Christmas Week 2: Olicity Version
6 What we've been living for - Myllec
Notas iniciais
Mas se o mundo estivesse acabando, você viria, certo?
Você viria e passaria a noite
Você me amaria e pro inferno tudo isso?
Todos os nossos medos seriam irrelevantes
Se o mundo estivesse acabando, você viria, certo?
O céu estaria caindo e eu te abraçaria forte
E não haveria uma razão porque
Teríamos que dizer adeus
Se o mundo estivesse acabando, você viria, certo?
Se o mundo estivesse acabando, você viria, certo? Certo?
(If the world was ending — JP Saxe)
Inúmeros repórteres se aglomeravam em frente a grande mansão Queen. Mais carros chegavam para mais repórteres se aglomerarem, civis da cidade também começavam a fazer seu próprio grupo de espera carregando presentes.
—Oliver Queen está vivo. — anunciou o jornalista do canal nove, em frente ao mar de pessoas falando como se estivesse dando a notícia em primeira mão. -Encontrado após cinco meses perdido em montanhas cobertas de gelo, Oliver Queen passou por um longo período de recuperação e segundo fontes esse é o dia em que ele está voltando enfim para casa. Não temos qualquer informação sobre a moça que compartilhou desses meses de horror com o Sr. Queen. Esperamos que assim como ele, ela esteja bem e recuperada junto a sua família.
O carro chique que apontou no começo da rua chamou a atenção da população, fazendo todo seu percurso até o portão da mansão onde as pessoas abriram caminho para que passassem, seguranças estavam por toda parte do lado de dentro, de forma que seria impossível qualquer tentativa de invasão. O carro entrou e o portão se fechou deixando para trás toda a multidão que gritava boas-vindas para Oliver, esticando os pescoços e pulando na tentativa de vê-lo saindo do carro que parou em frente as grandes portas.
Thea Queen saltou do carro primeiro, circulando o veículo e abrindo a outra porta de onde saiu Oliver que envolveu um braço em torno da irmã, supostamente para se apoiar, visto que aparentemente ele mancava enquanto caminhava a passos lentos até as portas que foram abertas pelo segurança. Oliver não se virou para acenar, sorrir ou agradecer, ele apenas passou pelas portas da mansão como se desejasse sumir no mundo.
Oito meses depois...
Felicity terminou de limpar o apartamento, se jogando na cama com suas roupas folgadas de faxina.
—Deus, até que enfim acabou. — a mudança da casa que morava anteriormente para seu apartamento de solteira tinha sido difícil porque, oh, é realmente difícil fazer caber coisas em um espaço minúsculo quando antes você tinha um espaço imenso. Então apenas agora depois de ter se mudado há três semanas, o seu apartamento estava finalmente em ordem. Não havia mais caixas empilhadas por todo lado e nem mais para chegar. Tudo estava em ordem. Tudo, menos...
Ela se levantou lentamente, olhando para a última porta do guarda roupa que escondia uma mala. A única mala que ela tinha levado naquele dia. A mala que ainda continha roupas, um tablet quebrado e sabe-se lá mais o que. A mala que ela não tinha aberto até aquele momento e ainda não sabia se estava pronta para fazê-lo, existia um medo bobo do que encontraria lá dentro, como se pudesse cair dali um punhado de neve ainda intacto, ou alguma peça do avião que teria se infiltrado em suas coisas. Algo que ativaria as memórias que estava lutando para esquecer e superar. Ainda assim isso a fez pensar: o que era pior? Enfrentar esse medo e desfazer a mala com todo o lixo que teria ali dentro ou deixá-la no mesmo lugar lembrando-a constantemente de que uma hora teria de fazê-lo?
Felicity mordeu o lábio inferior em nervosismo, raspou as unhas das mãos umas nas outras e balançou a perna direita em um tique nervoso. Por fim, com o coração batendo a mil, ela se levantou e se direcionou até a porta do guarda roupa. Seus dedos suados pegaram na maçaneta e ela abriu a porta, encarando a pequena mala preta como se pudesse fazê-la sumir apenas com a força de seu olhar. Tomando uma lufada de ar ela se abaixou para pegar o objeto, levando-o de volta para a cama e olhando para a coisa por vários minutos como se algo fosse pular dali e a engolir por completo.
