Cidade Sitiada
10 Capítulo 09: Carvão e Diamante (POV Edward)
Notas iniciais
Certas coisas ninguém consegue explicar.
Eu era apenas um ortopedista com um dom especial e de repente eu me torno um dos responsáveis por salvar o mundo de uma desgraça.
O que eu realmente queria até então? Uma vida tranquila ao lado de minha Bella e nossos futuros bebês.
O que está acontecendo agora? Estamos envolvidos com um vampiro poderoso que parece temer seu próprio poder.
Por que ele parece temer seu próprio poder? Rucci está há pelo menos dez minutos repetindo as mesmas palavras ao meu ouvido enquanto saímos da confeitaria após a derrota e morte do demônio alado: — Gog y Magog. En ellas, con su relación con Leopoldo, está la respuesta de tus preguntas.
— O que são elas, Rucci? — perguntei a ele em pensamentos.
— Sólo tú puedes buscar la respuesta, pero cuidate, hay peligro en ellas — ele me respondeu antes de sumir enquanto eu tentava entender o que Leopoldo escondia, pois agora me dera conta que o fantasma de Rucci só aparecia quando Belmondo tinha algo a dizer, mas que não queria fazê-lo. Então da vez em que Bella foi atacada...? Não, me recusava a acreditar que o espanhol tinha algo com isso, porém, essa história de Gog e Magog estava me soando excessivamente estranha, assim como tudo o que acontecera até então.
Suspirei momentaneamente derrotado por minhas dúvidas, mas determinado em continuar a buscar as respostas. Acordei de meus devaneios quando...
— Edward! — Molina gritou ao mesmo tempo em que senti alguma coisa cravada nas minhas costas e tudo começou a girar, seguido por uma lancinante dor ao que José Armando me pegou nos braços antes que eu desmoronasse no chão enquanto eu segurava no osso do peito os gritos que desejavam escapar da minha garganta: — Merda! Quem foi o desgraçado?!
— Tentei ir atrás dele, mas ele é mais rápido do que eu esperava. E também, temos que voltar urgente para casa e cuidar de Edward. E continuarmos o mais rápido possível a destruir os outros amuletos, pois não sei quando Mariano dará sua cartada final e eu prefiro não esperar que isso ocorra – disse Leopoldo ao que perguntei, mesmo que a dor fizesse minha voz falhar e ela fizesse Bella quase chorar enquanto desejava me tomar em seus lindos braços: — O que aconteceu?
— Receio dizer que talvez Mariano possa ter descoberto você, porém, se fosse isso, ele viria pessoalmente tentar matá-lo, então, parece que temos um problema desconhecido em nossas mãos embora eu suspeite de onde possa ter vindo a coisa cravada nas costas de Edward – disse Leopoldo ao que uma voz, que parecia alta demais à minha audição, interrompeu: — Uma Presa Infernal está introduzida no rapaz. Se não fizermos alguma coisa agora, será apenas uma questão de horas até acontecer o pior e se não retirarmos essa coisa do rapaz em duas horas, corremos o risco de sermos emboscados por seres malignos.
— Ansem?! – Molina olhou e vi quem eu sabia ser o irmão de Rassilon, o criador da Witchblade, materializado no corpo de Porcel ao que este respondeu: — Você esqueceu que eu era curandeiro quando vivo?
— Como?! – Maruja se agarrou instintivamente a Leopoldo, que sorriu por alguns segundos, mas logo retomou a postura séria: — Se você puder ficar algum tempo aqui, pode ajudar Edward?
— O delegado me invocou justamente para isso. Tenho que admitir que nunca vi ninguém exercer a técnica de canalização espiritual com tanto talento quanto esse delegado. Não me admiro que Morgana o tenha escolhido para herdar nosso dom já que o dom de médium espiritual já não existe na nossa família há séculos – disse o espírito de Ansem ao que minha Isabella, espantada, embora arrasada pela minha agora situação ruim, perguntou: — Então você e Rassilon pertencem à família Le Fey?
