Christmas Tree Farm

8 Os melhores filmes de todos os tempos nunca foram feitos


Notas iniciais
Olá, meus amores! 💖 Feliz Ano Novo! ✨ A música que acompanha o decorrer deste capítulo é “The 1”, da Taylor Swift. Várias partes foram inspiradas e complementadas por ela, então recomendo ouvir enquanto leem. Peço perdão pela demora. Não estive muito bem nos últimos meses e, além disso, participei de um amigo secreto com uma fanfic natalina, que acabou tomando boa parte do meu tempo (e também do tempo da minha beta, a Faila 💖). Ainda assim, pretendo concluir esta fanfic ao longo de 2026. E prometo: também pretendo aparecer em breve com um super projeto! Beijos 💖 Até mais!

“Estou indo bem, estou fazendo coisas novas

Tenho dito sim ao invés de não

Eu pensei ter te visto no ponto de ônibus, mas não vi

Eu começo cada noite com o pé direito

Eu vou na matinê de domingo

Você sabe,

Os melhores filmes de todos os tempos nunca foram feitos”

(Taylor Swift – The 1)

Novembro de 2018

Londres, Inglaterra

KORY INCLINOU A CABEÇA PARA TRÁS, sentindo o pescoço reclamar de dor. Olhou ao redor e agradeceu mentalmente pelo metrô não estar tão lotado naquela manhã de início de Novembro.

Encostou a cabeça na parede gelada da estação e pegou os fones de ouvido na bolsa. Depois, desbloqueou o celular, abriu o aplicativo de mensagens e tocou no contato “Amor ❤️”. Fez a ligação, não demorando muito para ser atendida.

— Oi, amor — cumprimentou Kory, esboçando um sorriso cansado.

— Oi — respondeu uma mulher de longos cabelos pretos soltos, maquiagem impecável com batom vermelho vivo e sombra roxa. Sua pele bege contrastava lindamente com os dentes brancos e os olhos azul-claros. — Você parece abatida.

— Dia difícil…! — Kory suspirou.

— Tem haver com a sua entrevista? — Arriscou Donna.

— Bom… o analista de RH me disse que meu currículo é excelente e que eu sou igualmente talentosa, mas, no fim, não sirvo para a Enterprise Art Institute porque “minhas obras não têm identidade e originalidade próprias”. — relatou, cabisbaixa.

— Sinto muito, Kor, de verdade. Saiba que você é muito talentosa, sim! E não importa o que aqueles idiotas engravatados pensem. Suas artes são únicas! Diferentes dos clichês. Justamente por isso eles não conseguem enxergar o seu valor.

— Obrigada pelas palavras, linda. — Kory sorriu, com um brilho cansado nos olhos. — Você sempre parece ser a única capaz de iluminar meus dias chuvosos. Hoje, literalmente… porque tá até chovendo aqui dentro do vagão. Quase molhou minhas botas.

As duas riram. Kory colocou uma mecha ruiva para trás da orelha.

— Londres e seus problemas que não aparecem nos filmes — Donna comentou, revirando os olhos. — Olha, se quiser conversar a respeito, sei o quanto você estava esperançosa com esse emprego…

— Tudo bem, é só um momento ruim. Todo artista passa por isso no começo. Mas… você topa sair hoje à noite no Enzo’s, pra gente rir disso juntas?

— Er… então, amor, sobre isso… eu adoraria, de verdade… mas agora não é um bom momento. — Donna sorriu sem graça, desviando o olhar da câmera por um instante.

Kory franziu o cenho. Aumentou um pouco o volume do celular e apertou os fones nos ouvidos, tentando identificar os sons ao fundo. Havia murmúrios, música batendo, e luzes coloridas refletiam no rosto de Donna — luzes que mudavam, piscando em tons de rosa, azul e roxo.

Kory abriu a boca para falar, fechou, abriu de novo, prendendo um suspiro.

— Onde você tá? — perguntou enfim, o tom vacilando. — Numa festa?

— O quê? Não… eu tô no metrô também, sabe? — Donna riu, mas a risada soou forçada, alta demais. — É que tá lotado e… acabamos de passar num túnel. Deve ter… luzes de Natal aqui.

Kory arqueou uma sobrancelha.

— Ouvindo “Hit me, baby, one more time” da Britney Spears no vagão de metrô?

— É porque é um clássico…? — Forçou um largo sorriso. — Agora vai até tocar “Oops! … Did It Again”.

— Com luzes piscando num túnel? — Ela inclinou a cabeça, apertando os olhos. — Donna, isso é claramente um mirrorball. Querida… o que você está escondendo de mim?

— Nada — Donna respondeu rápido demais, e a imagem tremeu um pouco quando ela ajeitou o celular, a mão e voz trêmulas.

— Você começa a suar e fazer essa expressão estranha quando tá escondendo algo. Eu te conheço. — Kory apontou para a tela, quase tocando o rosto da namorada.

— Não faço, não.

— Faz! E está fazendo exatamente agora. — Kory concluiu, a voz baixa.

Sentiu a têmpora latejar e levou a mão à cabeça enquanto suspirava. A garganta secou como se tivesse engolido a poeira do metrô.

— Tá bom, tá bom, você venceu! — Donna bufou. — Realmente, você é pior que a Rachel… não dá pra esconder nada de você.

— Então… você costuma ir sempre a festas sem mim? Tipo, eu não sou doida ciumenta nem nada, mas acho uma falta de consideração…

— Eu estava escondida no banheiro de uma festa pós-casamento de um velho amigo… — admitiu, comprimindo os lábios.

— Nossa, e você nem pensou em me levar junto? Quem é esse amigo? Roy? Hank?