A Alça estava quebrada, mas o resto do material parecia intacto apesar dos arranhões espalhados. Abrindo o zíper lentamente ela suspirou aliviada por nada demais acontecer, nenhuma neve ou parte do avião caiu dali. Ao abrir completamente ela pôde ver as poucas roupas dobradas, o tablet com a tecla trincada de fora a fora que estava bem em cima. Correndo para pegar um saco de lixo e voltar para a mala para se desfazer logo daquilo, Felicity começou a enfiar as roupas no saco, evitando olhá-las por uma segunda vez. Não havia nada gelado da neve ou húmido, o cheiro dentro não era agradável, mas ela não se importou uma vez que tudo iria para o lixo para que ela nunca tivesse que olhar para nenhuma das peças novamente ou sequer pensar que elas existiram. Um ponto brilhante chamou sua atenção, um pequeno ponto brilhante em meio às roupas e ao pegar o objeto ela viu que era uma bala de caramelo. A bala que durante muitos dias era tudo o que eles tinham para comer, ela quase pôde sentir novamente a forma como seu estômago roncava de fome, lembrando-se dela e Oliver dividindo igualmente a quantidade do doce. Em um ato um tanto impulsivo ela desembrulhou a bala melada e a colocou na boca. Estava absurdamente horrível e ela não sabia dizer se era pela bala estar estragada ou se pelo gosto trazer memórias que ela queria esquecer. Cuspindo a bala de volta no papel ela jogou-a no lixo e pela primeira vez seus pensamentos foram até Oliver e ela se perguntou como ele estava, o que estava fazendo. Será que ele já tinha desfeito sua mala? Será que tinha se lembrado dela enquanto fazia? Por que nunca atendia suas ligações?
Isso era o que mais machucava. Ele nunca atendeu suas ligações, e ela estava sempre nervosa quando tentava ligar, nervosa sobre o que diria e ensaiava por alguns minutos perguntar sobre o cachorro que foi companheiro dos dois durante aquele tempo também e havia ficado com Oliver. Ele tinha dado um nome a ele? Ele se lembrava dela sempre que olhava para o cachorro? Ele odiava se lembrar dela e por isso nunca a atendia? Ele tinha achado uma bala horrível de caramelo no bolso de sua calça quando foi se desfazer dela?
Talvez ela devesse fazer outra tentativa, eram quase onze horas da noite, mas ele deveria estar acordado ainda, certo? Deus sabe o quanto ela demorava para pegar no sono todos os dias depois que terminou de tomar os remédios que a ajudava a dormir, ele estaria lidando muito melhor do que ela?
Pegando o telefone e discando o número que apenas foi discado no mês anterior, ela esperou, ouvindo o barulho de chamada e mastigando o interior das bochechas em nervosismo. Foram três toques até que parou, três toques era um número importante porque qualquer chamada que vá para a caixa postal antes de cinco toques significa que a pessoas do outro lado da linha recusou a chamada. Oliver recusou sua chamada porque não queria falar com ela, não queria saber dela, não queria ouvir sua voz, não como ela queria. Oh como ela queria, ela quase se odiava por querer tanto, por sentir tanta falta do calor dele a envolvendo todas as noites, da proteção que ela sentia ao seu redor, de seu toque, de seus lábios, de seu conforto. Ela sentia tanta falta que não podia esconder o quão infeliz estava, todos percebiam. Sua mãe, sua melhor amiga, até o seu noivo. Essa era a pior parte, ela foi tão ruim em esconder que isso custou o seu noivado, ainda que não tivesse mais certeza de que queria se casar, ainda que estivesse pedindo para adiar a data por tanto tempo, ela costumava pensar que um dia estaria bem o suficiente para cumprir o compromisso e se casar com Ray, mas... Ele percebeu, ele percebeu todas as suas dúvidas e medos e em como...ela não o amava mais. E como poderia se seu coração pertencia a outra pessoa?