— Sim, somos irmãos de Morgana Le Fey, a criadora da técnica de canalização e idealizadora da Magatama, a pedra mágica capaz de detectar espíritos bons de camuflagem e afastar as Expressões – disse Ansem ao passo que Molina me pegou nos braços com uma impressionante força e habilidade: — Temos que ir para casa e cuidar de Edward. Se continuarmos falando, a situação dele vai piorar ainda mais. E também, temos que encontrar quem fez isso e exterminá-lo antes que ele tente novamente.
A conversa terminou ali e logo fomos para casa, mas não sem que eu visse uma mão macabra segurando em um muro que fez meus ossos tremerem. Será que havia sido aquilo que me atirara uma “Presa Infernal” nas costas? E como assim a Magatama, que eu vi nas mãos de Emmett e queria saber como fora parar nelas, era capaz de afastar as Expressões?
Eram perguntas das quais eu precisava logo de uma resposta e ainda havia outras questões para serem respondidas: o que eram Gog e Magog? Como elas, eles ou o que fosse, estavam relacionadas com Leopoldo? Eu, conhecendo algo de mitologia bíblica, considerando que minha sogra Renée Dywer era considerada uma das maiores especialistas em ocultismo e Bíblia da América, sabia que esses nomes eram oriundos da mesma sendo que Gog tinha sido um demônio que havia sido derrotado por Deus enquanto Magog era neto de Noé, o homem que salvara a criação de Deus através da criação da famosa arca. Entretanto, eu não tinha a mínima ideia sobre como Leopoldo se relacionava com isso.
Meus pensamentos ficaram nisso enquanto eu era deitado na cama e despido das partes de cima da roupa para que meu ferimento fosse tratado ao mesmo tempo em que Emmett e Leona tentavam não ficar desesperados ao ver minha situação, porém, meu pobre irmão não suportava a torrente de emoções e chorava me vendo tão mal enquanto minha amada Bella se mantinha estável, ou pelo menos era o que ela queria me fazer pensar, mas, no fundo, eu sabia que ela estava arrasada. A expressão atual dela era exatamente a que ela fizera no dia em que eu a conhecera, oito anos antes...
“ Uma lesão durante uma partida de futebol levara o jovem Edward Cullen ao hospital.
Uma bela jovem ali esperava por notícias e ela parecia estar sendo forte por alguma razão que ele desconhecia.
De repente, uma voz se fez ouvir: — Jovem senhor?
— Quem é você? – perguntou o jovem em voz baixa ao perceber que a voz era de um espírito, mais precisamente uma garota que provavelmente batia em idade com a jovem sentada no banco do lado.
— Eu acabei de desencarnar e sei que Bella está arrasada embora ela não admita. Por favor, ajude-a. Não sei até quando ela vai suportar. Se ela não puder mais, ela terá o mesmo destino que eu – dizia o espírito feminino quando Edward reconheceu a moça que ali estava sentada esperando: a filha do congressista Charlie Swan que era nacionalmente conhecida pelos escândalos envolvendo seu vício em drogas desde o ano anterior embora ele não tivesse afetado demais as notas escolares, apesar das faltas frequentes.
E quando menos esperava, um médico apareceu perguntando se havia algum telefone para contato para onde ele pudesse ligar e ela respondeu, já com uma lágrima vindo, que podia entrar em contato com o escritório de advogados Morrighan, onde o pai desta, dono do local, advogava.
— Com licença? – perguntou Edward após a saída do médico e em seguida continuando, após ela reagir ao chamado dele: — Não pude evitar ouvir o que disseram e sinto muito pelo que aconteceu a sua amiga, se for o que penso.
— Infelizmente é. Obrigada por se importar – disse ela tentando ser fria.
— Não sei quem era sua amiga, mas imagino que você a adorasse muito – disse Edward tristemente.
A jovem finalmente dirigiu um olhar exatamente nos olhos do rapaz e quando viu o lindo verde esmeralda que eles continham, seu coração pareceu que pularia dentro do peito e nem havia percebido quando a mão dele envolvera a dela em uma consolação pela triste perda. Quando finalmente Isabella notara a mão do rapaz sobre a dela e sentira que ela era quente e acolhedora, deixou que suas emoções escondidas viessem para fora e chorou todas as mágoas no ombro do jovem, que carinhosamente a consolou por horas. ”
Desde aquele dia, jamais deixamos de nos ver novamente e ficamos muito amigos, inclusive contara para ela sobre meu dom. Depois consegui, após muitas conversas e mostrar a ela sobre consequências do vício, convencê-la a entrar para um centro de reabilitação, onde ela pudesse se livrar da vontade de usar drogas, o que ela conseguiu de fato após um ano e meio de tratamento ao mesmo tempo em que ela começou a faculdade de Psicologia.