— É do… Dick.

— Grayson? — Kory sentiu o coração disparar no peito com a constatação, ficando até ofegante.

— Sim. E ele me chamou pra ser madrinha. Por favor, não fique chateada… ele é um amigo de longa data. Eu só não contei porque sabia que você ia ficar assim, com essa cara de quem viu um fantasma, e que ia ficar brava comigo e então a gente ia brigar e…

— Donna, só… para, por favor. Eu não acredito que você fez isso comigo.

— Tá vendo? É disso que eu tô falando. Eu sei que ele errou com você, mas isso foi há anos! Por que você não pode simplesmente perdoar? Você está comigo agora, e não pode me proibir de fazer as coisas. Você está sendo egoísta!

— Claro. Porque seria um egoísmo absurdo eu pedir pra você tirar ele da sua vida, né? Aquele homem destruiu a minha vida, Donna!

— Sim, e já se passaram tantos anos… achei que você já tivesse superado essa bobeira.

Kory suspirou fundo e desviou o olhar.

— Ele e a Barbara eram muito imaturos na época. Quem sabe o que está fazendo aos 17 anos?

— 20.

— O quê?

— Eles tinham 20…

— Que seja…!

Kory sentiu a cabeça latejar com mais força, o torcicolo se intensificar e o coração disparar como se prestes a iniciar uma tortura.

— Aquela sua terapeuta é péssima — Donna resmungou. — Você não melhorou nada nesse aspecto e… ele é como um irmão mais velho pra mim.

— Donna, me escuta, você é uma mulher incrível e foi muito boa pra mim, mas… eu preciso de um tempo para pensar.

— O quê? Sério? Você está terminando comigo?!

— Nunca falei tão sério — suspirou fundo, sentindo os olhos arderem e lacrimejarem. — Um relacionamento se constrói com confiança. E você quebrou a minha quando fez isso pelas minhas costas, com aquelas pessoas. Você sabe o quanto doeu quando aconteceu comigo e, mesmo assim, agiu desse jeito. Eu simplesmente… não posso mais. Você sempre coloca aquelas pessoas acima de mim. Coloca seu trabalho acima de mim. Eu claramente não sou sua prioridade. Acho que demorei demais pra acabar com esse teatro.

— Então… parece que você tem certeza de que quer isso.

— Sim.

Donna soltou um suspiro longo.

— Ok.

— Ok.

— Eu passo aí amanhã pra entregar suas coisas, que ficaram na minha casa. E levo as que você deixou aqui… Foi bom enquanto durou.

— É, foi bom. Tchau.

— Tchau.

A ligação terminou. As lágrimas de Kory caíram sem qualquer controle. Ela guardou o celular na bolsa, encolheu-se no banco, colocando os pés sobre o assento, e abraçou as pernas. Sentiu-se oca, como se tudo o que conhecia fosse uma grande farsa, como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés. Aquela notícia havia acabado com a sua semana.

No fundo, perguntava-se se algum dia teria a sorte de ser uma noiva, de entrar em uma igreja vestida de branco, de construir uma família, de ser feliz. Lembrou-se das promessas vazias de que ela e Dick fariam isso juntos, “algum dia”. Mentiroso. Dick Grayson era um grande mentiroso e Barbara, ela sempre odiaria Barbara também. Nenhum dos dois merecia ser feliz. Não mesmo.

Ela só queria que aquela angústia crescente em seu peito parasse de apertar. Só queria viver livre do próprio passado, cortar a âncora que a puxava para baixo e a impedia de ser… feliz.

[...]

“Eu acho que você nunca sabe

E se você me queria, você realmente deveria ter demonstrado

E se você nunca sangrar, você nunca vai crescer

Mas está tudo bem agora”

[...]

Dezembro de 2024

Gotham City, Estados Unidos

Propriedade dos Farr

Kory riu junto dos amigos até que, de repente, o grupo inteiro silenciou. Ela baixou o olhar para o relógio de pulso: 19h35. Nesse instante, seu celular vibrou suavemente dentro da bolsa.

[Pai👨‍🦳❤️] Filha, você viu o Ryan?

[Pai👨‍🦳❤️] Preciso encontrá-lo para pegar minha carteira, mas não o acho em lugar nenhum

[Pai👨‍🦳❤️] Essa fazenda é maior do que eu me lembrava

Kory suspirou, fechando a tela. Rachel a observava com expressão curiosa.

— Está tudo bem? — perguntou.

— É meu pai — Kory murmurou, segurando o celular. — Vou procurar o Ryan rapidinho e já volto. Se acontecer algo, me manda mensagem.

— Ok — respondeu Rachel, acenando de leve.

[Kory 💖] Ok, vou procurar ele.

[Kory 💖] Tenho certeza de que só deve estar querendo ficar um tempo sozinho, não se preocupe.

[Pai👨‍🦳❤️] Ele não atende o telefone.

[Kory 💖] Não se preocupe, isso é típico do Ryan. Onde o senhor já procurou?

[Pai👨‍🦳❤️] Por enquanto, na casa principal e na casa secundária, com a ajuda do Larry.

[Kory 💖] Certo, continue por aí. Eu vou procurar no celeiro.

[Pai👨‍🦳❤️] Celeiro?

[Kory 💖] Sim. Ele gostava de brincar lá quando criança, era o lugar de conforto dele. Quem sabe eu dou sorte.

[Pai👨‍🦳❤️] Faz sentido, filha. Espero que o encontre. Por favor, me mantenha informado.

[Kory 💖] Pode deixar 😉

Kory encerrou a conversa e bloqueou o celular. Em passos firmes, dirigiu-se ao celeiro, logo atrás da casa principal. A construção estava iluminada por fileiras de pisca-piscas que contornavam a fachada, refletindo nas tábuas de madeira polida.

