Cigana De Luxo!

4 A única de branco


Notas iniciais
Demorei porque tive alguns problemas gente, mas ele está ai :)

As janelas abertas fizeram entrar o sol que parecia a muito tempo não brilhar. Talvez não como os dias em que vivera na aldeia onde costumava se levantar para vê-lo subir ao céu. Já fazia três noites que estava longe de casa, apenas três noites que pareciam ser longos anos de eternidade.

Jazmim abriu os olhos, tentando erguer o corpo com as mãos. Mais do que a dor em suas costas que ainda prevaleciam, eram seus sentimentos moralmente corrompidos, acabados por uma humilhação sem tamanho. Após um pequeno esforço, pousou os pés no chão e caminhou em direção ao pequeno banheiro que havia em seu quarto, pousando as mãos sobre a pia e fitando sua imagem no espelho: Expressão chorosa, cabelos levemente bagunçados... Nem seus sonhos haviam sido bons.

Abriu a torneira e jogou água no rosto, sentindo um leve peso em suas costas. Sua conciência pareceu cair com a água que escorrera pelo ralo, quando voltou a olhar sua miragem no espelho. Vira o homem de olhar frio atrás de si, lançando a cinta contra suas costas, a fazendo dar um pulo e virar para trás. Deslisou a mão sobre o rosto várias vezes... Estava ficando louca? Não conseguia pensar, ter alguma atitude. Qualquer ser-humano que a visse agarraria-se a morena e a tomaria para si como uma criança que necessitava de proteção... Era tão dificil abrir os olhos e perceber que ninguém estava ao seu lado.

Voltou para a cama, sentando-se sobre a mesma e tendo leves recordações de seu passado. Passaram-se como uma leve brisa em sua memória, já que as recordações boas foram interrompidas por um bilhete que Camila havia deixado em cima da cômoda de madeira.

" Esteja pronta, volto as oito horas para sairmos, sua roupa está no armário. Fique bem! "


Camila podia ser conciderada a amizade mais fisica que já teve do que com qualquer outra pessoa. No entando, ainda não era seguro para a cigana saber que podia confiar nela. Afinal, a vida toda passou desconfiando das pessoas que se aproximavam por odens de seu tio, e agora não seria diferente.

Abriu o ármario, se deparando com um vestido preto, justo e colado ao corpo que cobria apenas a metade de suas coxas. Fez cara feia. Nunca havia visto uma roupa tão extravagante que normalmente se usava para cobrir crianças de oito anos de idade de onde viera. O colocou de volta pendurado no ármario e passou a mão pelas outras roupas, onde um vestido branco de tecido fino lhe chamou a atenção: Era colado apenas na cintura e abaixo era caído como pedaços do próprio tecido quase que até os joelhos. Sorriu ao vê-lo, e o colocou em cima da cama. O mais simples, e o mais belo aos seus olhos.

Já era quatro horas da tarde quando Bernardo finalmente levantou. Havia acordado quase a noite toda, dormido apenas algumas horas e quando fechava os olhos podia sentir calafrios por todo o corpo. Na verdade, quando serviu no exército, viu coisas tão chocantes para um garoto de dezoito anos que as mesmas ainda invadem seus sonhos à noite. Lembrou-se de quando foi a guerra, de quando matou pessoas, de quando foi atingido, de quando não dormira durante dias pois o barulho das granadas explodindo pareciam lhe atingir a mente... Mas principalmente, de quando foi preso do lado das linhas inimigas.

Não estou tentado aqui justificar atitudes tão severamente malvadas, apenas estou lhes contando como elas nasceram. Estou lhe confidenciando a história desse homem tão intrigante. Assim como não posso culpar Jazmim por não saber gozar da felicidade ou dos riscos da vida, não posso julgar Guilertina por ter sido exposto a crueldade muito antes de fazer a barba. Está certo, que dizem, que o caráter de alguém permanece sempre o mesmo embora a situação, porém não posso negar que a mesma também influência.

- SANDRA! SANDRA!

Após dois minutos, a empregada aparecia segurando uma bacia de roupas nas mãos enquanto o homem reclamara.

- Será possivel que toda a vez que preciso lhe falar esteja longe?

- Desculpe senhor. — O humilde senhora abaixou a cabeça.

— Eu vou sair, tenho que me encontrar com o prefeito. Quando voltar, quero meu terno passado...

- Aonde vai senhor? Arregalou os olhos curiosa.

