Chosen: A Ascensão

22 Não Mais Quinn Fabrey


Eu sempre digo para mim mesma: “Quinn Fabrey não faria isso, Quinn Fabrey faria aquilo”, “Quinn Fabrey não chora, não teme, não é derrotada”. Repito essas frases várias e várias vezes, quase como um mantra. No entanto, eu não sei o seu significado. Para mim, dizer meu nome sempre trouxe certo conforto em função da influência dele sobre as pessoas, um objeto de poder. Dizer que sou Quinn Fabrey faz a maioria estremecer, faz com que as pessoas pensem duas vezes antes de me traírem ou falarem e fazerem algo que me desagrade. Não saber o que Quinn Fabrey significa aumentou o vazio dentro de mim. Eu não posso continuar a repetir meu nome. Não posso dizer que Quinn Fabrey é forte ou que ela vencerá os obstáculos. Quinn Fabrey não tem mais significado algum. Ela sempre foi algo a ser idealizado e desejado por pessoas como eu, que na verdade não tem história alguma, só que não se pode almejar aquilo que está destruído. Eu não sei quem sou, se é que sou alguém, portanto, se fui Quinn Fabrey e agora não sei quem sou eu, Quinn Fabrey deixou de existir (ou a ideia dela, pelo menos). Não posso mais idealizá-la, sê-la, tê-la. Eu, como alguém que não é ninguém, deverei criar minha própria história de Quinn Fabrey. Eu, não como Quinn Fabrey, mas como alguém que aceitou a sua destruição, me tornarei alguém que possa adotar esse nome novamente e toda a grandeza que com ele vem, mas por mérito meu, quando restaurada. Quinn Fabrey não existe mais, porém eu a trarei de volta quando o tempo for certo, eu a reviverei em toda a sua glória. Quinn Fabrey ascenderá.

Não sei quanto tempo fiquei deitada na cama, pensando no que acabei de admitir. Eu não sinto fome ou sono. Para falar a verdade, eu não sinto nada, e não sentir nada me deixa ainda mais vazia. Minha busca incansável pela verdade que me complete e, talvez, que dê novo significado a “Quinn Fabrey”, tem sido exaustiva. Não estou entorpecida pelas palavras de Sebastian. Não estou triste pelo abandono dos meus amigos. Não me sinto mais culpada por possivelmente ter sido a causa da morte e da desgraça de tanta gente. Minha dor de cabeça passou completamente. Meu corpo parece normal e forte novamente. Por um instante, fui obrigada a considerar a hipótese de estar morta, devido à calmaria no meu corpo e mente. Desde que toda a confusão começou, aproximadamente há um mês, com a busca pelos fragmentos, não houve sossego. Céus, esse tempo pareceu um ano.

Levanto normalmente da cama e caminho até os corredores do castelo. Praticamente tudo já foi limpo. O cheiro de mofo desapareceu quase completamente, as janelas, móveis e espelhos não apresentam mais nenhuma mancha, os candelabros nas paredes estão acesos e, conforme avanço, começo a escutar vozes. Nenhuma delas parece animada ou feliz. Na verdade, sinto uma preocupação coletiva pairando no ar. Minha chegada não deve melhorar a situação, mas não me importo. Estou vestindo uma camisola branca que parece de hospital. Meus pés descalços contra o chão de pedra não produzem quase nenhum ruído, então ninguém percebe minha aproximação sorrateira. Devo estar parecendo um fantasma ruivo.

Chegando cada vez mais perto do salão onde as pessoas estão reunidas, consigo sentir o cheiro de comida, que embrulha meu estômago. Do andar de cima será possível ter uma boa vista do lugar, então subo as escadas e escolho cuidadosamente meu ponto de observação. Fico próxima a um pilar na parte superior, garantindo uma ótima vista do salão. Não demora nem um segundo para que eu perceba: nada está bem. Anthony, Sebastian, Lana, Alex, Elijay e Dominik estão sentados numa mesa próxima a uma lareira, discutindo algo que parece importante. Reconheço mais alguns rostos. Joe, que costumava dirigir O Covil, está estrategicamente sentado perto de um grande círculo de pedras no chão, um pouco alto e com o fogo aceso. Um porco inteiro está sendo cozido. Percebo Joe salivar, apesar do imenso pedaço de carne em seu prato. Como alguém consegue ter apetite numa hora dessas?

