Choque Temporal
3 A Dieta do Século XV e as Fofocas do Vilarejo
O silêncio dentro do celeiro era tão denso que quase se podia ouvir o som dos vermes mastigando a madeira dos caixotes. O pai de Jin Woo, cujo nome era Zhou, fincou a foice no chão de terra e cruzou os braços largos, encarando Melissa de cima a baixo. Ele não entendia uma palavra daquele dialeto bárbaro e rápido que ela falava, mas a linguagem corporal da garota o intrigava: ela mantinha os olhos baixos diante dele, em sinal claro de respeito aos seus cabelos brancos, mas seus pés permaneciam plantados em uma base de combate perfeita. Aquilo não era a postura de uma camponesa; era a postura de um soldado.
"Jin Woo," Zhou chamou, sem desviar os olhos de Melissa. "Essa... coisa que ela está usando. São calças de homem, mas coladas como uma segunda pele. Isso é uma afronta aos deuses e aos bons costumes. Se a Senhora Chang ou qualquer uma das megeras do conselho do vilarejo virem essa garota assim, vão apedrejá-la antes mesmo que os guardas imperiais descubram o que ela fez."
"Eu sei, pai," Jin Woo respondeu em mandarim, aproximando-se com as mãos espalmadas em um gesto pacificador. "Por isso precisamos escondê-la aqui no celeiro por enquanto. Eu posso conseguir algumas túnicas antigas da mamãe que estão guardadas no baú. São largas, vão cobrir... tudo."
Melissa observava a dinâmica dos dois. Embora seu rosto mantivesse a expressão fria e imperturbável de uma estátua de gelo, sua mente de designer social media trabalhava a mil por hora, tentando processar o absoluto absurdo da situação. Ela olhou para Jin Woo, interrompendo a discussão familiar com seu tom de voz linear e cortante.
"Ei, grandão. O seu pai está planejando meu linchamento ou só comentando sobre o meu senso de moda?" Melissa perguntou, ajeitando a jaqueta de couro molhada. "Porque se for a segunda opção, avisa que o moletom tático custou duzentos dólares em Boston e é impermeável. Ou era, até eu virar um peixe."
Jin Woo soltou um meio sorriso, aquele charme fofo e espontâneo que deixava as garotas do vilarejo suspirando pelos cantos. Ele adorava como o sotaque brasileiro dela transformava as palavras em inglês em algo rítmico, quase musical, mesmo quando ela estava claramente destilando puro veneno sarcástico.
"Ele só está preocupado com a sua segurança, Melissa," Jin Woo explicou em inglês, dando um passo à frente. "As roupas das mulheres aqui são... bem diferentes. Muito pano, muitas camadas. Se te virem assim, vão achar que você é um espírito maligno ou algo pior: uma rebelde contra o Imperador. Vou buscar roupas secas para você. E algo para comer. Você deve estar faminta."
Melissa sentiu o estômago roncar exatamente naquele segundo, como se o próprio corpo quisesse desmentir sua postura de durona. Ela desviou o olhar, levemente irritada por ter sido traída pela biologia.
"Tanto faz. Desde que não seja sopa de morcego ou perna de grilo, eu como."
O Banquete da Dinastia Ming
Trinta minutos depois, Jin Woo retornou ao celeiro carregando uma túnica Hanfu de algodão rústico empalidecido pelo tempo — uma relíquia de sua falecida mãe — e uma bandeja de madeira com duas tigelas de cerâmica rachadas. Zhou havia saído para vigiar a entrada da fazenda e garantir que os guardas feridos na margem do lago não tivessem deixado rastros até ali.
Melissa aceitou as roupas com um aceno silencioso de cabeça. Ela apontou para um canto escuro atrás de um monte de feno alto. "Vire de costas e não ouse olhar, ou a próxima coisa que eu vou cortar não vai ser o tendão de um guarda," ela avisou, a voz gélida.
"Eu sou um cavalheiro, Melissa. Jamais desonraria você," Jin Woo disse, mudando instantaneamente para um tom respeitoso e virando-se de costas imediatamente, as bochechas levemente coradas.
A troca de roupas foi um desafio logístico para Melissa. Ela se recusou terminantemente a tirar seu short térmico de ciclismo, usando-o por baixo da túnica pesada. Quando terminou de amarrar os nós complexos do Hanfu, ela parecia um casulo de pano. O corte repicado de seu cabelo castanho com mechas loiras e a franja lateral agora contrastavam bizarramente com o visual ancestral da Dinastia Ming. Ela parecia uma cosplayer que tinha desistido no meio do processo.
"Pronto. Pode virar," ela resmungou, sentando-se novamente no caixote.
Jin Woo virou-se e precisou morder o lábio para não rir. A túnica, feita para uma mulher chinesa de estatura média da época, ficava terrivelmente folgada nos ombros atléticos de Melissa e arrastava no chão por causa dos seus 1,55 m. Ela parecia uma adolescente vestindo as roupas do pai. * E ele achou aquilo a coisa mais adorável do mundo.*
"Ficou... interessante," Jin Woo elogiou, tentando ser diplomático enquanto entregava a bandeja. "Aqui está. Arroz integral cozido no vapor, brotos de bambu em conserva e um pedaço de tofu defumado com banha de porco."
