Chrysanthemum
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Por que não falamos das flores como em outrora? Era incrível como os tempos conseguiam se diferenciar do que eram, pois dos túmulos encharcados com as lágrimas de conhecidos havia frustrações de garotos desorientados. Isso quando um dia já estiveram perdidos na respiração da própria ignorância. Um homem deixou as lágrimas percorrerem seu rosto até atingirem seu fim. O solo abaixo de seus pés era seco, de uma areia clara e fina, como os cabelos de Kise.
Se não procurasse focar em algo além de suas próprias reações físicas, provavelmente não teria notado a ação silenciosa do conhecido. Era um moreno alto, de postura arrogante e uma paixão e habilidade por esportes que poderia incomodar qualquer um. Era isso o que Kise poderia ter dito sobre aquele homem até aquele dia. Contudo, assim como o colega, Kise não tinha nada consigo além de uma flor e provavelmente uma culpa por palavras não ditas.
Kise Ryouta era um jovem de importância na área que trabalhava. A maioria dos presentes ali não teria as condecorações que repousavam em seu uniforme. Entretanto, elas não ajudaram quando seus amigos se debatiam em uma morte lenta. Na verdade, fora por causa delas que esteve no lugar errado e na hora errada, dessa forma, não conseguiu ajuda-los. O falecimento dos rapazes ocorreu nas mãos de seus inimigos, um a um, para quem pudesse ver.
Entre os mortos não havia nenhum parente do loiro, todavia, era como se um pedaço seu estivesse tão dilacerado como aquelas pessoas foram. Tinha um dever a cumprir e Ryouta havia falhado por acreditar demais em si mesmo. Quem precisava de um herói autoimposto que chegava tarde demais? Sem resposta, ele viu Aomine jogar a flor que tinha sobre um dos caixões, quando chegou seu momento.
Ao passar por Kise, entretanto, não deixou de lhe dirigir um olhar hostil. Parecia desafiar Ryouta a rir de toda aquela tragédia que era o homem a sua frente. Contudo, Kise deu de ombros para si mesmo enquanto verificava seus bolsos. Entregou a flor que estava consigo para a mulher ao seu lado e um papel para Aomine. O rapaz olhou para ele confuso, depois desconfiado.
— Pode jogar fora se quiser. — Kise disse com um sorriso pequeno, sem qualquer humor visível — Mas vai perder algo incrível.
Sem esperar resposta, o loiro deixou Aomine e a mulher sem qualquer explicação a mais. Como o olhar de Aomine Daiki sugeria, ele não tinha qualquer moral para pedir perdão. Apenas as mãos para estabelecer uma vingança. Afinal, era um homem orgulhoso, engrandecido pelas batalhas que travou, um príncipe autoimposto que faltava apenas a coroa para comprovar seu domínio.
Ninguém precisava lembra-lo que ele era ser humano também. Mas, como era de se esperar, Ryouta teve que se acalmar ou colocaria tudo a perder. Ele estava em xeque, e a vontade de apertar a própria garganta com as mãos vinha sem controle. Em seu lar, Kise passou a traçar seu plano em uma folha de papel.
— A noite vai ser longa... — Kise disse, sentindo a pressão que colocou em si — Me pergunto se o Aominecchi realmente me odeia, a gente nunca se deu bem mesmo. Quer dizer...
Kise balançou a cabeça, sorrindo divertido pelo que Aomine foi antes de ter sua vida deturpada. Quando eram mais jovens e ele tinha apenas basquete na cabeça. A essa altura Aomine já teria jogado o papel fora. No entanto, uma pequena parte sua distraidamente lhe fazia encarar seu relógio, foram horas e o céu começou a clarear. “Pelo menos não vou trabalhar esse dia”. Até que, quando estava prestes a ceder ao sono, a sua campainha tocou.