Volto minha atenção para a mesa principal. Caminho pelo andar superior até chegar perto o suficiente da mesa de Anthony para escutar a conversa. Esbarro num armário de madeira, fazendo uma bandeja de metal despencar e, quando estava prestes a atingir o chão, acabo conseguindo segurá-la. “Essa foi por pouco”, pensei.

Todos estão com fortes olheiras. Os rostos preocupados, corpos marcados com hematomas. Cabeças atoladas de problemas. Isso, por um lado, me parece injusto. EU sou um dos principais problemas de todo mundo, no entanto, sinto-me tão... leve. Nada atrapalha meus pensamentos. Nenhum problema me aflige.

– Não podemos nos esconder para sempre. É só uma questão de tempo até que a Bowden nos encontre, e digamos que não temos muita defesa por aqui. Temos que fazer alguma coisa! – Declarou Lana.

Anthony estava impassível, sério e calado à beirada da mesa. O cotovelo sobre a mesa, mão apoiando a cabeça. Seus pensamentos pareciam distantes.

– Não temos meios para sair da Ilha. Todos os nossos recursos devem estar sendo monitorados pela Bowden. Não vejo como poderemos ir para outro lugar. – Disse Dominik, pensativa.

Depois de mais alguns minutos de discussão, Anthony finalmente resolveu se pronunciar:

– O Conselho se dissolveu. Só há uma solução, e ela fica em outro continente... – Falou ele, misterioso. A única que pareceu entender a ideia foi Dominik.

– Você não pode estar falando sério... – Resmungou ela.

– Compartilhem, por favor. – Pediu Sebastian.

– O Grão-Mestre da Ordem. Anthony quer pedir ajuda a ele, mas ninguém ouve falar no homem faz anos! Provavelmente está morto, ou quase morto em alguma taberna no interior da Califórnia. – Explicou Dominik. – Sua lealdade é, sem sombra de dúvidas, com a Ordem. Ninguém na Sede de Los Angeles sabe onde ele está, e procurá-lo é loucura, Anthony, você sabe muito bem. Charles consegue desaparecer.

– Mas eu sei onde encontrá-lo. – Disse Anthony. E foi só. O Conselheiro se levantou, abandonando a discussão.

Dominik passou as mãos pelos cabelos oxigenados, frustrada. A liderança de Anthony jamais era contestada, mas isso nunca a impediu de ficar irritada com suas eventuais teimosias.

– Los Angeles, então? – Falou Elijay, sorrindo.

– Este não é motivo de riso, senhor James. – Repreendeu Dominik. – Charles foi eleito Grão-Mestre da Ordem há muito, muito tempo, numa época em que a sua sanidade ainda não era questionada. Depois que sua filha e esposa foram assassinadas pelos Louisigan, o homem simplesmente perdeu a cabeça. Charles passava seus dias escondido em tabernas pelo país, bebendo e gastando seu dinheiro em apostas e prostitutas, virou um viciado, alcoólatra. Todas as decisões, tanto da Ordem quanto da empresa, foram deixadas a cargo do Conselho, o que foi uma absurda falta de responsabilidade. O mais alto posto da hierarquia da Ordem desrespeitado por um homem de tão boa linhagem... Depender da ajuda dele não é muito interessante, senhor James. – Disse Dominik, com desgosto.

O sorriso de Elijay se desfez tão rapidamente quanto foi formado.

– Digamos que, por qualquer motivo, Anthony consiga contatar esse Grão-Mestre... Nós iríamos para Los Angeles, mas e aí? A Ordem é grande lá, mas não sabemos em quem confiar, porém não podemos simplesmente deixar a Bowden conseguir todos os fragmentos e fazer só Deus sabe o que. – Falou Sebastian.