Melissa olhou para a tigela. O arroz era cinzento, os brotos de bambu tinham uma cara suspeita e o tofu parecia um pedaço de borracha cinzenta. Acostumada com seus shakes de proteína de baunilha, frango grelhado com batata-doce e açaí puro do Brasil, aquela refeição parecia um pesadelo nutricional.
Ela pegou os hashis de madeira rústica com uma precisão cirúrgica — uma das poucas vantagens de ter treinado artes marciais a vida toda — e experimentou um pedaço do bambu. Seu rosto não moveu um único músculo, mas seus olhos castanhos quase saltaram das órbitas com o gosto puramente salgado e azedo.
"Isso aqui tem gosto de depressão clínica em conserva," ela comentou, mastigando devagar com puro ódio e engolindo a seco. "Cadê o sódio? Cadê o tempero? Onde está o açúcar processado que destrói o fígado, mas alegra a alma? Vocês vivem disso?"
Jin Woo deu uma risada calorosa, sentando-se no feno perto dela. "É o que a terra nos dá, Melissa. Somos camponeses. O sal é caro, o açúcar é um luxo da corte imperial. Mas se você se comportar, amanhã posso tentar conseguir um pouco de mel silvestre para adoçar o seu... o seu sofrimento."
Melissa parou o hashi no ar, olhando de soslaio para ele. O olhar dele era brilhante, doce, completamente desprovido das segundas intenções nojentas que ela estava acostumada a ver nos homens do século 21. Aquele jeito romântico e "fofo" dele ativava todos os seus alarmes de defesa. Ela odiava não conseguir encontrar malícia nele.
"Não preciso de mel, grandão. Só preciso entender como voltar para casa."
O Cerco das Fofoqueiras
Antes que Jin Woo pudesse responder, o som de vozes estridentes e passos arrastados ecoou do lado de fora do celeiro. O coração de Jin Woo despencou. Ele reconheceria aqueles tons agudos e carregados de julgamento em qualquer lugar do mundo.
"Jin Woo! Oh, Jin Woo! Sei que você está aí cuidando dos porcos!"
Era a Senhora Chang, acompanhada pela Senhora Liu, as duas maiores forças de destruição social da província de Anhui.
"Droga," Jin Woo sussurrou, os olhos arregalados de pânico. "Elas estão aqui."
"Quem? Os guardas?" Melissa perguntou, largando a tigela e deslizando a mão em direção à bota, esquecendo por um segundo que agora usava uma túnica longa que dificultava o acesso à sua faca.
"Pior. As senhoras do vilarejo," Jin Woo explicou, o suor frio descendo pela nuca. "Se elas entrarem aqui e virem você, o vilarejo inteiro vai saber em cinco minutos. Elas vieram tentar me empurrar mais algum casamento arranjado."
Melissa revirou os olhos com tamanha força que quase doeu. "Mesmo no século 15, o patriarcado e as tias do pavê são uma constante universal," ela pensou, o humor ácido assumindo o controle.
"Abaixe-se atrás desse feno! Agora!" Jin Woo ordenou em um sussurro desesperado.
Melissa, mantendo seu respeito implacável pelas idosas (mesmo as fofoqueiras), obedeceu sem reclamar. Ela se agachou atrás do fardo de palha, movendo-se com a precisão de um tigre se escondendo na savana, silenciando completamente sua respiração.
A porta do celeiro se abriu com um rangido estridente, revelando as duas senhoras vestidas com túnicas coloridas de qualidade questionável, abanando-se com leques de bambu apesar do clima fresco.
"Jin Woo, meu rapaz de ouro!" a Senhora Chang exclamou, entrando sem permissão e farejando o ar como um cão de caça. "Sua plantação de arroz está linda, mas sabe o que está faltando nesta fazenda? O toque de uma esposa! A sobrinha da Senhora Liu acabou de chegar do vilarejo vizinho. Ela é gordinha, o que significa que aguenta o inverno, e ela quase não fala, o que é uma bênção para qualquer marido!"
Jin Woo forçou o sorriso mais carismático e fofo do seu repertório, dando um passo à frente para bloquear a linha de visão delas em direção ao fundo do celeiro.
"Senhora Chang, Senhora Liu, que honra inesperada," Jin Woo disse, a voz suave e cheia de carisma. "A sobrinha da Senhora Liu deve ser uma joia. Mas infelizmente, meu mapa astral desta semana diz que se eu me casar antes da próxima colheita de outono, os deuses vão amaldiçoar nossos porcos com a peste. E nós não queremos porcos amaldiçoados, queremos?"
A Senhora Liu semicerrou os olhos, desconfiada, enquanto olhava em volta. Seu olhar parou exatamente na bandeja de madeira no chão. Havia duas tigelas de arroz ali. E uma delas tinha uma quantidade considerável de brotos de bambu remexidos de um jeito estranho.
"Jin Woo..." a Senhora Liu disse, a voz ríspida, dando um passo em direção ao feno. "Por que existem duas tigelas de comida aqui? Seu pai está no campo de feijão, eu acabei de vê-lo. Você está escondendo alguém neste celeiro?"
Atrás do feno, Melissa prendeu a respiração.
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