Chiarascura
8 Escolhida por Meridia
Notas iniciais
"Ascian nunca dá uma coisa sem pedir o dobro em troca. Tenham cuidado com aquilo que vocês se propõem a pedi-lo, meus filhos.
Ele dá, mas ele também tira no mínimo deslize.
Ascia é como uma armadilha que até o vento pode armá-la, e fazer um caçador punir uma pessoa inocente."
ᅳ Diário de Claudia Rakel Shiel, 1° Rainha de Primazia
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Nível 7, Caelum
Caelum já não era o que costumava ser antes.
Depois da invasão do exército de Ascian, o clima pesado e de medo era comum em todos. Após a escravização de tantos Celestiais, andar nas ruas mais relaxado era uma utopia. Caelum, que um dia foi uma civilização bonita, agora estava aos destroços, e com a atmosfera sombria Parecia que a fumaça de uma erupção vulcânica tinha grudado no céu e tirando toda sua beleza e claridade.
Gabriel ficava no pilar da Fortaleza todas as tardes e lamentava-se pelo que tinha acontecido. Foi tanta morte e sangue para nada! Os meridianos sequer conseguiram salvar o que tinham de mais precioso: Meridia. Louis era a última pessoa capaz de conseguir trazer a vanadinita para Caelum, e poder acabar com a dominação de Ascian por ali. No entanto, a cada minuto, um Celestial morria e um submundano entrava em Caelum, espalhando pragas mortíferas.
ᅳ Seu filho é um burro, Gabriel! ᅳ Miguel aproximou-se, atacando-o. ᅳ Ele vai para Primazia e morre! ELE MORRE!
ᅳ Como assim morreu? ᅳ Gabriel perguntou, sentindo seu coração parar, e tirou as mãos de Miguel de seu pescoço. ᅳ Somente na terra, certo?
ᅳ Mas claro, não? Ainda o idiota não trouxe a pedra.
ᅳ Não fala assim do meu filho ᅳ Gabriel se enraiveceu com os ataques proferidos ao seu filho.
ᅳ Parem de brigar! ᅳ Joane apareceu na varanda da Fortaleza, enquanto tomava um chá. ᅳ Quem fez isso acontecer foi a Luna, pois ela estava com ciúmes do Louis.
ᅳ O quê? ᅳ Miguel perguntou.
ᅳ Ela estava com ciúmes que Louis se apaixonasse pela Chiara ᅳ respondeu, mais serena que antes. ᅳ Eu avisei para deixá-la fora do plano, mas vocês nunca me ouvem. Sabe, meus queridos, nem tudo o que eu falo é motivo de não gostar de alguém.
ᅳ Chame ela aqui ᅳ Miguel entonou sua voz com superioridade.
ᅳ Não estou com vontade ᅳ Joane falou, enquanto se mantinha calma. ᅳ Pai, me deixe pensar.
ᅳ Você está estranha desde que voltou ᅳ Miguel comentou, um tanto preocupado com o comportamento de sua filha. ᅳ Me conta o que foi? Foi humano?
ᅳ Eu... Não sei, pai ᅳ ficou quieta.
ᅳ Acho que sua filha conheceu a paixão ᅳ Gabriel riu. ᅳ Vamos atrás de Morthen para dar uma poção para ela e passará tudo.
ᅳ Outra filha minha apaixonada? Meu pesadelo ᅳ Miguel fez drama, pois Luna tinha se apaixonado algumas décadas atrás, e fez de tudo para se casar com o homem que ela chamava de marido atualmente. E para o homem, a paixão deveria ser proibida.
Joane riu de seu pai e de Gabriel, colando as pernas em cima da mesa enquanto sentia o calor da xícara passar para seu interior, enquanto achava engraçada a teoria de seu pai. Mal Miguel sabia que ela gostava de alguém há anos, porém nunca pôde levar esse sentimento adiante por algumas interferências que tinha acontecido durante o percurso.
Ela suspirou, olhando para o horizonte, não vendo nenhum local bonito para observar, apenas a escuridão de um céu cinzento.
Joane começou a rir quando caiu no chão, ela nem acreditava que tinha sido escolhida para acompanhar Louis em uma missão tão importante de resgate à pedra com os poderes de Meridia. Louis que estava caído perto dela, pôs a mão em sua cabeça começando a sorrir. Cair do Caelum para algum dos sete mundos habitados por humanos, era algo muito divertido, embora perturbador.
