Notas iniciais
Desculpa a demora povo.

– Muito bem! Grupo Nº 3, apresente-se! — gritou o comandante.

Olhei rapidamente para trás, vendo a sombra de um homem grande na porta.

– Senhores, hoje é o dia em que decidirão o futuro de suas vidas. Hoje será o dia em que vocês vão entender a importância dos guerreiros para a nossa cidade. Nenhum de vocês é digno de estar aqui! E hoje vocês provarão do medo... e principalmente da dor.

"Quero que façam uma fila. Esta urna que estou segurando contém números. Cada número representa uma dificuldade para o teste que está por começar. Quero que cada um de vocês tire um número, rápido."

Formamos desorganizadamente uma fila enquanto o comandante nos encarava friamente. Eu fiquei em penúltimo na fila.

A fila foi avançando rapidamente. Era possível ver a expressão das pessoas que retiravam o número. Quando chegou minha vez, com confiança, enfiei a mão na urna e retirei o número 7. Eu não conseguia imaginar o sentido desse número... Com certeza seria uma dificuldade alta... o que não me tranquilizava nem um pouco.

– Ótimo — disse o general quando acabamos de pegar os números. — Agora eu quero que me digam seus números em voz alta.

O primeiro deu um passo a frente e disse:

– Número 2, senhor.

O que estava atrás dele na fila disse com a voz baixa:

– Número 3.

Dei um passo a frente e falei firmemente:

– Número 7.

Outro garoto se aproximou e disse:

– Número 3 também, senhor — observei seu rosto. Ele parecia confuso pela repetição.

– Número 1 – disse outro logo em seguida, com uma sombra batendo em seu rosto.

– Muito bem — disse o comandante fixando seu olhar amargamente em uma folha em sua mão. — Algum de vocês conhece a história do nosso Mundo? — perguntou andando na nossa direção.

O garoto que estava ao meu lado disse:

– Eu conheço, senhor.

– Apenas uma pessoa conhece a história do nosso Planeta? — fez um sinal depreciativo com a cabeça. Os olhos demonstravam desgosto. — Então vou lhes contar uma pequena história.

"Há 300 anos nós vivíamos em outro Planeta. Vivemos nesse planeta há pouco tempo para nós o conhecermos bem. Nas últimas semanas que ficamos em nosso Planeta, todos que tinham condições de luta foram convocados para a proteção do Planeta. Poucas pessoas conseguiram se salvar entrando na nave. E se pegarmos os números que vocês tiraram, nessa perfeita ordem, temos o número vinte e três mil setecentos e trinta e um (23731) . Este é exatamente o número de pessoas que foram deixadas para trás batalhando pelo nosso Planeta."

– Isso é uma coisa rara de acontecer. A última vez foi há 79 anos — falou o comandante. — Esse número representa o tanto de pessoas que estavam lutando e sofrendo por nosso mundo que estava ruindo — ele sorriu cruelmente. — E nós temos um teste diferente para os participantes que conseguem tirá-lo — falou — O grupo de vocês irá realizar os dois primeiros testes juntos. Isso é: o teste de força e resistência. Irei lhes explicar como será... Sigam-me.

O comandante se retirou da sala e seguiu por um corredor. Os participantes ao meu lado tinham expressões preocupadas imaginando o que os aguardariam.

Seguimos andando pelo corredor. Havia uma aparência rústica, parecendo ser uma construção bem antiga... o que não deixava de ser verdade.

O comandante dava passos largos, apressado. Ele parecia empolgado com o nosso teste. Empolgado de uma maneira bem sádica...

Parando abruptamente à frente a uma grande porta de madeira, disse:

– Irei explicar o teste e quero que prestem bastante atenção pois só irei lhes falar essa vez. Vocês cinco irão entrar nessa arena juntos. Lá haverão criaturas que não hesitarão em matar qualquer um de vocês, então não o façam com eles também. O objetivo de vocês é simples. RESISTIR LÁ DENTRO POR 3 HORAS... Ou até que todos os monstros sejam derrotados — sorriu enquanto olhava no rosto de cada um de nós. — Mas tenham cuidado, isso não vai ser nem de perto tão fácil quanto vocês imaginam, então deixe eu lhes dar apenas um conselho. Pensem antes de agir — dizendo isso, se virou para a grande porta.

– Hey — sussurrou o garoto que estava do meu lado. — Você está com medo?

– Não — respondi rudemente.

A porta começou a abrir vagarosamente. É agora.

Me direcionei ao meio da arena. Os outros 4 seguiram caminhos diferentes, se espalhando pelo local.

A arena era apenas um grande circulo com poucas cadeiras nas arquibancadas. As pessoas não se interessam por esse tipo de teste.

Haviam quatro portões em lados opostos, e cada participante fora para a frente de um.

O clima estava tenso; o rosto dos participantes contorcidos em ansiedade e medo. Ninguém produzia nenhum ruído, toda a atenção era voltada aos portões que se abririam a qualquer momento.

Ouvi o rangido de um portão pesado e enferrujado sendo mexido. Virei para trás e fiquei a observar o portão abrir-se. Ia começar.

