Cidade Dos Corvos

8 Cidade dos Corvos: Capítulo Oito: Como Eu Te Conheci.


CAPÍTULO OITO:

Estrada dois dias atrás.

Narração de Dyêgo.

Eu estava indo ao encontro da minha namorada Júlia em Cidade dos Corvos, ela estava precisando de mim, peguei um ônibus que seguia pra lá onde só tinha o motorista e um homem bizarro no último banco do ônibus, me sentei na quarta fileira do ônibus e tentei descansar. Depois de muito tempo abri os olhos e olhei para o lado e tinha uma menina sentada junto de mim.

– Oi. – Falou ela timidamente e eu nada respondi. – Tem algo pra comer? – Perguntou ela. – Chiclete? Balas? Pastilhas?

– Não. – Respondi. – Quer dizer, eu tenho. No meu carro.

– Você tem um carro? Por que está em um ônibus?

– Por que está sentada aqui? Esse banco não é de uma pessoa só, mas só tem três pessoas aqui, quatro com o motorista.

– Quando entrei, fui para o fundo, o carinha lá atrás estava me assustando. Então tentei sentar perto do motorista, mas ele não tinha nada para comer e eu estou faminta.

– Desculpa, não trouxe um piquenique. Eu não viria de ônibus.

– Nem eu, tive que mudar em Harrisburg. Tinha um maluco no último banco que era chato. Ficou me contando que parecia o Ryan Gosling perto da luz. E eu pensei: “Cara, com essa luz você parece o Shrek.” Para onde você está indo? – Perguntou pra mim.

– Cidade dos Corvos. – Respondi.

– Eu também.

– Você tem amigos lá?

– Não, família. Mas não os conheci ainda. Na verdade é só meu tio, na verdade é só meu tio e eu nem sabia que ele existia há duas semanas.

– Seus pais nunca...

– Eles se foram.

– Se foram?

– Mortos. O esquisitão dormiu e ele tem batata frita. – Falou ela se referindo ao homem lá atrás. — Acha que conseguimos roubá-la?

– A não ser que 60 pessoas entrem no próximo ponto, diria que sim... Ele sabe que está indo? O seu tio?

– Claro que sabe. Ele é a única família que eu tenho.

– Com quem está morando agora? — Perguntei pra ela.

– É complicado. — Respondeu ela olhando pra frente.

– Orfanato? — Perguntei.

– Não precisa falar assim. — Falou ela olhando pra mim. — Você não pegará algo por dividir o lugar.

– Se tivesse algo a pegar, já teria pegado. Já passei algum tempo neles... Você está fugindo?

– Vou roubar as batatas. – Falou ela levantando.

Ela foi até o homem e dormia, tentou pegar o pacote de batatas, mas o homem acorda e ela volta pro lugar.

– O que aconteceu? – Perguntei.

– Ele tem um sono bem leve. – Falou ela.

Tentei ligar pra Júlia, mas ela não atendeu então deixei um recado na caixa postal.

– Júlia, por que não atende seu telefone? Por favor, me liga. – Falei desligando.

– Quem é Júlia? – Perguntou Ela.

– Minha namorada.

– Vocês brigaram, ou algo do tipo?

– Não. Só estou... Com raiva de mim mesmo, por tê-la deixado ir lá.

– Ir onde?

– Cidade dos Corvos.

– Tem medo de ela estar te traindo?

– Não, não é com isso que estou preocupado.

– Não se preocupe. Se chegarmos lá e formos expulsos, nos encontramos na próxima saída de ônibus.

– Seu tio sabe que você está indo? – Repeti a pergunta. – Despediu-se dele pelo menos?

– Pra quê? Pra ele gritar comigo?

– Eu só... Talvez ele precise de...

– Não se preocupe comigo está bem? Tenho outros lugares para ir. Preocupe-se com a Júlia. – Falou ela levantando-se e saindo de junto de mim.

Depois de um tempinho eu me levanto e vou até ela.

– Olha, desculpa. Só perguntei sobre seu tio, por que... Já passei por isso. Colidir na vida de alguém, como uma bola de canhão. Pode haver uma explosão. Também tenho um tio. Que acabou sendo meu pai.

– Está morando com ele agora?

– Não. E se está esperando por isso, não espere. Pegue a cerca de piquete e um quarto com sua própria porta, e tire da sua cabeça.

– Me contentaria com alguém que não jogasse meu notebook numa banheira quente.

– Você estava dentro?

– Não. Não que ela tenha notado. Ela é do tipo que abre uma garrafa de vodka e joga a tampa fora.

– Então foi uma boa decisão. Talvez as coisas funcionem. Pelo menos sabe para onde vai.

– Sim, para a Scraton. Acordo com o diabo, eu sei. – Falou ela levantando-se para descer do ônibus.

