Cinco Coroas

4 A medrosa e sonhadora Keira


Notas iniciais
Desculpem-me a demora. Eu não revisei então deve tá uma piada.

Keira estava sentada à mesa da biblioteca, relendo um livro pela milésima vez. Mas o barulho de passos ecoando no corredor do andar a assustou. Quem estaria à uma hora dessas na biblioteca? Estava fechada. Talvez dopar o vigia não tivesse sido uma boa ideia.

Ela levantou-se fazendo com que os anéis louros dos seus cabelos balançassem delicadamente a sua frente, seus enérgicos olhos azuis rondavam a biblioteca meticulosamente não deixando escapar nenhum detalhe. Keira cheirou o ar. Alguém mais estava no local com ela e usava um perfume masculino. Ela foi para frente da mesa no mesmo instante em que ele apareceu. Seu corpo era sedutor, seus cabelos eram encaracolados e tão negros quanto ônix, seus olhos eram sombrios e brincalhões escondendo imoralidades iconoclastas, sua boca era de um vermelho tentador, vestindo um sobretudo branco fechado.

Hector sorriu perante o evidente nervosismo que tomava conta da jovem. Da sua jovem.

— Eu estava pelos arredores e pensei em dar uma passada por aqui, — ele disse com uma voz baixa e arrastada — sabe, pela biblioteca para ver a quantas anda meu conhecimento geral e... — deu três passos para perto dela. — o vigia estava dopado. Alguma ideia de quem fez essa atrocidade? — o sarcasmo lhe preenchia a voz.

— O que queres, Hector? — ela protestou, respirando fundo.

— Soube que foi uma menina má. — mais cinco passos. — Meninas más são devidamente punidas. Enforcamento, guilhotina... — mais cinco passos. Estava ficando perigosamente perto. — Mas com você tenho brinquedos mais adequados. — mais dois passos.

— Não fiz nada que mereça punição. De nenhum tipo. — ela corou.

Hector parou diante dela. Estava próximo o suficiente para inclinar-se e beijá-la, mas ele não o fez.

— Invadiu meu castelo como espiã, fez-me apaixonar por você e roubou meu Coração. Em ambos os sentidos. — em seus olhos havia certo brilho. Mas Keira não conseguiu decifrá-lo, só sabia que era perigoso.

— Não tem provas de que roubei seu Coração. E se fiz com que se apaixonasse por mim, peço-lhe perdão. — as mãos dela estavam frias como gelo.

— Ah, — ele sorriu. — Então admite que era espiã?

Keira abaixou os olhos. Seu abdômen doía com ansiedade e seus pensamentos estavam começando a embaralhar-se. Hector adorava quando isso acontecia.

Ele estendeu a mão e ela o encarou. Ele não estava fazendo isso.

— Sou seu rei e criador. Mostre sua gratidão e fidelidade. — ele proferiu com voz dura.

Sim, ele o fez.

Keira abaixou a cabeça e beijou sua mão.

Quando levantou, em seu olhar, mesmo com toda a angustia, havia ira.

— Tenho que ir. — ela pegou seu casaco e passou por Hector com passos longos, mas antes que sua mão tocasse a maçaneta Keira foi virada e encostada na porta. Os barulhos ecoaram gradualmente pela extensa biblioteca.

— Não vires as costas para Sua Alteza a menos que eu mande! — ele gritou as palavras enquanto mantinha um olhar animalesco e as sobrancelhas franzidas. Seu sotaque francês ficou mais evidente.

— Aprecie o monstro que você é, Hector. Fiz bem em sair daquele hospício.

Os olhos dele estavam febris.

— Posso te conceder misericórdia. — ele sussurrou.

— O quê? – ela pensou ter escutado mal.

— Se disser que estava sob influência das rainhas, posso te conceder misericórdia. Só... faça o que eu mandar. — seu sussurro batia de leve na face da bela.

Keira fungou.

— Fazer o que manda... de novo? — ele assentiu. — E vai me trair de novo também?

— Como? — descrença relampejou nos olhos de Hector.