Ao empurrar a porta, deparou-se com Sven, a rena de pelagem acinzentada, que a fitou e soltou um relincho suave. Kory não conteve o riso.

— Olá, velho amigo! — disse, passando a mão pela crina dele. — Como vai? Você, por acaso, viu o Ryan por aqui? Ele adorava passar o tempo nesse lugar, trazendo cenouras para você e passeando pela fazenda, quando era criança.

Ela então examinou o chão, coberto por uma camada de neve branca e fofa. Nenhum rastro, além do seu. Ergueu os olhos, procurando entre os pilares de sustentação qualquer sinal de uma cabeleira ruiva escondida ali. Nada.

— Ele deve estar bem escondido... — murmurou, girando devagar sobre os próprios pés. — Ou foi ver o Ventania. Esse lugar mudou tanto...! Lembro de quando você e o Ventania ficavam sempre juntos, Sven.

Kory se sobressaltou ao ouvir um ruído metálico ecoando pelo celeiro — algo caindo, talvez um balde, talvez uma pá. O som quebrou o silêncio do lugar e fez seu coração acelerar por um instante. Ela virou o rosto para Ventania, que ergueu as orelhas, atento, como se também tivesse percebido. Com o cenho franzido, acompanhou o barulho até identificar sua origem: vinha de trás de uma parede ripada de madeira, no fim do corredor, justamente na parte onde algumas cabras dormiam em paz.

— Ryan, é você? — chamou, a voz soando mais firme do que ela realmente se sentia. — Pode sair daí, o papai tá preocupado. Eu posso acalmar o coroa pra você, não se preocupe. Sei que só quer ficar um tempo sozinho, mas não é nada demais... — Deu um meio sorriso, tentando quebrar a tensão. — Anda, saia logo do seu esconderijo, Mindy Macready.

O silêncio durou apenas alguns segundos antes que uma voz masculina, grave e carregada de ironia, atravessasse o ar:

— Olha, acho que estou um pouco velho e rústico para ser a Chloë Grace Moretz.

Kory estremeceu e revirou os olhos. Aquela definitivamente não era a voz de Ryan.

Das sombras, surgiu uma figura alta, vestida com um terno impecável, de corte sofisticado, destoando completamente do ambiente rústico do celeiro. O homem caminhava com passos lentos e elegantes, o brilho das luzes de pisca-pisca refletindo nos sapatos engraxados.

— O que você está fazendo aqui, Grayson?! — Kory rebateu, cruzando os braços, o olhar faiscando.

— A srta. Farr também me convidou para a festividade, ué! — respondeu ele, com naturalidade, enfiando as mãos nos bolsos do terno. — Sou quase como um segundo filho para ela. Ou algo perto disso.

— Você sabe muito bem que não é disso que estou falando.

— Queria rever meu velho amigo, Sven. — Ele estendeu a mão, acariciando a crina da rena com uma calma irritante. — Pelo visto, o Ryan desapareceu, não é?

— Isso não é da sua conta.

— Bom... se quiser, posso ajudar. Sou o melhor detetive que Gotham já viu. Depois do meu pai, claro.

— Emocionante, mas educadamente dispenso. — Kory forçou um sorriso, carregado de ironia.

Grayson arqueou a sobrancelha, estudando-a.

— Sabe... hoje mais cedo vi seu irmão caminhando pela beira da estrada. Ele me deu uma força com um problema no carro. O meu mecânico de confiança disse que ele tem talento.

Kory ergueu o queixo, firme:

— Ele é um Anders. Nasceu para se destacar nesse mundo preto e branco.

— De fato. — A voz dele baixou, mais séria. — Mas notei que ele pegou algo do meu carro enquanto eu estava distraído. E acredite, eu preciso daquilo de volta.

O cenho de Kory se franziu.

— Espera aí, Grayson... você veio até aqui só para me provocar e agora resolve acusar meu irmão? Sério? Você não tem jeito.

Um sorriso malicioso surgiu no canto da boca dele.

— Na verdade, no momento vim te avisar que a rena está comendo o seu cabelo.

— O quê?! Sven! — Kory suspirou, inclinando a cabeça para trás enquanto afastava a rena com cuidado. Uma madeixa de seu cabelo já estava presa na boca do animal. Em outras circunstâncias, ela teria rido da cena. — Meu irmão jamais roubaria alguém. Eu dei educação a ele.

— Não foi o que ele demonstrou de tarde. — Grayson deu de ombros. — Tenho até uma gravação disso.

— Você não existe. — Ela revirou os olhos.

— Acredite, Kory, eu preciso daquilo de volta. Aquele diamante é muito importante para mim. O Ryan não tem noção do perigo em que pode estar se metendo...

— Grayson... para! Nós dois sabemos que essa conversa não é sobre o Ryan. Me admira você usar o nome do meu irmão só para me irritar ainda mais. Por que não pode simplesmente cuidar da sua vida em vez de ficar me perseguindo?

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Eu? Te perseguindo? Por favor, Anders!

— Sim. — Kory estreitou os olhos. — Ou você realmente acha que vou engolir esse papo de que veio ver o Sven e o Ventania? Você sempre odiou esse lugar por causa do cheiro.

— Não acredito nisso… impressionante como quase dez anos se passaram e você continua na defensiva.

— Talvez eu não estivesse na defensiva se você nunca tivesse me dado motivos para isso.

