Ciclos

1 O fim de um ciclo nem sempre significa o início de outro


Notas iniciais
Sentem-se, tomam um café — para se manterem acordados — e embarquem nesta loucura que eu chamo de história. Boa leitura e bem-vindos a "Alma gêmea". P.S. A história se passa em 2089 e o projeto, que foi aprovado pelo governo, possui 24 anos de existência (ele foi criado em 2065).

— CAPÍTULO ÚNICO —
O fim de um ciclo nem sempre significa o início de outro

O ranger do velho balanço fazia-se ouvir a cada impulso realizado pela garota.

Era um brinquedo antigo, mas ainda permanecia de pé, firme para quando Luiza precisasse de momentos solitários enquanto ficava a devanear. E aquela era uma das situações que precisam ser pensadas, com calma e paciência, com tranquilidade e o ranger ritmado do balanço.

Talvez, em algum outro lugar, fosse um dia especial; para Luiza, o dia 3 de fevereiro chegou rapidamente, o seu desejo de retardá-lo não causou efeito algum. Ele trazia consigo os seus 18 anos, 18 invernos vividos e uma única, porém enorme, preocupação: a carta.

Em meio a um suspiro frustrado, uma leve brisa acariciou o seu rosto, daquelas que refresca o calor sentido e resulta em sorrisos satisfeitos. Mas Luiza não sorriu, apenas continuou inerte apreciando o silêncio e mergulhando cada vez mais em um mar de pensamentos.

— O que vai fazer? — Isabelle a perguntou serena, ansiando por uma resposta que contribuísse positivamente para o relacionamento de ambas. Ela se encontrava acomodada no segundo assento do balanço, enquanto observava o perfil imutável de Luiza durante todo o seu silêncio.

— Queria te dizer que tive uma ideia, que pensei em algo viável, mas se o fizesse estaria mentindo — revelou. Sentia-se inútil por não conseguir chegar a uma conclusão, ou a um ponto de partida para uma possível fuga.

Uma onda que carregava medo e instabilidade a atingiu. Tudo o que estava acontecendo em sua vida fora consequência de uma atitude aprovada pelo governo brasileiro.

No fim do ano de 2065, o ocorreu a última votação entre a Câmara dos Deputados para que um novo projeto fosse aceito, este que consistia em uma carta ser enviada a cada habitante brasileiro que completasse 18 anos, nela estaria o nome de sua alma gêmea.

Ao receberem as cartas, os jovens deveriam trocar correspondências com a pessoa, cujo nome estava no papel, durante o período de, no máximo, cinco meses. Em seguida, os casais seriam oficialmente formados.

Segundo o presidente da época, este projeto acarretaria no desenvolvimento do país, afinal "se as pessoas estão com quem amam, serão mais felizes, então haverá um desenvolvimento maior em suas profissões e índices de felicidade", de acordo com suas próprias palavras ditas num de seus pronunciamentos.

A ligação entre as pessoas realizava-se através de características em comum, interesses, região onde reside, entre outros tópicos. Casais formados a partir de ligações supérfluas e informações técnicas moldavam a nova sociedade brasileira. De fato, as pessoas não estavam felizes.

Luiza e Isabelle fora apenas mais um casal unido verdadeiramente pelo amor atingido e posto à prova diante desse projeto.

— Eu sei que pode ser inútil perguntar, mas não dá para para continuarmos juntas mesmo com isso tudo?

— Não por aqui — respondeu-lhe vagamente. Uma ideia começava a se formar em sua mente. — Alguns direitos serão negados a nós, se continuarmos aqui sequer poderemos trabalhar.

Tudo começou a se encaixar em sua cabeça, cada segundo pensando numa forma de contornar aquela situação havia valido a pena. A princípio a ideia fora descartada, contudo Luiza percebeu que era a única forma de continuar ao lado de Isabelle, e ela não a deixaria escapar.

Em seu âmago, a esperança começava a surgir. E então, Luiza pensou em seus pais, em como eles se sacrificaram para lutar contra essa proposta do governo, pensou também nas pessoas que se juntaram a eles para apoiarem-nos, e na fúria com que os oficiais do exército os atacaram.

— O que quer dizer com isso? — perguntou-a já imaginando o que lhe responderia.

— Vamos fugir — as palavras pareceram tolas ao serem pronunciadas.

Aos os seu 10 anos, Luiza tornou-se órfã, porque seus pais foram corajosos o suficiente para darem as suas vidas em busca da felicidade para as gerações futuras. E quando chegou a sua vez de demonstrar-se contra ao que lhe esperava, Luiza fugiria.

Uma atitude considerada covarde para a filha dos Lavigne.

— Eles vão saber para onde estaremos indo.

A garota ignorou a todos os pensamentos que indicavam o quão covarde era, pois seu único objetivo no momento era permanecer com quem ela gostava de verdade. Luiza poderia ser covarde, mas acima disso ela era apaixonada.

— Eles dão mais atenção para viagens para a capital e outros países. Poderemos ir a um estado pequeno e próximo daqui — Luiza moveu o rosto em direção a Isabelle, sempre que a olhava se encantava cada vez mais pelo seu costumeiro sorriso estampado no rosto.