Antes do portão abrir por completo saíram lobos, que correram rapidamente para os participantes mais próximos.

– Alguém me ajude! — gritou o participante que foi jogado no chão pelo lobo atacando-lhe o braço.

Corri em sua direção por puro reflexo, mas antes que conseguisse lhe alcançar, um lobo enorme que corria atrás de um dos participantes, passando na minha frente, mudou sua atenção para mim. Ele parou na minha frente e se virou, encarando-me. Seus olhos mostraram o puro desejo de sangue. Os dentes à mostra rangiam enquanto a saliva escorria ameaçadoramente por seu focinho.

Tentei levantar minha espada, mas o lobo me atacou bruscamente no braço sem me dar chances de terminar o movimento, me derrubando com força logo em seguida. Ele tentava me atacar no rosto, mas eu o estava afastando com as duas mãos pelo pescoço.

– Você não acha esse teste um pouco cruel? — perguntou uma mulher na arquibancada ao comandante.

– Minha senhora, nosso mundo é cruel. Se eles não aprenderem isso aqui irão aprender lá fora — retrucou o comendante.

O lobo ainda dava incansáveis mordidas, tentando me acertar. Com a mordida que levara no braço e o impacto da queda minha espada fora lançada para longe de mim. Afastei uma das mãos do pescoço do lobo e me estiquei, tentando, o máximo possível, alcançar a faca que eu carregava comigo em um suporte em minha perna.

Percebendo minha distração e a dificuldade em afastá-lo ele fez mais investidas contra mim, quase conseguindo me atingir, mas antes que o fizesse, puxei a faca e cravei-a em sua garganta, rasgando-a, e o empurrei para o lado. Sentei-me tentando recuperar o fôlego. As outras pessoas do grupo já haviam derrotado os outros lobos, então eu poderia descansar um pouco.

– Hey, você está bem? — perguntou um garoto se aproximando de mim e me ajudando a levantar.

– Sim, e os outros?

– Todos estão bem, mas há um ferido gravemente na perna.

– Quanto tempo será que falta para o teste terminar? — falei enquanto tentava tirar um pouco da sujeira e do sangue de minha armadura. Desisti quando enfim percebi a sujeira que eu estava fazendo.

– Não sei... Dizem que no último teste como esse não houveram mortes e que acabou em menos de 30 minutos. Se nós dermos sorte, nosso teste termina agora — disse — Eu estou rezando por isso. Eu já estou exausto...

Ri.

– Esse lobo não deu nem para me aquecer — respondi enquanto jogava o cabelo pra trás, tentando ajeitá-lo.

– Vocês foram muito bem, mas agora é a hora de saber quem continuará por esse caminho.

• Portão se abrindo •

Ouvi o barulho de algo pesado se chocando contra o chão nas minhas costas. Observei o lobo gigantesco sair das sombras do portão. Merda. Esse bicho deve ter uns 2 metros e, para melhorar, com ele ainda têm mais lobos menores.

Observei os outros participantes. Todos olhavam para o lobo gigante paralisados. Provavelmente nunca viram um Monstro Alfa.

O Lobo Alfa correu em direção a um rapaz que estava próximo a si, e para azar do garoto, ele era rápido demais, não houve chance de reação alguma. Observei incrédula o lobo abocanhar o garoto quase todo de uma vez. Após deixar cair os restos do corpo e da armadura do rapaz no chão, começou a farejar o cheiro de sangue que vinha de um outro rapaz que acabara de perder boa parte do braço para um lobo menor. O Lobo Alfa correu em direção a ele e deu-lhe uma patada, arremessando seu corpo agora morto contra uma parede. Os lobos menores que estavam apenas encarando-o de longe foram para cima e começaram a morder seu corpo.

Enquanto eu observava, tentando situar-me, um lobo menor arrancou em minha direção, mas quando ele tentou me atacar dei-lhe um chute no focinho, fazendo-o cair no chão com um ganido abafado. Me aproximei dele antes que conseguisse se levantar, saquei minha espada e enfiei em sua cabeça.

Os dois membros que restavam no grupo agora lutavam contra o Lobo Alfa. Comecei a matar os lobos menores que estavam atrapalhando de matar o Lobo gigante. Logo que terminei com os lobos menores, corri em direção aos outros rapazes para ajudá-los.

Nós cercamos o Lobo. Ele parecia escolher a quem atacar primeiro; quem seria o alvo mais fácil para ele, mas assim que sentiu o cheiro de sangue que vinha de um dos rapazes tomou sua decisão. Correndo para cima dele, deu apenas uma mordida em seu corpo.

Com o breve momento de distração, corri em direção ao Lobo e cravei minha espada em seu lado esquerdo. O outro garoto fez o mesmo que eu no lado direito. Soltando um grunhido abafado o Lobo caiu no chão, enfim morto.

– Muito bem — disse o comandante. — Eu achei que vocês não seriam capazes de sobreviver a um Alfa — o comandante olhou em volta. — Parece que só vocês dois sobreviveram. Os guardas vão levá-los a um quarto. É bom que descansem. Vocês irão ser convocados assim que seu terceiro teste for começar.