Ela ainda se lembrava do alívio e gratidão que sentiu quando Ray decidiu pôr um ponto final na relação. Compreensivo e amoroso como ele sempre foi, ele entendeu que muito havia acontecido e que ela não era mais a mesma pessoa e então... Ele partiu. Fez as malas e se mudou, deixando-a com a casa que futuramente eles deveriam dividir e pouco depois finalmente Felicity conseguiu alugar um apartamento, não se sentiu bem com a ideia de continuar morando no lugar que deveria dividir com outra pessoa, não era justo ou certo.
Rodando o celular na mão ela sentiu os olhos marejarem, se sentindo um pouco perdida. Porque Oliver não a atendia? Ela só queria falar por alguns minutos, saber dele, saber mais do que saia na mídia, pois tudo que eles divulgavam eram poucas fotos de Oliver saindo de casa e chegando na empresa, saindo da empresa e voltando para casa, como se isso fosse tudo o que ele fizesse. Haviam os sites de fofocas que especulavam sobre a saúde dele e ela nunca os leu, nunca pensou em abri-los, pois eram o que eram, especulações, e se tivesse algo verdadeiro não foi algo que ele decidiu que queria que as pessoas soubessem, portanto não era certo ela saber, não era assim que ela queria saber, ela queria saber por ele, falando com ele, ouvindo de sua boca. Isso não era possível quando ele não atendia o telefone.
Seu celular tocou estridente em sua mão e Felicity sentiu que seu coração ia sair pela bola, seria Oliver retornando a chamada?
Não, era Caitlin.
—Hey, Cat.
—Felicity! Eu sei que é tarde, mas eu realmente precisava falar com você, isso é tipo caso de vida ou morte e chegar aí levaria muito tempo.
—O que aconteceu? Você está bem?
—Estou ótima! Sabe o cara que eu estou saindo? Tommy? Ele me convidou pra essa festa de Natal super chique de gente rica. -Felicity se esforçou, como fazia muito ultimamente, a fazer uma voz animada com a notícia.
—Oh, mesmo? Isso é ótimo, você quer que eu vá com você fazer compras?
—Não! O negócio é que ele me disse que eu posso levar uma amiga se eu quiser, e eu totalmente estou convidando você.
—Oh, Caitlin eu adoraria, mas...não acho que é uma boa ideia, desculpa, não estou clima e vão ter pessoas demais por lá.
Ter muitas pessoas a seu redor passou a ser um problema depois de passar quatro meses totalmente isolada do mundo apenas com uma outra pessoa como companhia.
—Me deixe terminar! A festa de Natal é a festa dos Queen!
Felicity congelou, seus ouvidos à estavam enganando, quais eram as chances de isso acontecer?
—Ca-Caitlin, como...
—Tommy é melhor amigo do Oliver, quando ele me contou eu não pude acreditar. É a sua chance, sua chance de se encontrar com ele, de ver por você mesma como andam as coisas, de...eu não sei, finalmente conversarem.
—Eu... — ela não sabia o que dizer, sentia como se algo estivesse entalado em sua garganta e seus olhos se tornaram marejados por lágrimas. — Eu não tenho certeza se é uma boa ideia... Ele... Ele não quer me ver, Caitlin, ele não me atende, nunca, nem uma vez depois que saiu do hospital. Não posso simplesmente encurralá-lo em sua festa.
—Você não vai encurralá-lo, se você se aproximar ou tentar falar com ele e ele te afastar...bem, você pode ir embora e seguir com sua vida, mas Felicity... Você vai desperdiçar essa chance? É a melhor que você vai ter.
Sim, era a melhor que ela teria porque Oliver era uma pessoa famosa, ela não podia simplesmente bater em sua mansão em Starling City e esperar que ele a atendesse. Mas uma festa? Essa era sua melhor chance de vê-lo novamente e...O que ela tinha a perder afinal?
—Tudo bem. — concordou em um suspiro. -Eu vou, quando é isso?
—Depois de amanhã. Podemos fazer as compras amanhã.
—Tudo bem, te vejo amanhã então.
—Tudo bem, boa noite.
—Boa noite.
