Christmas Carols
2 Charles e Silena
Notas iniciais
O jovem casal conversava calmamente no táxi. Na verdade, a única pessoa calma ali era Silena. Charles estava particularmente nervoso.
– Nem combina com você, Charlie. Um cara enorme como você, que põe medo em qualquer um só de olhar, com medo de um jantar família. — ela falou segurando o riso.
– Eu não estou com medo. Apenas nervoso. — respondeu sentindo suas bochechas esquentarem de vergonha.
Seu tom de voz foi o suficiente para fazer Silena rir.
– Eu não acredito! Charles Beckendorf está com medo de um jantar na casa da namorada!
– Nervoso. — ele corrigiu — Medo nós temos de monstros e pesadelos.
– Muito bem, Sr. Nervoso. — ela disse frizando o adjetivo — Eu só não entendo esse seu nervosismo. Você já conhece meus pais.
– Por webcam. Agora haverá irmãos, tios, primos, avós...É muita gente pra impressionar. — ele falou preocupado.
– Eles vão te adorar, Charlie. Não tem com o que se preocupar. — ela disse segurando sua mão — É Natal. Apenas relaxe e divirta-se.
Ele suspirou.
– Ok, se você diz, então vai dar tudo certo.
Ela sorriu.
– Claro que vai dar.
O carro parou em frente a uma grande casa em um bairro de classe média alta em Nova York. O pai de Silena podia não ficar muito tempo em casa, mas o salário era condizente com o esforço.
Pagaram o táxi e recolheram as malas. O garoto havia trazido apenas uma mochila enquanto Silena trouxera no mínimo três malas. Charles se perguntava por que havia tanta bagagem para quatro dias fora do acampamento. Ainda mais quando o destino era sua própria casa. Então ele se lembrou de que a pessoa era ninguém menos que Silena Beauregard, a garota que não admite coisas desorganizadas. E para haver organização é necessário preparação.
Silena arrumou o casaco do namorado uma última vez enquanto dizia.
– Já sabe. Sorria, fique calmo, ignore o francês. Se houver algo que você precise entender eu te direi.
– Sim, general. — ele falou com um sorriso recebendo um ligeiro olhar fulminante da garota — Desculpe.
– Humpf. — foi tudo que ela disse antes de ajeitar o próprio cabelo e apertar a campainha.
Alguns minutos depois um homem em seus quarenta anos abriu a porta e sorriu para a menina.
– Silena, mon cher! — ele disse em um forte sotaque francês enquanto abraçava a garota.
– Papai, senti tanta saudade. — ela disse retribuindo o abraço. Silena passava o ano inteiro no acampamento pois a família mortal vivia viajando, já que seu pai e madrasta eram correspondentes de redes de TV. Só mantinham contato por telefone e e-mail.
Separaram-se e o pai de Silena olhou para Beckendorf com um sorriso divertido.
– Então esse é o Charles. É bem mais forte ao vivo. Como foi a viagem, filho? — o homem disse apertando a mão do garoto.
– Foi ótima, Sr. Beauregard. Obrigado pelo convite. — ele falou com um sorriso.
– Não precisa agradecer, você já é da família. Silena, apresente-o para os convidados, deixe que eu levo as malas de vocês.
– Obrigado, papai. Venha, Charlie. — ela disse puxando-o pelo braço para dentro da casa.
Lá dentro o espírito natalino estava mais do que presente. Era como estar em um dos filmes de "Esqueceram De Mim" que ele assistia quando criança. Luzes e guirlandas estavam penduradas por toda a parte. Na sala de estar havia uma grande árvore de natal com vários enfeites dourados. O garoto imaginou se fosse metal de verdade, como nas árvores de natal do Acampamento, mas se deu conta que era estúpido. Plástico era muito mais barato. Havia ainda um agradável cheiro de comida no ar. Talvez peru assado.
Seus pensamentos foram interrompidos por vozes infantis. Silena estava falando com um menino e uma menina, provavelmente entre oito e dez anos cada um. Pelo que sabia eram os meio-irmãos dela.
– Julie, Thomas, esse é o Charlie, meu namorado. — ela falou com um sorriso olhando para o garoto.
A irmã foi a primeira a se pronunciar.
– Silena disse que você constrói coisas.
– É, eu sou muito bom construindo máquinas e coisas assim. — ele respondeu com um sorriso.
– Você sabe construir aviões? — o menino perguntou.
– Eu poderia tentar. — ele admitiu. Ainda não haviam inventado algo que ele não podia consertar ou construir.
– Legal! O meu favorito é o F-16 Falcon. Ele é super rápido e tem todos esses dispositivos e...- o garoto ia explicando tudo com uma animação que fez Charles se lembrar de seus irmãos mais novos do chalé de Hefesto.
