Chertov
1 Prelúdio
Notas iniciais
15 de Outubro 17XX
Por todo o globo, as manchetes de jornal estavam estampadas com o mesmo acontecimento.
“Uma estranha chuva de meteoros atingiu na madrugada de hoje a cidade de Moscou, Rússia...”
“ … A nuvem de poeira está se espalhando por todos os continentes vizinhos, e descobriu-se que ocorreram mais quedas de meteoros por todo o continente norte-americano …”
“ Muitos dos que tiveram contato com a poeira deixada pelo incidente conhecido como a ‘Precipitação Amaldiçoada’ estão internados no momento infectados com uma substância até então sem precendentes …”
“ A estranha chuva de meteoros que trouxe uma série de acontecimentos naturais nunca antes vistos na história, como desintegração de matéria, aceleração material, explosões, combustão espontânea, mini buracos negros, petrificação de matéria estável e instável, e geleiras em locais de clima árido e sem nenhuma umidade, trouxe também para muitos uma sentença de morte … As propriedades apresentadas pelos estranhos fragmentos espaciais estão sendo pesquisadas por organização italiana de física quântica, denominada Cervello.”
“ O governo optou por isolar o caso da ‘Precipitação Amaldiçoada’, sendo assim um acontecimento que foi isolado da população mundial, para evitar conflitos desnecessários. A boa notícia é que a maioria dos que se contaminaram com a substância desconhecida emanada pela poeira estão recebendo um tratamento, desenvolvido pelo famoso cientista Azul.”
“ Acredita-se que este é um dos prenúncios do fim dos tempos, o que tem sido por muitos considerado um castigo de Deus para a humanidade... Os envolvidos com o caso negam as teorias de que a poeira deixada no ar tenha conferido dons para certo grupo de indivíduos.”
Os ruivos fios rebeldes do jovem magro se atrapalharam mais um pouco, enquanto ele ajustava o aparato que protegia seus olhos e ampliava a imagem das peças delicadas com que mexia. Quase todos os dedos tinham anéis, e ferramentas também. Na verdade, tinham ferramentas pra todo lado: na mesa, no chão, algumas escondidas em sua própria roupa — ele era como uma sucataria ambulante. Estava atrás do balcão de sua loja localizada em Roma. Era tão minúscula, que se você passasse sem olhar duas vezes ela seria facilmente despercebida. Em seu interior haviam dezenas de prateleiras, e a lúgubre iluminação era apenas dissipada em luz de verdade por uma lâmpada na mesa em que o jovem trabalhava concentrado.
Um homem alto e magro com uma expressão facial que faria você se sentir a existência mais burra já conhecida em toda a história e pré-história adentrou ao ambiente sombrio sem muita cerimônia. Seus cabelos espetados e azuis como o céu em um dia ensolarado. Os olhos eram afiados e escondiam-se por trás de um par de lentes arredondadas. Usava jaleco e camisa branca combinados a uma simples calça social preta. Não era o tipo de pessoa que alguém espera aparecer por ali. O pequeno sino da porta tocou, porém o barulho não pareceu ter efeito nenhum no jovem imerso em seu trabalho. O homem jogou vários jornais na mesa do ruivo que saltou da cadeira como um gato assustado, mas sem muita mudança em sua expressão. A atenção direcionada às peças que havia espalhado no chão, mas engoliu o suspiro assim que levantou os olhos para o visitante.
— Azul!! Estava quase terminando este relógio, seu … seu … — o rapaz parou um momento para soltar o suspiro que havia repreendido — Sabe quantas peças delicadas você acabou de espalhar? – o discurso deveria ter durado horas, se o ruivo não tivesse engolido cada palavra após ter olhado de relance para a manchete.
Pegou o jornal, boquiaberto, e se deixou cair em sua cadeira com um baque surdo. Era verdade que algumas semanas atrás Roma havia sido atingida por uma chuva de meteoros, nada muito grave. Também era verdade que por dias a cidade ficara completamente imersa em uma densa névoa de poeira que pareceu sair das pedras caídas, o que estava acarretando em uma grande crise nunca antes vivenciada até então na capital da Itália, devido ao comercio ser totalmente voltado ao mar. O que o ruivo não entendia era o motivo que levava Azul até ali.
