Christopher

1 capítulo único


Notas iniciais
Esta é minha primeira história neste site, espero que gostem.

Era uma sala de aula alegre (pelo menos o tanto que um ambiente como aquele poderia ser), com carteiras feitas de ébano, cadeiras de aço e madeiras nobres, paredes brancas como a grande estátua de um rei, em algum grande palácio, alunos em silêncio e uma professora que, assim como todas as professoras do mundo, exalava disciplina e um sorriso malicioso (típico de alguém que está preparado para deixar seus pupilos envergonhados).

Aquelas crianças estavam devidamente uniformizadas: os meninos usavam uma camisa polo branca com suéter cinza e uma blusa preta, sapatos escuros de couro polido, meias brancas de algodão e um broche com a insígnia da escola; já as meninas usavam roupa igual, a exceção de uma saia escura que passava dos joelhos. Todos os casacos possuíam um brasão igual aos broches dourados, mas costurados com grande esmero.

Este era o colégio onde o jovem Christopher, de olhos azuis, pele clara e cabelos dourados como os raios solares, estudava desde que entrara em idade escolar, como fora o desejo de seus pais, ambos falecidos quando o rapaz tinha apenas 3 anos de idade.

A única família que o garoto possuía era seu irmão, Albert: um rapaz entre 18 e 20 anos, de pele rosada, olhos azuis e cabelos dourados com o tesouro de Rackham.

Christopher estava em seus 8 anos de idade e, para seu nervosismo, aquele era o chamado “dia de Augusto” – equivalente ao dia dos pais, tão celebrado no Brasil – que comemorava os pais de todo o país, todo 23 de setembro, desde tempos antigos.

O garoto não gostava dessa data porque era quando todos mais o olhavam como um pobre órfão, especialmente no momento em que a senhora Catarina pedia que seus alunos lessem suas redações sobre seus pais, como mandava a tradição.

“Muito bem, classe”, começava a falar a professora, “quem começará a ler seu trabalho?”, sempre escutando um silêncio fúnebre, cortado apenas pelo som de um grilo vindo de um celular…

E a classe começava a rir, todas as vezes.

Em seguida, a professora fingia ficar zangada e pedia a atenção de todos, murmurava algum discurso motivacional sobre como aquela data era importante, o quanto todos deviam honrar seus patriarcas e blá blá blá, o que sempre deixava o jovem Christopher tão distraído quanto a raposa que descobriu as uvas que, independente do esforço, terminará por não alcançar.

Depois de tudo, Catariana sempre olhava o “menino órfão”, como diziam os valentões do colégio, e pedia-lhe para ler seu texto, ainda que soubesse que ele nada tinha a escrever sobre a data.

Naquele dia em especial não deveria ser diferente, então ninguém esperava grande coisa quando a professora pediu que Christopher se levantasse e lesse seu relato, o que o rapaz fez com certa timidez, mas nunca mostrando-se cabisbaixo ou aborrecido com os olhares piedosos.

Pegando seu trabalho dentro de uma pasta azul, Christopher começou a ler sobre o dia em que viajou para as montanhas, na semana anterior (pois nos sete dias anteriores ao dia de Augusto, as escolas faziam um recesso, visando propiciar mais tempo para os alunos passarem com as famílias)...

Junto de seu irmão mais velho, Albert.

***

Na semana de Augusto (ou seja, nos últimos sete dias), meu irmão Albert resolveu me levar para conhecer as grandes montanhas, onde poderíamos acampar, pescar e nos divertir como nem sempre tínhamos a oportunidade, ao redor daquela natureza maravilhosa (que meu irmão sempre diz ser fruto do trabalha das fadas).

De acordo com Albert, quando ele tinha 7 anos, papai o levou para acampar naquelas montanhas (bem, na verdade aos pés da montanha, mas Albert achou melhor incrementar a história para que a equipe feminina de alpinismo o achasse interessante).

Naquela manhã de segunda-feira, meu irmão arrumou o carro, preparou as varas de pesca, e toda parafernália que achava que iríamos precisar, enquanto eu fiquei encarregado de levar os suprimentos médicos (ele disse que eu era maduro o bastante para isso) e quaisquer livros que eu desejasse.

A convite de Albert, Karen (nossa amiga), também viria conosco, o que deixou meu irmão bastante alegre e o motivou a pegar a câmera e tirar fotos aleatórias de pássaros, na tentativa de parecer intelectual na frente dela, mas acho que não deu muito certo, pois ela apenas disse “se quer afastar os mosquitos, use repelente, não o flash da câmera."

