Chá verde

15 XV. O pedido da Abigail


Notas iniciais
Preciso de uma beta, então me desculpe se tiver algum erro.

Como todas as manhãs, Anna preparou o nosso chá matinal, organizou a mesa para a primeira refeição do dia. Eu queria me desculpar pela noite anterior, no entanto, a sua cordialidade não me deu espaço. Era uma hora oportuna para termos aquela conversa, já que estávamos apenas os dois na cozinha, nossa filha ainda dormia em seu quarto e não demoraria a acordar.

— Aqui está o seu chá-verde. Sorriu fraco ao posicionar a xícara z sobre a mesa.

— Obrigado. Disse-lhe, enquanto buscava iniciar aquela conversa.

Mesmo diante do meu histórico de pedir desculpas a ela, eu ainda possuía embaraço ao expressar arrependimento. Porém, eu nunca deixei de ser justo ao perceber que a magoei.

— Anna, eu preciso me desculpar com você por ontem...

— Alek, eu já entendi, você não estava no clima.

Ouvir isso me deixou pior, por não ser a verdade, o meu corpo a queria, mas a minha mente estava a mil. Eu queria sim. Tocá-la e amá-la, mas não podia fazer algo tão íntimo estando com os pensamentos longes.

Fechei os olhos ao pressionar a minha mão na lateral da testa. — Está se passando algumas coisas que nem eu mesmo entendo ainda.

Silêncio.

Abri os olhos numa procura pela minha mulher.

Anna segurava no encontro da cadeira ao meu lado. Ela me olhou de maneira paciente daquele jeito investigativo numa leitura silenciosa.

Me sinto sujo, como se tivesse feito algo terrível. Não ter revelado a Anna sobre Aurora me preenchia de culpa. Tantas oportunidades eu tive, seja na ilha ou em solo russo e não aproveitei nenhuma.

— Me diz o que está acontecendo? Pediu ao tocar em minhas mãos.

Eu deveria ter aceitado aquela oferta e lhe dizer a verdade que eu ocultei, não por medo, mas sim por achar que as coisas do passado deveriam permanecer no passado.

Os olhos claros miravam-me em busca de respostas, afaguei seu rosto com delicadeza.

— Não tem nada de errado.

Sim. Eu tive coragem de dizer aquela frase. O Alek das minhas lembranças mantinha o olhar sagaz. Pressionou seus lábios em um beijo exigente, eu não poderia envolvê-la naquela confusão, primeiramente eu precisava me organizar mentalmente e no meio do caminho encontrar as palavras para dizer a ela.

Levei minhas mãos ao seu rosto e beijei seu pescoço, funguei sua pele branca numa apreciação do seu cheiro tão familiar...

Deixei-me levar ao deslizar a minha mão para acariciar seus cabelos, seus braços, vendo mais uma vez o doce prazer da sua entrega, a sentir ofegar sobre o meu rosto. Eu só podia ter ficado louco ao recusá-la.

— O que deu em você? Perguntou-me surpresa.

— Não posso mais beijar a minha mulher?

Ela sorriu.

— Claro que pode.

Ela ficou nas pontas dos pés e envolveu os meus cabelos em suas mãos, seus lábios finos se encontraram com os meus, foi um beijo exasperado, nenhum pouco comportado.

O trem desgovernado que era a minha vida voltava para os trilhos. Eu iria enterrar aquela história no passado e voltaria a viver no presente, a começar por um jogo limpo com Anna.

Uma ideia me passou pela cabeça.

Eu poderia criar um clima mais leve e propício para termos a conversa, quando eu disse.

— Hm. O que acha de almoçarmos hoje no Dynasty? Convidei.

Quase não saímos mais juntos, ela sorriu oblíqua.

— Está me convidando para sair, Aleksandr?

Observei-a com os olhos pequenos.

Algo não se encaixava e parecia não se tratar do episódio de ontem.

— Você tem alguma dúvida?

Ela tocou na lateral da mandíbula, sua respiração acelerou, os olhos não se desviaram de mim.