Foi quando me descobri apaixonado pela pessoa forte e determinada que Bella se mostrou no decorrer de nossa amizade e ela se declarou a mim durante a festa do Ano Novo para assim começarmos a compartilhar nossas vidas. Porém, nem tudo foram flores, pois Charlie não aceitava nosso namoro por desejar que a filha se casasse com o amigo de infância dela, Jacob Black, filho do congressista William Black que veio a se tornar meu melhor amigo e acabou por se casar com minha prima Tanya Denali, com quem ele veio a ter um filho, meu primo em segundo grau Seth.
Afinal, Charlie acabou “jogando a toalha”, termo que ele frequentemente usava desde os tempos de boxeador e hoje temos uma boa convivência embora ele sempre me jogue na cara que não responderia por seus atos se Bella corresse perigo por causa do meu dom, que ele sabia existir por “culpa” dos estudos da esposa Renée e no qual ele acreditava por ter uma cicatriz em um braço causada pela mordida de um lobisomem. Ele só não se tornara um licantropo porque Renée, na época, conseguira um carvão em brasa para cauterizar a mordida e evitar que o sangue da coisa entrasse no sistema do marido.
Todos esses pensamentos me faziam suportar a dor do espírito de Ansem abrindo a parte de cima de minha espalda com uma faca aquecida para poder tirar a “Presa Infernal” incrustada na minha carne: — Só mais um pouco e já poderei tirar essa coisa. Quem jogou isto contra as costas de Edward sabia o que estava fazendo, seja lá por qual motivo ele desejasse matá-lo.
- Qual razão alguém teria para matar o Ed? E quem teve semelhante ideia? – perguntou Emmett ao passo que Leona imediatamente respondeu a segunda pergunta: — Um anjo chorão. As presas infernais são as armas que eles usam para paralisar suas vítimas e se alimentar da dor e agonia delas.
— O que é um anjo chorão? – perguntou Bella tentando manter-se normal embora eu notasse tremor em sua voz.
- Os anjos que choram são demônios que se alimentam da falta de esperança das pessoas e em casos extremos, da dor e agonia delas quando eles as atacam usando as presas infernais. Eles são seres desprovidos de qualquer culpa ou piedade. Eles são descritos fisicamente, pelo menos na maioria dos relatos, como estátuas góticas de anjos e “psicologicamente” como sádicos e cruéis ao extremo, não se importando nem um pouco com os danos que causam a quem quer que seja – respondeu Molina me olhando fixamente ao que eu não compreendia a razão dele fazer isso.
— Nesse caso, a coisa queria matar Edward, ele não queria alimentar-se considerando que ele nem ao menos fez menção de se aproximar, se bem que ele não seria burro o suficiente de fazê-lo com tantos por perto e com o fato de que eu o mataria sem pensar duas vezes – disse Ansem determinado ao que eu gritei de dor no momento em que ele literalmente arrancava a “Presa Infernal” das minhas costas.
O curandeiro fantasma me censurou verbalmente: — Não seja mole, rapaz! Sei que vocês usam anestesia e outras coisas, mas isso tinha urgência e ferimentos causados por armas demoníacas não podem ser tratados de forma normal. Leopoldo, eu preciso de você agora. Eu não queria pedir isso, mas, se você não o fizer, Edward corre o risco de vida, ainda.
Quando ele disse as últimas duas frases, faltou apenas um segundo para que eu desse outro grito, mas dessa vez de pavor, pois eu compreendera exatamente o que acontecia e não estava exatamente feliz com a possibilidade de isso acontecer. Foi quando Belmondo se aproximou e me olhou por alguns momentos para depois dizer: — És para tu beneficio, Edward Cullen. Tu familia que me perdone por eso.