Bernardo não tratava mal seus criados, o problema é que haviam vezes que acordava de tão mau humor que se esquecia de ser cortez. Sandra ja estava acostumada, sabia que a casa não andava sem ela. Eram mais de dez anos trabalhando para Bernardo, ela o conhecia como se fosse um filho. Se não fosse por isso, toda a vez que viajava não precisava levá-la junto, porém, era a única criada em que confiara suas coisas.

- Já disse.

Sandra concordou com a cabeça e saiu com a bacia de roupas. Bernardo tirou a roupa e tomou um banho relaxante, esquecendo de todos os problemas que o assombravam.

O prefeito não era um homem mau, porém não chegava a ser bom. Era um pouco dos dois, dependendo do interesse. Perto de Bernardo, era como ver um pequeno inseto ao lado de um lobo feroz. Possuia o corpo pequeno, cabeça redonda com marcas de calviçe e barba longa. Conversava com Bernardo na mesa de um bar afastado, seus gestos eram nobres e bem vistos, onde a segunda bebida acompanhava.

— Não compreendo porque o material bélico subiu tanto. — Comentara o prefeito.

- Em uma hora tenho os comercianates nas mãos e nas outras, aparecem querendo cada vez mais propina.

- Este é um assunto delicado prefeito. Perceba que não pode submeter-se a caprichos fúteis, embora o preço da exportação subira muito.

— Não mesmo, disso entendo. Mas acho que não é só isso que está envolvido. — Tragou o charuto forte.

- Com certeza não.

Os dois ficaram a tarde toda discutindo assuntos politicos e econômicos, pois como sempre, Bernardo sempre ajudava o prefeito a resolver situações dificeis, e por incrivel que pareça, seus métodos pareciam infáliveis.

Jazmim olhava-se no espelho. Virava de costas, se olhava novamente... Tudo parecia estar tão fora do lugar. Aquelas coisas não eram dela, aquela vida não a pertencia, e ela nunca se encaixaria naquele mundo... Mas afinal, que mundo era aquele? O vestido branco caira perfeitamente em seu corpo, como se estivesse feito na medida certa. Seus cabelos pretos ondulados caiam pela cintura, e sem nenhum tipo de maquiagem ou atributo, faziam de seu rosto uma jóia rara e bela. Seus olhos estavam azuis cintilantes como o céu, e sua boca vermelha se destacava em meio a pele branca. Parecia ter o rosto simétrico que quando sorria, deixava a mais maravilhosa criatura encantada com sua pureza.

Descendo as escadas, Camila já a esperava lá em baixo, e qual não foi sua surpresa.

Todas as meninas da casa conversavam, com os mais provocantes e sensuais vestidos pretos. Maquiagens fortes e saltos carissimos, cada qual mostrando o que tinha a oferecer.

Ela não era diferente, ela era a única de branco.

Jazmim colocou o pé no chão, fazendo um silêncio absoluto e até vergonhoso se formar. Os mais assassinos olhares de inveja e os mais deslumbrantes de admiração a atingiram.

Pode até ser irreal, mas lembre-se que não estou contando a história de uma garota comum... Curiosos... Estou contando a história da garota que prendeu o coração do homem mais poderoso do país.

A cena não poderia ser diferente do que ocorreu.

- Nossa, você está linda. — Camila a abraçou.

- Não como elas.

Sim. Jazmim estava envergonhada, mas não arrependida. Camila as ignorou, depositando seus olhares na cigana, e em Ana que apareceu atrás da mesma.

- Estão prontas? — A mulherer respirou fundo. — Onde está Jazmim? JAZMIM DESÇA LOGO!

A menina virou em direção a Ana, fazendo seu rosto espantado de princípio trocar para um sorriso satisfeito, embora não quisera aquela roupa, ficou melhor do que esperava.

- Perfeito. Ana sorriu e passou em sua frente, abrindo a porta para todas sairem. As meninas se enfileiraram e sairam caminhando, enquanto outras entraram nos carros. Jazmim sentira o vento gostoso batendo na face e desfrutou de seus cinco segundos muito bem.

- Jazmim, entre.

A garota fez cara feia, mas não ia arrumar problemas. No caminho, enquanto estava sentada ao lado de Ana, pensou em perguntar o motivo daquele castigo... Havia falado de mais? Talvez. Mas se soubesse que aquelas palavras lhe custariam uma surra, teria falado muito mais. Ignorou seus pensamentos inoportunos para o momento, até que o carro parou em frente a um belo salão, onde já haviam enormes filas faltando uma hora para ser aberto. Ana entrou depressa com Jazmim, seguido por Camila... Ficaram em uma espécie de quarto onde as garotas normalmente se arrumam antes das "apresentações".