– Bem, Anthony e Charles sempre mantiveram uma boa relação com o Governo. Tão boa porque, veja bem, Charles é um Kennedy. Kennedy como John Kennedy, antigo presidente dos EUA. Charles deve ter uns 80 anos hoje. Quando era mais novo, John ainda estava no poder. Ele conseguiu, junto com o presidente, estabelecer certa aliança entre a Ordem de LA e o Governo americano. Caso tenhamos a chance de esclarecer o risco que a Bowden oferece para o seu país, talvez consigamos alguma ajuda por parte deles. Os americanos, por sua vez, também devem estar interessados na Pedra. Podemos oferecer nossas pesquisas, falar sobre Quinn Fabrey, talvez. – Disse Dominik.

Sebastian pareceu um pouco abalado com a última parte.

– Vocês não são muito diferentes da Bowden, então. Estão dispostos a deixar Quinn ser uma cobaia novamente. Experimentá-la, tudo de novo. – Acusou Sebastian.

– Senhor Graymane, por favor. Entendo que se preocupe com Quinn, mas você viu o estado em que ela se encontra. Precisamos fazer alguma coisa com ela. – Falou Dominik.

– Alguém se importou em... Ahn... pesquisar sobre as coisas que ela falou? – Perguntou Alex, apreensivo.

– Eu tentei, mas não há muita base. – Disse Lana. – Não é como se tivesse uma página no Wikipédia sobre a Pedra. Tudo que Quinn disse durante aquela crise foi estranho. Não achei nada em relação ao maldito livro que ela mencionou. Não achei nada sobre profecias também, mas não dei muita importância.

Eu gritei coisas, então? Eles entenderam (ou quase). Queria saber o que falei, talvez essas coisas pudessem fazer sentido para mim. Deus, como isso soa estranho.

– Ela não parecia estar lá muito consciente quando falou aquilo. Nada fez muito sentido... – Disse Elijay.

– Acho que são os efeitos colaterais da Pedra voltando. Quinn deveria ter recebido mais uma dose d’A Solução há quase duas semanas atrás. Ninguém sabe o que pode acontecer se ela ficar sem. – Explicou Dominik.

– Talvez devêssemos procurar esse tal livro. Anthony deve saber alguma coisa sobre ele... – Falou Alex.

– De fato, Anthony sabe muito sobre esse livro. – Disse o Conselheiro, surgindo por uma porta lateral que eu não tenho visão daqui de cima. – Porém, só há uma pessoa capaz de interpretá-lo, e eu temo que ela não tenha condições para fazê-lo.

– Nós poderíamos falar com ele, Anthony. – Sugeriu Dominik.

– De jeito nenhum! O hospital está isolado, você sabe. Robert não tem condições de interpretar o livro, e nós não temos condições de ir até Robert. – Falou Anthony.

– Não, meu caro, nós temos. Você que não tem condições de enfrentar as pessoas naquele hospital. – Desafiou Dominik.

– Você tem razão, eu não tenho mesmo. E nós não vamos até lá. Fim da história! – Gritou Anthony. – Façam suas malas, nós vamos para a América.

– Você achou Charles? – Perguntou Dominik, pasma.

– Eu nunca o perdi de fato. Andem, partiremos em algumas horas. De volta para onde tudo começou...

– Como... — Anthony interrompe Lana.

– Charles enviará um avião. Ele assegurou que o piloto é muito confiável. Não se preocupem, a maior parte dos detalhes já foi acertada e a Bowden nem desconfiará da nossa partida. Vão se preparar. — Disse Anthony.

Sebastian estava certo, então... Eu realmente preciso dessa tal solução. Todos querem me estudar, provavelmente por causa da Pedra. Eu não posso negar uma ligação com ela, mesmo não acreditando no que ele disse. Céus, fui uma cobaia. Testada pelos laboratórios de Los Angeles, deixando as pessoas malucas, gritando palavras sem sentido, sendo possuída por forças que não sei explicar. Eles mencionaram Robert. Se estavam falando do meu pai, isso significa que ele está vivo, preso em algum hospital bem longe, para nunca ser encontrado. Preciso achá-lo. Preciso falar com Anthony. Estaremos presos num avião por quase 20 horas, acho que ele não poderá me evitar.

Deixo meu ponto de observação e volto correndo para meu quarto escuro e frio. Voltar para Los Angeles, quem diria...