Cigana De Luxo!

21 As primeiras lágrimas de Bernardo


Notas iniciais
Meninas esse cap é pequeno, mas é essencial para o andamento da Fic. O nome já fala tudo não é? rs'
Bom vou viajar amanhã e tive que postar rápido, então só volto domingo. Mas quero que expressem suas opiniões... Esperavam que isso acontecesse?
SHAUHSAUSHUA
bjs

As primeiras lágrimas de Bernardo

O seu corpo estava caído no chão, imóvel, com sangue escorrendo sobre a face. Os olhos decepcionados do telespectador apavorado fitava a única parte de seu corpo para fora do carro capotado: A mão cerrava com força uma pulseira de pérolas. Não havia sinal de vida, e isso era o que Guilertina mais temia.

Aquela imagem voltou varias e varias vezes em sua cabeça, passando como flashes de um filme de terror. A chuva ficou ainda mais forte, até que o carro parou finalmente de dar voltas em sua cabeça. Por que sentira uma parte de seu coração esmagado? O homem que não possuía um coração, agora tinha medo de perdê-lo? Correu como se sua vida dependesse disso, em direção ao corpo da frágil cigana.

De vagar, tocou seu pulso, não conseguiu senti-lo, fechou os olhos. Não posso explicar aqui o que Bernardo sentiu naquele momento, mas garanto que foi algo parecido com uma dor física insuportável, só que no coração. Perdeu-se por entre os estrondos da tempestade, era como estar sonhando e não conseguisse acordar.

- Jazmim... – Sussurrou. – Meu amor...

Em sua face não havia nenhuma expressão triste, era como se ele estivesse frio, condenado apenas por sua voz. Essa sim gemia de puro sofrimento.

- Não pode estar morta. Não pode estar.

Abaixou a cabeça com os punhos cerrados, socando a estrada de terra com toda a força. Naquele momento, parecia que cada toque mais pesado seu, fosse o suficiente para a pele da garota cair... Inclinou-se sobre ela, ignorando sua suposta aflição e a abraçando com força.

Eu sei que naquele momento a chuva caia forte, mas ela não foi culpada de manchar o rosto de Bernardo. Como três gotinhas quase que invisíveis, as pequenas lágrimas caiam do canto de seus olhos, fazem os olhos do homem se tornarem brilhantes e acinzentados, agora não mais frios. Apenas três lágrimas caíram dos olhos de Bernardo, as mesmas que após segundos se uniram aos pingos de chuva, não deixando nenhum rastro para trás. Ele levara a mão ao rosto para ter certeza que aquilo realmente aconteceu, mas não tinha mais a mínima vontade de pensar sobre isso. O gelo de seu coração derretera? Talvez. Sendo a única coisa que se perguntava quase que em voz alta, era porque sua cigana tinha que partir levando uma parte de si junto.

Uma respiração, apenas o som de um respirar. Foi só o que Bernardo precisou para levantar a cabeça novamente. Segurou mais forte a garota contra si, e sentiu... Sentiu seu coração batendo levemente. A morte a havia deixado livre e com isso deu a oportunidade para Bernardo sentir novamente. Então, ele a beijou.

...

A luz cegou seus olhos quando Jazmim os abriu. O azul se tornou ainda mais intenso, e seu corpo dolorido clamava para que ela se movesse um pouco. O que aconteceu? Quanto tempo havia dormido? Tentou sentar-se e não conseguiu, ficando com a cabeça apoiada um pouco mais para cima. Respirou fundo, fitando pelo espelho seu corpo machucado com hematomas, e sua cabeça enfaixada. Que dor horrível. Gemeu.

- JAZMIM!

Era a voz de Camila, inconfundível. Aproximou-se da cigana com um sorriso esperançoso e a abraçou levemente para não a machucar. Jazmim não sorriu, não chorou, apenas devolveu um olhar confuso.

- Como está se sentindo? Está com muita dor? Quer alguma coisa?

- O que aconteceu? – Perguntou a cigana.

- Não se lembra? – Jazmim balançou a cabeça negativamente, fazendo Camila segurar sua mão. – Seu tio tentou... Você sofreu um acidente... E...

De vagar a cena daquele momento invadiu sua cabeça como uma explosão. Tudo veio à tona... O sequestro, a agressividade, a sua fuga desesperada de parar o carro que se tornou um acidente... E o beijo... Mas que beijo? Estava tudo confuso, mal se lembrava do que havia acontecido. Seus olhos prensaram os de Camila.

- Onde está o meu tio?

Camila abaixou a cabeça, não respondeu fazendo Jazmim sentir a aflição da amiga. A cena seguinte foi Jazmim caindo em desespero, aos prantos, chorando com toda a força possível. Já estava se tornando matinal chorar daquela maneira, tantas dores... Por que isso tinha que acontecer? Por que nada podia ser como antes?