– Tem certeza que quer fazer isso? – Perguntei. – Você está mais perto de Cidade dos Corvos.

– Eu tenho que ir. Mas tenha uma boa vida... Qual seu nome?

– Dyêgo.

– Ellen. Adeus. – Falou ela virando-se para descer, mas nota que o homem que estava lá atrás também ia descer. – Pensando melhor. – Falou ela voltando.

Já em Cidade dos Corvos.

– Ouvi assovios no cemitério, mas não sabia que podia trazer uma banda. – Falou Ellen pra mim na frente de um cemitério onde estava tendo uma festa.

– A festa deve ser pra honrar os mortos. – Falei.

– Tá, mas precisava andar por cima deles? – Falou ela e eu ri. – Pode ir, vá encontrar sua namorada. Eu ficarei bem.

– Posso te levar até a casa do seu tio. O motorista disse que era no final da rua.

– Não, eu acho sozinha. Você está atrasado. Na verdade, prefiro lidar com ele sozinha. É como estou acostumada.

– Você tem meu número então...

– E você tem o meu.

– Depois me conta como foi.

– Prometo. – Falou ela tocando minha testa com o dedo indicador.

– O que foi isso?

– Espanta os maus espíritos.

– Nunca ouvi falar disso.

– Eu acabei de inventar. – Ela falou e eu mais uma vez ri. – Nos vemos no ponto de ônibus.

– Tudo bem. – Falei entrando no cemitério e ela seguiu assoviando pela rua até a casa do seu tio.

Narração de Ellen.

Cheguei à casa do meu tio, bati na porta, gritei, toquei a campainha, mas ninguém apareceu, foi quando eu girei a maçaneta e vi que a porta estava aberta, então eu entrei. Passei por um corredor onde tinha fotos antigas de antepassados de minha família, não consegui reconhecer ninguém. Continuei andando até que vi um tipo de cabine telefônica dentro de casa, vi que tinha alguém dentro, parecia estar presa, era uma menina, pedia socorro e batia na porta. Aproximei-me e abri.

– Olá. – Falei pra menina loira de olhos verdes que parecia estar apavorada.

– Oi. – Falou ela.

– O que você está fazendo ai? – Perguntei.

– Fiquei presa por acidente, obrigada por me salvar. – Falou ela.

A menina estava vestindo um vestido longo antigo. Não entendi bem, mas resolvi não perguntar. Então fomos andando.

– Você mora aqui? – Perguntou ela.

– Meu tio mora. – Respondi. – Ou pelo menos acho que mora. Era quem eu estava procurando.

– Quem mais mora aqui? – Perguntou ela.

– Como eu vou saber?

– Tinha pessoas correndo. Você deve ter visto.

– Só vi você desde que entrei aqui. E você é?

– Por que eu deveria te contar?

– Por que te deixei sair da cabine.

– Como sei que não foi você que me prendeu? Você pode morar aqui. Talvez queira me matar.

– Se eu quisesse te matar eu usaria algo melhor que uma cabine telefônica.

– É. Meu nome é Júlia. – Falou a menina.

– Júlia. Sou a Ellen.

– Tá bom. Vai parecer loucura, mas minha amiga está nessa casa e querem machuca-la. Meus amigos queriam salvá-la, mas nos separamos num túnel. E agora fiquei presa em uma cabine telefônica.

– E qual é a parte mais louca?

– Vamos sair daqui e encontrar minhas amigas.

– Está bem. Sabe sair daqui não é?

– Você veio por uma porta.

– Fiquei meio perdida. Podemos sair pelo caminho que você entrou?

– Não é uma boa ideia.

– Vim por aqui, eu acho. – Falei mostrando uma porta. – Sempre se veste como no baile do Titanic? – Falei e ela abriu a porta.

– Que tipo de negócios seu tio faz?

– Não sei. – Falei vendo um monte de caixões.

Júlia acha um papel em cima de um caixão.

– Henchley, Trumble e Collins.

– Esse é meu tio. O último, Collins.

– Vamos. – Falou ela saindo. Mas eu me aproximei dos caixões. – Ellen, vamos lá. Não vire estátua. – Eu virei-me novamente pros caixões e tive uma lembrança de quando eu era pequena, do dia do enterro dos meus pais. Eu estava junto dos caixões quando meu tio surgiu por trás de mim.

– Não tente entender, Ellen. Não agora. Você estará segura. É o que os seus pais queriam. E, por favor, me perdoe.

Lembrando daquilo não pude conter uma lágrima.

– Você está bem? – Perguntou Júlia.

– Sim, acho que estou. Eu falava que não estava no funeral dos meus pais, porque não queria falar sobre isso. Acho que disse tanto isso, que comecei a acreditar nisso. Mas... Eu estava lá. E me lembro de um homem. Acho que era meu tio. Mas se ele estava lá, por que me abandonou?