— Talbot, estou estudando essas pedras desde o incidente. — ele ajeitou o óculos com uma mão enquanto a outra apontava para algumas imagens nos papéis — E estou fazendo experimentos desde então nas pessoas que conseguiram resistir a infecção causada pela poeira e qualquer contato com os meteoros …— sua aparência demonstrava a evidente exaustão física.
— E o que eu tenho a ver com seus estudos? — soltou entredentes ainda tentando se recuperar.
— Deixe-me terminar … de … falar ... Talbot — falou pausadamente e quando concluiu que não seria mais interrompido sentou-se na cadeira em frente à mesa do ruivo — Entre todas as coisas que descobri, há uma que me fez ficar intrigado. Alguns indivíduos que tiveram contato com os meteoros, estão manifestando o que prefiro acreditar serem chamas, porém não consegui uma forma de canalizá-las, sendo algo muito... — ele fez uma pequena pausa enquanto olhava para o nada como se lembrasse de algo desagradável — Destrutivo... De se estimular em um usuário. Estive pensando na possibilidade de serem forjados algum tipo de material que pudesse canalizar essa forma de energia. Conhecendo-o, sei que gostaria muito de por suas mãos em algo assim… — fez uma pausa para analisar a feição de Talbot que agora parecia ter se conformado com as peças espalhadas e passara a apoiar o queixo com uma mão, o cotovelo pousado sobre a mesa — Você pode usar o material dos próprios meteoritos. Creio que são a única coisa capaz de suportar esse tipo de poder. Estou fascinado com o fato de que cada indivíduo infectado da mesma forma manifeste esses atributos de formas distintas. Estive estudando em todos os pontos de impacto e descobri que todas essas chamas têm a mesma natureza, o mesmo tipo de energia... Mas ainda não encontrei ninguém que conseguisse manifestar essa essência de forma racional. Existem inúmeros energúmenos atribuindo essas pesquisas como fatos provenientes de uma entidade maior, estou cansado de ouvir afirmações sensacionalistas sobre algo tão sério — suspirou de forma a expulsar um pouco de sua inquietação — Tenho levantado dados de alguns cientistas que confio, e pelas próprias conclusões que consegui tirar até então acredito que esse poder oculto nos meteoritos é a chave do equilíbrio e constituição do nosso universo.
— E você entra aqui atrapalhando minha rotina de trabalho me enchendo de termos que não sei como interpretar... — Se recostou na cadeira deixando sua cabeça pender para trás rindo — Você continua um maldito intrometido não? Sempre me arrastando para suas pesquisas problemáticas... Mas pelo que entendi, o que quis dizer com tudo isto é que talvez isto seja... — Sua voz falhou como se não pudesse pronunciar o resto da frase — Matéria Negra...? — Talbot suava frio, apesar da confiança em sua voz.
— Não sei… Talvez. — Uma sombra tomou conta do rosto do cientista. Ele deu um passo em direção a porta e parou, de costas. — Acredito já ter estimulado suficientemente sua curiosidade, então... Quer tentar descobrir se suas suposições estão no caminho certo?
Talbot engoliu seco. Sua testa e seus cabelos pingavam, tremia de excitação enquanto olhava fixamente para a mesa. Os nós de seus dedos estavam brancos, devido a força com que apertava a pequena chave de fenda. Mesmo que Azul estivesse de costas, podia sentir o sorriso maníaco que tomava conta do rapaz de cabelos anís. Aquela aura… Aquela que ele sempre emanava, quando descobria algo realmente revolucionário. O inventor não se continha mais. Começou a rir em frenesi, tirou o aparato que usava na cabeça, e o jogou no chão.
— Quem me mandou fazer um pacto com um demônio azul, não? Acho melhor eu ir antes que você sugue minha alma com esse seu olhar assustador — Seus olhos estavam praticamente em chamas, de tão brilhantes. O ruivo havia caído na armadilha montada por sua própria natureza inquieta e curiosa — Veremos quão divertido é o quebra-cabeça da vez.