- O que fazem ali? — Perguntou a cigana apontando para as barras nos enormes palcos.

— Ali que dançamos. — Camila sorriu. — Eu vou me apresentar hoje!

Jazmim percebera que estava mais animada que o costume, embora a conhecesse pouco. Mostrou um sorriso também como se entendesse e ficou sentada no sofá de couro até tudo começar. Dormiu mais do que devia, acordando com o imenso barulho que o saira das caixas de som junto com a voz do garoto.

- AGORA, SE DIVIRTAM COM A EXCITANTE CAMILA!

Jazmim espiou pela cortina, observando como Camila dançava. A garota dava passos dificeis, e tirava uma peça de roupa a cada um. Ela iria ficar nua? A jovem arregalou os olhos. O corpo de Camila ia se mostrando cada vez mais, e os homens, principalmente os mais jovens, iam a loucura. Não chegou a ficar nua completamente. A música acabou antes que pudesse mostrar seu sexo, deixando os homens com um ar de curiosidade absurda... Essa era a tática da dança sensual. O corpo de Camila não era o mais belo de todos, mas a garota possuia um charme muito grande, aquilo atiçava o desejo.

— Não vai ficar ai atrás olhando não é mesmo? — A voz de Ana lhe invadira a mente, fazendo a garota girar a cabeça e respirar fundo.

- O que eu vim fazer aqui?

- Por que acha que eu lhe comprei? Você irá trabalhar.

Aquilo era um trabalho? Um absurdo aos olhos de Jamim! O que Ana queria que ela fizesse? Ir lá e dançar daquela maneira? Nunca! Jamais! Preferia morrer se possivel.

Agradeceria a sua Deusa se pudesse, mas quando Ana a puxou para baixo teve certeza que no palco não subiria. Não aquela noite.

Ana a colocou em sua frente ao se aproximarem da mesa, onde um homem de trinta anos, rico e com um olhar superior tomava sua bebida tranquilamente.

- Olá Gaspar.

Gaspar Diestro. Um médico geral que atende a classe mais alta. Cabelos pretos e olhos negros como a noite... Sua expressão é até serena comparada a de muitos da área em que trabalha. O homem fixou os olhos em Ana a cumprimentando de forma cortez e logo depois mirou a garota mais baixa em sua frente.

Eu poderia dizer, que a taça caira de sua mão propositalmente, mas não. A expressão abobalhada do homem se tornou uma frequente risada, junto a de Ana, que forçou apenas para não ficar mal. Jazmim estava séria, não entendendo o motivo da graça.

- Quero que conheça Julieta, minha nova garota.

Gaspar abriu um sorriso malicioso. Não era costume Ana fazer isso, normalmente apresentava suas garotas novas no palco e não pessoalmente. Estaria ela a venda novamente? Talvez isso não importasse agora. A mão áspera que atingiu o rosto de Jazmim e fez tremer e o olhar negro fascinado ainda parecia a corroer com os olhos.

— O que se esconder por baixo desse vestido, hem menina?

Jazmim sentiu a mão em sua perna, subindo lentamente como uma pluma quase que imperceptivel. Tirou sua mão de perto com um tapa e se afastou, onde Gaspar se enfurecera. A garota correu antes de ser alcançada, e a voz de Ana que gritava seu nome já não era mais ouvida. A mais bela e a única de branco, correra em direção a porta da liberdade.

Isso sim era coisa do destino, creio eu. Afinal, porque outro motivo Bernardo entrava com o carro justamente onde a cigana saia?

Ele o freou bruscamente, onde até seu corpo foi jogado para a frente. Ficou com raiva, é claro, mas parecera perder a conciência quando viu o anjo que quase atropelou. Jazmim correu dobrando a esquina, e Bernardo após balançar a cabeça por ter se perdido naquele olhar triste, arrancou o carro novamente, dobrando a esquina em direção a jovem de branco.

Jazmim caminhava com os braços cruzados sobre a barriga, não queria chorar... Mas era tão triste ser tratada apenas como uma boneca ou um objeto que a garota sentia até repuno. Seus passos diminuiram e ela olhava para o chão pensativa, nem percebendo que o vidro do carro que parara ao seu lado se abaixara. Parou de caminhar, e girou a cabeça fitando a expressão do homem que lhe machucara ontem tão cruelmente.



Notas finais
espero que gostem. Agora as coisas começam a esquentar shuashuahsuahsua