— Olha, tá na cara que seu irmão não está aqui, e acho que já somos grandinhos o suficiente para lidar com isso de forma racional, como dois adultos. Seu irmão sumiu, e isso pode ser um mau sinal por causa do diamante que ele me pegou. E, de repente, quer você acredite em mim ou não, é evidente que precisa de ajuda com ele. Então, por que não vamos procurá-lo juntos e depois o interrogamos? Assim descobrimos quem está falando a verdade de uma vez por todas.

— Eu acho isso uma péssima ideia, mas… você ainda é o melhor detetive deste estado, independente de tudo. — Deu de ombros. — Se ele não está aqui, onde ele poderia estar?

— Na casa secundária tem uma varanda bem espaçosa, com uma vista incrível da noite e da floresta. Se eu fosse um adolescente revoltado, o que eu fui, e quisesse ficar sozinho, eu iria para lá.

— É, você pode ter razão. Acho que ele iria para lá. Ir até lá talvez o faça se lembrar do Leroy.

— Quem?

— Você não o conheceu. Mas é melhor irmos antes que a fazenda fique cheia, porque isso só tornaria a busca mais difícil.

[...]

“Mas nós éramos algo especial, você não acha?

Aos vinte e poucos anos, jogando moedas na piscina

E se meus desejos se tornassem realidade

Teria sido você

Em minha defesa, não tenho nenhuma

Por nunca deixar as coisas do jeito que estão

Mas teria sido divertido

Se você tivesse sido O Certo”

[...]

A casa secundária, assim como a principal, seguia um estilo mediterrâneo, com dois andares e um sótão, diferente da primeira, que possuía três andares e um porão. A varanda era coberta por um caramanchão repleto de folhas verdes e flores de todas as cores: rosas vermelhas, brancas e até algumas azuis, cuidadosamente cultivadas para decorar o espaço. O chão ainda estava coberto por uma neve branca e intacta; nenhum sinal de pegada indicava passagem recente, mas Ryan poderia ter chegado ali voando, sem deixar rastros. Ao seu lado, o moreno resmungava algo.

— Sorte sua que a Rita me deu a chave dessa casa hoje cedo. — Dick afirmou, começando a procurar nos bolsos, depois olhando atrás do vaso de flores.

— Por quê?

— Ela queria que eu tivesse todo o conforto necessário, então tenho um quarto só meu por aqui.

— Impressionante como você consegue ser mimado mesmo depois de adulto.

— Não sou o único, acho. Afinal, seu irmão até hoje é tratado como o filhinho do papai. Isso explicaria a falta de limites.

— Até parece, como se seu irmão Damian fosse muito gentil e independente.

— Gentil não, muito longe disso, mas independente ele é, acredite. — Dick remexeu nos bolsos novamente. — Acho que devo ter deixado a chave comigo em algum deles.

— Calma aí… então você foi para o celeiro não porque estava me perseguindo, mas por causa do meu irmão, que é menor de idade, por causa do seu colar… — Kory cruzou os braços, franzindo o cenho.

— Diamante. — Dick corrigiu.

— Que seja! Isso é pior do que eu imaginava, Grayson!

— Você não pode dar um minuto de trégua, Anders?!

— Ok, me passei, foi mal.

— Tenho certeza de que deixei a chave que a Rita me deu em algum lugar… — Dick murmurou, remexendo nos bolsos do terno e da calça, batendo levemente com os dedos, como se a própria batidinha pudesse convocar a chave até sua mão.

Kory piscou e, com um assobio alto, levantou voo, pairando alguns metros acima do chão.

— Err... Dick?

— Um minuto. Só mais um pouco… acho que… encontrei! — disse Dick, finalmente segurando o chaveiro, mas, ao se virar, ficou confuso: a ruiva não estava mais ali.

— Tamaraneanos têm a habilidade de voar, se esqueceu? — Kory respondeu com um sorriso travesso, sentada na cerca da varanda, pernas para dentro.

— Você poderia ter me lembrado desse detalhe antes. — Ele suspirou, exasperado e divertido ao mesmo tempo.

— Achei que o melhor detetive do estado se lembraria de algo tão trivial.

— Ok, você me pegou… mas poderia rolar uma carona aí para cima?

— Ué… ouvi uma vez em um podcast que é você mais rápido que o Usain Bolt.

— Quem disse isso?

— Você mesmo, numa entrevista para a Pamela Isley.

Dick balançou a cabeça, rindo sem jeito e olhou para o chão, com as mãos na cintura.

— São literalmente três lances de escada.

— Por isso mesmo faço questão, seria um absurdo eu te dar um apoio e subestimar as suas habilidades. — A ruiva deu uma piscadela e pulou para dentro da sacada.

Não subestimar minhas habilidades... sei — Dick murmurou, sorrindo de lado.

Abriu a porta e sentiu o cansaço dominar seu corpo assim que viu as escadas em z, no ambiente escuro. Ao acender a luz, subiu o primeiro lance sem maiores dificuldades, sentindo apenas o leve cansaço habitual de subir degraus.

No entanto, ao chegar ao terceiro lance, uma pontada aguda surgiu na perna, lembrando-o da cirurgia que havia feito anos atrás para reparar o tendão rompido. A dor não era intensa, mas suficiente para fazê-lo mancar levemente e apertar os dentes, consciente de que precisava tomar cuidado. O músculo se tencionava a cada passo, e ele sentiu a velha sensibilidade do tendão.

Assim que chegou no andar da varanda, Kory o esperava na porta, apoiando o braço esticado no batente e a mão livre, na cintura.

— Admito que esperava mais do detetive mais rápido dos Estados Unidos.

— É que eu estava vindo devagar com um propósito, estava procurando alguma pista do Ryan e verificando se estávamos realmente sozinhos aqui.

— Claro, claro, e eu sou a Hailee Steinfeld! — Ela tocou seu ombro.