Apenas alguns segundos depois, senti as presas do vampiro na minha carne, sugando o que parecia ser alguma coisa que queria se espalhar pelo meu sangue, algo que talvez explicasse o olhar tão fixo de Molina. Mas o que realmente me espantava era como Bella se mantinha firme em seu propósito de não me permitir ver seu desespero latente embora ela não imaginasse o quão bem eu podia vê-lo. Mesmo que houvesse uma mina inteira de diamantes à minha disposição, não seria por ela que eu trocaria o meu diamante mais precioso, minha Bells.
— Leopoldo, já pode parar. O sangue do caçador está limpo – disse Ansem ao que o espanhol ainda demorou alguns segundos para me largar e eu me perguntei se o espírito sabia dos Cullens, mas provavelmente ele sabia, considerando que minha família existia há pelo menos mil anos.
Quando finalmente Leopoldo tirou as presas, pude ver que dos cantos da boca dele escorriam filetes do meu sangue e que ele murmurava desculpas repetidamente enquanto Lisandro, Maruja e María Luna permaneciam quietos em seus lugares. Foi quando ele limpou os lábios usando as costas da mão direita, esquecendo-se de ser “mais educado” em razão de sua origem nobre: — O mais importante é saber que Edward sairá ileso disso. Agora é só fazer um curativo e deixá-lo em repouso por pelo menos uma semana.
— O repouso dele será menor – disse Ansem, canalizado por Porcel, para depois murmurar o que parecia ser um cântico de cura antigo, que supus ser em latim, enquanto deslizava a mão sobre meu ferimento sem tocá-lo e depois fazia um grosso curativo com materiais pegos por Bells de um armário de madeira ao mesmo tempo em que María Luna colocava minha camisa e a presa infernal na lareira para que elas fossem consumidas pelo fogo.
Sentia-me incrivelmente melhor e até mesmo parecia que eu nunca fora ferido, o que eu não sabia se era pela habilidade de Ansem, a mordida de Leopoldo ou ambos misturados, eu só sabia que logo estaria pronto para enfrentar coisas piores e deter os planos malignos de Mariano Amenábar.
Foi quando tive condições de falar decentemente e perguntei: — Molina, ao acaso você sabe algo do que ocorria comigo?
— Você viraria uma estátua viva caso Ansem não tivesse se envolvido nessa confusão para te salvar. A Presa Infernal, quando não mata a pessoa atingida, transforma-a em um demônio de pedra, porém, isso é bem raro e só acontece por razões muito sérias. Ao que tudo indica, a coisa queria sua vida por alguma razão que não compreendo embora eu saiba da sua célebre ascendência de Ephraim Cullen e do quão sua família é odiada pelo filão sobrenatural maligno – respondeu ele, me espantando com o fato de que caçadores sabiam distinguir seres malignos e benignos naquele caso tão complicado.
— Obrigado por me informar, José Armando. Fico aliviado por isso e agradeço por me ajudar, Ansem – falei bastante feliz ao passo que o espírito me disse: — Não é porque morri a mais de séculos que não posso continuar ajudando as pessoas, mas agora preciso ir, Edward Cullen. Que as bênçãos da família Le Fey caiam sobre vocês.
Foi quando finalmente vi como se encerrava a canalização espiritual: o espírito deixava o corpo do “hospedeiro” vagarosamente para evitar causar danos ao mesmo e depois de dois minutos, novamente vi o tão amigável rosto de Antonino Porcel, que sorriu por me ver bem: — Parece que fiz bom trabalho canalizando o espírito de Ansem Le Fey.
— Não me admiro que seus subordinados o admirem tanto, delegado. O senhor só faz o bem – falei sorrindo enquanto Bella finalmente se aproximava sorrindo embora eu pudesse ver a dor que ainda trespassava seu ser em razão do que me acontecera: — Meu amor! Você está melhor, não está? Posso fazer uma sopa quente para Edward?
- Encarregarei minhas criadas disso, Bella – disse Leopoldo sorridente ao que decidi questioná-lo sobre o espírito que ia à minha procura: — Preciso te perguntar sobre um espírito que entra em contato comigo. Ele se chama José Ignácio Rucci e nas duas vezes em que ele apareceu diante de mim, foram coisas que te envolveram, mas que por alguma razão você esconde ou omite.