Ela sentiu quando o gelo fino rachou sobre seus pés, quando ela afundou pelo buraco sem ter o que fazer, sem ter no que se agarrar ou como evitar de afundar pesada como uma pedra com tantas roupas e com o pé machucado. A água gelada doía, queimava em sua pele e ela abriu a boca tentando gritar por Oliver, tentando gritar por ajuda e então...tentando respirar! Precisava desesperadamente de ar, mas não foi o ar que entrou e sim a água congelante, entrando por sua boca e nariz. Sentia-se congelando, mas seus pulmões pegavam fogo, o alívio não veio, apenas a escuridão sem fim enquanto ela afundava em direção a morte.
Oliver gritou o nome a plenos pulmões quando acordou, o nome de Felicity escorregou desesperado por seus lábios, ele sentia sua garganta queimar, seus dedos agarravam o travesseiro quase rasgando o tecido, a lembrança de segurar Felicity de baixo dos braços e puxá-la para fora da água congelante era esmagadora, o desespero que ele sentiu naquele dia, o medo de puxar um corpo sem vida para fora, de que ele ficaria completamente sozinho. Aquele medo ainda era palpável e ainda o assombrava a noite.
Sua respiração estava ofegante quando ele piscou no quarto escuro, trazendo o cobertor para enrolar-se, sentindo um frio súbito por toda sua espinha que o fez tremer. Ele sentia falta dela, tanta falta que as vezes parecia que iria esmagar algo dentro de seu peito, ele faria muito para apenas ouvir sua voz novamente. Mas ele não podia, não podia atender sua ligação e ouvir ela dizer o quão estava feliz em seu recente casamento. Como Ray esperou por ela todo aquele tempo quando a teve nos braços, se casou com ela. Doía pensar que ele a tinha nos braços todas as noites, que era ele quem a aquecia agora, que era ele quem provavelmente a acalmava de seus pesadelos, que era ele quem sentia o calor de seus lábios e suas palavras doces dizendo que o amava, não Oliver. Ele continuava ali, dia após dia, noite após noite, sem ela. Somente com as lembranças, quase desejando que fossem somente os dois novamente isolados do mundo.
—Ollie! — era Thea batendo na porta. -Você já está arrumado? Já é de manhã, temos que terminar de organizar as coisas para a festa amanhã.
—Sim, Thea. -odiou como sua voz soou. — Estou descendo em um minuto.
—Tudo bem. – pode escutá-la suspirar, ele sabia que ela tinha conhecimento de seus pesadelos, mas a muito desistiu de fazê-lo falar qualquer coisa.
Oliver pegou o celular, sentindo a sensação familiar de decepção quando não tinha notificação de alguma ligação perdida de Felicity, ainda que ele não tivesse coragem de atender as chamadas. Seu dedo pairou sobre o número dela, a primeira vez das muitas que viriam durante o dia, mas ele nunca apertava, nunca a chamava, nunca tomava essa atitude e se odiava um pouco por isso. Mas toda essa situação doía menos do que doeria quando ele ouvisse sobre seu casamento e sua nova vida, quando ele ouvisse como perdeu a mulher que ele amava. Ainda que fosse egoísta, ainda que desejasse que ela estivesse feliz e recuperada, ele não sabia o quanto conseguiria disfarçar em uma ligação com ela, portanto era melhor assim.
Depois de se arrastar para fora da cama e tomar um banho, Oliver abriu os armários para pegar uma roupa e seus olhos caíram para a mala no fundo do guarda roupa. Ela não deveria estar ali, mas ainda assim lá estava ela, todas as coisas ainda dentro, intocada. E assim permaneceria até um dia indeterminado, ele não sabia se algum dia teria coragem para abri-la. As lembranças daquele dia inundaram sua mente, impossíveis de serem contidas.
Flashback
Oliver ouviu quando a mulher loira próxima a ele discutia com o funcionário no balcão.
—Eu preciso de um voo para hoje, eu vou me casar amanhã!
—Senhorita, sinto muito, mas todos esses voos foram cancelados devido ao mal tempo, eu não posso fazer nada.
A mulher se afastou do balcão, passando as mãos no cabelo nervosamente, andando de um lado para o outro resmungando "o que eu vou fazer" para si mesma.
