Ciclo?
1 De novo...
Notas iniciais
Foi algo besta.
Não era nem jogo oficial, apenas treino. A moral de todo o time andava baixa desde a última derrota, mas isso não era muito além do esperado.
Na verdade, era normal.
Mas quando Kagami passou por si com aquela expressão fechada, olhos focados, mal olhando pros lados antes da bola voltar a correr pela quadra, a coisa se tornou subitamente séria.
Não...
Não queria passar por tudo de novo.
Sabe, às vezes as pessoas pensam muito sobre coisas desnecessárias.
Quando você gosta muito da companhia alguém, por exemplo.
Quando você gosta de o ver sorrir.
Quando chega a se esforçar para aquilo aconteça, e fica lá, esperando.
Apenas para sorrir de volta.
Tem gente que perde noites inteiras de sono se questionando sobre novo sentimentos, possíveis desejos reprimidos, essas coisas todas.
Ele havia se convencido sem muito esforço que só queria poder continuar a vê-lo sorrir.
Mas, antes que percebesse, Aomine tinha se tornado melhor. Muito melhor.
Melhor do que os outros quatro.
Uma sombra só existe se existir uma luz. Mas se a luz for forte demais, a sombra desaparece.
– Kuroko cuidado!
Viu? Nisso que dá pensamentos complicados: você é atropelado por um novato no time que estava correndo para marcar uma cesta e simplesmente não tinha te visto no meio do caminho.
Talvez não exatamente assim, mas deu pra entender.
O novato se debruçou sobre si pedindo desculpas enquanto o ajudava a se levantar.
Seu nariz estava sangrando.
– Droga! Aqui, segure isso no nariz para estancar...- a treinadora falava enquanto o encarava com aquela expressão avaliadora que só ela possuía- o treino já estava quase no fim, melhor você ir pra casa.
Assentiu.
Não é como se pudesse argumentar.
Ninguém pareceu realmente perceber quando saiu da quadra.
Kagami só notou que, subitamente, ele não estava mais lá.
Se não fosse ele, poderia estar suspirando. Poderia estar até mesmo olhando, deprimido para baixo.
Forçando um pouco, quem sabe, até mesmo encolhido em algum canto, chorando.
Mas não, apenas olhava pro lado, esperando o sinal abrir.
Atravessou, simplesmente.
Para total desespero do outro que vinha desenfreado atrás de si, e acabou o perdendo na multidão de pedestres.
Continuou, atravessando ruas e virando esquinas, sem chamar atenção alguma. Ninguém reparava nele.
Ninguém.
Antes de começar a jogar com a Geração dos Milagres, o que ele era? Apenas alguém a quem o diretor dissera claramente para que saísse do time de basquete.
E, mesmo depois daquilo, não é como se muita coisa tivesse mudado...
Se não fosse por Aomine, provavelmente jamais poderia ter jogado...
Aomine. Aquele mesmo que jamais vira sorrir de novo...
E agora...Tudo iria se repetir?
Desesperava-se, pensando no que podia fazer.
Se é que havia algo a ser feito...
Já estava quase botando a chave no buraco da fechadura, quando finalmente alguém lhe interrompeu os pensamentos deprimentes que saltavam em loop em seus ouvidos.
–...Kagami-kun?
Bom, sabe, ele até esperava algo como uma resposta, mas o ruivo apenas continuou segurando-lhe o ombro, se apoiando nos próprios joelhos, respirando pesado e rápido, como se tivesse acabado de sair de uma sessão de treinamento particularmente diabólica.
Ah, espera. Na verdade, agora que pensava, ele realmente tinha.
– S...Seu....- respira, respira. Kuroko apenas esperava- COMO VOCÊ CONSEGUE SUMIR ASSIM?
Indignação pura, jogada direto na cara.
Um ''Posso ajudar?'' foi tudo o que recebeu de volta.
Claro, claro. Vamos ignorar que pelo visto ele te seguiu desde a escola com determinação suficiente para, afinal, conseguir chegar na sua casa....
E, olha, que isso não é feito para qualquer um não.
Kagami sentou-se no chão mesmo, emburrado, ele todo cheirando a suor.
Kuroko continuou em pé, as chaves em mãos.
– Eu...Só queria ver se você estava bem. respirou, coçando a nuca- Quando eu notei, você tinha sumido da quadra...
