Checklist e Poltronas (Zanour)

2 Capítulo 1 – Sexta-feira, aulas chatas e ideias mirabolantes


Nour Ardakani

Sexta-feira tinha o dom de transformar até a matéria mais interessante em um verdadeiro teste de paciência. E, como se o universo tivesse conspirado contra mim, todas as aulas chatas resolveram se concentrar nesse dia específico. Eu me esforçava para anotar alguma coisa, mas minha mente insistia em vagar por lugares bem mais interessantes — ou pelo menos menos entediantes.

Quando o sinal do intervalo finalmente tocou, soltei um suspiro de alívio e arrastei meus passos até o refeitório, onde sabia que minhas amigas já estariam. E, como sempre, lá estavam elas, rindo, conversando e espalhando aquele tipo de energia que me fazia sentir como se eu estivesse permanentemente de fora.

— Olha só quem resolveu aparecer! — Sofya exclamou, piscando de um jeito que só ela sabia fazer. — Achei que você tinha ido atrás da quadra beijando alguém.

Revirei os olhos.

— Já aceitei que não sou feita para o amor, Sofya. — Dei de ombros. — E, sinceramente, ninguém nunca vai se encaixar nas minhas exigências.

Savannah bufou, desaprovando.

— Ah, vamos, Nour. Você só está dizendo isso porque nunca tentou. Ter alguém pra dividir os sentimentos é incrível. Você não sente falta disso?

— Eu sinto falta… do que exatamente? — perguntei, arqueando a sobrancelha.

— Bom, deixa eu ver… — Savannah começou, toda animada, — tem um livro que eu li, onde a protagonista faz uma lista com todas as qualidades e exigências que seu futuro namorado deveria ter. Tipo, ela queria alguém divertido, gentil, inteligente… coisas assim.

Sofya arregalou os olhos e deu uma risadinha maliciosa.

— Ei, Nour, que tal se a gente fizesse uma lista pra você? Assim, você teria tudo o que sempre sonhou em um só pacote.

Engoli em seco.

— Isso é… uma péssima ideia. — Cruzei os braços. — Eu realmente não quero ninguém agora.

Mas minhas amigas não pareciam dispostas a me deixar em paz.


— Ah, vamos! Vai ser divertido. Só uma lista. — Savannah sorriu de um jeito que quase parecia que eu não tinha escolha.

Suspirei. Quem sou eu pra resistir quando elas estão em modo persuasão?

— Tá bom, tá bom… mas só pra calar vocês. Uma lista. — elas bateram as mãos em concordância

Saímos do refeitório e nos espalhamos pelos corredores da faculdade, com Sofya segurando um caderno e um lápis como se estivéssemos prestes a escrever o roteiro de um filme épico. Savannah se colocou ao meu lado, animada, pronta para me ajudar a preencher a lista que eu mesma havia relutantemente aceitado criar.

— Ok, Nour — disse Sofya, batendo levemente o lápis na palma da mão, — me diga, o que é essencial em um futuro namorado?

Revirei os olhos, mas não pude deixar de sorrir.

— Certo, mas aviso que é só uma lista de qualidades, nada de nomes ou caras imaginários.

Savannah abriu um sorriso encorajador.

— Perfeito, vamos lá!

Respirei fundo e comecei:


— Primeiro… alguém amoroso. Que se importe de verdade, sabe? Que não tenha medo de demonstrar sentimentos.

— Certo, amoroso, anotado — disse Sofya, rabiscando rápido no caderno.

— Depois… alguém carinhoso. Um cara que não tenha vergonha de um abraço ou de um beijo na testa.

— Carinhoso, check. — Savannah disse em animação

— Ah, e engraçado. Eu preciso de alguém que me faça rir, que veja a vida com leveza e que consiga me tirar de qualquer mau humor.

Savannah assentiu com entusiasmo.

— Muito importante! Quem não gosta de rir, não é mesmo?

— Depois… responsável. Não quero um cara que desapareça quando a vida fica complicada. Que saiba lidar com compromissos e que seja confiável.

Sofya fez um gesto dramático de aprovação com o lápis.