Não era a primeira vez que o jovem largava tudo para ir atrás do cientista, mas desta vez ele mal teve tempo de fazer as malas. No mesmo dia Talbot começou a trabalhar lado a lado com Azul. As pesquisas se aprofundavam gerando cada vez mais sede por dominar esse poder desconhecido. Foi quando o ruivo conheceu o Primo Vongola. Era um loiro com sorriso simpático e que parecia ter um poder de persuasão fora do comum.
Contou-lhe que estava preocupado com a situação na qual Roma havia sido mergulhada após o incidente, e na quantidade de ataques, roubos e assassinatos que a crise financeira estava acarretando, o que levou Giotto a formar um grupo de vigilantes com o intuito de amenizar as condições que a população enfrentava em relação a violência crescente. No momento os únicos membros eram ele e seu fiel companheiro G, um homem de cabelos escarlate e sangue quente.
Porém após um estranho incidente haviam notado que algo em seus corpos mudara. Sua intuição e seus contatos o levaram até Talbot a procura de ajuda. Foi assim que o hábil manejador de ferramentas forjou os primeiros anéis Vongolas com seu conhecimento sobre a natureza daquelas chamas. Ele conseguia sentí-las, conseguia ouví-las, o contato com elas tinha mudado seu físico e o tornado mais resistente, mas também notara uma mudança em Azul. Ele estava obcecado pelo conhecimento e poder que havia descoberto, desejava ultrapassar os limites da consciência humana com sua mais recente descoberta.
Foi quando um poder que mudaria o rumo da história se manifestou em Azul, um poder que corroeu pouco a pouco sua mente brilhante. Com as pesquisas e os experimentos, Azul descobriu que todas as chamas eram derivadas de uma energia específica, a qual nomeou de Caos, o que significava uma mistura caótica de elementos e naturezas dentro de uma mesma fonte, que seria a chama principal. E acreditava que havia uma ligação especial naquelas chamas derivadas diretamente dessa energia.
Passou a ser dominado por um impulso cego de reescrever o mundo como o conhecemos. Um impulso doentio que o levava ao desespero, passou a desenvolver uma série de problemas psicológios. O terror que consumia sua mente se resumia a uma necessidade: precisava atender ao pedido daquela voz tão forte em sua mente, e seu único objetivo resumia-se em neutralizar as chamas que passou a conhecer tão bem graças a frequente companhia com que passara a dividir a consciência.
“Khaos … O único poder capaz de libertar a existência. No princípio era ele o Khaos, o abismo cego, escuro e ilimitado. A total ausência, uma vazio primordial. Isto é instigador. O que pode surgir de um abismo cego, escuro e ilimitado? Pense, Azul, no poder destas palavras, imagine o poder de reconstrução da humanidade, e destrua os herdeiros da Chertov¹.”
Uma pequena família russa estava começando a se inserir no mundo em ascensão da máfia. O Primo Strëva tinha poucos, mas bons subordinados. Eles haviam começado com o objetivo de trazer alguma ordem para o país dominado por crises que levavam a maioria dos cidadãos a aquecerem os corações congelados usufruíndo de vodka. Naquela noite específica, estavam na mansão principal — um grande casarão de pedras que parecia um pequeno castelo. A chaminé espalhava fumaça no céu estrelado, e sentados reunidos os membros da família comemoravam o sucesso do trabalho mais recente.
Arkadius Strëva possuía fios azulados em um tom escuro com as pontas um pouco mais claras, acima do pescoço alguns eram repicados enquanto outros mais finos escorriam passando por seus ombros. Um olhar instigante que parecia estar sempre planejando algo, as íris douradas encantavam a muitos lembrando ouro derretido. Não era um homem extremamente alto chegando perto de um metro e oitenta, o rosto com traços retos e bem equilibrados tipicamente russos, pele clara e um corpo que estava cada vez mais sendo forjado pelas recentes atividades.