Ele e Silena trocaram um olhar. A morena colocou a mão no ombro do irmão e falou:
– Tenho certeza que Charlie vai adorar conversar com você sobre aviões em outra hora, Tommy. Agora ele precisa conhecer os outros convidados.
– Ah...Tudo bem. — falou o menino um pouco contrariado — Mas quando você voltar eu vou te mostrar minha coleção de réplicas. Tem mais de quinhentas peças!
– Tenho certeza que é uma coleção incrível, Thomas. — falou o filho de Hefesto.
Silena dispensou as duas crianças e soltou uma risada.
– Você está frito. Thomas tem muito a conversar sobre aviões. — ela comentou.
– Será uma conversa interessante. Aprenderei coisas novas. — ele disse com um sorriso.
Eles passaram por diversos outros parentes. Todos falavam algo entre francês e inglês. Ele imaginou se a maioria havia vindo da França apenas para uma reunião de família. Pensou em como seria esquisito se isso acontecesse no Acampamento. Com tantos deuses juntos o mínimo que podia-se esperar era uma guerra.
Eles chegaram à cozinha, onde o cheiro de comida recendia. Uma mulher loira de meia-idade com certo grau de sobrepeso parecia muito concentrada em ouvir uma mulher na TV falando sobre uma receita e bater vários ingredientes em uma tigela.
– Mãe? — Silena chamou.
A mulher virou-se e deixou a tigela de lado.
– Minha princesinha, que saudade! — ela disse abraçando a garota.
– Também senti sua falta. — ela disse com um sorriso.
Charles já não se espantava em ouvir Silena chamando-a de mãe. A mulher havia se casado com o Sr. Beckendorf quando a menina tinha pouco mais de quatro anos, de forma que ela criou Silena como sua filha. Podia não saber muita coisa sobre a questão dos semideuses, mas fazia o possível para deixar a menina confortável.
– Mãe, esse é o Charlie. — Silena disse ficando ao lado do garoto e segurando sua mão.
– É um prazer conhecê-lo, Charles! — falou a mulher também abraçando o rapaz, surpreendendo-o — Fico feliz que a nossa princesinha está sendo bem-cuidada no acampamento. Ela fala tanto de você! Já está pensando sobre a faculdade?
Eram muitas perguntas. Charles riu. Era bem parecida com as conversas que tinha com seus parentes mortais.
– Mãe, não o incomode. — Silena alertou.
– Não tem problema, Sil. E sim, senhora. Estou pensando sobre a faculdade. Acho que vou seguir com engenharia mecânica, mas não há nada decidido. — ele respondeu com um sorriso.
– Que ótimo! Sei que você adora construir coisas, é um rapaz tão inteligente! Silena não poderia ter escolhido melhor, realmente. — a mulher disse com um grande sorriso — Silena, querida, poderia me ajudar com a torta? Isso depois que Charles já estiver acomodado, claro.
– Sim, eu já volto. Preciso mostrar o quarto de hóspedes pra ele. Vem, Charlie. — ela disse em um tom apressado enquanto o puxava para fora.
Eles subiram as escadas até o segundo andar. Lá havia um corredor com várias portas que davam para os quartos. Silena os guiou até o último do lado direito e abriu.
Era um quarto grande, considerando que os dois dividiam chalés o ano inteiro com seus meio-irmãos. Parecia ter sido arrumado recentemente, visto que estava tudo no lugar e sem poeira. Havia um beliche, uma janela com cortinas acinzentadas, uma escrivaninha com uma cadeira e uma estante com alguns livros e jogos de tabuleiro.
– Sua casa por essa semana. — Silena falou sentando-se na cama.
– Parece muito bom. Pelo visto seus pais estavam animados com a minha chegada. — ele disse sentando-se ao seu lado.
– É. Eu não trago ninguém aqui desde que a Drew chegou no acampamento, isso há uns quatro anos. — ela falou com um sorriso pequeno — Obrigada por vir. Eu amo eles e tudo mais, mas eu sempre me sinto deslocada aqui. É bom ter companhia.
– Então seremos dois deslocados em uma noite de Natal. — ele disse segurando sua mão.
– Pelo menos não teremos que presenciar uma guerra de bolas de neve do chalé de Ares. — ela falou com um sorriso.
– Sim. Clarisse deve estar sentindo nossa falta. — ele falou e riu lembrando-se da filha de Ares. Eles ficaram em silêncio por um momento até ele dizer — Mas e você? Sente falta de alguma coisa?
– Talvez. Acontece quando se passa o ano inteiro em um lugar. Mas você está aqui, então é como trazer o acampamento e todos os momentos bons comigo. — ela falou com um sorriso sincero e um brilho no olhar.
Ele adorava aquilo. A habilidade que ela tinha com as palavras de fazer tudo ficar bonito. Era como construir, só que com a fala. Ele não poderia ter namorada melhor.