Era Midorima e ele trazia uma cabeça embrulhada. Tamanho foi o susto que ele fechou a porta de imediato. Não podia ser sério. Kise ouviu um protesto do lado de fora e tratou de olhar pelo olho mágico da porta. Um suspiro de alívio deixou os seus lábios ao ver que se tratava de um engano. Ainda devia estar cansado. Era realmente Midorima, todavia, era uma criaturinha que estava abrigada em um dos braços dele.
Abriu ainda com receio quando ouviu o choro do bebê e as palavras atropeladas do colega:
— Kise, rápido, o que faço para ele parar?
Kise piscou algumas vezes antes de dizer o que primeiro lhe veio à cabeça:
— Entre, mas não vou saber só olhando daqui. Não tinha alguém melhor em mente?
Eles não eram tão chegados assim para considerar o chamado natural. Não normalmente.
— Não tem.
— Como assim? — Kise disse em um tom impaciente — Me dê logo ele, Midorimacchi, você vai sufocá-lo.
— A mãe dele estava lá naquele dia. — Midorima disse sombrio, ajeitando seus óculos em incômodo — Óbvio que ela não esteja aqui para cuidar dele, seu tolo.
— Ah. — Kise disse, quase deixando o garoto cair e sendo repreendido pelo outro por isso. — Certo, ele deve estar com fome. Droga, acho que não fiz nenhuma compra para essa semana.
— Eu faço isso. — Midorima se antecipou, conferindo a tela do celular com um olhar preocupado. — Volto em menos de meia hora.
— Melhor mesmo — Kise se forçou a dizer com um sorriso amarelo — Eu cuido dele a partir daqui.
Midorima assentiu e se dirigiu a porta por onde passara com pressa. Entretanto, antes que saísse, segurou a maçaneta por um instante e lhe encarou, antes de lhe dizer em um tom sério:
— Kise, seja lá o que esteja planejando, espero que não seja nada estúpido. Ainda precisamos de você aqui, idiota.
A porta foi fechada, e Kise apenas saiu de seu estado surpreso quando ouviu o choro do bebê. Acabou por se ocupar na meia hora restante tentando distraí-lo de sua fome.
— Eu hein, não importa o quanto eu veja, não consigo me acostumar que você seja o filho de Midorimacchi. Não parece nada com ele. — Kise disse fazendo uma careta que fez o menino rir — É sério! Se for para ser parecido, você é bem mais...
“Parecido com Aominecchi” Isso Kise não conseguiu dizer, pois sua boca ficou muito seca de repente. Ah, não. Não, não. Só que isso explicava muita coisa. O bebê, a mãe que não poderia mais cuidar dele, e o homem desolado no cemitério. Isso tudo porque Ryouta falhou. Tinha atingido alguém importante para ele de uma forma irremediável.
Onde estava Midorima? Kise estava prestes a estragar tudo. A culpa veio rasgando sua garganta como um metal frio de uma espada. Ele respirou fundo e se levantou do sofá em que estava com o menino. Os papéis amassados ou não estavam em sua mesa, a vista para quem quisesse ver. Kise pegou uma caneta e escreveu uma rápida anotação com a mão livre.
— Desculpa, no fim das contas não vou poder ficar com você. — Kise disse com um tom de voz aflito, um sorriso mínimo que ele conseguia dispor estava em seus lábios.
Quando Midorima chegou, com a mesma pressa que saiu, ele encarou os dois olhos muito vermelhos que lhe atenderam.
— Fala Midorima. Opa, isso aí é leite? Passa para cá. — Kagami disse despreocupado enquanto tirava as compras de Midorima e entrava na cozinha.
—... foi Kise quem te chamou? — Midorima disse, contendo sua irritação.
—... foi sim...? — Kagami disse, verificando a temperatura do leite. — Ele disse que não precisava de ajuda, mas não acho que você vai ouvir.
Midorima seguiu sem pensar muito para fora mais uma vez.
— E esse aí ‘tá mais estressado do que nunca... — Kagami disse, sorrindo de canto, fazendo questão de guardar aqueles favores na memória.
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