ᅳ Não acredito... ᅳ Joane estava entorpecida, e virou seu rosto para o lado onde estava seu amigo. ᅳ Eu não acredito que pulei de um lugar tão alto assim.
ᅳ É a melhor sensação do mundo! ᅳ Louis parecia feliz, e tentou levantar-se do chão para observar qual lugar eles caíram, só que sua força ainda estava pouca. ᅳ Queria poder fazer isso mais vezes.
ᅳ Eu preciso ficar com você mais vezes ᅳ admitiu. ᅳ Sempre lhe dão missões legais...
ᅳ E dolorosas ᅳ ele pôs a mão na cabeça de novo.
ᅳ Porém legais ᅳ Joane engatinhou até ele, sustentando-se em seus braços para olhar o rosto de Louis. ᅳ Por que nós nos afastamos?
Os dois eram inseparáveis. Os dois eram uma dupla de todas as missões que se tinha. Eram como carne e unha desde pequenos, então, de repente, tudo se foi.
ᅳ Porque nós somos diferentes, e teve uma hora que escolhemos seguir nossos sonhos ᅳ respondeu, pois sabia muito bem os motivos que eles tinham se afastado anos atrás. ᅳ Então cada um foi para o lado que preferiu. Você o da liberdade, e eu de me casar e tentar construir uma família. ᅳ sorriu, fraco. ᅳ Só que agora estamos juntos de novo, como antes. Não temos mais motivos para perguntar do passado, certo? O que interessa é o que vivemos depois da sua formatura.
Joane puxou seu amigo do chão dando-lhe um abraço nele. Havia mais de cem anos que os dois não se viam direito. Os dois, que no passado tinham sido melhores amigos, agora pareciam dois estranhos se conhecendo novamente. A mulher viu o rosto de Morthen estampado em uma das pedras do lugar e assustou-se, empurrando Louis para longe de seu corpo.
ᅳ Isso é um jardim de pedras ᅳ comentou, levantando-se do chão.
ᅳ Isso é lindo ᅳ Louis comentou, e ficou deslumbrado ao ver a paisagem.
Ela sorriu e olhou para Louis de novo, enquanto ele se levantava. Ele arrumou seu cabelo, pondo para trás e prendendo-o em um coque atrás da nuca. Ele começou a andar até a saída, e Joane ficou parada observando Louis ir embora.
ᅳ Você não vem, Joane? ᅳ ele chamou-a.
Ela pensou um pouco antes de conseguir entender duas palavras e sair conseguindo se mover.
⸙
Benício permaneceu olhando Chiara enquanto ela ainda dormia na sua cama. Manter sua mãe afastada nessas horas, era a pior coisa que poderia acontecer para ele. A cena na praia ficou reprisando em sua mente, enquanto ele embalava seu filho para dormir. Benício não sabia como tinha conseguido sair do seu grau de entorpecimento, e conseguido trazer Chiara em seu colo. A morte e sangue de Louis em suas mãos... O desaparecimento incomum daquele homem.
Chiara moveu-se um pouco, balbuciando alguma coisa. Benício parou de ninar seu bebê, e começou a observá-la ali, tecnicamente, morta e com cabelos tão vermelhos que quase o cegava.
ᅳ MORTES! ᅳ Chiara gritou, acordando.
Os olhos dela estavam vermelhos quanto o cabelo. Ela pulou da cama, vasculhando sua bolsa e pegando o diário de Reyna.
ᅳ Chiara! ᅳ Benício chamou-lhe a atenção.
Chiara pôs a mão no coração, e olhou para o soldado. Ela não havia entendido esse grito súbito que tinha levado de um empregado. Ela, então, reparou que estava com a visão diferente. Podia dar zoom com os olhos e até enxergar por dentro do corpo de alguém. Chiara viu o coração de Benício bater em uma velocidade incomum, e voltou para os olhos dele. Até o jeito que trocava de foco tinha mudado. Tudo parecia bem mais rápido e interessante.
ᅳ O-o que... A pedra?
ᅳ Chiara, você explodiu a pedra... Aconteceu... ᅳ ele tentou explicar.
ᅳ Eu me lembro de tudo. Absolutamente de tudo... Louis está finalmente onde ele deveria estar... Em Caelum junto de sua família e amigos.