Oliver já tinha resolvido seu próprio problema, depois de ter seu voo cancelado, aparentemente para o mesmo lugar que ela iria, ele encontrou um piloto que poderia levá-lo em um pequeno avião o caminho até o aeroporto duas cidades depois e de lá ele deveria conseguir pegar um avião para Starling. Ele estava apenas esperando o piloto terminar de preparar o que devia e então chamá-lo. Talvez ele pudesse... Bem, ela disse que irá se casar no dia seguinte e com certeza se ela não pegar o avião que deveria sair agora, ela nunca chegaria a tempo no próprio casamento. Ele poderia ajudá-la, fazer isso por ela, porque não?
—Com licença. — Ela se virou surpresa quando ele a chamou, mas Oliver não achou que ela o tinha reconhecido. -Acho que estamos com o mesmo problema.
—Mesmo problema?
Oliver assentiu e estendeu uma mão para ela.
—Meu nome é Oliver. — ela assente educada e aperta sua mão estendida em cumprimento.
—Felicity.
É um belo nome.
—O que você quer dizer com "mesmo problema"?
—Oh, eu também estava no voo 341 que foi cancelado, então eu arrumei uma carona.
—Carona? Em um aeroporto?
—Sim, um piloto vai me levar até o aeroporto duas cidades daqui e de lá vou pegar o próximo voo que tiver. Temos espaço para mais uma pessoa, você quer vir?
—Eu? Tem certeza?
—Claro, desculpe por eu estava ouvindo, mas você vai se casar, não é?
Ela mordeu o lábio inferior, nervosamente considerando seu convite.
—Tudo bem, eu vou com você. Não posso perder meu próprio casamento.
Oliver sorriu, estranhamente contente em ajudar uma completa estranha.
Fim do flashback
Oliver fechou a porta do guarda roupa com força, tentando afastar as lembranças. Não queria começar a manhã daquela maneira, lembrando da sensação do avião caindo, o olhar assustado de Felicity, os gritos dos três, ele quase podia sentir novamente o impacto no chão. Em pensar que esse foi o primeiro susto de muitos que viriam depois.
Quando Felicity vestiu o belo vestido de festa e se olhou no espelho, ela se lembrou como havia ficado linda em seu vestido de noiva que nem chegou a ser de alguma serventia. Pensou em como parecia uma época tão distante quando ela estava animada para começar uma vida com outra pessoa. De certa forma, ela ainda queria tudo isso, apenas não com a mesma pessoa de antes.
Depois de se maquiar, colocar suas joias e estar pronta para sair, seu estômago caiu gelado dentro dela em nervosismo. Ela veria Oliver hoje. Tentou evitar pensar nisso no dia anterior quando saiu com Caitlin para comprar o vestido, mas agora pronta para sair, sentia um misto de excitação e medo. Toda sua ansiedade estava ao redor de uma pergunta: O que Oliver faria quando a visse novamente?
Caitlin tagarelou sobre Tommy o caminho todo, mencionando Oliver apenas uma vez e não tocando mais no assunto quando percebeu que Felicity não queria falar sobre, e como ela estava visivelmente nervosa, então ela falou, falou e falou sobre a própria vida a fim de distraí-la.
A entrada do local já chamava atenção, haviam luzes por toda parte, alguns fotógrafos, pessoas entrando vestindo roupas que provavelmente valiam mais do que seu apartamento recém adquirido. Felicity não se lembrava qual havia sido a última vez que esteve em um evento desse porte. O lugar era uma mansão, ainda que não tão grande quanto a mansão Queen em Starling City, mas ainda enorme e enfeitada de ponta a ponta. Caitlin segurou a mão gelada da amiga, apertando suavemente e oferecendo um sorriso reconfortante.
—Vai ficar tudo bem, Felicity, eu sei que vai.
Soltando o ar que nem sabia que estava prendendo, Felicity assentiu tentando parecer mais confiante.
—Espero que você esteja certa.
As duas passaram pela pequena multidão na entrada que daria acesso a ampla sala iluminada onde aconteceria a festa. Já com vários convidados conversando e pegando bebidas servidas pelos garçons.
—Me diga se você ver Tommy. — pediu Caitlin, e Felicity assentiu sem realmente escutar, seus olhos varreram todo o lugar procurando por uma pessoa específica que não era Tommy.
