Escutando a buzina do lado de fora de casa, Lilian fica empolgada. É Douglas chamando por ela. Lilian logo se apressa a sair do quarto. Quando estava prestes a sair pela porta de sua casa ela lembra que está sem a identidade, e ela detesta sair sem ela. Sua mãe sempre diz: Não importa se “só vai” na esquina, leve a identidade.

A identidade está em cima da cômoda ao lado dos tercinhos. Ela para e olha para eles, lembra do olhar de sua vó Maroca cheios de preocupação e decide pegá-los. Lilian os guarda em seu bolso, da dois tapinhas e diz para si mesma:

— É vovó, levar não vai fazer mal nenhum.

Ela se despede dos pais e de sua avó, que a abraça apertado e diz bem baixinho: — Um pontinho de luz é a saída, não esqueça.

Lilian balança a cabeça e pensa que a avó é exagerada demais, mas diz: — Não vou esquecer, vó! Pode deixar.

Chegando no carro de Douglas, ela beija o namorado e cumprimenta os amigos. Já no banco de trás eles gritam juntos: Vamos para a festa!!!

Douglas, ao ver o endereço do baile, fica intrigado.

— Tem certeza que é o endereço certo? Ali naquela parte da cidade não tem nada, só mato.

— Certeza absoluta, – diz Lilian — Olha aqui o convite.

Douglas olha, dá de ombros e diz.

— Bom, então vamos.

Durante a viagem até o baile, eles riem e brincam. Falam sobre o futuro, empregos e escolas.

Douglas decide parar o carro uma rua antes do endereço do baile para não correr o risco de alguém arranhá-lo ou roubá-lo. O carro era caríssimo e ele não iria correr esse risco.

Eles saem do carro e caminham em direção ao endereço.

Virando a esquina, eles começam a ouvir risos, música alta, conversas por todo lugar e ainda estão relativamente longe. Lilian fica surpresa.

— Nossa, o baile deve estar pegando fogo de bom, dá para ouvir tudo aqui de longe! – diz sorrindo animada.

— Já quero dançar muito! – diz Ana, já andando e dançando.

De repente, Lilian escuta a voz de sua avó em seu ouvido: — Distribua os terços.

Ela paralisa no meio da rua. Douglas que está segurando sua mão olha para ela, intrigado.

— Lilian, o que foi?

Ela balança a cabeça e fala.

— Nada... – mas sente um impulso e coloca a mão no bolso e tira os terços de lá, olha para eles e fala para os amigos.

— Eu sei, parece loucura e tal, mas coloquem esses terços no bolso, ok? – Lilian diz se sentindo tola, mas, com aquela pontinha no coração dizendo que estava fazendo a coisa certa.

— Ok..., – Ana diz — Mas, pra quê?

— Sei lá, só faz isso, por favor, – diz Lilian sentindo-se boba, mas ainda insistindo para eles usarem.

— Ok, ok... Nós colocaremos. — Cristian é o primeiro a colocar, os outros o seguem.

Eles voltam a caminhar em direção ao baile e, de repente, aparecem grupinhos indo na mesma direção que eles, rindo alto e conversando. Estavam direcionando-se a festa.

Mas eles usavam roupas diferentes, roupas estilos anos 50, 60, 70 e até alguns com roupas dos anos 20.

Os jovens olham aquilo e conversam entre si.

— Lilian, esse baile é a fantasia? – pergunta Douglas.

— Não... Pelo menos no convite não tinha nada disso escrito. Vai ver é, cada um veste o que deseja, sei lá. – diz Lilian sorrindo e vendo aquela gente toda com roupas super diferentes ao redor deles.

E o engraçado é que jovens vestidos como eles, não se tinha à vista.

Chegando em frente à casa onde acontecia o baile, eles se chocaram o quão bonito e brilhante era o lugar.

— Meu Deus, quando construíram isso que eu não vi? – Cristian olha ao redor, chocado.

— Também não tinha visto. – Douglas diz igualmente chocado – Nem falaram nada na cidade, que estranho.

Lilian louca para dançar, puxa o namorado e diz.

— Quem liga, vamos entrar! – já se encaminhando para a porta.

Ao se aproximarem da porta, Lilian tem o vislumbre do primeiro – e talvez único – rosto familiar naquela festa... Era o jovem rapaz que lhe deu o convite. Ao vê-la, ele sorri.

— Que bom que você conseguiu vir, entre e fique conosco. Se divirta e esqueça de tudo – diz ele com um largo sorriso.

— Obrigada, já estou adorando tudo. – Lilian e Ana dizem juntas e riem como doidas.

Ele se afasta para os jovens entrarem.

Seus olhos brilharam com a energia alegre que tinha no lugar. Sem pestanejar, todos correm para a pista de dança.

O salão era enorme, como um pátio gigante, com um telhado tão alto que ao olhar para cima dava até uma certa tontura. Nas paredes, postavam-se grandes janelas que brilhavam com a luz que saia de fora.

Luzes estroboscópicas faziam as pessoas parecerem ainda mais felizes e sorridentes, e assim, os jovens dançaram por um tempo.

Lilian olhou em direção a porta que eles entraram, e estranhou que no lugar da porta, havia uma parede agora. Ela deu de ombros e pensou: Entrei pelo outro lado e confundi tudo, e continuou dançando.

De repente, ela notou que algumas pessoas circulavam o salão de baile observando as pessoas. Todos vestidos de preto, pele bronzeada, e os que diferia um dos outros eram os olhos e os tons de seus cabelos, que variavam do preto ao loiro.

O que a deixou angustiada, foi o sorriso e o olhar que todos eles tinham ao fitar os convidados, extasiados e loucos. Lilian conseguiu sentir a malícia e satisfação a sádica de cada um deles. Olhavam como um leão olha sua presa antes de atacar. Lilian sentiu um arrepio correr por sua espinha e parou de dançar imediatamente.

Ela notou que em algum momento, Douglas saiu de seu lado. Ela vira para Ana que está dançando perto dela e pergunta:

— Amiga, você viu o Douglas? – E continuava a olhar por cima das pessoas, procurando o namorado.

— Não, – respondeu Ana, ainda dançando com Cristian — ele deve ter ido ao banheiro.

— Vou procurá-lo, ok? – diz Lilian, — não saiam desse lugar.

— Pode deixar, chefe – diz Cristian brincando, fazendo uma continência.

Lilian balança a cabeça sorrindo para os amigos que estavam abraçados. Eles formavam um belo casal. Ambos eram muito queridos para ela, portanto temia que algo acontecesse a eles. “E não vai acontecer, não vou deixar que aconteça”, pensou. Seu semblante de sorridente passou para sério.

— Se cuidem, viu? – diz Lilian, que sai a procura de Douglas logo depois.