— Tenho compromissos de consultoria em dois horários, meu amor não poderia aceitar mesmo sendo a minha maior vontade.

Mas um beijo daqueles que me fazem pensar coisas... Ao descer para o meu maxilar, ela disse. — Então se quiser você pode ficar com Abbie.

Não seria tão fácil como pensei preparar o terreno para lhe contar o que preciso.

Com a testa vincada, falei.

— Leve-a para a casa da sua mãe.

Ana mordeu os lábios, incerta, encarei suas maçãs rosadas.

— Não estarei em casa para fazer o almoço também, você poderia almoçar fora hoje?

Foi apenas uma pergunta, mas para mim, soou como uma ordem, eu não cozinhava e jamais interferiria em seus planos profissionais.

— Está bem.

— Tudo bem. Disse simplesmente numa espécie de fuga da cozinha.

O que foi aquilo?

Não tive nem tempo de lhe perguntar se almoçaria com alguém. Além de Aurora, eu estava entrando em parafuso por Anna também?

Será que a minha culpa resolveu me pregar peças?

Sem paciência eu entrei no escritório, meu humor estava péssimo.

Naquele momento eu precisava de uma ocupação e trabalhar me renderia distração e dinheiro. A minha agenda teve início com a ligação do Abramov ele aceitou a minha proposta de contrato, repassei as informações para a Sra. Adamovich sobre as condições contratuais a serem redigidas. Eu ainda estava agitado ao assinar mais uma papelada. O gerenciamento contratual requer atenção redobrada mais me distrair pela linda imagem posicionada estrategicamente na minha lateral.

Parei brevemente para encarar uma fotografia da minha mulher no jardim da casa dos seus pais. Era verão e Anna amava se sentar ao sol para passar um tempo simplesmente absolvendo vitamina D, os belos olhos iluminados pela radiação do sol a cor azul transbordava ofuscante, olhos que arrastavam tudo para dentro de si.

{...}

Uma hora antes do almoço Anna me ligou para perguntar se eu poderia buscar Abbie na casa dos Stepanov, sem dúvidas eu poderia, jamais deixaria de fazer algo que tivesse ao meu alcance por Abigail. Apesar dos nossos desentendimentos que podem parecer erroneamente como falta de interesse, casamentos reais possuem impasses que podem se transformar em discussões. A vida a dois nunca foi e nunca será fácil. Duas personalidades diferentes que vivem sobre o mesmo teto tendem a ter atritos. A diferença está em como você resolve essas questões. Um dos meus maiores defeitos é o temperamento difícil. Como eu me esforçava para mudá-lo.

Após ajustá-la em sua cadeirinha presa com o cinto no banco traseiro.

Notei que a minha filha estava quieta demais, quase não falava.

— O que minha pequena princesa tem?

— Eu quero uma irmã.

Fiquei surpreso

De onde Abbie tirou isso?

Claro que eu queria ser pai outra vez, eu seria pai de quantos filhos a minha mulher quisesse ter. Já fazia algum tempo que eu havia imaginado um bebê corado e loiro em meus braços, tão loira quanto à mãe.

Com toda a paciência e delicadeza tentei intermediar a situação.

— A sua irmãzinha virá no momento certo, filha.

Fez manha com a formação de um bico.

— Quero agora.

Sorri diante da sua ingenuidade, mesmo que a sua mãe estivesse gestante, nós ainda teríamos nove meses pela frente. Um bebê sempre será bem-vindo naquele lar, no momento certo seríamos abençoados.

Assim que chegamos a casa, retirei Abigail do carro e acariciei os seus cabelos.

— Você está com fome, filha?

Liguei para um restaurante de comida e pedi um Steak do Chefe, abobrinha Grelhada, Salada Red Met, e um Molho Chimichurri.

A comida chegou 5 minutos antes de Anna que deixou de lado a bolsa e algumas sacolas de marca.

Ela havia comprado alguma coisa?

— Mamãe! Abigail estava feliz ao correr em direção a Anna.

Anna pegou a nossa filha nos braços, inspirou fortemente o cheiro de talco e colônia infantil de Abbie.