Ela recusou as ofertas de champanhe e basicamente bloqueou o som ao seu redor, seus olhos nunca parando de procurar, seu coração batia tão forte que poderia sair pela boca. Ainda assim, nada disso passou perto de todos os sentimentos que a inundaram quando ela o viu, ela finalmente o viu. A expressão dura dele era exatamente como ela se lembrava, ele conversava com alguém com uma distância profissional e falava poucas palavras. O terno caia perfeitamente em seu corpo, claramente feito sob medida e o cabelo estava perfeitamente cortado, um contraste com as grandes mechas que cresceram em sua cabeça enquanto estavam perdidos.
As batidas de seu coração a ensurdeciam e suas mãos pareciam ainda mais frias enquanto ela estava completamente congelada no lugar, apenas olhando. No fundo de sua mente ela notou como Caitlin não estava mais ao seu lado e Felicity não tinha ideia para onde ela foi ou quando foi. Quando pareciam horas desde que ela estava encarando, Oliver terminou sua conversa, se virando em sua direção e, assim como ela, congelando completamente no lugar. Os pares de olhos azuis se encontraram e Deus, parecia que até sua respiração estava ofegante, o lugar tendo ficado subitamente quente demais para se estar nele.
As memórias reprimidas por tanto tempo em sua mente a invadiram de uma vez, mas não totalmente com todo o pesar que elas normalmente vinham...e sim com um sentimento novo, como se ela enfim estivesse perto de concluir uma história longa e dolorida, mas também cheia de amor e descobertas. A história dela e de Oliver. Uma história guardada em uma caixa por dias e dias a fio, e que ela poderia finalmente abrir.
Apenas nesse momento Felicity percebeu seus olhos marejados, iguais aos de Oliver.
Apesar de todo esse tempo de espera, de agonia, de saudades em que ela passou longe dele, sem ter notícias... Ainda assim, agora que estavam frente a frente houve dentro dela um reflexo de se virar e sair, de fugir dali para evitar... Bem, não sabia ao certo o que queria evitar, mas seu corpo obedeceu ao lampejo de seu cérebro e ela se viu dando dois passos para trás. Oh, isso foi como enviar algum tipo de eletricidade por todo o salão até Oliver, pois ele finalmente saiu de seu estupor, caminhando na direção dela, o próprio coração batendo em seus ouvidos. Parecia uma eternidade, como se o espaço entre eles fosse muito maior do que realmente era. Ela não se mexeu até que ele estivesse na frente dela e uma lágrima traidora escorreu por seu rosto. Oliver levantou a mão e tocou sua face secando delicadamente o molhado. Felicity sentiu o toque, seu toque, o qual ela tinha sentido falta todos os dias desde a última vez que se viram. Ela não pôde evitar fechar os olhos e guardar o toque em suas memórias, o contato quase queimava em sua pele. A mão de Oliver escorregou na sua, envolvendo seus dedos gelados e então ela abriu os olhos quando ele começou a puxá-la para andar com ele e ela o seguiu em uma confiança cega, se sentindo flutuando em um sonho novamente.
Eles andaram por todo o salão da parte de baixo, Oliver dispensou qualquer pessoa que tentou interceptar o caminho para falar com ele e então eles estavam subindo escadas até um corredor escuro. Oliver abriu uma porta que, para Felicity, era aleatória e eles entraram sem hesitar. A porta se fechou e o barulho abafado da festa permaneceu lá fora, eram apenas os dois agora, apenas os dois no mundo.
A sala era bonita, tinha uma grande árvore de natal enfeitada, um piano no canto e muitas luzes por toda a sala, além da ampla janela que dava a visão da cidade enfeitada do lado de fora.
Felicity respirou fundo para se recompor, tomando coragem para olhar nos olhos de Oliver e afastando suavemente sua mão da dele.
—Você...nunca me atendeu.
Com os olhos nunca se desviando dela, Oliver pigarreou, mudando o peso de um pé para o outro e tomando fôlego antes de falar.
—Sim, eu... Desculpe por isso, eu não... Não tenho desculpas na verdade, espero que possa me perdoar.
Mais um silêncio se seguiu. Ambos tinham tanto para dizer, ainda que suas bocas só formulassem frases insignificantes.
—Como você está? -Oliver quebrou o silêncio dessa vez.