O espanhol me olhou estranhamente ao me ouvir falar e logo replicou: — Ele é o que alguns ocultistas chamam de espírito perseguidor. A função dele é basicamente fazer jogo de gato e rato com a pessoa perseguida. No meu caso, nunca entendi a razão dele sempre ficar na minha cola. Procuro ignorar as aparições dele porque tenho mais com o que me incomodar.
— Tienes mismo, Leopoldo? – meu coração deu um pulo dentro do peito quando escutei Rucci rindo como se Belmondo tivesse contado uma piada.
— Estás de broma?! – o vampiro olhou seriamente ao que o espírito disse: — Cuando ibas a cuentar a Edward que hás mordido al cuello de Isabella y bebió a su sangre?
Bells soltou um gemido de agonia ao passo que eu me recusava a acreditar que ele tinha feito semelhante coisa quando Maruja disse:
- Estava estranhamente muito frio na madrugada após a festa da minha madrinha e estranhei muito quando Bella veio ao meu quarto após ouvir a janela batendo. Quando fui ao quarto dela na manhã seguinte, notei que a janela dela havia sido aberta e eu a tinha fechado muito bem antes de dormir. Leopoldo, qual foi a sua grande ideia?!
Notei uma grande zanga na voz da policial feminina misturada a uma estranha pontada de ciúmes enquanto eu a muito custo me levantava e encarava o vampiro: — É melhor você explicar isso direito! Posso não estar em condições, mas não respondo por mim se voltar a tocar em Bella!
— Peço que me você perdoe, Edward. Não tinha o direito, realmente, de cometer semelhante ato com Isabella, mas, meus instintos não raras vezes falam mais alto que minha razão e acabo fazendo coisas das quais eu realmente não gosto. Sou um vampiro e isso interfere bastante nos meus conceitos humanos. Essa vida não é exatamente fácil. Sempre digo isso a algum discípulo meu que é humano e deseja ser vampiro – ele falou sentindo uma mistura de sentimentos conflitantes que estranhamente me comoveu, embora eu ainda estivesse muito furioso por saber o que acontecera e notasse claramente que havia algo que ele ainda escondia.
De repente, a tão notável calma, aparente, de Isabella literalmente desmoronara e ela finalmente mostrava seu desespero, me contando algo que pareceu atravessar meu peito com uma lança muito afiada...
— Se você está zangado com Leopoldo, você deveria ficar assim comigo também porque pedi que ele me beijasse naquela noite que passamos aqui! Eu não queria semelhante coisa, mas alguma coisa dentro de mim foi mais forte do que eu e mostrou uma malignidade terrível! Meu Deus, eu me sinto um lixo dos mais podres por ter feito tal coisa!
Eu simplesmente me recusava a crer nas palavras que Bella dizia e francamente me sentia o mais enganado dos homens, porém, ao mesmo tempo eu podia enxergar a sinceridade nas palavras dela, razão pela qual eu não sabia se ignorava a situação ou me zangava com ela, quando Leona inesperadamente se meteu no assunto: — Parece que temos um caso de manifestação física de passageiro sombrio.
— Passageiro sombrio?! – senti meu sangue gelar e o coração falhar uma batida ao ouvir aquelas duas palavras ao passo que os outros ficaram se olhando, talvez porque soubessem que aquilo podia ser excessivamente perigoso.
— Sendo de uma família de caçadores de vampiros, você deveria saber o conceito – me disse Leona ao passo que respondi quase sem pensar: — Eu sei, infelizmente. Nunca pensei que isso pudesse acontecer com Bella. Ela tem um coração completamente desprovido de maldade.
— Edward, ninguém é completamente desprovido de maldade, na verdade trevas, mesmo que você diga que Bella é essencialmente bondosa – me disse Molina daquele jeito bastante calmo que me incomodava às vezes porque não raramente eu ficava incrédulo com a capacidade dele de ser incrivelmente frio na maioria das situações. Se bem que, para ser caçador de demônios, era preciso um inacreditável sangue frio. E talvez a mesma coisa fosse necessária para ser policial, considerando que Maruja não havia manifestado nenhuma explosão apesar de tudo o que passávamos.