— Responsável, essencial.

Paciente também. — Suspirei, lembrando de todas as vezes que tive que lidar com gente impaciente ou precipitada. — Um cara que consiga ouvir e compreender, sem pressa ou pressão.

— Patience is a virtue — Savannah disse com um sorriso, meio em inglês, meio em português, anotando cuidadosamente.

— E, por último, mas não menos importante… inteligente. Que saiba conversar, que tenha opinião própria e que consiga me desafiar sem ser arrogante.

Sofya fechou o caderno com um estalo.

— Pronto, temos a lista oficial do namorado perfeito de Nour Ardakani.

Olhei para minhas amigas e não pude evitar uma risada.

— Vocês são impossíveis. Mas… ok, lista feita.

— Agora é só esperar o universo fazer a mágica acontecer — Savannah disse, piscando para mim.

Voltei para a sala de aula ainda rindo da empolgação de Sofya e Savannah com a tal “lista do namorado perfeito”. Me sentei no meu lugar, tirei o caderno da mochila e, por pura curiosidade, abri na página onde elas haviam anotado tudo.

Amoroso, carinhoso, engraçado, responsável, paciente, inteligente.”

Passei os olhos por cada palavra e, por algum motivo, senti vontade de continuar. Talvez não fosse tão ruim assim listar o que eu realmente queria — mesmo que fosse apenas uma brincadeira.

Peguei minha caneta e comecei a acrescentar, refletindo sobre cada item:

Goste de exercício físico — não precisava ser um atleta profissional, mas alguém que se cuidasse, que tivesse energia, sabe? Alguém que topasse uma corrida no fim da tarde ou uma caminhada só pra espairecer.


Goste de sair para distrair a cabeça, nem que seja comprar comida em um drive-thru e comer observando as ondas do mar — sorri sozinha, imaginando a cena. Coisas simples sempre foram as minhas favoritas.


Tenha uma ótima educação — porque gentileza e respeito nunca saem de moda.


Que saiba se vestir adequadamente — nada extravagante, apenas alguém com bom gosto e cuidado consigo mesmo.


Esteja sempre pronto para socorrer-me — não no sentido de me salvar, mas de estar presente quando eu precisasse.


Que seja sincero e não esconda nada — porque, no fim das contas, o que mais me afastava das pessoas era a falta de verdade.


Olhei para a lista pronta e senti um pequeno orgulho bobo. Talvez eu fosse mais romântica do que gostava de admitir. O som estridente do sinal me tirou dos meus devaneios. Comecei a guardar minhas coisas quando uma voz conhecida se aproximou por trás.

— O que você tá escondendo aí, Nour? — era Matheus, com aquele tom curioso que sempre me irritava.

Fechei o caderno rápido e o encarei.

— Nada demais.

Ele arqueou uma sobrancelha, insistindo.

— Ah, qual é, deixa eu ver.

— Se fosse algo importante, ainda assim não seria do seu interesse — respondi, seca, levantando da cadeira.

— Você é um mistério, Ardakani — ele disse, rindo baixo.

— E pretendo continuar sendo — retruquei, antes de sair da sala com a lista guardada na mochila.

Zane Carter

O som das bolas quicando no chão ecoava pelo ginásio, misturado aos apitos dos técnicos e às conversas abafadas dos jogadores. Eu estava encostado na grade lateral, observando o treino de convocação dos novatos, enquanto Josh, como sempre, mantinha aquele ar confiante de quem já sabia o resultado antes mesmo de começar.

— O moleque tem talento — comentei, observando o garoto de cabelo castanho que acabava de fazer uma jogada limpa, driblando dois adversários antes de acertar a cesta com precisão. — Movimentos firmes, leitura rápida… ele sabe o que tá fazendo.

Josh soltou um riso satisfeito.

— Eu te disse. O nome dele é Alex Mandon. Fui eu quem indicou ele pro técnico.

Virei o rosto pra ele, curioso.

— Sério? De onde você conhece esse cara?

— Ele é meu cunhado — respondeu, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Namora minha irmã, Sofya. O garoto é dedicado, focado, e ainda por cima gente boa. Tem futuro, pode agregar muito no time.