E com essas perguntas na cabeça, Jazmim acabou rezando por seu tio. Uma oração breve mais depositando todo o amor que ainda sentia por ele. É claro que Joselo era mau, mas foi quem a criou desde criança, não tinha como ignorar isso.

A cigana voltou a deitar-se na cama após isso, procurando com os olhos brevemente um homem louro.

- Sabe... – Camila se manifestou. – Ele não saiu de seu lado desde ontem. Passou a noite toda em claro.

A cigana desviou dos olhar de Camila, deslizando lentamente o dedo sobre os lábios. Aquilo aconteceu ou só estava sonhando?

...

Após meia hora acordada, Jazmim adormeceu, e não vira Bernardo. O tranquilizante colocado para ela não sentir dor era muito forte, e isso também a impediu de dormir bem. Foi um sono pesado, quase que sufocante.

Eram exatamente duas horas da madrugada quando Bernardo adentrou no quarto de hospital, com uma calça social levemente amaçada por muito tempo sentado, um terno escuro e uma gravata com tons em vermelho. Seu cabelo estava como de costume, impecável, com o mesmo olhar questionar, temido e frio.

Fitara a cigana deitada, dormindo tranquilamente e disposta a acordar sobre qualquer ruído. Apenas fisicamente, é claro.

Bernardo aproximou-se da cama, ficando ao seu lado e tocando sua mão lentamente para não acordá-la.

- Não sei muito bem porque ainda estou aqui. Por que ainda não consegui me despedir como deveria... Mas, estou aqui pra isso. Não quero que pareça egoísmo de minha parte não ter coragem de olha-la nos olhos e dizer isso, mas é verdade, eu não tive coragem. – Bernardo sussurrava, agora acariciando seu rosto. – A verdade é que você está me mudando cigana, e eu preciso ir, não posso mais continuar assim... Afinal, eu sou Bernardo Guilertina... Mas também um homem... É assim que você fala não é? – Sorriu de vagar, voltando a aproximar seu rosto do dela. – Mas você vai ficar bem, e bem longe de mim vai conseguir ter a vida que sempre quis. Me desculpe...

Sua respiração aumentou, e com mais precisão, beijou o rosto da cigana. Separou-se, mas pensou um pouco até ter coragem de largar a sua mão. Bernardo por fim, levantou e saiu arrumando a gola do casaco. Sem olhar para trás.

Na verdade ele deu as costas para tudo que podia fazer dele uma pessoa diferente. Mas se formos analisarmos, Bernardo não queria aceitar que estava se tornando uma pessoa, mesmo que nos míseros detalhes, melhor. Não sabia por que era não tão difícil dizer adeus há uma pessoa, fez isso a sua vida toda. Com seus pais, com Rebeca e com a sua vida “perfeita”... Mas pra ela... Ele sentia como se a estivesse decepcionando... E mesmo assim não entendia porque isso importava tanto. Como as coisas puderam chegar a esse ponto? Como ele permitiu? Uma ponta de raiva surgiu em si mesmo, e agora sim, ele estava disposto a abandonar tudo, só bastava um momento de reflexão. Não podia ser um martírio tão grande, era apenas uma garota, só isso... Então por que fugia? Estava fugindo? Não... Saíra a negócios, não é mesmo? Quem sabe, talvez uma máscara, o talvez uma pura coincidência.

Abriu a porta do carro, desanimado, mas antes que pudesse entrar pensou ter ouvido a voz dela... Claro, só podia estar enlouquecendo agora. Como estava quando ia aos bordeis, a enxergava onde quer que fosse. Feiticeira.

Ouviu de novo, só que agora foi um grito muito alto para achar que havia sido imaginação. Foi então que olhou para trás... A chuva embaçava sua visão mais ela não era totalmente nula, e sim ela estava lá. De pé, segurando o corpo entre a abertura da porta, lutando para conseguir se manter em pé.

- VÁ PRA DENTRO JAZMIM! – Gritou Bernardo.

A cigana o olhava com dificuldade, os efeitos do sonífero ainda não haviam passado. Tentou dar um passo a frente.

- EU NÃO VOU AJUDÁ-LA SE CAIR! VOLTE PRA DENTRO!

Bernardo entrou no carro, tirou as chaves do bolso e ligou, fazendo os faróis se acenderem. No mesmo instante, em sua frente, Jazmim aparecera. Bernardo a fitou por alguns segundos, sério, percebendo que a garota bambeava as pernas.

- Não...

Ela caiu antes que pudesse completar a frase. Bernardo abriu a porta do carro rapidamente, correndo em direção a ela... Pegando a menina no colo.