— Espero que dê certo.

— Dará — seu tom esbanjava convicção. — Minha tia passa quinze dias comigo e os outros quinze em seu estado, podemos ficar na casa dela por um tempo — comentou se justificando. De repente seu sorriso vacilou, ela havia se esquecido de um detalhe. — Você vai precisar de uma autorização, porque não é maior de idade.

— Não se preocupe, eu tenho autorização para viajar. Mesmo se não tivesse, meus pais logo dariam um jeito, não se importam muito comigo, então diriam que esta viagem caiu do céu.

— Você não me fala muito deles... Por que te tratam assim?

Isabelle suspirou. Ela não gostava de falar sobre o seu relacionamento com os pais, porém Luiza merecia saber. Seria bom para si, porque ela trataria aquela conversa como o fim de um ciclo, este que deixaria para trás tudo de ruim que aconteceu consigo e daria início a um novo, que ansiava por felicidade, alegria e sorrisos ao lado de Luiza.

— Minha mãe fez faculdade nos Estados Unidos, ela não gosta muito do Brasil. Lá ela se casou e, quando ligou para minha avó para dizer que estava grávida, cedeu aos seus apelos para que voltasse. Então meus pais acabam me culpando por isso — Isabelle relatou. Este era um assunto que, por mais que o repassasse em sua mente, a fazia sentir dificuldades ao falar sobre.

Quando expôs tudo aquilo, deixou que o vento levasse suas palavras, afastando-as de si e lhe transmitindo certa leveza interior.

As palavras, que há tanto tempo estavam guardadas, já não permaneciam em posse somente de Isabelle. Ela as havia compartilhado com a única pessoa se sentia segura para revelar o que sentia.

— Por isso meu sobrenome é estadunidense... Não gosto dele — completou.

Luiza continuou atenta à voz da garota, não gostou do que escutava, era difícil saber que os pais dela a culpavam por algo tão simples.

— Eu não sei o que dizer — houve uma pausa. — Só que eles não devem jogar a culpa em você por causa disso. Mas você já sabe...

— É — respondeu rapidamente. Não queria prolongar o assunto e, escapando dele, anunciou algo que estava a incomodando desde que Luiza a chamou ao seu encontro. — Você ainda não me disse o nome que estava na carta.

— Não é importante, pois não é o seu.

O momento em que teve o envelope em mãos passou novamente pela sua cabeça. Era um misto de desinteresse e ânsia que a preenchia. Estava tentando não demonstrar para si mesma o interesse naquele papel, porém ansiava por saber se confirmaria que o nome de Isabelle estava ali.

Passou minutos andando pela casa com o envelope em suas mãos involuntariamente trêmulas. Até que decidiu acabar com seu nervosismo e abriu a correspondência, ela não soube como reagir ao ver o que estava gravado no papel.

Parecia ter um erro de impressão antes do nome, Luiza não sabia se era algo inútil ou outro nome que vinha acompanhando o restante, porém ele, de qualquer forma, não alimentou suas expectativas.

Estava escrito Noah Williams, não Isabelle.

Em uma ação rápida, Luiza rasgou o impresso e ligou para a única pessoa que habitava sua mente.

Depois de confirmarem que iriam viajar juntas, as garotas se separaram e partiram para suas respectivas casas com o propósito de organizar o que seria necessário para a viagem.

Luiza terminou rapidamente de fazer as malas e, como um ato pensado, pousou o olhar num livro que repousava sobre o criado-mudo. Sorriu ao visualizar seu presente de aniversário, uma cópia antiga de Viagem ao centro da Terra*, que, quando pôs as mãos pela primeira vez, achou que o volume se desmancharia por ter-se tornado tão delicado durante o tempo em que passou numa prateleira com tantos outros livros no mesmo estado.

Lembrou-se de que horas atrás o recebeu de seu melhor amigo, Isaac, na loja de CDs onde trabalhava.

Luiza sentiu um pesar acomodar-se sobre si ao perceber que teria de se despedir de Isaac. Ela não queria, odiava despedidas — ainda mais por se tratar de alguém tão importante.

Ele esteve ao seu lado por completos quatro anos, os mais recentes trabalhando juntos na loja tentando influenciar outras pessoas a escutarem CDs mesmo sendo tachados de ultrapassados.

Luiza logo soube que não conseguiria despedir-se dele pessoalmente, então escreveu um bilhete — mais curto que o de costume nessas ocasiões — e rumou à loja.

Ela andejava pelas calçadas aérea, flutuando por pensamentos, estes nunca se tornavam escassos, não poderiam. Ainda mais num momento como aquele, em que suas pernas andavam ritmadas traçando um único caminho. Provavelmente o mais conhecido.

Ao chegar, encarou o seu reflexo na porta de vidro. Algo em seu olhar transmitia esperança e curiosidade pelo que viria em sua vida. Contudo, seus olhos marejaram-se quando ela recordou de seu propósito a ir até o local.

Luiza pegou o pedaço de uma folha e o colou com fita adesiva na porta. Passou os dedos finos pelo vidro tentando se livrar do aperto que crescia em seu interior, o ato fora uma despedida ao seu ex-local de trabalho, um dos ambientes onde ela se sentia mais acolhida e confortável.