— A essência das pessoas é feita de luz e trevas e cabe à educação dada pelos pais, a convivência com o mundo externo e as decisões da pessoa determinar qual das duas partes será predominante – María Luna olhou todos calmamente e sua voz mostrava sabedoria de séculos de vivência.
— Então por que as pessoas escondem seus verdadeiros “eus” na maioria das vezes? – essa era uma pergunta que constantemente eu me fazia considerando que eu possuía um dom que nem sempre ficava escondido.
— Se eu tivesse que enumerar os fatores disso, acho que ficaríamos a noite inteira falando e poderíamos passar o resto do dia seguinte falando disso – disse a irmã de Leopoldo rindo levemente.
— Outra pergunta: o espírito perseguidor citou algo a mim na saída da confeitaria que me deixou bem incomodado. Gog e Magog soa algo a você, Leopoldo? – perguntei ao passo que os irmãos vampiros me olharam com espanto.
Leopoldo engoliu a seco enquanto María Luna se perguntava em voz alta como Rucci sabia sobre aquilo e novamente cobrei uma resposta, quando Molina disse: — Existe uma lenda que conta sobre um vampiro que derrotou um poderoso demônio e como recompensa recebeu uma arma contendo poder sagrado e que colocou o poder do demônio morto em outra. Espera, o vampiro em questão é você, Leopoldo Belmondo?
— Na verdade... isso foi um estranho golpe de sorte. Até hoje não entendo como consegui uma façanha dessas. Eu era um vampiro de 500 anos nessa época e mesmo tendo um grande poder como vampiro, isso não teria sido suficiente para derrotar Marluxia, contra quem lutei por considerar errado que ele quisesse destruir a tumba dos irmãos Le Fey e exterminar os feiticeiros que ainda vivem naquela região. Mesmo eu sendo um vampiro, tenho respeito por locais sagrados e jamais tocaria em um – as palavras dele causaram um silêncio tão absurdo que mesmo o bater das asas de uma mosca era audível e Molina tentava compreender aquela insólita revelação.
— Eu esperaria qualquer coisa do senhor, menos isso – disse Porcel, rompendo o silêncio e deixando Belmondo bem enfastiado:
— Mesmo eu tendo me tornado um tomador de sangue, não deixei minha humanidade de lado como tantos outros fizeram. Convivendo comigo há algum tempo, deveria ter percebido isso, delegado!
— Não me refiro a sua humanidade e sim à derrota do demônio. Sei que você tem poderes grandes, mas você mesmo admitiu que não poderia ter derrotado essa criatura – disse Porcel com a intenção de se desculpar pela ofensa indireta.
— Confesso que essa derrota aconteceu a muito custo. Quase fui exterminado cinco vezes e quando a sexta tentativa da coisa em me matar ia acontecer, subi em um rochedo dentro da caverna onde estávamos e derrubei inúmeras rochas por cima dele. Depois disso, a luta contra Marluxia tornou-se estranhamente fácil e só depois de decapitá-lo com minha espada é que percebi que a queda das rochas havia rachado sua armadura em várias partes, porém, essa derrota que lhe impus sempre me pareceu mais um golpe de sorte do que propriamente habilidade guerreira, considerando que tento sempre ser pacifista – suspirou Leopoldo para depois dizer sentindo algo equivalente a vermelhidão de vergonha: — E o fato de que não sou excelente lutando, pelo menos não como outros vampiros.
— E derrotando essa coisa você ganhou uma arma de poder sagrado e colocou o poder de Marluxia em outra. Eu ainda não posso crer que você tenha conseguido a façanha que os Morresi sempre tentaram – disse Leona com uma ponta de frustração e logo questionando: — E como você colocou o poder desse demônio na Gog, que suponho ser o nome da arma com o poder do mal?