— Como a minha alegria se comportou hoje?

— Eu me comportei bem, mamãe, sou uma boa garota.

Eu sorri em concordância, me aproximei para beijá-la, não passou de um toque artificial de lábios.

— Você deve ter tido um dia atarefado. Afirmei ao me afastar.

Ela fungou nos cabelos da nossa filha e confirmou.

Segurei seu queixo para lhe olhar nos olhos, as belas esferas aparentavam cansaço, lhe dei um beijo comportado, às vezes eu tinha impressão se eu não a beijasse ela não vinha até mim...

Pensei melhor nisso quando vi o lampejo em seus olhos se acender. Eu a conhecia muito bem e sabia reconhecer suas reações, beijei-a mais uma vez e suspirei ao me afastar.

Vamos por etapas um passo de cada vez.

Anna entendeu.

— Ainda dá tempo de preparar o almoço...

Ela ajeitava Abigail na cadeirinha.

— Eu já cuidei disso.

Ela vira para me lançar um olhar incrédulo. — Você preparou o nosso jantar?

Fiquei sem graça.

— Quase isso. Respondi tímido. — Eu pedi? Devolvi como uma pergunta.

Ela sorriu de maneira genuína.

— Compras? Abbie estava curiosa até bateu palminhas.

Anna olhou em direção às sacolas.

— A vovó me intimou a encontrá-la no shopping. Justificou.

Não tinha como não comprar nada quando a minha sogra estava envolvida, e eu podia apostar que muitas daquelas coisas eram para a nossa filha.

Anna pegou a sacola e tirou de dentro um globo de neve.

— A vovó mandou para você. Ela entregou o presente a Abigail que recebeu toda sorridente ao segurar com as duas mãos e sacudi-lo para ver os flocos de neve agitados ao redor da árvore de natal no globo.

E como eu pensei nas outras sacolas havia um vestido de malha pesada, um agasalho lilás, uma capa de chuva rosa. Já na próxima sacola ela tirou um quebra cabeça de peças em tamanho grande, um teclado de músicas infantis e finalmente uma boneca de pano da menina Vandinha da família Addams. A minha filha amava aquela personagem.

Uma ponta de irritação ameaçava aparecer, Abigail possuía mais roupas e brinquedos do que a maioria das crianças da sua idade, então, qual era a razão dela ter tantas roupas, brinquedos e acessórios? Aquela criança só tinha três anos!

A mesa já estava posta numa bonita recepção de boas-vindas, sentávamos em lados opostos com Abigail no meio, Anna nos serviu e como de costume começou a cortar a carne de Abbie em pedaços minúsculos. Por mais comum que a cena pudesse ser, eu não conseguia vê-la como uma simples dona de casa. Cada olhar, gesto feito em prol da nossa filha. Trazia-me a sensação que Anna adorava cada segundo que passava ao lado da pequena criança. O meu prato já estava vazio, Anna mal tocou na sua refeição para alimentar Abigail que sumia com todas as colheradas que a mãe lhe oferecia.

Evitei a minha expressão de desagrado ao continuar a observar seus delicados movimentos. Após o nascimento de Abbie, Anna não havia mudado de peso, ela só havia ganhado mais curvas.

Sempre foi bonita e a maternidade realçou sua beleza angelical.

Anna deixou o talher de lado e me olhou de volta, primeiramente curiosa em seguida com um olhar afável.

— Você é tão bonito. Ela falou baixinho.

Arqueei as sobrancelhas de um jeito inesperado. Mesmo com o passar dos anos o encantamento de Anna pela a minha aparência nunca diminui. O que me faz refletir sobre o nosso começo. A adolescente Anna sempre nutriu uma paixão por mim. Eu nunca fui cego diante da beleza dela, mas naquele tempo eu nunca imaginei tocá-la como homem.

Eu poderia ter a elogiado também, já que havia tido pensamentos parecidos, poderia ter sido gentil e amoroso, porém o que fiz foi me manter em silêncio.