Foi para a janela junto de sua belíssima esposa, com cabelos esbranquiçados, curtos e repicados com uma delicada franja e olhos azuis. Conversavam e sorriam, olhavam apaixonados para o céu noturno e ele comparava os olhos de sua companheira com a imensidão iluminada pela lua, foi quando em um instante, como uma foto sendo queimada na lareira, ele viu suas memórias mais preciosas sendo destruídas diante de si. Quando notou chamas caindo do céu soube que era tarde demais. Ele viu o sorriso de sua esposa desaparecendo quando foi atingida por uma das pedras que vinham em imensa velocidade.
"Houve uma noite, onde a lua escureceu
A neve que caía sem ruído algum, recebia hoje as chamas do céu
Houve um silêncio que ninguém jamais esqueceu
As estrelas derramaram sua bondade, se jogando sobre a terra, rasgando o seu véu."
Quando acordou no outro dia, assustado e atordoado, procurava sua amada e sentia as lágrimas escorrendo em seu rosto. Era como estar dentro de uma película de vídeo: tudo mudo, e monocromático. Todos naquele lugar morreram, consumidos em meio as chamas.
Ouvia as pessoas falando, mas não as escutava realmente. Recebeu alta logo, pois seu corpo não havia sofrido nenhum arranhão, ao contrário de sua alma. Ele apenas havia recebido marcas em baixo de seus olhos como dois pequenos riscos pretos que lembravam um arranhão, e uma mancha na parte de trás da sua coxa esquerda. Os médicos disseram ser uma queimadura, mas não era essa a sensação que ele tinha. Para ele era uma marca, uma desagradável lembrança de que aquela noite não deveria ser esquecida.
Leu os jornais, e acompanhou notícias de que várias pessoas morreram apenas ao inalar a poeira deixada pelos fragmentos. Como ele havia sobrevivido ao impacto? Ao fogo? Ele fora amaldiçoado, estava certo, sentia isso pulsar em suas veias. Decidiu ir atrás dos sobreviventes. Estava desesperado. Tinha pesadelos todas as noites, e quando acordava seu corpo estava sendo envolvido por uma chama negra que parecia engolir o que estivesse próximo. Sentia como se o abismo de sua alma fosse manifestado em seu corpo físico. Não sabia como controlar o que estava acontecendo.
Em meio a diversas viagens, encontrou pessoas que manifestavam os mesmos sintomas, mas com o que pareciam ser energias diferentes, como se a chama variasse de pessoa para pessoa. Porém foi quando esteve na Alemanha e conheceu estranhos gêmeos ex-militares que sentiu algo diferente. As suas chamas pareciam chamar uma pela outra, como se estivessem interligadas, ressoando na mesma frequência. Os jovens alemães de cabelos loiros espalhados em todas as direções e olhos azuis elétricos, porte físico digno de soldados e um tanto mais altos que o Strëva também possuíam a mesma marca atrás da coxa.
Os irmãos se chamavam, Yerik e Egil. A única coisa que os diferenciava era que Egil usava óculos de armação preta. Eles tratavam-no como líder, e Arkadius Strëva não sabia o motivo, mas a essência dentro de si parecia exercer uma forte influência naquela energia que lembrava uma chama que os loiros possuíam exercendo uma forte ligação e afinidade instantânea. Talvez a chama deles fossem derivadas da sua? Entraram em comum acordo e foram em busca de um famoso cientista que estava estudando o incidente.
Arkadius carregando ainda a primeira impressão de que havia sido amaldiçoado nomeou essas chamas de Chertov — Maldição, em Russo —, pois acreditava que era isso que carregavam. Sem saber que cometera o maior erro ao irem em busca da organização que passara a estudar pessoas como ele. Foi quando o cientista Azul conheceu Strëva logo a voz em sua cabeça o alertou de que era aquele que deveria ser eliminado. Começando uma caçada, criando uma organização para destruir todos aqueles ligados ao Primo Strëva, ele por sua vez passou a reunir os indivíduos com que sua chama parecia estar interligada, e graças a esta habilidade de atraí-los foi relativamente rápido o bastante para evitar mortes. Dois caminhos foram trilhados naquela época, um deles levando a continuidade a família nomeada Chertov chefiada por Arkadius Strëva, e o caminho obscuro traçado por Azul controlado pela obsessão em sua mente, a organização Neyasnyy mais conhecida como Neya nasceu naquele dia.
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