—Eu... Estou bem, eu acho. Foi uma longa recuperação, mas estou bem. Como está o seu pé?
—Oh, bem também. As vezes dói quando piso diferente, mas... Vai ficar bom.
Outro silêncio, que tortura era estar tão perto, mas tão longe.
Isso era a realidade agora? Eram o que eles eram? Passado? Era impossível terem qualquer coisa real fora daquelas montanhas? Tudo não passou de...momento?
—Parabéns pelo seu casamento, me desculpe não te ligar para dizer isso antes, ele... Está aqui?
O que?
—O que?
—Ray, certo? O nome dele?
—Oh, isso...
Fazia tanto tempo que ela não dava essa notícia a alguém, afinal, ele saberia se tivesse atendido uma maldita ligação que fosse.
—Eu não me casei, Oliver.
Oliver piscou confuso, esperando por um minuto que talvez ela fosse dizer que era brincadeira.
—Você não se casou?
Felicity negou com a cabeça.
—Eu não podia, não quando... — com mais um suspiro, medindo suas palavras ela deu um passo para trás, tentando ter mais espaço, mais fôlego. -Quando voltamos tudo estava muito diferente...Eu estava diferente. Eu não podia fazer isso com ele, ou comigo mesma.
Oliver sentiu como se seu peito fosse explodir, ainda que não permitisse a felicidade chegar a seus olhos. Ele não sabia como Felicity poderia interpretar isso. Algo rugiu em seu peito, algo que ele tentava fazer adormecer por tanto tempo desde que saíram daquela montanha.
—Eu...não sei o que dizer, sinto muito em saber disso, eu queria que você fosse feliz, que você pudesse ter o amor novamente, não imaginei que você fosse... — Oliver se interrompeu, sentindo que tudo o que ele falava era errado, não o que ele queria realmente dizer.
Felicity não estava entendendo nada disso, não as desculpas dele, não suas palavras dizendo o quão gostaria que ela fosse feliz quando ele não tinha tido a capacidade de ligar para ela e saber por si mesmo. Isso estava errado, todo esse amor que ela sentia, não podia estar certo. Como poderia um amor assim parecer que estava esmagando seu coração em seu peito, fazê-la querer dizer coisas que ela estava tentando não dizer, fazê-la sentir-se tão desesperada para tê-lo novamente que ela mal podia pensar direito. Isso a fazia se sentir tonta, a realidade querendo bater nela. Isso nunca poderia dar certo, eles estavam ali naquela sala como se fossem só eles no mundo novamente, mas não era, não mais. O mundo não funcionava assim, esse amor poderia ser o que iria destruí-la e porque ela seria louca o suficiente para se jogar nesse sentimento tão incerto, tão assustador?
—Eu amei você, naquela montanha. Eu amei você. — de novo, as malditas batidas rítmicas em seu peito a fizeram dizer as palavras alto e claro, para que ele soubesse, para que chegassem em algum lugar. Para que ele entendesse o que deveriam fazer, o que era coerente, o quer era... Certo? — Eu voltei para casa e nada era o mesmo, tudo o que eu me lembrava parecia fora de lugar, as pessoas seguiram em frente... Eu não pertencia mais a vida delas. Isso foi... Muito doloroso Oliver, muito para suportar. Eu não posso fazer isso, achei que pudesse, mas... Não posso. O mundo real é muito maior do que apenas eu e você, não posso me iludir pensando que tudo o que sentíamos lá, sentiremos aqui também. Preciso encontrar um jeito de me encaixar novamente, fomos resgatados, mas eu ainda estou tentando sobreviver, dia após dia.
Ela não precisava ficar ali para saber o que ele iria dizer, talvez concordar com ela, talvez não. Talvez dizer que a amou também, que a amava. Talvez não. Ela só sabia que não podia continuar se afogando ali. Ela tinha que seguir em frente, antes que não houvesse mais volta, antes que doesse tudo novamente, antes que a ferida em seu peito fosse incurável. Antes que ela congelasse novamente, incapaz de se salvar.
—Eu tenho que ir... Não devia ter vindo aqui, não devia ter praticamente forçado esse encontro. Eu sinto muito, Oliver.