— Engraçadinha! — Ele endireitou a coluna. — Honestamente, você é mais o tipo Anna Diop.

— Então, você ainda me acha bonita que nem ela?

— Do nada?

— Lembro que você falava isso antes, de que eu era tão linda e fascinante como ela.

— Foram bons tempos. Sinto saudades.

— Bom, você continua sendo um ótimo mentiroso. — Kory deu-lhe as costas e se encaminhou até a sacada. Era possível ver os pinheiros, que foram poupados naquele ano, cheios de pisca-pisca na pequena floresta da fazenda. Diante dele, mais para o horizonte, dava para ver os prédios altos e iluminados de Gotham City.

Era uma sensação de aconchego que a acometia quando deslumbrava daquela paisagem.

— Essa vista continua linda, é a cara do Ryan vir para cá, para respirar um pouco de ar antes de voltar pra festa.

— Sim. — Dick concordou, ficando do seu lado na sacada. — Uma pena não termos um sinal dele.

— Isso tá muito estranho... tô começando a achar que essa sua história do diamante pode ser verdade.

— Impressionante o quanto você continua teimosa e cabeça dura!

— Eu sou teimosa e cabeça dura, Grayson?

— Sim.

Kory bufou.

— Tá, tanto faz... mas me diga, para que era o colar de diamante? Ou isso é informação confidencial também.

— Não quero falar sobre isso...

— Bom, se esse diamante é algo que pode colocar a vida do meu irmãozinho em risco, então sim, acho que eu tenho o direito de saber. Ah não ser que você pretende pedir a sua namoradinha em casamento, mas é uma surpresa.

— Namoradinha?

— Não sei, deve ter tantas, no fim, você vai destruir ela também, ou, se ela for esperta, vai te abandonar antes, que nem a Barbara.

— Eu realmente não estou gostando do rumo dessa conversa.

— É claro que não, você sempre teve alergia de falar sobre sentimentos ou sobre suas atitudes. Sexo não resolve todos os problemas, sabia? Isso aqui não é um livro da Penelope Douglas.

— Onde você quer chegar com isso?

— Não banque o sonso, Dick. Nós dois sabemos que você é mais inteligente que isso. — Kory afirmou e olhou para frente.

De repente, um cheiro forte a envolveu, provocando-lhe um leve enjoo. Instintivamente, baixou os olhos e percebeu que se tratava de um esquilo, cujo corpo havia sido partido ao meio por algo extremamente afiado.

Ela gritou. Dick voltou-se para ela, confuso, sem entender o motivo da reação. Kory apenas apontou, com os dedos trêmulos, para o pobre animal, condenado, que jazia sobre o caramanchão da sacada inferior.

Seu estômago se revirou; o gosto amargo e ácido subiu-lhe pela garganta. Sem conseguir suportar, correu até o banheiro.

— Kory? — Dick a chamou, seguindo-a. — Você está bem? — perguntou, fazendo careta ao vê-la purgando no vaso.

— Tô! Só não suporto ver tripas.

— Você não parecia ser sensível a isso antigamente.

— Ninguém é o mesmo para sempre, Grayson!

— É, tem razão.

Dick deu de ombros e andou pelo quarto, enquanto Kory ainda se recuperava de frente a privada.

— O Ryan não está mais aqui agora… mas ele esteve.

— Por que acha isso?

— Encontrei isso no chão. — Ele disse, lhe mostrando um cachecol, laranja e surrado. — É dele, tem até as suas iniciais. — Mostrou o lado do tecido com o “RA” entalhado. — E tem um suéter preso nas plantações também. — disse, voltando pra sacada.

Kory se endireitou imediatamente, mascou um chiclete com força e caminhou até o local. Sentiu seu coração disparar ao ver o velho suéter vermelho, que Ryan ganhará dela, no Natal retrasado, estirado em cima do caramanchão inferior.

— Sim! É do Ryan. O agasalho preferido dele.

— Ele é distraído? Ao ponto de deixar um agasalho e um cachecol cair e não perceber?

— Não, eu acho que não, não tenho certeza, mas não estou vendo nenhum rastro dele por aqui.

— Está ensanguentado… e com marcas de… Não, isso não é nada bom. — O homem engoliu em seco.

— Por quê? Você está me assustando. Grayson, seja sincero comigo: de onde veio esse diamante?

— Vou chamar reforço. — Ele pegou o iPhone no bolso. — Espero que o comissário Gordon não esteja muito ocupado agora.

— Grayson, você não respondeu a minha pergunta!

— Espero que o Timothy e o Bernard estejam de vigília esta noite, como combinamos.

— Grayson! — Ela praticamente gritou, arrancando o iPhone das mãos dele. Seus olhos brilharam em um verde intenso, acesos pelos poderes. — Em que merda você colocou o meu irmão? Me responde. AGORA.

Dick apenas revirou os olhos e soltou um suspiro profundo antes de finalmente começar:

— Você venceu. O colar foi roubado da sede da The Shadow Syndicate.

— A nova organização de supervilões liderada pelo Exterminador… — concluiu, sentando-se na cama.

— Exatamente. O que parece um diamante é, na verdade, um dispositivo de armazenamento camuflado em forma de pen-drive. Ele foi projetado para tornar seu conteúdo praticamente indestrutível e inacessível por meios convencionais. O arquivo contém informações de alto nível: o Projeto de Tecnologia de Camuflagem, códigos de desativação, os planos mestres do Slade, identidades secretas de membros da elite, além da chamada “lista de contatos” do submundo. Trata-se de um sistema de segurança máxima.

