Estava sentado no bar, o mesmo bar em que tomava a mesma bebida, todo o fim de tarde: minha cerveja não muito gelada. Sentado na mesma mesa, com o mesmo cenário a meu redor, mudava-se apenas os personagens. Cada um com seu drama, seus conflitos e desfechos. Pensei que seria tudo como o de costume e me enganei. Um rapaz sentado à minha direita falava ao celular. Sua voz melancólica combinava com o tom escuro de sua calça. Com a cabeça inclinada em direção ao forro daquela mesa azul ele falava com alguém – assim quero acreditar – Eu não pude evitar e ouvi seu diálogo, ou seria um monólogo? Mas um monólogo também não é um diálogo? E mais profundo que os travados entre duas pessoas? Enfim, isso não cabe aqui, por hora. Transcrevo agora as frações do que ele dizia naquela tarde que findava pela última vez.

“Chove lá fora. Os pingos desenham no vidro da janela tudo o que está represado em nós. Reminiscências de um tempo que não obedeceu ao relógio. Lembranças que não foram beijadas pelo filho de Cronos, o temidoesquecimento,sepultura sem epitáfio.Aqui dentro também chove. Não venta, mas há constantes inundações de perfumes, seus cheiros que inundavam o quarto em diferentes horas do dia. Não Precisávamos de relógio para saber se era manhã ou noite, nem precisávamos do sol ou das estrelas. Bastava sentir o aroma de tua pele para saber em que turno o mundo estava lá fora. Dentro daquele quarto as horas não faziam sentido, eram tidas como traiçoeiras filhas do destino. Esse deus sem face e implacável. Aqui dentro, a tempestade é intensa, trovões me lembram o dia em que você se despediu. Abalou o mundo que construímos, fez o universo que desenhamos ruir, caíram as estrelas que colocamos uma a uma naquele céu. Chove lá fora, na janela vejo seu nome, ele está tão bem traçado, será que eu o escrevi? Duvido muito disso. Não posso escrever em um vidro úmido um nome tão quente, que aqueceu meus dias e noites, mesmo no mais voraz inverno. O vidro quebraria e com ele o seu nome também seria desfeito e seria apenas mais uma lembrança que se foi. Tantas coisas se foram: as flores, o verão, os beijos, os risos e os abraços. Algumas poucas ficaram, as mais insignificantes talvez, eu e você. Nós sem o que era nosso não passamos de seres que existem por uma vontade superior a nós, desígnio divino quem sabe? Pouco importa. Os bônus estão acabando… sim é verdade, estão mesmo…é tão verdade quanto o sorriso que levo e esse vinho que me venderam como de uma safra de 1954. A tarde também está indo embora, que vida curta ela tem não é? Dura tão pouco para os relógios famintos e para os enamorados, para os mortos que ainda vivem elas são eternidades que tem faces , cheiros e sons, as minhas tem sua face, teu perfume e sua voz”.

A conversa cessou, minha cerveja ficou quente e meus olhos procuravam a chuva. Ela estava ali, mas não estou falando dessa chuva que cai das nuvens e que é noticiada nos telejornais locais. Falo da chuva que fazia do peito daquele rapaz um inverno eterno e sombrio. Seus olhos revelavam que ele tinha apenas uma fagulha que lhe valia mais que o Sol: a memória. Por mais que elas soprem ventos que cortam a pele e expõem nossa alma com lembranças que tentamos inutilmente evitar, ela também traz calor quando o frio já não pode ser combatido com o fogo da lareira.

Notas finais
Gostaram?!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.