— Eu sabia. Eu sempre soube. Charlotte me mostrou. — ela contemplou o nada relembrando. — Lembro quando vi pela primeira vez. Beijava-as com tanto vigor. Brancas, pretas, mulheres, moças... Foi logo depois de você me dar aquele jardim. — ela o olhou nos olhos, tinha que fazê-lo — Foi numa taberna. Você saiu com aquela moça da cozinha. Foram para trás do estabelecimento...

— Não diga mais nada. — ele rangeu os dentes.

— Tirou a roupa dela, — ela parecia não lhe ter escutado. – fez tantas promessas, e depois... — Keira engoliu a saliva. Estava ficando difícil respirar. E então chorou. Odiou parecer fraca, odiou Hector, a França, o reinado, o Ciclo, tudo.

— Eu não sabia, devia ter me contado, eu poderia...

— Achar um lugar mais discreto para transar? Eu sei que poderia, Hector, — ela o afastou com as mãos, — não foram as Rainhas que me afastaram da sua companhia. Você já tinha se encarregado disso. — ela se virou para partir, mas Hector a impediu.

— Espere, eu posso explicar.

— Não quero, — ela choramingou — não sabe o quão é difícil para mim ficarmos no mesmo lugar. — ela estendeu a mão e tocou seu rosto. Ele fechou os olhos num suspiro — Cada vez que te olho meu corpo protesta pelo seu, pelos seus lábios, — seus dedos passearam pelos lábios de Hector, que se abriram levemente, — mas aí, vêm as imagens — ela pôs as mãos nas têmporas e as apertou fechando os olhos com força. — você e ela, nus, os gemidos, as promessas... Dói tanto — as lágrimas continuavam a escorrer inevitavelmente — aqui — ela apontou para a própria cabeça — e aqui. — Keira passou a mão direita no coração, como se tivessem acabado de arrancá-lo.

Hector estava terrificado.

— Minha doce Keira. Eu andava por aquele reino e tudo o que ouvia era a sua risada nervosa, sentia teus beijos tímidos e teu perfume. Em tudo. — ele pôs no lugar uma mecha do cabelo dela que havia escapado. – Mas era pior de noite. No nosso aposento, quando eu ouvia seus gemidos de prazer, suas gargalhadas, seus sussurros apaixonados... — ele a encarou. — Às vezes eu podia jurar ter escutado sua voz, segredando a mim coisas que nunca ousou dizer a mais ninguém. – o rei engoliu a saliva. — E os sonhos. Eu odiava dormir e quando o fazia não queria acordar. Porque você estava em todo raio de sonho. E, ah, os sonhos em que fazíamos amor eram os piores. Porque quando eu acordava... — ele trincou os dentes.

— Isso não justifica nada, Hector. Deixe-me ir. — ela pediu, pois as mãos dele na sua cintura a impediam.

— Não antes que eu explique algo. Minha traição. Vou dar sua resposta do porquê.

— Já disse que não a quero.

— Minha sonhadora Keira. O que eu fazia com as meretrizes não pode ser comparado com o que fazia contigo. Elas eram meros divertimentos, meios que eu encontrei para me acalmar e poder voltar controlado para você. Eu não quis te tratar daquela forma. É tão pura... Keira, eu não quis machucá-la.

— Esse seu desejo de não me machucar foi o que realmente me magoo. Era apenas me dizer o que acontecia e poderíamos tratar disso. — ela choramingou.

— É tão fácil para você! — ele riu sem humor. — Eu diria: "Querida, eu adoraria fazer amor com você, todavia tenho hábitos grotescos envolvendo chicotes, mordaças e vendas que seria desonroso fazer contigo, por isso prefiro procurar meretrizes."?

Keira ia responder, mas ouviu um assobio ao longe. Quem o fez estava correndo. Ela conhecia aquele maldito som e só significava uma coisa. Ela quebrou o pescoço de um Hector confuso chutando o corpo, tinha que ser rápida, ele logo iria acordar, por isso trancou a porta da biblioteca e, deixando o carro para trás, correu atrás de Jane.

O assobio significava que seu tempo com Hector havia acabado.