— Consegui a façanha, mas nunca pude usar a Magog porque minha carne é um tanto impura pela minha condição de vampiro. Não posso tocar a arma com as mãos limpas e despertar todo o poder que ela possui. Somente uma pessoa essencialmente bondosa e com coragem para lutar pode fazê-lo. E o espírito de Morgana Le Fey me ajudou com isso quando foi canalizado por uma das médiuns. Ela, no corpo da canalizadora, disse que embora Marluxia tivesse sido exterminado, seu poder ainda vivia e eu poderia usá-lo contra outros demônios e afins, porém, somente quando Gog e Magog se juntam é que o poder de ambas vem com força total – disse Leopoldo sério.
Ouvia cada parte daquela conversa tentando absorver decentemente aquelas informações todas e quando Leopoldo terminou de falar, perguntei: — Se Rucci tornou-se uma Expressão e foi o responsável por aquele massacre do posto, então como ele está aqui?
— Como tem tanta certeza de que é ele? – me perguntou María Luna.
Expliquei sobre a pesquisa que havia feito com relação à vida do sindicalista alguns dias atrás e contei sobre como a “Expressão” se apresentara naquela noite em que eu e Bella havíamos chegado a Buenos Aires: vinte e três marcas de tiros das quais saía inacreditável quantidade de sangue.
Belmondo suspirou pesadamente sem acreditar no que eu acabara de dizer e sua expressão me dizia que ele estava pensando em algo quando, sem aviso nenhum, vi um estranho brilho vindo de uma porta que eu supunha ser a do porão, ao que todos olharam na mesma direção, ficando incrédulos quando a porta foi literalmente escancarada por alguma coisa invisível e o brilho que saía da mesma foi em direção à Bella, que não sabia o que dizer sobre o que via quando o brilho transformou-se em uma grande arma de cor branca que flutuava diante dos olhos de minha amada.
- Magog – eu disse sem crer no que via quando uma voz feminina e duas masculinas ecoaram pela sala: — Carvão e diamante, dois elementos opostos nascidos da mesma mãe, a Terra.
— Luz e trevas, duas forças opostas existentes sobre um mesmo espaço físico.
— Dois elementos que formam a essência dos corações humanos, e também vampiros.
Foi quando Bella tocou a arma que ainda flutuava, no que ela brilhou intensamente, fazendo com que os vampiros da sala cobrissem os olhos, considerando que eles não suportavam luz forte.
— Eu...? – ela se perguntava segurando a arma quando a voz feminina disse:
— Magog a escolheu, Isabella Swan. Você é a dona da arma sagrada agora.
— Sou? – ela engoliu em seco enquanto eu finalmente vi os espíritos que falavam: os irmãos Le Fey.
De repente, ouvimos um estrondo e quando olhei, alguma coisa que parecia uma bala de canhão atravessou a janela e uma voz incrivelmente sinistra cortou o ar: — Não permitirei que atrapalhem meus planos!
— Não! – Bella gritou empunhando sua nova arma e pronta para atirar quando Leopoldo, em uma inacreditável velocidade, foi até o andar de cima e voltou trazendo uma arma parecida com a de meu amor, só que preta: — Carvão e diamante, certo?
— Certo! – exclamou ela misturando segurança e insegurança quando os dois, juntos, correram até a entrada da casa ao que todos nós, em um impulso coletivamente idiota, fomos atrás e vimos o grande inimigo Mariano Amenábar cercado pelas criaturas mais horrendas e detestáveis que tínhamos tido o desprazer de ver.
Palavras não foram necessárias para descrever aquele momento: a guerra de fato havia começado.
Assim que a primeira ordem de ataque do inimigo foi dada, Bella e Leopoldo empunharam suas armas no mesmo momento e quando menos esperávamos, uma forte descarga de luz de cores misturadas saiu das armas.
E ninguém pôde ver mais nada.
Notas finais
Gostaram do capítulos? Nesse teve mais revelação do que vocês esperavam, não é? rsrsrsrs.
Os próximos vão ter MUITO MAIS! Spoiler do dez em alguns dias, :D.
Os irmãos Le Fey:
Rassilon, o criador da Witchblade: http://imageshack.us/photo/my-images/692/danielcraig.jpg/
Ansem, o curandeiro: http://imageshack.us/photo/my-images/525/danieldaylewisdanielday.jpg/
Morgana, a criadora da Magatama: http://imageshack.us/photo/my-images/194/2007hisdarkmaterialsgol.jpg/
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