Benício colocou o filho dele na cama. O jeito de Chiara se comportar e falar era diferente. Agora, ela realmente parecia uma líder, só que também parecia maquiavélica e pronta para matar e beber o sangue da pessoa. Finalmente, ele tinha a convicção de que Meridia realmente era má e que a monarca tinha que sair de sua casa urgentemente, antes que fizesse alguma atrocidade acontecer ali.
Chiara se sentia incomoda com aqueles pré-julgamentos que Benício estava fazendo dela.
ᅳ Não sou má! ᅳ exclamou, fazendo o homem quase prender a respiração de tanto medo por ela ter lido sua mente. ᅳ Eu sou boa. Não sei o que está acontecendo. Eu sou boa... Muito boa. Eu posso salvar seu filho.
ᅳ O quê? ᅳ Benício franziu a testa, confuso. ᅳ Chiara, o meu filho não é a questão ᅳ tentou proibi-la de se aproximar de seu filho.
Entretanto, Chiara foi mais rápida jogando o diário na bolsa novamente e indo até o menino, pegando-o no colo. Ela sorriu para ele, pondo a mão no coração dele.
ᅳ Agora, Estevan está curado ᅳ devolveu o menino no colo de Benício.
Benício franziu o cenho, achando estranho ela saber o nome do filho, pois ninguém nunca pronunciou o nome dele na sua frente. O homem respirou fundo lembrando-se do que tinha acontecido na praia, e, de repente, uma raiva tomou ele. Benício pôs o filho na cama, pegando as coisas de Chiara.
ᅳ Depois do que aconteceu você não pode mais ficar aqui! ᅳ ele entregou-lhe a bolsa com tudo da monarca dentro. ᅳ Não posso mais te ajudar! Você, mulher, agora representa um perigo para sociedade. Vá embora da minha casa, da minha vida. VÁ EMBORA DO IMPÉRIO!
Ele pegou Chiara pelo braço, fazendo-a descer as escadas. Benício estava machucando-a, só que ela não dizia nada, apenas memorizou os seus atos, e para a sorte do soldado, ninguém estava ali para vê-los. Certamente, Simone já tinha saído para levar suas irmãs à escola. Benício colocou-a para fora e fechou a porta sem ao menos pensar direito, e Chiara tomou um susto por conta do barulho da porta tão perto de sua testa.
Ela estava orgulhosa demais para bater na porta novamente. Chiara se condenou a um dia ter pensado que o Soldado Bencatel poderia, um dia, ser seu amigo, pois ele era tão covarde quanto seu pai. Ela começou a andar pelas ruas pensando no que faria agora sem nada e ninguém.
Chiara andou até a praia, onde tinha feito o ritual mais cedo. Até os desenhos ainda estavam lá. Havia uma pequena pedra em formato de triângulo no chão e ela pegou apertando na mão. Ela andou até a água e olhou para seu reflexo, enquanto sentia a água bater em seus pés. Ela tinha reparado que seu cabelo tinha mudado de cor e pôs para frente vendo a nova cor. Ela sorriu vendo aquilo e aprovou a nova tonalidade.
"Você precisa ser forte agora."
Ela ouviu uma voz feminina vindo de algum lugar, só que não conseguiu distinguir a direção.
"Aqui na água."
Continuou.
Chiara olhou para a água e viu somente seu reflexo e riu.
"É eu mesmo" ᅳviu seu reflexo se mexer. ᅳ"Agora você tem os meus poderes."
ᅳ Eu não sei do que você está falando. Eu só quebrei uma pedra e aconteceu isso. Isso é o famoso destino? Eu nasci para isso?
"Você nasceu com um propósito muito maior do que fazer parte de um regime asciano."
ᅳ Eu vou ser rainha disso tudo ainda. Querendo meu pai ou não. Eu nasci poderosa e vou morrer poderosa. E de preferência com a coroa na cabeça. Eu sou grande e sempre vou ser.
"Chiara, a cabeça de quem usa a coroa é sempre a mais pesada. Não deixe essa grandeza te derrubar."
ᅳ Olha... ᅳ ela olhou para a água, mas foi distraída com passos atrás dela.
Chiara olhou para trás e viu um homem alto, vestido de terno preto e magro. Ele era bastante bonito e seus cabelos tão pretos estavam jogados todos para trás. Ela afastou-se com medo e ele recuou.
ᅳ Quem é você? ᅳ perguntou, e o homem fez menção a tocá-la. ᅳ Não me toca, ok?
