngaro ou romeno? Eu não lembro muito bem...
–Prefiro dizer que sou transilvaniano, a minha terra já passou por muitas mãos. Eu consegui uma identidade falsa para me matricular aqui e era mais fácil falsificar uma inglesa do que uma estrangeira. Além disso, já me acostumei aos modos ingleses de modo que para mim é mais fácil me comportar como um inglês típico do que um transilvaniano.
–Oh, mas você vai continuar com essa voz de homem?
–Tinha esquecido totalmente deste detalhe. – Ele limpou a garganta. –E agora? Está melhor? –Ele passou a falar como um garotinho.
–Sim. Você é bom em imitar vozes.
Ele balançou a cabeça.
–Não, só sei fazer esta e a minha usual. Porém estão desenvolvendo equipamentos para que espiões passem a falar de outra maneira, como alguém de outro país, idade ou gênero. Talvez eu adquira um desses.
–Vai ter de me convencer a te deixar comprar um destes.
–Não será muito difícil.
Passaram pelo portão juntos, o que chamou a atenção de quem ainda não tinha visto a jovem diretora acompanhada. A escola lembrava Hogwarts com seus corredores enormes e quadros caríssimos enfeitando as paredes. Tinha um ar de impessoalidade que causava certo desconforto, não só o prédio em si como também os funcionários. Todos estampavam um sorriso dissimulado, lembrando um pouco Jeff The Killer, mas com o carisma do Slenderman.
Uma mulher de cabelos e olhos castanhos no alto de seus quarenta anos, sardenta, muito magra e com seios obviamente falsos e enormes para seu minúsculo corpo se abaixou para falar com Alucard.
–Então você deve ser Jack, o aluno novo, não é? –Ela tinha uma voz estridente, que irritava muito os ouvidos sensíveis do vampiro.
–Sim, sou eu, senhora...
–Hyde, mas pode me chamar de Martha. Eu sou a coordenadora da 1ª à 4ª série.
Alucard estendeu a mão direita.
–Prazer em conhecê-la, senhora Martha. –Eles apertaram as mãos e ela sorriu largamente.
–Vejo que já arranjou uma amiguinha.
–Sim.
–Senhorita Hellsing, se importaria de mostrar onde ficam as coisas para o senhor Sullivan?
Integra levou algum tempo para entender que o senhor Sullivan era Alucard.
–Oh, é claro que não! Venha, vou te mostrar onde ficam as salas de aula.
Ela tomou a mão direita dele e o puxou para um largo corredor.
–Senhor Sullivan, não esqueça de que a diretora quer falar com você hoje na última aula antes do almoço! –Martha Hyde gritou o que quase ensurdeceu o vampiro.
–Tudo bem, senhora Martha! Eu lembrarei! –Ele respondeu.
–Em que sala você caiu, Alu... Er, Jack?
–Na sua. Usei meus poderes para fazer isso. Não adiantaria nada voltar a estudar para poder te proteger e cair numa sala do outro lado da escola.
–Tem razão. –Ela o guiava com a animação que só uma criança tem.
Entraram na sala de aula cheia de trabalhos de arte pendurados no teto e enormes janelas góticas do lado contrário ao da porta, todas tinham cactos ou outros tipos de plantas de baixa manutenção. A lousa verde ocupava quase toda a parede tangente a da porta e tinha letras e números coloridos grudados logo acima, cheios de glitter e purpurina. A sala era toda enfeitada com animais como leão, leopardo, gato, cachorro, rinoceronte, girafa, urso, macaco, foca, leão-marinho, passarinhos e tartarugas com os nomes de cada criança escritos embaixo. Mas nenhum morcego. De certa forma Alucard ficou desapontado.
–Não se preocupe, vai poder escolher um animal na aula de arte e enfeitá-lo do seu jeito. E depois pendurar no teto. –Disse Integra.
–Qual você escolheu? –Ele perguntou.
–Leoa. –Ele riu. Integra estava mais para uma gatinha do que uma leoa. A coitada corou. –E qual você vai escolher?
–Morcego.
–Morcego? Mas é um bicho estranho para um aluno de terceira série escolher!
–“Estranho” não, peculiar, assim como eu. Além disso, não consigo imaginar outro bicho para me representar. É um ser noturno, uma de suas espécies bebe sangue, prefere sair à noite e tem hábitos noturnos, apesar de poder sair durante o dia. E eu também posso me transfigurar em morcego, além de fazer parte das lendas de vampiros.
Integra rolou os olhos.
–Porque não escolhe, sei lá, a lula colossal? Ela também é assustadora, mas é um bicho menos... Peculiar. Ninguém ia falar nada e precisamos de bichos aquáticos, porque nossa sala já está cheia de bichos terrestres. Além disso, duvido que a professora fosse deixar você ficar com o morcego. Ela morre de medo lendas e histórias de terror.
Ele riu.
–Quantos anos ela tem? Cinco?
–Acho que uns trinta e tantos. Mas ela morre de medo do escuro, sei disso porque uma vez acabou a luz no inverno e, mesmo sendo dia, a sala ficou muito escura. Ela se escondeu embaixo da mesa e começou a balançar para frente e para trás segurando os joelhos e dizendo que o Bicho-Papão não existe.
Desta vez eles riram juntos até que seus abdomens doessem.
–Quer ir brincar no pátio? –Ela perguntou.