Dick relatou, se sentando ao lado de Kory na cama, antes de continuar:

— Ainda assim, consegui obtê-lo. Houve confronto, sofri danos consideráveis, mas causei prejuízos equivalentes. Tenho convicção de que Slade se encontra em condições muito piores do que as minhas, o que, admito, traz certa satisfação. Contudo, a situação se agravou. No momento, um par de vilões estão me perseguindo de forma constante. E, agora, eles estenderam essa caçada ao seu irmão.

— Uau! Então, o Slade… de novo. — Kory passou a mão pelo rosto, rindo sem humor. — Me surpreende como você ainda continua obcecado por ele, não aprendeu nada depois de tudo que aconteceu com o Joey?

— Não fala dele.

— Me desculpa, mas não dá para simplesmente esquecer…

Obcecado? — Dick deu um passo à frente, umedecendo os lábios. — Aquele homem fez coisas horríveis comigo, coisas imperdoáveis. Ele me torturou e eu era apenas um adolescente! Então me perdoe se o quero preso, mas você nunca me entendeu mesmo. Nem quando a gente namorava. Você nunca me ouviu.

Kory abriu a boca para retrucar, sem reação. No fim, se levantou e cruzou os braços, virando o rosto com desdém, antes de responder:

— Ah, eu sou a ruim? Impressionante como você sempre me causa problemas. O Ryan está em perigo por sua irresponsabilidade! O próprio Gordon mandou você se afastar do Slade porque isso estava te destruindo mentalmente. E olha só: ele estava certo. Você está enlouquecendo!

— Retire o que disse! — Dick deu um passo à frente, tensão evidente nos ombros.

— Tá sim! — Kory avançou também, o dedo apontado no peito dele. — Você está machucando pessoas nas ruas de Gotham, julgando sem conhecer, achando que todo mundo é um bandido! Você desfigurou o rosto de um homem com o vidro do próprio carro dele!

— Eu achei que ele fosse um bandido!

Ele era a vítima!

Dick cerrou o maxilar, desviando o olhar.

— Para alguém que “não queria mais saber de mim”, até que você anda sabendo bastante sobre a minha vida.

— Porque é uma vergonha você estar usando o manto do Batman. Todo mundo tá sussurrando à respeito. — Kory deu uma risada amarga. — Você está virando um psicopata… igual ao Slade.

Num movimento brusco, Dick agarrou o braço dela com força.

— Nunca mais diga isso.

— Me solta! — Kory puxou o braço de volta com violência, dando um passo para trás. — Você precisa de terapia!

Dick bufou, os olhos escuros de raiva.

— Nada disso estaria acontecendo se tivessem dado educação pro seu irmão! Ele é um ladrãozinho de merda.

Não fala assim dele! — Kory avançou, o fogo quase acendendo nas mãos. — Foi apenas um erro, só isso.

— Nada disso estaria acontecendo se vocês não tivessem vindo. — Ele apontou o dedo no rosto dela. — A Rita me prometeu que seriam convidados apenas os Titãs de verdade… e não uma traidora como você.

— Traidora? — Kory levou a mão ao peito, indignada. — Eu nunca fiz nada!

— Fez quando acobertou a mau-caráter da sua irmã. Todo mundo da sua família é podre.

— Ela se arrependeu!

— Ela trabalhava pro Slade!

Ele estava manipulando ela! Ele a ameaçava!

Dick deu uma risada baixa, amarga.

— E por isso você abandonou a equipe. Porque foi proteger ela. Não contou nada do que sabia sobre o Slade. Ela podia ter sido nossa informante, estávamos tão perto de colocá-lo pra sempre atrás das grades, mas você acobertou tudo e ele saiu impune depois do que fez comigo.

— Eu não contei nada porque não conseguia confiar em você! — Kory bateu a mão na mesa com um vaso ao lado, exasperada. — O único traidor aqui é você! Porque você me machucou quando me trocou pela Barbara enquanto ainda estávamos juntos.

— Porque ela foi a única que ficou do meu lado — Dick respondeu, a voz baixa mas firme — Sem me julgar.

— Isso é ridículo! — Kory se virou e revirou os olhos.

— Nossa, como você é egoísta, Anders. Mesmo quando o assunto é a segurança do seu irmão, você dá um jeito de reverter o jogo para fazer tudo girar em torno de você. É paranoica… doente!

— Uau! — Kory rebateu, a voz embargada de raiva. — É bem hipócrita ouvir você falar de egoísmo. Você sempre esteve lá para infernizar a vida de todo mundo. Sempre tomou decisões pensando apenas em si mesmo. A Bárbara foi esperta de ter te dado um pé na sua bunda há muito tempo.

— Sempre com esse discursinho barato de “por que ela e não eu?”. — Dick ergueu a voz, cansado. — Estou farto do seu vitimismo e da forma grosseira com que me trata.

“Por que ela e não eu?” — Kory repetiu, com ironia, antes que sua expressão se quebrasse em dor. — Você sabe exatamente o que me machuca. O que ela tinha de tão especial? Elas, na verdade. — corrige-se, a voz falhando. — Porque não foi só a Barbara. Teve a Dawn, a Helena, a Cheyenne, a Bea, a Zatanna, a Shawn Tsang, a Kara, a Bette Kane… uma lista interminável.

Respirou fundo, a frustração transbordando.

— Independente de estar ainda com a Barbara ou não, a questão é que você nunca me escolheu. Nunca sequer cogitou. Enquanto eu… eu sempre idealizei como seria se um dia nós nos casássemos. E é isso que mais me destruiu, Dick! — Sua voz quebrou. — Você é uma pessoa tão ruim, tão insensível… então por que você tem direito a uma família, a um amor, e eu não? Qual é o problema comigo?!

