Child of Nature
9 Inesperadamente visitado

Angélica e Maslow saíram da arena sem pressa. O garoto não estava tão cansado quanto pensava que iria estar; a exposição ao sol parecia tê-lo revigorado, como a fotossíntese para as plantas. É, talvez essa fosse uma de suas habilidades como filho de Deméter. Por outro lado, Angélica estava suando de cansaço e ansiava mais que tudo a sombra de uma árvore ou a margem do lago para que pudesse descansar.
O tempo livre que restava foi bem agradável. Maslow, Dean e Angélica ficaram sob a sombra de um pinheiro e preferiram conversar sobre suas vidas fora do acampamento. Pelo menos Maslow estava bem confuso se gostava dali ou se não gostava. A questão de no primeiro dia já ter ganhado um inimigo o intrigava em querer saber se Deméter era, na verdade, a deusa do azar, porque sua estadia no acampamento estava apenas atraindo-o desventuras.
Entretanto, Maslow não queria ponderar sobre isso. Já que faltavam vinte minutos para que o tempo livre finalizasse, o garoto quis apresentar seus amigos para uma de suas primeiras amigas do acampamento, a náiade que lhe presenteou com a pérola que estava envolta por um cordão em seu pescoço: Nyalia.
– Nyalia? – Maslow sentou-se na borda do trapiche e convidou Dean e Angélica para que se sentassem junto a ele. O belo rosto de Nyalia ergueu-se sobre as águas do lago, esboçando um leve e discreto sorriso para o garoto. Ela olhou de Dean para Angélica.
– Quem é a menina? – perguntou Nyalia, séria.
– Esta é Angélica, filha de Nêmesis – respondeu Maslow. Ele logo rematou que Nyalia simplesmente se sentia desconfortável na presença de outras garotas. Era bem a cara de uma náiade, principalmente pelas histórias que elas guardavam.
– E aí, Nyalia. Eu sou Dean.
Nyalia não disse nada, apenas abriu outro sorriso ajuizado. Maslow não demorou para concluir que ela era uma náiade misteriosa e que não gostava de conversar muito. Alguns segundos depois de puro silêncio, outra náiade subiu na superfície do lago, sussurrando algo no ouvido de Nyalia. Angélica bateu seus pés pausadamente na tora do trapiche e Maslow logo se lembrou da bronca que levou de Nyalia quando fez o mesmo. Por isso, apenas segurou na coxa de Angélica para que ela parasse.
– Ei! – Angélica deu um tabefe nas costas da mão de Maslow, que no mesmo momento a encolheu de volta e enrubesceu as bochechas. Ela o fuzilou com o olhar, contudo, segundos depois, abriu um sorriso encoberto.
Depois de terem saído do trapiche, Maslow e Angélica precisaram deixar Dean para trás. A dupla, do jeito mais veloz que podiam, fizeram uma longa caminhada até a quadra de vôlei. Tudo bem que os jogos de vôlei não eram obrigatórios, mas nenhum dos dois queria perder o esporte favorito. O jogo foi divertido, apesar de que muitos fossem competitivos demais a ponto de se tornarem mandões. Angélica preferiu ser a juíza, coisa que ninguém ousou contestar — como filha da deusa da justiça, era inequívoco que poderiam colocar qualquer coisa em suas mãos.
No crepúsculo, chegara a hora de enviar cartas para os pais. Maslow sentiu uma grande dificuldade para manter-se firme e escrever algo que tranquilizasse seu velho. Não sabia mesmo o que escrever, porque nunca fora muito bom com palavras — ainda mais com a sua desenvolvida dislexia —, mas, mesmo assim, conseguiu registrar cerca de sete linhas satisfatoriamente convincentes.
– Está quase na hora – murmurou Angélica para Maslow. Ele sacou no mesmo momento. Estava quase na hora de Quíron conversar com eles na Casa Grande. Não sabia se estava feliz ou assombrado com isso, somente que estava inteiramente ansioso.
– Maslow! – berrou uma voz afastada. Ninguém se alarmou, como se não tivessem escutado o que ele escutou. Quando o garoto se virou, não viu nada além de um campo completamente vazio. Todos estavam em um silêncio modorrento, riscando os papéis com a mesma dificuldade do garoto.
Às nove da noite, no lugar combinado, Quíron os esperava em pé e frenético na Casa Grande. Enquanto todos os campistas estavam na cantoria na fogueira, os garotos estavam livres da atividade para que pudessem conversar com o centauro. Não sabiam o que ele iria falar, mas Maslow sentia, no fundo, que não era coisa boa. Lembrava da voz que havia o chamado — que provavelmente nem existia.
Rosephyll, a dríade da roseira e melhor amiga da falecida dríade, estava junto a Quíron na Casa Grande, conversando em sigilo. A dupla não entendeu por que ela estava ali, mas não ousaram perguntar a Quíron.
– Boa noite – disse Quíron. Seus olhos se estreitavam profundamente para o chão, como se falasse com eles olhando nos olhos pudesse doê-lo. – Eu tenho algumas coisas para estabelecer para vocês. Chamei Rosephyll aqui porque ela também merece explicações sobre o que aconteceu ontem.
Maslow e Angélica se entreolharam, confusos.
– T-tudo bem, Sr. Quíron – silvou Angélica. Maslow apenas abriu um sorriso sem graça.
– Inicialmente, venho aqui deixar claro que não sou obrigado a contar a ninguém sobre o que está acontecendo – disse ele. Maslow e Angélica se entreolharam. – Mas, falando de vocês, que presenciaram o óbito da dríade, devo dar uma explicação. Há um tempo, uma filha de Despina fugiu do acampamento...