Por mais que ela tivesse tentado esconder o seu desapontamento ao pegar um guardanapo. Eu me levantei do meu lugar e dei alguns passos até ela.

Impedindo-a temporariamente de limpar os lábios de Abigail, a peguei pela mão e a puxei para mim, levei as minhas mãos até a sua cintura.

Enfiei o nariz em seus cabelos e inalei profundamente.

O doce aroma de chá verde que eu amo tanto.

Apertei seu corpo contra mim, enquanto sentia a respiração dela em meu peito.

Eu queria mais do que palavras, mais do que um beijo...

— Mamãe? Eu já terminei. A voz de Abigail me trouxe de volta.

Cheirei mais uma vez seus cabelos e beijei castamente o topo da sua cabeça. Dei um passo para trás.

— Certo meu amor. Ela respondeu a criança.

Assim que estava limpa Abigail se lembrou do kit de massinha que a avó Evelyn a dera e saiu para buscar, depois de uma troca de olhares nós fomos esperar o seu retorno na sala.

Foi divertido ver o empenho de Abigail na moldagem das formas. As massinhas foram um dos poucos presentes que eu apreciei. Anna trabalhava na construção de um boneco de neve. Na minha vez de montar, ou melhor, tentar montar um cachorro, eu fiz alguma coisa só não sabia dizer o que era.

Perto das 18h00min o telefone tocou era Ivan Stepanov que nos convidou para um almoço no domingo como Anna concordou, aceitei também.

Só de pensar em Anna e Aurora no mesmo lugar, minha cabeça fervilhava, elas se deram bem no primeiro contato, mas como Anna reagiria se soubesse do meu passado com a namorada do seu primo?

Eu me sentia desleal ao não contar sobre o meu passado, algo me impedia de dizer a verdade. Aquela situação precisava ser resolvida, eu só precisava organizar a minha cabeça e teria que ser o mais rápido possível. Entretanto, como eu abordaria aquele assunto?

Na cama sobre os lençóis brancos estava Anna com a vista baixa, sem nenhuma intenção de sedução, muito pelo contrário ela estava genuína exalando pedaços de uma sensualidade magneticamente atraente.

Puxei a coberta e deitei-me sem camisa ao seu lado, levei a mão para acariciar suas costas, eu queria sentir a sua pele o seu corpo, então, Anna se moveu para se aconchegar mais em mim, o seu pescoço estava perto da minha boca, o cheiro de pele limpa...

Comecei a me aproximar para envolvê-la em um beijo naquela região, eu estava com tantas saudades, acariciei seu braço de baixo a cima, Anna suspirou e ajeitou-se na cama para me encarar.

— Oi. Falei baixinho ainda lhe acariciava.

Nós estávamos face a face.

— Oi. Falou ao sorrir fraco.

Ela me abraçou e não dissemos mais nada um para o outro, somente nos comunicamos com o olhar.

Nós estávamos tanto tempo sem... Iniciei o beijo em seu pescoço, orelha e por fim na boca. Anna estava entregue com as mãos em meus cabelos, desci outra vez em direção aos seios cobertos, passei a deslizar sobre sua pele a minha mão. Eu estava saudoso e enlouquecido quando eu tentei levantar a sua camisola, a encontrei dormindo.

Mais uma vez tive as minhas intenções adiadas, antes de me afastar beijei a testa da minha bela e adormecida Anna, não tinha como não admirar aquele rosto sereno por mais bonita que ela fosse, a sua paixão e obstinação me venceram, eu pertencia a ela.

Aconcheguei-me abraçado a ela satisfeito pelo contato e pela sensação de bem estar que infelizmente não durou muito, um presságio tomou conta dos meus sentidos um aperto perturbador no peito. Demorei a cair no sono, ter um mau pressentimento nunca era um bom sinal.

Poderia ser loucura da minha cabeça, mas naquele momento eu pensei que Anna poderia estar me escondendo alguma coisa, ou seria uma desculpa para uma fuga da minha parte? Por ocultar algo que me marcou sobre o meu passado? E numa busca por respostas eu estava vendo coisas onde não existia nada?