Quando a viagem começou, eu fiquei observando as árvores verdejantes, a estrada cinzenta com as linhas amarelas, os pássaros coloridos (alguns eram azuis, como meu amigo Jafari disse que seriam, pois também já havia visitado as montanhas com o pai dele, no ano passado)e o céu tão azul e limpo, que parecia ser um oceano sobre nossas cabeças.

Gostaria que todos pudessem ter nos acompanhado naquele passeio, mas como não foi possível, terão de ficar com esta descrição.

Chegando no terreno do acampamento (uma clareira rodeado de pinheiros, com uma linda vista do grande lago, das montanhas com seus picos nevados e de alguns animais divertidos), Albert montou a barraca azul com minha ajuda (gostei de martelar aquelas estacas no chão, mas foi ainda mais divertido quando meu irmão tropeçou em uma pedra e caiu em cima da barraca, nos obrigando a começar tudo denovo) e Karen acendeu a fogueira.

Eu percebia os olhares do meu irmão para aquela garota, de cabelos castanhos, olhos azuis-esverdeados e pele clara, mas acho que ela não notava, já que, quando olhava para nós, Albert sempre desviava o olhar e fingia admirar as pinhas caídas no chão.

Como o Sol já estava se pondo, Albert se encarregou de preparar nosso jantar: fez panquecas e cozinhou uma sopa de legumes (que Karen gostava muito, como descobrimos naquela noite).

Depois do jantar, sentamos ao redor da fogueira de Karen e Albert nos contou histórias de reis, fadas, magos poderosos, dragões cuspidores de fogos e de um garoto que retirou uma espada de uma bigorna e se tornou rei.

Era tudo muito divertido, mas eu comecei a ficar cansado e acabei adormecendo, sendo que, no dia seguinte, acordei dentro da barraca, com a manta me cobrindo e o urso de pelúcia branco que Albert havia me dado quando eu era pequeno.

Karen disse que, logo depois que eu adormeci, meu irmão me carregou e levou para a barraca, colocando o ursinho comigo e dizendo “assim ele não vai ter pesadelos.”

Quando o brilho do sol cobriu as montanhas mais uma vez, meu irmão me levou para pescar, pois disse que desejava fazer uma sopa de peixes igual a que mamãe fazia (ele fica um pouco cabisbaixo quando fala de nossos pais, mas como sabe que tenho curiosidade sobre eles, procura me contar algumas coisas de vez em quando), então peguei uma vara de pesca e o segui.

Albert não se deu muito bem, já que o anzol prendeu em uma árvore, assim que ele jogou a linha para trás, o que me fez rir com alegria.

Meu irmão sempre gostou de me ver sorrir e, pensando bem, acho que é por isso que ele sempre parece tão descontraído, apesar de trabalhar tanto para que a gente tenha sempre o necessário.

Ele sempre diz que, embora nosso pais tenham nos deixado dinheiro, precisamos sempre lembrar do valor do trabalho, como papai sempre dizia: “o pão é macio porque o trabalho é duro.”

A água do lago era tão limpa que eu conseguia ver muitos peixes ao fundo, então não foi difícil escolher o melhor lugar para lançar a linha e pescá-los, como faziam os apóstolos.

Karen sugeriu que todos déssemos um mergulho, mas, como eu não sabia nadar, peguei um livro na bagagem: preferi ficar lendo “A Espada na Pedra”, de T.H.White (eu gostava tanto desse livro que costumo levá-lo até para o colégio, onde posso ler antes do início das aulas), quando meu irmão disse “está tudo bem, eu não vou deixar você ir muito fundo”, me convencendo a dar um mergulho.

Foi muito divertido nadar com os peixes, montar no pescoço do Albert, espirrar jatos de água no rosto da Karen, rir até não aguentar e admirar os animais da floresta que, volta e meia, apareciam entre as árvores.

Karen tirou fotos de cervos, pássaros e outros animais interessantes e, mais para noite, vimos as estrelas e a grande Lua cheia, que iluminava os arvoredos e produzia sombras um pouco assustadoras, mas não senti medo nenhum.

Albert disse que eram em noites como aquela que Karen voava com sua vassoura, mas, por outro lado, Karen disse que a Lua provocava uma transformação misteriosa em Albert:

—Ele vira lobisomem? — perguntei.

—Ele vira bobo da corte. – respondeu ela, rindo muito.

Como era tudo uma grande brincadeira, Karen e Albert estavam muito felizes e, logo percebi, meu irmão já começava a olhar para ela com aquela cara de cachorrinho dengoso, em busca de atenção (o que eu achava muito engraçado).

Meu irmão preparou o jantar (uma deliciosa sopa de peixes com legumes, vegetais e especiarias) e todos nós comemos em uma mesa baixa que Albert havia montado, enquanto ele nos contava mais histórias sobre aquelas montanhas enormes, o lago onde jogavam tesouros e outros contos populares.