Não é como se isso fosse particularmente estranho.
– Eu estou bem, obrigado pela preocupação.
...
Certo. E agora?
Qual dos dois pensou isso, não dá pra dizer. Ambos, talvez.
Não dava para ficar ali para sempre.
Talvez, Kagami tenha notado isso primeiro, ao levantar-se.
Mas, afinal, Kuroko conseguia ser mais teimoso quando queria.
– Que um pouco de água antes de ir, Kagami-kun?
E eis que, afinal, estava lá, em pé, no centro da sala minúscula de Kuroko. Ele já havia dito que o lugar era pequeno, mas não esperava que fosse tanto.
Queria se sentar, mas com o corpo suado daquele jeito, seria até mesmo falta de respeito.
Por isso, ali, em pé, sentia-se no direito de reclamar com Kuroko pela demora em trazer o bendito copo de água. Quando chegou ao cumulo de ir ver a razão daquela lerdeza toda, acabou se deparando com sangue.
Sangue rubro e quente escorrendo em abundância pela pele pálida de Kuroko.
– O QUE ACONTECEU!?
– Nada. Meu nariz voltou a sangrar quando eu espirrei- falava com a simplicidade de quem não parecia que ia morrer de hemorragia nasal!
Diga-se de passagem, ele nem ia mesmo. O exagero da cena era mérito de um certo Kagami aparvalhado.
– Sua água. Se me dá licença...
O ruivo segurava o copo, com sua própria dose de pensamentos desnecessários. Apertou-o com força, parando apenas antes de quase o quebrar.
Chega.
Invadiu o banheiro, surpreendendo um Kuroko atônito que ainda segurava a toalha de rosto com a qual limpara o sangue.
O abraçou, tentando calar as vozes que lhe atormentavam há dias com aquele gesto necessitado.
– Er... Você precisa de alguma coisa, Kagami-kun?
Um coração se acelerou.
– Eu vou pros Estados Unidos.
Apenas para parar.
Mil perguntas se atropelaram na garganta, de tal forma que nenhuma conseguiu a proeza de sair.
– Eu vou encontrar com a pessoa que me ensinou a jogar basquete. E quando eu voltar, estarei muito melhor.
Ah...
Por algum motivo, tinha medo. Não tanto da ida, quanto da volta.
Já vira aquilo antes.
E, da ultima vez, acabara sozinho.
Apertou os olhos com força, o corpo mole e imóvel. Desesperado.
Não havia nada... Nada que pudesse fazer?
– E quando eu voltar, nós seremos os melhores do Japão. Então pare de ficar sumindo e se machucando por ai!
Sentiu o abraço ficar mais forte, como se refletisse a bronca que levara.
– Kagami-kun...Está doendo.
A mão subiu, encontrando-se com os braços que lhe envolviam.
– Huh?
– Minhas costas. Você está me esmagando.
Claro. Tinha que se deixar cair no clichê e estragar uma cena que até poderia ter sido realmente bonita. Mas, realmente, quase conseguiu sentir suas costelas sendo curvadas a ponto de quebrarem-se.
Foi largado de imediato. Quando Kagami anunciou desnecessariamente alto que tinha que ir, e outras mil palavras atrapalhadas que tentavam sair seguras e firmes, sorriu.
Sorriu, simplesmente. Um sorriso inteiro, só para aquele tonto exagerado e escandaloso.
Aquela. Foi a gota da agua que fez um tom rubro tomar posse de todo o rosto de Kagami, que escapou atrapalhadamente pela porta, sem saber que perdera a chance de receber outro abraço de volta.
Dava pra ouvir os passos pesados descendo pela rua, acelerados.
Kuroko sentou-se no seu sofá, notando que agora estava com o cheiro do outro impregnado em si. Não aquele cheiro bom e agradável que talvez se insinuasse numa história romântica, claro. Apenas suor mesmo.
Continuou sorrindo, experimentando aquele sabor já quase esquecido que ousava chamar de felicidade.
Notas finais
Mas, enfim.
Primeira vez que escrevo com Kuroko e Kagami.... Peço desculpas se saiu muito estranho....
Infelizmente, acabei não mandando pra betagem. Por diversos motivos.
Qualquer erro, agradeceria se me avisar :)
Até uma próxima,
Kalhens.
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