- Não me deixe... – Ela sussurrou de olhos fechados, fazendo Bernardo fitar sua face machucada.

Ele a levou para dentro do hospital até o quarto onde ela estava, a deixando sobre a cama. Foi quando Jazmim abriu os olhos, e ele percebeu que ela chorava.

- SEU ESTÚPIDO! IDIOTA! – Jazmim berrou pela surpresa de Bernardo, socando com força seu corpo. – NUNCA MAIS...

Bernardo segurou com força seus braços, a prensando contra a cama.

- O que deu em você?

Jazmim gritava, derramava lágrimas e parecia incontrolável vindo com isso, palavras presas em sua garganta.

- Você tirou de mim tudo o que eu tinha de mais precioso. Me tirou a esperança, me tirou a liberdade, tirou de mim tudo o que eu conhecia... Mas não vai ir embora com uma parte de meu coração. Não tem o direito de tirar isso de mim!

Bernardo recuou. Não sabia o que dizer diante disso porque não acreditava em tais palavras.

- Mentirosa! – Exclamou Bernardo. – Como pode seu coração pertencer a mim depois de tudo?

- Mas pertence...

- Não diga! – Cortou. – Fui eu que te mostrei o ódio, fui eu que te roubei o que de mais precioso possuía, fui eu quem te machuquei de todas as formas possíveis, e agora você diz que se eu for embora, irei com uma parte de seu coração?

- Não importa Bernardo. Pra mim não importa mais quem você era e o que você fez, porque essa agora é a minha vida! Eu estou começando a aceitar isso... Eu vou ser para sempre uma cigana, mesmo que seja só de coração, mas também vivo na realidade, e a minha realidade não é mais essa. – Jazmim respirou fundo, engolindo as lágrimas. – Pois como você disse, tirou isso de mim. – Jazmim sorriu fraco. — Mas você também me mostrou uma felicidade que eu não conhecia.

A cigana ficou de joelhos na cama, olhando em seus olhos.

- Então agora não me deixe sozinha...

Dessa vez foi Jazmim quem o abraçou, formando-se um silêncio absoluto naquele cômodo e em todo o hospital, pelo menos foi o que pareceu.

Os dedos de Bernardo ficaram acariciando quase que a noite toda os cabelos de Jazmim. A garota ficou com os olhos abertos, sussurrando músicas, bem baixinho. Até que finalmente o sono chegou, a possuindo por completo.

A mão de Bernardo parou e o homem fitou o relógio, seis horas da manhã. Fitou o rosto de Jazmim, ela dormia tranquilamente, bela como sempre mesmo com hematomas e os olhos inchados. Respirou fundo, pensou por mais alguns minutos... Seu coração acelerou. Ela precisava dele... Não é mesmo?

...

O dia estava bonito, muito diferente do anterior, chuvoso. O sol iluminava, os pássaros voavam alto, assobiavam, comemorando vitoriosos a tempestade ter passado. O cheirinho de terra molhada era a melhor coisa a ser sentida no parque, as crianças sabiam como era. O hospital ficava quase ao lado, assim, um pouco do aroma entrava por entre as frestas da janela. Dessa vez, quando a garota abriu os olhos, não foi a luz do quarto que a cegou e sim o iluminar maravilhoso que entrava pela janela. Seu corpo dolorido não importou tanto, pois a primeira coisa que procurara era alguém que deveria estar ao seu lado quando ela acordasse. Ergueu o corpo, se virou para ambos os lados, estava sozinha. Levantou da cama, Bernardo podia estar lá fora... Andou até a janela e depois até a porta, mas antes que colocasse a mão na maçaneta, algo chamou a sua atenção.

Girou os calcanhares, fitando em cima da mesinha ao lado da cama, um objeto curioso. Feito de madeira e alguns pedaços de conchas, trabalhado, belo... Os olhos de Jazmim se aproximavam do colar, assim como sua mão que o tocou de vagar. Levantou aos seus olhos e deu um leve sorriso.

“ – O que você quer? Não há nada que eu não possa te dar...

- Quero um presente feito apenas por você.”

A cigana segurou com força, levando o colar em direção ao seu coração. Sabia que aquilo significava um adeus, sabia da decisão de Bernardo e sabia o porque de ele escolher se afastar. Porém, a cigana não havia mentido... E Bernardo sabia disso apesar de dizer o contrário. O homem mais poderoso do país sabia que estava levando consigo uma parte do coração da cigana, mas também sabia que estava deixando uma parte do seu coração com ela.

- Oh ciganos a dançar, oh ciganos a cantar, para sempre ciganos...

Cantarolou Jazmim, indo em direção a janela onde o sol brilhava.

Notas finais
Espero que gostem. Bjs