— Kory, espera…

— Você sempre me deixou no banco de reserva… pior, sempre me tirou do jogo antes mesmo de começar. Nunca fez questão de tentar de novo, nunca lutou por mim. Acho que, no fundo, eu não passava de mais um número na sua vida. Nunca fui digna pra você.

— Kory…?

— E depois de tudo isso, você ainda tem a coragem de dizer que eu era sua melhor amiga? — A voz dela vacilou, mas o olhar permanecia firme. — Nós nunca poderíamos voltar a ser só amigos depois de tudo o que aconteceu. Depois de tudo o que você me fez passar. Todas as rejeições, as humilhações, e aquelas agressões silenciosas que machucavam ainda mais do que hematomas. Eu fiz de tudo por você, fiquei do seu lado, te acompanhei em todas as terapias… eu te amava e você usou minhas inseguras de munição contra mim.

Anders respirou fundo, a raiva e a dor misturando-se em cada sílaba.

— Sim, eu me vejo como vítima dessa história. Eu tive meus erros, claro que tive, e reconheço que não sou perfeita. Mas a única certeza que eu tenho na vida é essa: eu sou uma pessoa muito melhor que você. E você… você nunca me amou! Pelo contrário, você apenas afastou e infectou todas as pessoas que eu amava de mim.

— Ah é? Tipo quem?

— Tipo a Donna! Ela escolheu você em vez de mim. Tenho certeza de que você e a Babs colocaram ela contra mim, espalhou mentiras, me difamou, como sempre fez. E agora, o Ryan está desaparecido, nem sei se vou conseguir vê-lo de novo…

— Bobagem. Se eu, sem poderes sobrevivi ao Slade, ele também consegue…

— E quem você pensa que é para me chamar de egoísta? O único egoísta aqui é você! E quer saber? Você merece ficar sozinho, sem ninguém, só com os seus dólares. Na verdade, acho que merece todas as merdas que aconteceram com você. Às vezes eu sinto pena de alguém tão miserável quanto você.

Um silêncio incômodo se instalou entre eles. Dick a encarava em silêncio, enquanto Kory mantinha os olhos fixos no chão, esforçando-se ao máximo para conter as lágrimas que insistiam em surgir.

Foi então que um estrondo ecoou pelo andar inferior — o som de vidro se partindo — seguido por gritos e pedidos desesperados de socorro.

— O que foi isso? — perguntou Dick, em alerta imediato.

— Parece ser… o Ryan! — Kory levantou-se em um salto e correu na direção do barulho.

— Ei, espera! Pode ser perigoso!

Ao descerem as escadas e abrirem a porta que dava origem ao barulho, depararam-se com uma cena aterradora: uma mulher loira sufocava Ryan contra uma janela recém-destruída. Seu rosto começava a se desfazer, escorrendo como lama marrom. Tratava-se do Cara-de-Barro, um dos principais comparsas de Slade, uma criatura humanoide massiva e grotesca, composta de argila viscosa e úmida, em constante movimento.

Num instante seguinte, ele abandonou qualquer disfarce. Seu corpo se expandiu numa forma ainda mais horrenda, arrebentando o que restava da vidraça com um rugido lamacento. Apertando o colarinho de Ryan com força brutal, inclinou seu corpo maleável sobre o vão da janela. O odor pesado de argila tomou o ambiente.

Em resposta, os olhos de Ryan brilharam com fúria estelar. Sem hesitar, ele canalizou a energia ardente que o consumia e, com um grito de guerra, disparou uma rajada concentrada de fogo estelar. O ataque forçou Cara-de-Barro a soltá-lo imediatamente, evitando que sua superfície fosse cozida pela energia incandescente. A força do impacto lançou o vilão para dentro do cômodo, onde ele se espalhou pelo chão como uma poça de lama furiosa, concedendo a Ryan tempo suficiente para se recompor.

— Irmã! — O adolescente gritou, assim que a viu.

— Ryan! — Kory correu até ele, segurando-o com urgência. — Você está bem?

Ryan mal teve tempo de responder antes que um impacto sólido e invisível atingisse Kory com a força de um martelo. Um joelho oculto cravou-se em seu abdômen com precisão brutal, arrancando-lhe o ar dos pulmões e dobrando-a de dor.

— Kory! — gritou Ryan, ao vê-la cambalear, as mãos pressionadas contra o ponto cego do ataque, enquanto sua visão começava a escurecer nas bordas.

Tratava-se da ação silenciosa do Camaleão. Um homem de porte físico avantajado emergiu lentamente ao lado de um armário antigo, sua camuflagem se dissipando por um breve instante.

Consumido pela raiva, Ryan canalizou seu poder, fazendo a energia estelar se condensar em ambas as mãos. Sem hesitar, arremessou starbolts na direção do inimigo, que, com sagacidade, voltou a se camuflar e desviou do ataque.

— Estrelar, você está bem? — Grayson correu ao seu encalço.

— Sim, eu vou sobreviver. Por favor, proteja o Ryan!

O homem assentiu, apanhou um bastão improvisado — a haste metálica de uma cama quebrada, abandonada em um canto do quarto — e avançou sem hesitação contra Cara-de-Barro, que ameaçava se recompor e retornar à ofensiva.

— Estrelar, preciso de reforço! — pediu Dick, mantendo a postura defensiva.

Com esforço visível, Kory ergueu-se do chão e conseguiu se manter de pé, apoiando-se na porta. A dor em seu abdômen era intensa, e pensamentos sombrios atravessavam sua mente em sucessão.

— Estrelar, agora! — Dick gritou novamente, encurralado contra a parede, usando apenas o bastão para manter o monstro à distância.