Seus pés pareciam chumbo, as batidas de seu coração batiam fortes em seu ouvido e suas mãos voltaram a suar frio. Apesar de tudo, ela precisava se despedir, deixar claro para seu cérebro e coração que aquilo era um adeus. Felicity deu alguns passos para frente, perto o suficiente para sentir seu perfume, para que o cheiro a entorpecesse. Segurou na mão de Oliver, acariciando a palma e se encaminhando para seu rosto, Oliver fechou os olhos, esperando, e os lábios dela pousaram sobre sua bochecha. Foi como se novamente um choque passasse pelos dois e quando o contato foi perdido, seus corpos pareciam drogados.
—Adeus, Oliver. Eu espero que... Sejamos felizes.
Ela se afastou lentamente, perdendo o calor de seu corpo, o contato das mãos que caíram, os passos que se afastaram. Sentindo que iria romper, Felicity se virou em direção a porta e quando sua mão tocou a maçaneta, ela sentiu Oliver segurar seu outro braço, o toque quase queimando em sua pele novamente. Ela fechou os olhos com força, incapaz de conter as lágrimas que caíram quentes por seu rosto.
—Oliver...
—Sabe o que eu acho, Felicity? — sua voz era um sussurro grave e embargado, quase desesperado. -Eu acho que sobrevivemos porque nos apaixonamos, porque nos recusamos a deixar um ao outro. E podemos fazê-lo novamente, aqui, juntos.
Um soluço incontido soou da garganta dela e...foda-se o mundo real. Soltando a maçaneta, Felicity se virou novamente, Oliver estava perto o suficiente para ela bater contra ele, o rosto enterrado em seu peito e os braços circulando seu corpo em um abraço. Ele a apertou contra si tão forte quanto podia, sentindo que tudo estava certo novamente, tudo ficaria bem, eles iriam descobrir uma maneira de funcionar, de sobreviver uma vez mais.
Se afastando apenas para olhá-la, Oliver segurou seu rosto nas duas mãos, olhando fundo em seus olhos.
—Eu te amei naquela montanha, Felicity, e eu te amo aqui, agora. Tanto quanto.
Sorrindo para ele, Felicity quebrou a distância. Os lábios se encontraram novamente depois de tanto tempo, os corações pareciam sincronizados enquanto batiam dentro deles. Ela puxou a respiração para seus pulmões e deixou que a língua de Oliver escorregasse para dentro de sua boca, explorando todo o caminho, encontrando sua língua quente, os gostos se misturando e houve algo salgado no meio, provavelmente lágrimas de um dos dois, ou dos dois, quem poderia saber? O ar começou a faltar e os dois se separam lentamente. O olhar de ambos dizia mais do que palavras, Oliver riu de algo e Felicity olhou confusa para ele.
—O que foi?
Ele olhou para cima, indicando para ela olhar também.
Pendurado em um dos enfeites estava um pequeno ramo de folhas finas.
—Um visco. — os dois falaram ao mesmo tempo.
Seja quem fosse que enfeitou a casa, pensou em espalhar viscos por aí.
Felicity olhou para Oliver que ainda olhava para o visco, travessa se aproximou deixando um beijo estalado em seu pescoço, abraçando-o novamente e sussurrando próximo ao seu ouvido.
—Feliz natal, Oliver.
Oliver se sentia pela primeira vez, preso na realidade. Ele não estava mais flutuando como em um sonho, não estava apenas imaginando nada. Suas mãos quentes na cintura dela, eram reais, os olhos azuis mergulhados nos dele, os lábios que há dez segundos o beijavam, agora tudo era realidade. Felicity em seus braços era real tanto quanto foi há meses atrás, ele a tinha novamente. Eles tinham um ao outro. Merda, ele estava tão apaixonado. Nunca a deixaria escapar novamente, não quando nem uma maldita montanha pôde ficar entre eles. Ele a amava e queria ficar ao seu lado para sempre.
Puxando-a novamente para um beijo, porque ele nunca cansaria de fazê-lo, Oliver sussurrou entre os lábios "Feliz natal" e voltou a beijá-la de baixo do visco, na sala enfeitada em que estavam e ao fundo podiam ouvir a música abafada que soava muito com "Have yourself a Mary little Christmas"
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