– Eu não sei. – Falou Júlia. – Quando sairmos daqui e o encontrarmos, eu vou segurá-lo enquanto você pergunta. Fechado?

– Fechado.

– Vamos. – Falou ela saindo do quarto e eu peguei um panfleto da funerária e olhei. – Não acredito! – Falei pra mim mesma e coloquei o panfleto no bolso do casaco.

Já do lado de fora da casa.

Eu estava parada do lado de fora quando Dyêgo aparece.

– Ellen? – Falou ele e eu me virei.

– Para um cara que procura alguém, não é fácil te encontrar. – Falei pra ele.

– Não sabia que estava me procurando. Você está bem?

– Podemos falar sobre mim depois. Acho que sua namorada precisa de um abraço. – Falei apontando Júlia perto de uma árvore tentando ligar pra alguém.

– Ei! – Dyêgo gritou indo até ela. – Estava tentando te ligar. – Falou ele a abraçando. – Júlia, está tudo bem? O que está acontecendo? Onde estão todos?

– Eu as perdi... – Falou ela.

Cemitério. Dentro de um mausoléu.

– Sei que não parece, mas isso é uma porta. – Falou Júlia empurrando uma estátua. – Por que estou fazendo isso sozinha. – Ela falou e Dyêgo foi ajuda-la.

Eles empurravam a estátua, mas ela não saia do lugar.

– Tem certeza que esse é o lugar? – Perguntou Dyêgo.

– Sim. – Falou Júlia.

Enquanto eles empurravam a estátua eu vi uma coisa meio perturbadora numa parede do mausoléu.

– Ellen, você está bem? – Perguntou Júlia.

Eu continuei afastando as folhas e vi meu nome e minha foto em uma lápide.

– Sou eu. – Falei.

– Como isso é possível? – Perguntou Dyêgo vindo até a mim e olhando também.

– Olha isso. – Falei entregando o panfleto pra Dyêgo onde tinha escrito “Em memoria de Bert Ambrose” – Encontrei na casa do meu tio. – Falei pra Dyêgo.

– Não pode ser. – Falou ele. – Ellen, esse é o homem que estava no ônibus. Deve ter alguma explicação. Como um irmão ou algo assim.

– Sim, nos encontramos no carro. – Falou Júlia no celular.

– Júlia, elas estão bem? – Dyêgo perguntou.

– Sim, estão todas bem. – Falou Júlia.

– Que bom. – Falou Dyêgo.

– Então pessoal, eu acho que fico por aqui. – Falei.

– Não, não precisa ficar aqui, pode vir conosco. – Falou Júlia.

– Podem levar estranhos para casa? – Perguntei.

– Já fiz isso antes. – Falou ela olhando pra Dyêgo.

– Obrigada pela oferta, mas posso me cuidar. Faço isso há muito tempo. – Falei.

– Dyêgo, me ajude. – Falou Júlia. – Não pode deixa-la voltar para aquela casa.

– Olha eu sei como é a sensação de querer respostas. E eu espero que você encontre as que procura.

– Vamos pessoal. Vocês já podem ir. – Falei e Júlia me abraçou.

– O convite fica de pé. Você sempre pode vir nos procurar. – Falou Júlia.

– Obrigada. – Falei. – Tchau. – Falei me virando e Júlia e Dyêgo também seguem seu caminho.

– Acho que não devíamos deixá-la aqui. – Falou Júlia para Dyêgo.

– Você escutou, não é apenas querer respostas, é precisar delas. – Falou Dyêgo. E eles se viram e olham pra mim que continuo parada de costas pra eles pensando em como devo chegar novamente naquela casa.

– Droga. – Falou Júlia e depois beija Dyêgo.

– Por que isso? – Perguntou Dyêgo.

– Por ser o tipo de cara que posso pedir para ficar aqui e tomar conta de uma garota bonita. – Falou Júlia.

– Tem certeza? – Perguntou Dyêgo.

– Tenho. – Falou Júlia. – Ajude-a a encontrar o tio. E depois me encontre em casa.

– Eu te amo, Júlia Marin. – Falou Dyêgo e depois ele vem até a mim.

– Você não vai embora não é? – Perguntei a ele.

– Hoje não. – Falou ele e nós começamos a andar. – Notou quantas crianças estão enterradas aqui?

– Dyêgo, qual é seu sobrenome? – Perguntei.

– Rivers. – Falou ele. – Por quê? – Falou ele olhando pra baixo onde tinha uma lápide escrita “Dyêgo Rivers. Filho amado.” Ele abaixou-se e levantou a janelinha onde fica a foto e tinha a foto dele lá.