Charlie sorriu e lhe deu um selinho, segurando seu rosto.
– Digo o mesmo, Beauregard. Digo o mesmo.
O resto da noite deles foi normal. A conversa com a família, as histórias que os dois tinham a contar sobre o acampamento. Claro, com algumas modificações para agradar os ouvidos mortais. O jantar foi ótimo. Era bom não ter a comida que você mais gostava ao menos uma vez no ano, por mais que isso soasse estranho.
Pouco a pouco os convidados iam embora, todos comentando como Charles era um ótimo rapaz e que era digno de estar com Silena. Aquilo deixou o filho de Hefesto feliz. Ser aceito era algo difícil para um semideus.
Já era quase meia-noite quando o Sr. Beauregard mandou um empolgado Thomas dormir, dizendo que ele poderia continuar a mostrar sua coleção amanhã. Realmente, eram muitos aviões. Charles ficou impressionado com o quanto o menino sabia sobre teorias aerodinâmicas e tecnológicas a cerca do assunto. Quem sabe o conhecimento não lhe fosse útil um dia?
– Amanhã é a troca de presentes. Espero que tenha arranjado algo legal para me dar. — Silena disse em um tom divertido. Os dois estavam encostados em frente a porta do quarto da menina.
– Acho que você vai gostar. E o seu presente para mim é muito fácil de conseguir, então você está em bons lençóis.
– Fácil até demais. Você me pediu uma foto. — ela revirou os olhos — Sem chance, Charlie.
– Mas o que mais eu vou pedir? O que pode ser mais legal do que uma foto da minha linda namorada? — ele disse com um sorriso de lado.
– Qualquer coisa, sinceramente. Mas eu consegui achar uma coisa legal pra você.
– Qualquer coisa vinda de você é legal. Mas eu tenho que ir agora, antes que seu pai perca o respeito que ele tem por mim. — ele disse e riu — Boa noite, Sil. — ele falou e beijou sua bochecha.
– Boa noite, Charlie. — ela disse em voz baixa observando ele se afastar. Logo ela mesma entrou em seu quarto com um sorriso no rosto.
A manhã de natal é algo mágico, principalmente para as crianças. Thomas e Julie foram os primeiros a acordar e saíram correndo pela casa anunciando "É Natal!", acordando todos no processo.
Logo a família Beauregard mais Beckendorf estavam na sala de estar em seus pijamas, vendo todos os presentes prontos para serem abertos.
– Eu vou abrir o meu primeiro! — falou Julie, já procurando seu presente.
– Não, não, mon petit. O primeiro a abrir será o Charles pois ele é nosso convidado. — falou o Sr. Beauregard.
– Aqui está, Charles. Feliz Natal! — disse a esposa entregando uma caixa verde com um grande laço azul.
Charles pegou a caixa surpreso. Ele não esperava ganhar presentes dos pais de Silena. Agora ele realmente sentia-se parte da família. Ele sorriu e abriu a caixa animado. Lá dentro ele encontrou um monte de tecido de lã vermelha dobrada. Ele tirou e viu que era um cachecol e um par de luvas. Parecia os conjuntos que sua vó fazia quando ele era criança.
– Eu mesma que fiz. — falou a Sra. Beauregard orgulhosa — Silena falou que a sua família mora em Michigan, então pensei "Cachecois nunca são demais"! Você gostou?
Ele sorriu olhando para Silena. Pelo visto ele era um assunto recorrente nas conversas de família.
– Eu adorei, senhora. Vou usar com muito gosto. Muito obrigado. — ele falou guardando os acessórios de volta na caixa.
– Posso abrir meu presente agora? — perguntou a mais nova com um bico.
A conversa entre a parte mortal da família começou ao mesmo tempo que Silena puxou o namorado para um canto.
– Hora do meu presente. — ela disse com um sorriso entregando uma pequena caixa branca — Feliz natal, Charlie.
Ele abriu e lá encontrou um frasco de algum creme e uma fotografia. A foto era dela.
– Aí está a sua foto. — ela começou — Eu pedi ajuda da Nyssa para arranjar uma película que não deixasse amassar ou queimar.
– Isso sim é legal. Agora, o que é isso? — ele perguntou segurando o frasco.
– Isso é uma parceria entre o chalé de Apolo e Afrodite. — ela disse com um sorriso — É um remédio que acelera a cicatrização de queimaduras. Pra você não ter que ficar com um monte de bandagens nas mãos depois de trabalhar nas forjas. E tem cheiro de framboesa, seu favorito.
Era um típico presente de filha de Afrodite, algo para deixar as pessoas mais bonitas. Mas havia verdadeira preocupação ali. Ele já se acostumara com as queimaduras, mas algo que acelerasse sua recuperação era muito bom.
