Chron
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A família botulinum de neurotoxinas inclui as substâncias mais tóxicas conhecidas pelo homem. Quantidades não letais injetadas em camundongos podem paralisar o membro afetado durante um mês. A seletividade excelente destas toxinas para certos tipos de células do corpo humano é notável, mas também significa que muitas espécies (incluindo todos os invertebrados) simplesmente não são afetadas.
Eu estava na saída do colégio, apenas caminhando e olhando os ponteiros do meu relógio que indicavam as horas, eram 11h07min- eu havia soltado uma hora mais cedo-, meus amigos, que costumam ir para casa comigo, hoje haviam faltado à aula. Eu só tive àquela hora para pensar o porquê, então liguei para Eduardo enquanto continuava o caminho para minha casa.
-Jake?-Disse Eduardo, o meu melhor amigo.
-Qual o motivo de ter me deixado avulso?- perguntei, tentei adicionar um tom meio brabo, por que odeio quando esse tipo de coisa acontece.
-Não fale assim, o Henry disse que iria.
-O Henry mente, nós sabemos disso.
E sabíamos mesmo, nós éramos o trio do ensino médio, estávamos no segundo ano, estudando em um colégio na Califórnia, chamado Chron High School.
Não éramos lá aqueles garotos populares, mas, bem, a gente sobrevivia.
Então ele resolveu responder após ter parado de rir feito um idiota — Eduardo tinha essa mania, de rir por nada, como se sempre fizesse piadas internas e não revelasse elas-, admito que odeio essa mania.
-Eu fui ao dentista, você sabe o caminho de casa, não fique chorando.
-Aham, eu até sabia, mas é que eu ando meio esquecido depois da educação física de hoje.
-Carol?
Era uma colega nossa 16 anos, olhos com um reluzente azul, cabelos loira escuros, extremamente carismática, e, o que não pode faltar pra termos tanto interesse, ela era grande. Onde importa sabe? Eu tenho um dom pra comédia, mas não gosto de me gabar.
-Ela mesma!-falei.
-Droga.
-É você não iria acreditar no efeito que o novo uniforme de corrida tem.
-Vou te invejar eternamente até a próxima aula.
Ele não estava ironizando nem nada, bem, normalmente estaria, mas não quando o assunto é a Carol, — ela tinha a mesma idade que nós, e ainda assim, era super simpática, ao contrário de todas as outras garotas lindas, que se achavam lindas, e eram arrogantes sei lá por que.
-Aposto que vai — desliguei o telefone.
Segui o caminho pra casa, e quando cheguei, reparei que meus pais haviam saído — as portas estavam fechadas devidamente como as janelas-, encostei a mão nos bolsos na esperança que estivesse com a chave, nada.
Olhei as horas, 11h35min.
Só me resta pular, pensei comigo, e foi o que eu fiz, o portão não passava de 3 metros, e bom, como posso dizer, um apelido que me serve como uma luva é macaco, ou um derivado, eu realmente sirvo pra esse lance de parkour.
Quando pulei, subi como o normal, e pulei para o pátio, que era um pouco inferior aos demais do lado, fazendo com que a parede do meu pátio, seja a do subsolo de outras casas. Então eu pulei lá de cima, e bem, retiro o lance do apelido.
-CRAK!
Houve um erro no calculo, a única coisa que eu ouvi, foi um som absurdamente alto, antes de apagar, não deu tempo para rezar que não fosse a minha perna, mas já me parecia obvio.
Acordei sem saber exatamente onde eu estava, mas depois de alguns segundos percebi que era o pátio da minha casa, quando eu cai, aconteceu exatamente o que minha mãe sempre falava que iria acontecer, caso eu não fosse bom, nesse lance de parkour. Eu quebrei a perna,- a direita pra ser mais exato-, ou só estava fazendo drama por causa do choque, e pra ser sincero, a dor não era muito diferente de quando eu caia no chão- no primário, é claro- até que de repente, surgiu uma garota na frente do meu portão.
-Tudo bem com você?- ela perguntou.
Fiquei um pouco surpreso a principio, afinal, por que, alguém para no portão de uma pessoa para conversar, assim do nada?- considerando que eu estava caído no chão, com uma perna fraturada, acho que pena é uma alternativa.
-Acho que sim... -falei me sentando no chão do pátio, com as pernas esticadas para frente.
-Coitadinho, como que você conseguiu se machucar assim?
Pena já tinha deixado de ser uma alternativa, ela estava falando comigo como se eu fosse um passarinho, daqueles que caem de uma arvore, e você encontra, sem pai e sem mãe.
-Bom, o plano inicial era só pular o muro, a perna quebrada acho que veio de brinde.
Ela riu, nesse momento, consegui perceber que ela era simplesmente linda, pelas feições dela, provavelmente era mais nova que eu, parecia ser um pouco mais baixa também, ela tinha longos cabelos morenos, encaracolados, cujas curvas, me lembravam de ondas, daquelas que se vê em filmes, olhos castanhos escuros, e um nariz levemente avantajado- e eu amo isso.
-Como você é bobinho, se estivesse quebrada mesmo, provavelmente, não estaria tranquilo assim.
Eu soltei um sorriso de leve, sem exagerar na dose, pra não deixar todo meu charme exposto assim.
-Valeu por se preocupar, você mora por aqui?
-Mais ou menos, eu só estava caminhando...
As palavras "mais ou menos" em resposta a minha pergunta ficaram latejando na minha mente, sou meio chato com esse tipo de coisa. Então de repente houve um silencio, e ela olhou pra cima, e eu só percebi agora, mas ela parecia extremamente triste. Então ela falou:
-Então, tchau garotinho do parkour no portão. Parece que vai chover.
E riu de uma forma encantadora, eu não tinha mais dúvidas, ela tinha dois requisitos*¹, eu precisava continuar conversando.
-Espera, vo-você, tudo bem com você?
-Eu sempre estou bem. -Ela respondeu, e eu percebi que era mentira, ninguém está sempre bem, a única coisa que fez eu quase acreditar nisso, foi o efeito que o ultimo sorriso dela tinha me causado, sabe a perna? Pois é, eu não sentia nem ela, e nem o resto do meu corpo. Então ela saiu, e eu não consegui dizer mais nenhuma palavra a ela, por ter certeza que eu ia gaguejar.
Então me veio à ideia na cabeça de ligar para os meus pais, peguei o celular do bolso, estava marcando 11h50min, disquei o numero, dois bipes, meu pai atendeu:
-Alô
-Alô , pai, eu acho que tenho um problema.
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