Eu acabei ficando sonolento, então ele me levou até a barraca, ajeitou minha cama e me deu o ursinho (na verdade eu não costumo dormir com aquele ursinho, mas Albert disse que, quando eu tinha 3 anos, aquele urso me acalmava).

Eu estava muito cansado, mas tive tempo de falar um pouco:

—Mano, o papai te trouxe mesmo até aqui?

—Sim, mas faz muitos anos.

—Ele te ensinou a pescar, nadar e fazer todas essas coisas?

—Sim… nosso pai era um bom homem… ele gostava de contar histórias.

—Você parece com ele – eu disse a Albert, quase fechando os olhos – vi uma foto dele no seu quarto.

—Ah sim, aquela foto foi tirada quando eu fiquei resfriado e o papai ficou comigo até eu melhorar.

—Como você faz, sempre que eu fico doente?

—Isso mesmo, hihihi, como quando você ficou gripado a alguns dias, lembra?

—Sim. Você me trouxe aquele remédio ruim. – eu disse, antes de adormecer.

Sonhei com o dia em que fiquei doente e o Albert fez um chá de limão e mel, preparou refeições leves, me trouxe água e xarope indicado pelo médico, arrumou meu travesseiro e me distraiu com histórias.

O Albert sempre cuidava de mim quando eu estava doente, inclusive, lembro de que, certa vez, machuquei o dedo no roseiral de nossa casa e meu irmão veio correndo com o algodão, álcool, curativos e o tradicional “beijo mágico dos Jones”, passado de geração em geração, sempre dado na testa e que tem o poder de diminuir a dor dos machucados (pelo menos, foi isso que o mano disse, enquanto se atrapalhava com o algodão).

De qualquer modo, eu acordei assustado, porque também sonhei que um fantasma me levava até o lago e depois me jogava na parte mais funda.

Eu acordei num sobressalto e Albert despertou, seguido de Karen (eu estava deitado no meio, ele a esquerda (no “reino de Albertolândia”, como me disse) e Karen á direita (na “terra dos corações infelizes”, como Albert falou, rindo)).

Albert perguntou o que acontecera e, quando eu falei do pesadelo, ele me abraçou e disse “está tudo bem, se o pesadelo voltar, eu vou partir aquilo que ele chama de cara”; Karen também me abraçou, depois me um beijo na testa “para limpar minha mente dos sonhos maus” (quando o Albert disse que também havia tido um sonho terrível, ela não quis beijar a testa dele).

No dia seguinte, ainda tivemos tempo de nadar e pescar mais um pouco (não subimos as montanhas porque Albert ficou preocupado com minha segurança), antes de arrumarmos nossas coisas e voltarmos para casa.

Concluindo minha história, posso dizer que essa viagem me fez pensar em algumas coisas sobre a semana de Augusto e o que o dia dele tem a nos ensinar, quer dizer, eu não tenho um pai, mãe ou qualquer outro parente além do Albert, meu irmão mais velho (pelo menos, acho que não tenho nenhum outro laço familiar), então sempre fico sem ter o que escrever para a redação tradicional em honra aos pais:

1° — Não fazemos uma redação, pois redações não tem tantas páginas;

2° — Antes de atirar a linha de uma vara, olhe se as árvores de trás não estão próximas;

3° — Meu pai se foi quando eu era pequeno, mas Deus me deixou um irmão que não me deixa faltar nada, se preocupa com meus estudos (desculpe dona Catarina, mas quem me ensinou a ler e escrever não foi a senhora, foi o Albert), cuida de mim quando estou doente, me leva para lugares incríveis, como as montanhas, me acalma quando tenho pesadelos e sempre está presente.

Essas são as ideias que tirei da semana de Augusto e seu dia importante.

Assinado: Christopher C. N. Jones.



FIM

Notas finais
O dia de Augusto: De acordo com o conto, esse "dia de Augusto" é comemorado todo 23 de setembro. Foi nesta data que, no ano 63 a.C., nasceu Augusto (falecido em 14 d.C.), primeiro (e talvez o melhor) imperador de Roma. O celular e o grilo: Certa vez minha professora de ciências passou um duro sermão para minha classe, fazendo a sala de aula ficar tão silenciosa quanto um cemitério... Até que alguém tocou o som de um grilo no celular e todos (inclusive a professora) começaram a rir sem parar. Jafari: Surgido da língua suaíli, "Jafari" é um nome masculino bastante popular, que significa "digno". Os apóstolos: Alguns dos apóstolos de Jesus eram pescadores, como Pedro e seu irmão, André. Até hoje o apóstolo Pedro (considerado pela igreja católica como o primeiro Papa) é chamado de "pescador"
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