– Obrigado, Sil. Acho que eu nunca pensaria em algo assim. Você tem as melhores ideias. — ele disse com um sorriso. Deixou seus presentes de lado e esfregou as mãos — Agora é a minha vez. Feche os olhos e estenda as mãos
A menina sorriu e fez como o mandado. Charlie pegou o objeto do bolso e fez os últimos ajustes no pequeno painel de controle. Segurou próximo ao rosto da menina e disse:
– Fale o seu nome completo.
– Silena Beauregard. — ela falou franzindo as sobrancelhas. A curiosidade estava consumindo-a. Por que ele não entregava logo o presente? Charlie sabia que ela odiava mistérios.
Uma última configuração e pronto. Beckendorf fechou o painel e colocou o objeto sobre as mãos da garota. Ela segurou com força imediatamente, visto que era um tanto pesado.
– Pode abrir os olhos. — ele falou ansioso.
Ela abriu e soltou um suspiro surpreso. Era uma caixa de bronze celestial quadrada, cerca de vinte centímetros de área e dez de largura. Era ornamentada com desenhos de corações, chamas e outras coisas.
– Charlie...- ela ia começar a falar, mas o garoto a interrompeu.
– Só abre por comando de voz. Fala o seu nome de novo.
Ela voltou a olhar pra caixa, ainda sem saber direito o que fazer.
– Silena Beauregard. — ela murmurou incerta.
A parte de cima da caixa dividiu-se em quatro e os pedaços se retraindo, revelando quatro divisões forradas com veludo. Mas a melhor parte ficava no centro. Um pequeno pedestal com dois autômatos em forma de pombos. Junte tudo isso ao som de uma música tocando e terá uma ideia da experiência de Silena.
– É um porta-joias. — Charlie explicou — Você disse que não tinha mais espaço pra colocar as suas, então me deu a ideia. Eu precisei da ajuda do chalé de Apolo também, com a música. Eu sabia que você gostava dessa, mas não sabia o nome e precisava das novas.
– Somewhere my love...- ela lembrou — É do filme russo que a gente assistiu. Dr. Jivago. — ela lembrou com um sorriso.
– Esse mesmo. Você ficou falando a semana inteira sobre ele, então eu pensei "por que não?" — ele parecia ansioso — Você gostou?
Ela estava sem palavras. Aquilo era tão bonito. Charlie sempre fazia coisas tão incríveis. E ela retribuía...retribuía com...
– Silena? — ele chamou preocupado — Você está bem?
Ela piscou algumas vezes, acordando.
– Sim, desculpe. É que eu estou emocionada. — ela sorriu sem-graça — Charlie, é muito bonito. Muito mesmo. Muito obrigada, de coração. Acho que é o melhor presente que já ganhei. — ela não estava exagerando.
Charlie era tão ocupado, principalmente agora com a ameaça de uma guerra. Saber que ele passou um bom tempo fazendo aquilo para ela...Ela não sabia o que dizer.
– Que bom. Eu estava com medo. Você é difícil de impressionar. — ele falou constrangido — Eu gosto muito de você, Sil. Muito mesmo. — ele fez uma pausa — Eu ouvi uma vez que o amor pode não ser para sempre, que um dia ele pode acabar. Se é verdade, eu não sei. O que eu sei é que hoje, agora, nessa manhã de Natal, eu te amo, Silena. E você me faz muito feliz sendo minha namorada. — ele falou tudo rápido com medo de gaguejar e estragar tudo. Ele não estava com medo de assustá-la com a seriedade do que ele dizia. Era a verdade. Ele estava apaixonado.
Aquelas palavras deixaram a filha de Afrodite em choque. Ela gostava muito de Charlie, mas nunca pensou que ele pudesse sentir o mesmo, até dizer que a amava. Ela sentiu-se culpada. Ela não estava nem perto de ser uma namorada ideal. Era uma espiã no acampamento a serviço de Luke. Era parte do inimigo. Uma hora ou outra acabaria partindo o coração de Charlie. Ela não queria isso. Agora não queria mesmo. Ele era tão bom pra ser verdade. Ela não queria estragar isso por causa de um rito de passagem idiota que sua mãe divina inventou.
– Charlie...Você é a melhor coisa que poderia ter acontecido comigo. Você não é só meu namorado. Você é meu melhor amigo. Eu sou muito grata por ter você ao meu lado. — ela falou sentindo lágrimas nos olhos. Deixou o porta-joias de lado e abraçou o garoto com força. — Obrigada. — ela murmurou com o rosto em seu peito.
Charles estranhou a atitude. Nunca tinha visto Silena tão sensível. Mas ver que ela estava feliz era uma sensação ótima. Correspondeu ao abraço.
– Feliz Natal, Beauregard.
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