–Acho melhor você ir brincar com as outras crianças, eu não vejo graça nas brincadeiras de hoje em dia.
Ela tomou as mãos dele.
–Ah, por favor, venha brincar comigo! Você nunca brinca comigo! –Ele sorriu. Tanto pelo contato da pele dele com a dela, quanto pela teimosia de sua nova mestra. Isso, com certeza, deveria ser estimulado em pequenas quantidades.
–Está bem então, mas não diga que eu não avisei.
Deixaram suas mochilas do lado de dentro da sala, perto da porta, e Integra começou a puxar e arrastar Alucard, como se fosse dona de um cachorro que não queria muito visitar o veterinário, até o pátio interno, descoberto e cheio de árvores e arbustos que dificultavam a visão de qualquer um que estivesse observando de fora ou de cima. No geral era um ótimo lugar para brincadeiras mais íntimas quando não houvesse ninguém. O servo sorriu.
Havia um monte de crianças gritando e correndo para todos os lados, com idades que variavam entre seis e dez anos, professoras que fingiam vigiar e monitores que fingiam que sabiam o que estavam fazendo.
Integra pegou uma corda de cerca de dois metros que estava no chão e amarrou numa árvore num canto isolado do resto da criançada.
–Vamos brincar de pular corda, você bate a corda no chão em um movimento circular e eu pulo. Quando eu errar a gente troca, o que acha? –Ela perguntou.
–Faremos o que você quiser.
Eles se posicionaram e começaram a brincar. Depois de cerca de vinte segundos Alucard percebeu que quanto mais alto ela pulava mais a saia que ela estava vestindo subia, então ele passou a bater mais rápido. De que cor seria a calcinha que ela estava usando?
A saia, cujo comprimento original era até a metade da perna, passou a bater logo abaixo joelho, depois logo acima, depois no meio da coxa e depois um pouco abaixo da altura da calcinha. O vampiro quase conseguiu o que queria, contudo teve parar por conta do sinal para entrar na sala de aula.
Em menos de quinze minutos já tinha aprendido a odiar o sinal de entrada.
Entrou na sala junto com sua mestra. A maior parte dos alunos já estava na sala com a professora, uma mulher alta, ruiva, cerca de trinta e quatro anos, vestida com calça jeans e regata branca. Ela pediu que Alucard fosse à frente da classe e dissesse seu nome e um pouco sobre ele. Diferente da maioria dos alunos novos, ele não ficou nervoso, contou um pouco da vida que inventou junto a Jay no dia anterior. Disse seu nome, de onde vinha e como foi parar ali.
Sabia que crianças órfãs eram tratadas de modo diferente de seus colegas na escola, mas não tinha pais há quase 530 anos e nem queria fingir que tinha. Além disso, Integra provavelmente também era tratada diferentemente por seus colegas tanto por ser órfã quanto por ser tão importante.
A professora agradeceu, apresentou-se como Grace Kelly e lembrou Alucard de se apresentar a diretoria antes de ir almoçar.
As aulas transcorreram bem, Alucard sentou-se ao lado de Integra, na última carteira da penúltima fileira do lado da janela. Deveria lembrar-se de perguntar por que a professora a colocou num lugar tão afastado do quadro-negro, uma vez que ela tinha dificuldades para enxergar.
Tomaram o lanche na sala, Alucard havia levado um “suco” numa garrafa escura, azul marinho, opaca para que ninguém soubesse de seu verdadeiro conteúdo. Integra abriu a lancheira e descobriu as Honey Tarts que o vampiro tinha preparado.
–O que é isso? – Ela perguntou.
–Honey Tarts, são tortinhas doces de mel. São típicas da Transilvânia.
–Você quem fez meu lanche? –Ele respondeu sim com a cabeça. – Devo supor que também fez meu almoço? – Ele respondeu afirmativamente enquanto bebericava o sangue. Ela beijou sua bochecha. –Obrigada.
Ela comeu com gosto e tomou seu suco de laranja. Não que estivesse realmente bom, mas porque foi ele quem fez. Alucard tinha ganhado o dia.
Estavam sentados em suas carteiras lado a lado, e ele notou que desde que entraram na sala ninguém dirigiu a palavra, senão por educação, à sua mestra e nem a ele. Órfãos eram realmente tratados de outra maneira.
Notas finais
Ciorba de Pui-Sopa de galinha tradicional da Romênia, eles comem sopa em quase todas as refeições.
Não é porque estarei super atarefada que não olharei meus e-mails!
Então, lá vai mais uma maldição "malígrina" da fic (não-válida para quem comentou nos últimos dois capítulos, te livrei desta Nirve):
Quem não comentar receber o boletim na próxima segunda. E ele vai estar de chico.
Quem só trabalha vai receber um pedido do chefe para ir conversar na sala dele, e será um assunto muito importante. E todo mundo vai saber o que é, mas não vai te contar e vai te olhar de um jeito estranho, meio contente demais. Principalmente quem não gosta de você.
"Não creu neu, se ferrou. E pra quem ri de mim, minha vingança será malígrina!"
Para quem quiser ler o doushinji que citei, que não tem lá muito a ver com este capi, mas ainda é muito legal, o link está aqui (pequeno aviso: está em inglês, e eu não sei se tem em japonês):
http://www.mangapark.com/manga/hellsing-dear-my-master-doujinshi/v1/c0/1
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