– Monisi? – exclamou Angélica, surpresa. – Ela... ela esteve aqui?
– Não só esteve aqui como assassinou a dríade, Srta. Mussain – disse Quíron em um tom de voz suficientemente alto para que Rosephyll não conseguisse conter as lágrimas e um soluço agudo. Maslow não estava entendendo quase nada, mas jazeu em silêncio. Angélica não se sentiu confortável com o que Quíron havia dito, era perceptível em seus olhos.
– Tudo bem, mas... o que aconteceu? – perguntou a garota.
– Todos aqui conhecem a história de Despina, correto? – indagou Quíron. Angélica e Rosephyll, hesitantes, concordaram com as cabeças. Maslow murmurou um não. O centauro comprimiu os lábios e, depois de bebericar uns goles de água de sua garrafa, continuou: – Está bem... o caso adveio quando Deméter declinou-se ao mundo dos mortais para procurar sua desaparecida filha, Perséfone. Poseidon decidiu persegui-la apenas porque queria ter um caso com ela. Preocupada com que isso pudesse atrapalhar sua busca pela filha, Deméter se disfarçou de uma égua e se escondeu entre os rebanhos. Não foi difícil para o deus dos mares desvendar seus truques. Ele tomou a forma de um cavalo e gerou sobre ela Despina, a solitária deusa do inverno – Quíron fez uma longa pausa.
– Mas o que isso tem a ver com Monisi? – interrompeu Angélica, ansiosa.
– Ainda não terminei, Angélica – falou o centauro. – Deméter, ainda muito absorvida com o sumiço de Perséfone, abandonou Despina já no nascimento, nem se dando o trabalho de dar a ela um nome. A pequena Despina foi adotada pelo titã Anitos, a qual deu a ela um nome. Desde cedo a criança odiava sua mãe e odiava ainda mais o seu pai. Árvores e lagos congelados eram sinais da presença da solitária senhora das geadas.
– Que terrível – bradou Maslow. Estava atônito pelo fato de sua mãe ter uma tão forte predileção pela filha Perséfone a ponto de abandonar uma criança sem nome. – Me... me desculpe, Sr. Quíron, pode prosseguir com a explicação.
– Já que agora todos conhecem a história da deusa Despina, vamos pular direto para o motivo de Monisi estar criando tumulto pelo acampamento – disse Quíron.
O centauro parou por um tempo para beber outros goles de água. Maslow estava tremendo muito mais do que antes, mas não sabia por quê. Não sabia por que estava tão nervoso a respeito da história de Despina. Talvez porque ela fosse, tecnicamente... sua irmã.
– Monisi ficou muito chocada quando contamos a ela a vida de Despina – continuou Quíron, sua postura era ereta e respeitosa. Um dos seus cascos estava pousado em uma elevação no revestimento de madeira. – e, com o tempo, passou a desenvolver tanto pudor pelas histórias de sua mãe que começou a simplesmente odiar os deuses, a natureza e as águas. Agora, solitária como sua mãe, anda por aí descontando sua ira por qualquer coisa que envolva esses três subsídios.
– Queira me perdoar, Sr. Quíron – disse Angélica. – Mas isso não parece ser o feitio de Monisi...
– Queira me perdoar também, Srta. Mussain – interrompeu-a Quíron. – É natural dos filhos de Despina que eles se sintam solitários... é como uma compulsão enlaçar o ódio deles pelo passado a alguma coisa, nunca abandonando de verdade a bipolaridade. Monisi enlaçou seu ódio na história de sua mãe, decidindo se vingar dos deuses desde então.
Alguém bateu na porta. Todos encararam a porta por muitos segundos antes que alguém se oferecesse para abri-la. Esse alguém foi o centauro, que driblou os garotos e a abriu. Maslow reconheceu a pessoa lá fora; era Sam, o filho de Afrodite que bateu em Aaron na aula de tiro com arco.
– Tem uma pessoa... – Sam se interrompeu. – alguém esperando por Maslow lá fora.
– Tudo bem – resmungou o centauro. – Maslow, Angélica te contará o restante, pode se retirar.
Quíron virou o rosto para Maslow, que se enrubesceu. Como assim alguém o estava esperando lá fora? Não era realmente uma pessoa se o garoto se interrompeu para dar notoriedade à palavra alguém. Um pouco exasperado, o garoto concordou com a cabeça e retirou-se da Casa Grande.
– Venha – disse Sam, calmamente. – Está te esperando nas margens do lago de canoagem.
Maslow já sabia o caminho. Sam não se prestou de levá-lo até lá, porque sabia bem disso. Um pouco nervoso com esse alguém que o esperava no lago de canoagem, o garoto tentava de todo o jeito deixar os passos cada vez mais lentos para não se assustar ao dar de cara com algum tipo monstruoso de parente.
Mas não era simplesmente um alguém. Era uma mulher. Uma majestosa mulher de longos e vivos cabelos castanhos e olhos tão verdes quanto os pinheiros das florestas. Vestia um longo vestido hippie florido e um bolero de pele nos ombros. Calçava sandálias brancas que se enlaçavam no seu calcanhar e, nas mãos, segurava uma foice de bronze brilhante. Sua expressão emocionada logo entregou sua identidade. Aquele alguém era sua...
– Mãe? – Maslow sentiu algumas lágrimas brotarem debaixo dos seus olhos.
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