Girou em seus calcanhares e caminhou pela mesma calçada.

Lágrimas foram inevitáveis, assim como a nostalgia que chegou lentamente.

Ela estava dando adeus, sentiu que ele doía mais do que imaginava, pois não estava se despedindo somente de um amigo, mas do único amigo que esteve ao seu lado por um período de anos.

"Hey, Isaac. Sei que vai reconhecer a minha letra, então acho que meu nome aqui não será necessário.
Só quero informar que vou para outro lugar, e acho que não voltarei.
Desculpe-me por te dizer isso em um bilhete, mas você sabe que odeio despedidas.
P.S. Sempre serei grata pela sua amizade. Permaneceremos sempre juntos, lembranças são o que não faltam.
De certa forma, pode contar comigo. Estarei distante, não ausente."

O aeroporto estava abarrotado de pessoas.

Passos ecoavam por todo o lugar. As duas garotas caminhavam ignorando o burburinho das conversas e as pessoas que paravam no meio do caminho para se olharem nas paredes espelhadas.

Os corações palpitavam em batidas frenéticas enquanto se aproximavam da fila para o check-in.

Depararam-se com uma fila perquena em frente ao balcão. — Tivemos sorte — Luiza comentou ao garantir seu lugar.

— Ainda bem. Eu vou tomar um copo d'água e já volto.

— Está nervosa? Continua achando que eles possam nos pegar? — perguntou demonstrando preocupação.

— Estou sim. Não podemos descartar isso.

— Você tem razão, mas não se preocupe — Luiza acariciou seu rosto e aproximou os lábios aos de Isabelle em um beijo casto. Ela queria lhe passar segurança —, nós vamos sair dessa.

Isabelle sorriu com o ato e segurou as mãos de Luiza, de fato ela estava mais confiante. Estaria disposta a enfrentar o que fosse para continuar com ela, qualquer resquício de insegurança já não estava mais presente em Isabelle.

— Eu vou controlar meu nervosismo.

— Senhorita? — os olhares conectados foram desfeitos quando a atendente se direcionou a Luiza.

— Vá beber a água, me dê seus documentos e eu compro as passagens — Isabelle o fez e entregou junto o dinheiro.

— Documentos, por favor. Registro Geral original e com foto, passaporte e código localizador — caso não tenha a passagem impressa.

— Está tudo aqui — estendeu os papéis necessários. Em poucos minutos Luiza estava com a posse das passagens, ao olhá-las para conferir o número do voo, algo no papel destinado a Isabelle lhe chamou a atenção. O nome.

Isabelle Noah Williams.

Imediatamente ela se lembrou do erro de impressão em sua carta, e de uma fala dela "Por isso meu sobrenome é estadunidense... Não gosto dele".

Luiza finamente se sentiu bem, era como se um peso insuportável fora retirado de suas costas, como se, somente agora, ela pudesse respirar em paz, conseguiria seguir com sua vida sem problemas.

Isabelle chega perto dela e se surpreende com o sorriso tão radiante de Luiza.

— O que houve para estar tão contente? — perguntou afetada também pela onda de felicidade. Não obteve uma resposta, não em palavras, porque a garota simplesmente jogou-se em seus braços e a apertou em um abraço.

— A carta. Era você... — e antes que pudesse completar sua resposta, Luiza ouviu uma voz grave e desconhecida.

Seu olhar pesou na pessoa que atrapalhara um momento tão importante para elas.

Era um homem, ele vestia um terno comum e mantinha a postura rígida, dando a aparência de que seus movimentos eram milimetricamente calculados. Luiza olhou para o seu peito esquerdo onde havia um brasão, ela conhecia aquele símbolo.

Assim que constatou o que temia, sentiu calafrios percorrerem o seu corpo involuntariamente. A garota emanava medo.

O brasão era do governo.

— Mais uma Lavigne para a lista — o homem comentou em tom sarcástico. Sacou um par de algemas e desferiu-a o seu olhar mais intimidador. — Luiza Lavigne, você foi pega.

Voo C102, destinado a Espírito Santo. Saída em cinco minutos. Último aviso. Comparecer ao portão de embarque B.

Não havia mais como escapar.

Notas finais
* "Viagem ao Centro Da Terra é um livro de ficção científica, de autoria do escritor francês Júlio Verne, lançado em 1864 e considerado como um dos clássicos do gênero." — Wikipédia Olá, Luiza. É claro que agora você já sabe que é a minha amiga secreta. :) Espero de coração que tenha gostado da história, saiba que tentei dar o meu melhor durante a escrita e criação dela. Confesso que não me dou muito bem com romance, mas aceitei e cumpri com o meu desafio — mesmo atrasada — e gostei bastante de escrevê-lo. ♥ Aqui tem amizade, com pediu, mas não diretamente. Por ser uma one-shot eu quis apressar os acontecimentos, então a cena da protagonista e do Isaac não pôde ser encaixada no enredo. Desculpe-me. Mais uma vez digo: espero mesmo que tenha gostado. ♥ Até!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!