Estelar respirou fundo e ergueu a mão esquerda, apontando diretamente para Cara-de-Barro. Com determinação absoluta e ignorando a dor que se intensificava, disparou três starbolts consecutivos, atingindo a cabeça e o tórax da criatura. O impacto desfez o vilão por alguns segundos, espalhando argila pelas paredes brancas e respingando no smoking caro de Dick.

Aproveitando a abertura, Grayson sacou um spray de cimento de secagem rápida de um dos bolsos internos e o acionou contra a massa ainda instável. A argila começou a endurecer imediatamente.

— Isso deve contê-lo por algum tempo — informou ele, guardando o spray enquanto ajeitava o smoking com um gesto automático.

— Um “obrigado” seria bastante útil… — murmurou Kory, ainda pressionando a mão contra o abdômen.

Sem responder, Dick se voltou para o Camaleão, que agora estava engajado em uma troca brutal de golpes com Ryan. Grayson entrou na luta sem hesitar. Seus golpes eram precisos e calculados, enquanto Camaleão respondia com força bruta e agressividade.

Punhos se chocaram. Dick acertou uma sequência rápida, mas o vilão revidou com um golpe pesado no torso. Em seguida, Camaleão girou o corpo e desferiu um chute violento, arremessando Dick para longe.

Ele se recompôs a tempo de ver o inimigo avançar novamente sobre Ryan. Mesmo ferido, o jovem concentrou energia e disparou um starbolt, atingindo Camaleão em cheio. Ainda assim, suportando a dor com resiliência assustadora, o vilão avançou e o prensou contra a janela quebrada. O impacto agravou os ferimentos de Ryan, fazendo o sangue escorrer por suas costas.

— É o seguinte — rosnou Camaleão. — Entregue o diamante. Dê-nos o diamante, e talvez consideremos deixá-lo vivo, boneca.

— Eu já disse — respondeu Ryan, com dificuldade. — Não está comigo. Eu o vendi.

O vilão estreitou os olhos.

— Você está me obrigando a deixar de ser bonzinho, moleque.

Um estrondo ensurdecedor tomou o ambiente, acompanhado por uma ventania violenta. Camaleão ergueu o olhar e sorriu ao avistar um enorme helicóptero pairando a poucos metros acima deles.

Alguns dos convidados da festa de Natal, na casa principal, começaram a sair para o exterior, atraídos pelo ruído anormal.

— Vamos ver o que Slade pensa a respeito disso — declarou Camaleão, com frieza. — Tenho certeza de que ele fará você falar bem rapidinho.

Sem dar tempo para reação, ele empurrou a si mesmo e o jovem para fora da janela.

— Ryan! — gritou Kory, correndo desesperadamente em sua direção.

— Estelar, espere! — chamou Dick, correndo logo atrás dela.

Antes que pudessem alcançá-los, Ryan e o Camaleão foram envolvidos por uma luz branca incandescente e içados para a entrada do aerodino. Em seguida, o helicóptero arrancou em disparada, afastando-se rapidamente do local.

Kory e Dick, porém, não tiveram a mesma sorte. Ambos despencaram sobre uma gigantesca rena decorativa, feita de vidro iluminado. A estrutura se partiu ao meio com o impacto, ferindo-os com estilhaços cintilantes espalhados pelo chão.

— Você está bem? — perguntou Dick, arrastando-se até ela. Kory estava sentada na neve, e uma poça de sangue começava a se formar sob seu corpo. — Estelar?

Ele tocou seu ombro com extrema delicadeza, tentando mantê-la consciente.

— Meu Deus… o que aconteceu aqui?! — exclamou Rita, aproximando-se apressada, enquanto uma pequena multidão se formava ao redor. — Vocês estão bem? Vou chamar uma ambulância.

— Nós não temos tempo para isso… — Dick tentou argumentar.

— Para trás, eu sou o pai dela! — ordenou Galfore, ajoelhando-se imediatamente ao lado da filha. — Querida, olhe para mim. O que você está sentindo? O que houve?

Kory levou as mãos ao abdômen, o corpo tremendo.

— O Ryan… eles levaram o Ryan — disse, entre soluços. — Ele foi sequestrado. Pessoas perigosas…

— Quem fez isso? — insistiu Galfore, alarmado. — Por quê?

— A The Shadow Syndicate — respondeu ela, com dificuldade. — Ryan pegou algo muito valioso para eles… e agora querem recuperar a qualquer custo.

Nesse momento, Rachel e Garfield romperam a multidão.

— Kory, você está bem? — perguntou Rachel, ajoelhando-se ao lado da amiga. Sua voz era firme, mas carregada de preocupação.

Kory ergueu o olhar. Seus olhos estavam vermelhos, marejados de pânico.

— Foi o Ryan… — murmurou, a voz trêmula. — Ele acabou de ser sequestrado.

Sem conseguir se conter, ela se lançou nos braços de Rachel Roth, que a envolveu em um abraço apertado, sentindo o desespero pulsar em seu corpo.

A ruiva então apertou a própria barriga com força, o rosto tomado pela dor.

— Você está bem?

— Não muito…— Sua voz falhou. — Está doendo tanto… mas, sinto que o meu bebê está bem.

[...]

“Eu persisto e resisto à tentação de te perguntar:

Se uma coisa tivesse sido diferente, será que tudo seria diferente hoje?

Mas nós éramos algo especial, você não acha?

Bebendo vinho rosé com a família que você escolheu

E teria sido doce

Se pudesse ter sido eu”

Notas finais
Posso não estar tendo muito tempo para responder, mas estou lendo todos os comentários e eles são minha maior fonte de inspiração. Muito obrigada a todos! 💖