Um guarda se aproximou e nos fez um sinal de cabeça indicando para seguí-lo. Ele nos levou para dentro do estádio e logo chegamos aos quartos.

Entrei no quarto que o guarda indicara como meu. Não era pequeno, mas não era tão grande. Vi uma cesta com maçãs e me aproximei, pegando uma, jogando-me na cama logo em seguida. Eu precisava descansar. O terceiro teste seria a luta entre os participantes.

Fiquei imaginando como seria minha batalha. Será que lutarei contra um novato ou um veterano?

Milhares de coisas passavam em minha cabeça de uma vez. Observar os movimentos do inimigo, procurar fraquezas, executar ataques rápidos e em pontos que o impossibilite de lutar, formular estratégias... Será que ele conhece os mesmos métodos de batalha? É provável que sim...

– O terceiro teste já vai começar — disse um guarda entrando em meu quarto depois de dar duas batidas na porta.

– Já estou indo.

O guarda começou a andar, eu apenas o segui, calada. No caminho inteiro era possível escutar o barulho das pessoas que estavam indo para a arena.

– Você vai ficar nessa sala até você ser chamada. Assim que isso acontecer, siga por aquele corredor que você irá sair na arena — instruiu.

– Eu tenho mesmo de ficar aqui? — questionei.

– Sim. Todos os outros integrantes estão em salas como essa nesse exato momento. Todos vão aguardar seus nomes serem chamadas para começar a batalha. Vai ser uma fase final. Seus nomes serão chamados em ordem aleatória e dois participantes irão lutar. Os participantes que sobrarem vão ganhar o título de Aprendiz-Guerreiro.

– Ah...

A sala estava vazia e silenciosa. Tão silenciosa que meus pensamentos seguiram para como seria a minha batalha. Eu estava ansiosa por isso. Sorri enquanto dava outra volta pela sala.

• Algum tempo depois •

Muitos nomes já foram convocados para a luta. Os gritos incansáveis da plateia me faziam mais e mais querer que chegasse a minha vez de batalhar. Enquanto meu nome não era convocado eu apenas praticava alguns golpes aleatórios.

* Alto falante *

– Próximos participantes são: Francys e Hiron.

– É agora — disse andando pelo corredor.

Assim que saí para a luz da arena ouvi os gritos da plateia. Que ironia. Era a mesma arena do teste anterior. Talvez eles tenham me mostrado um caminho diferente... ou não... Tanto faz, eu não presto muita atenção em lugares desse tipo.

Do outro lado da arena havia outra pessoa saindo pelo corredor: meu adversário.

Assim que me viu empunhou a espada e correu em minha direção. Não pensei duas vezes e fiz a mesma coisa que ele fizera. Rapidamente notei que ele tinha a defesa muito aberta e segurava a espada baixo. Um adversário que apenas se focava no ataque.

Quando chegamos perto ele ergueu a espada e me atacou, mas defendi facilmente colocando minha espada na frente. Olhei em seus olhos, encarando-o, e quase que imediatamente me surpreendi. O destino era mesmo irônico. Era o meu ex-companheiro de time. O único que sobrevivera comigo.

Quando nós dois percebemos contra quem estávamos batalhando o clima ficou mais pesado. Continuamos a nos encarar, a pressão dada nas espadas de ambos os lados não cedera um milímetro sequer. Isso não ia levar a nada...

Empurrei sua espada e dei dois passos para trás, desviando de sua espada que descia novamente em minha direção. Ele correu em minha direção com a espada levantada. Esquivei de seu ataque e puxei a faca no suporte em minha perna, enfiando-a em sua barriga. Ele caiu no chão instantaneamente. Sua guarda era muito aberta, ele não pensava antes de atacar. Era óbvio que com um ataque naquela velocidade ele não conseguiria se defender se fosse interceptado.

Esperei ele se levantar. Eu não atacava pessoas caídas. E acabar com ele agora não teria tanta graça, afinal, a luta mal começara.

– Até que você luta bem para uma garotinha — ele falou tentando se reerguer.

Meu sangue ferveu ao ouvir essas palavras. Eu iria matá-lo. Ele já não tinha mais chances de vencer essa luta.

Caminhei em sua direção vagarosamente, passo após passo. Ele havia caído sobre os joelhos, não aguentando manter-se mais em pé.

– Você não deveria ter me provocado — sussurrei em seu ouvido, puxando sua cabeça para trás pelos cabelos. — Você vai morrer — disse e me afastei, sorrindo sadicamente.

Chutei seu peito com toda a minha força, fazendo-o voltar ao chão bruscamente, e puxei a faca que deixara em sua barriga, levando-a até seu pescoço.

– Eu desisto! — ele gritou assim que sentiu a lâmina fria passando em sua pele.

Me endireitei enquanto guardava a faca e a espada. Era uma visão deplorável a dele.

– Você não é capaz de ganhar dessa garotinha? — perguntei cruelmente. — Seu pirralho covarde.

Vi sua boca tremer e seus olhos marejarem.

* Alto falante *

– E a vencedora da última batalha é: Francys.

Notas finais
Até o próximo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.