Ele estendeu a mão para ela e por impulso Chiara pegou-a. Aquele homem lhe trazia confiança e respeito, então parecia que tudo tinha sido escrito para aquele momento e, com certeza, ele a ajudaria de verdade.
ᅳ Posso ajudá-la, senhorita? ᅳ perguntou, com um grande e lindo sorriso e seu rosto. ᅳ Sou conhecido como Mr. Diablo.
Ele apresentou-se, formando um sorriso tímido do rosto da moça.
A princesa olhou para o anel que ele tinha em seu dedo anelar direito e teve a impressão que já tinha visto ele em algum lugar. Ela respirou fundo, tendo uma lembrança que ela nunca tinha vivido em sua vida.
Os primeiros dados depois de cinquenta anos de Primazia animaram o rei Shield. Ele sorriu abraçando sua esposa, Claudia, comemorando as coisas. As famílias mais ricas do mundo estavam apostando muito alto ou tudo nesse império. A propaganda estava sendo boa e todo o jogo político já tinha sido notado por seus ex-companheiros em Sacramento, eles até ficavam jogando indiretas para os outros países se aliarem a Sacramento. Muitos líderes de outros países também já estavam em contato com Sacramento, porém Shield sabia que eles aliariam-se à Primazia. O rei Shield sentiu que agora, finalmente, poderia morrer em paz, caso isso estivesse perto.
O seu império estava dando certo e, com a graça de Ascian, seria o mais poderoso do mundo. O único medo dele é que as próximas gerações não conseguissem essa proeza de manter o ascianismo e o império fortes.
ᅳ Vejo que seu próspero Império está dando frutos, não? ᅳ Ascian apareceu sentado em uma cadeira, à frente de Shield.
Ascian era um homem bem charmoso, diferente do que a maioria pensava. Pelo menos era assim que ele se mostrava para rei. Shield. Ele, para falar a verdade, era muito lindo e poderia ser o sonho de qualquer um que o visse. Ele era bastante galanteador e vivia com roupas pretas.
ᅳ Com a sua ajuda, meu Amo ᅳ comentou, fazendo Ascian rir de lado.
Ascian levantou-se da cama, enquanto Claudia levava-o outro que ele sempre pedia em suas visitas. Ascian sempre exigia algum presente bem valioso a cada vez que ele visitava eles, pois era uma forma de gratidão pelo que fazia por eles e para o crescimento de Primazia.
ᅳ O tempo só lhe melhora, Claudia ᅳ o submundano elogiou-a. ᅳ Você envelheceu como vinho, e continuou a mesma mulher linda de antes.
ᅳ Obrigada, senhor. ᅳ ela agradeceu.
ᅳ Rei William Klaus Shield ᅳ Ascian pareceu fazer um mistério. ᅳ Quero que isso fique aqui ᅳ ele entregou-lhe uma pedra vermelha.
ᅳ O que é isso? ᅳ ele olhou-a.
ᅳ Vencemos a guerra contra Caelum e isto aí, nada passa de um sangue cristalizado de Meridia. Diziam que ela era poderosa, mas, na verdade, ela não é nada sem seus celestiais ᅳ zombou.
ᅳ Isso deveria ficar contigo, Amo. Afinal, se isso tem o sangue de Meridia, isso deve ter seus poderes também ᅳ Shield ficou admirado com o sangue cristalizado em suas mãos, era algo que ele jamais pensou em tocar.
ᅳ Eu tenho certeza que aqui que deve ficar. Queremos ver quantas gerações isso se sustentará ᅳ provocou o monarca. ᅳ Quanto mais tempo a salvo, mais farei o seu império crescer. Eu prometo!
ᅳ Então eu sei o melhor lugar para colocar ele, Amo.
ᅳ Ensine aos seus filhos como cuidar disso e tudo o que peço em troca ᅳ Ascian falou, já pensando no dia que viria ao palácio para buscar William. ᅳ E ensine aos seus que quando tiverem os filhos deles, eu exijo que o sobrenome desta família seja mudado de Shield para Battaglia.
ᅳ Pode deixar, Amo ᅳ o rei respondeu, curvando-se ao submundano.
Ambos riram com a primeira vitória contra o Paraíso.
ᅳ Ei, senhorita, posso ajudá-la? ᅳ o homem perguntou mais uma vez, tirando Chiara de seus pensamentos.
Ela olhou para cima, encarando seus olhos e respondeu:
ᅳ Pode.
Mr. Diablo deu um sorriso, ajudando a princesa a se levantar.
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