Assenti, voltando a olhar pro treino. Alex se movia com uma mistura de determinação e leveza, o tipo de energia que chamava atenção sem precisar de esforço.

— Concordo plenamente — falei, cruzando os braços. — Se continuar nesse ritmo, não vai demorar pra conquistar espaço.

Josh deu um tapinha no meu ombro, rindo.

— Sabia que você ia gostar dele.

Sorri de canto, ainda observando o novato em quadra.

— É. Acho que esse cara tem mais a oferecer do que a maioria imagina.

O treino finalmente chegou ao fim, e o ginásio foi tomado por aquele burburinho típico de fim de teste — jogadores ofegantes, técnicos discutindo anotações e o som das bolas sendo recolhidas. Apoiei as mãos no quadril, observando os novatos deixarem a quadra um a um.Entre eles, o tal Alex se aproximou de Josh com um sorriso cansado, mas satisfeito.

— Ei, cara — ele disse, estendendo a mão. — Valeu pela oportunidade. Espero que o treinador tenha gostado do que viu.

Josh apertou a mão dele, rindo.

— Gostado? Acho que você acabou de garantir uma vaga, Mandon. Seu desempenho foi sólido.

Eu me aproximei, analisando o garoto mais de perto. Ele tinha aquele brilho nos olhos típico de quem ainda sonha grande — e, sinceramente, aquilo era algo raro de ver hoje em dia.

— Jogo limpo, movimentos bem calculados — comentei. — Você tem uma boa leitura de quadra, Alex. Dá pra ver que sabe o que tá fazendo.

Ele pareceu surpreso por eu falar com ele, mas logo sorriu, meio sem jeito.

— Valeu, cara. Isso vindo de você significa muito.

— Fala sério — Josh entrou na conversa, dando um leve empurrão no ombro de Alex. — Se o treinador não te colocar no time, eu mesmo vou brigar por essa vaga pra você.

Alex riu, coçando a nuca.

— Tomara que não precise chegar a esse ponto. Só espero ter agradado o suficiente.

— Pode apostar que sim — respondi. — E, sinceramente, se continuar jogando com essa disciplina, não tem como te deixarem de fora.

Ele assentiu, visivelmente aliviado, antes de se despedir para ir pegar suas coisas.

Enquanto o observava se afastar, Josh cruzou os braços, satisfeito.

— Eu te disse que ele tinha potencial.

— Disse mesmo — concordei. — E você acertou em cheio. Esse garoto pode ir longe.

Josh sorriu.

— Espera só pra ver.

O ginásio já estava quase vazio quando Josh e eu finalmente decidimos sair. O som das bolas sendo guardadas ecoava ao fundo, misturado ao chiado dos tênis no piso encerado. Caminhamos lado a lado até o estacionamento, cada um com a cabeça ainda meio presa no treino.

— Então, o que vai fazer no fim de semana? — perguntei, jogando a mochila no ombro.

Josh abriu um sorriso largo.

— Vou levar a Savannah pra um chalé na serra. Ela tá precisando de uns dias de descanso, e, pra ser sincero, eu também. Só nós dois, lareira, vinho, e zero notificações de celular.

Balancei a cabeça, rindo baixo.

— Romântico, hein?

— É, às vezes eu sei ser. — Ele piscou. — E você? Algum plano importante?

Dei uma risada curta, levantando uma sobrancelha.

— Sim, um encontro muito importante.

Josh parou no meio do caminho, curioso.

— Encontro? Com quem, Carter?

— Com o portão da casa da minha avó — respondi, tentando manter o tom sério. — Ele tá precisando de uma boa limpeza e de um pouco de tinta nova.

Josh explodiu em risadas, batendo de leve no meu ombro.

— Cara, você é impossível! Um fim de semana livre e vai desperdiçar limpando portão?

— Alguém precisa fazer isso — dei de ombros, rindo junto. — Além do mais, não tenho tempo pra romances agora. O campeonato intercontinental tá chegando, e eu preciso estar focado.

Josh me olhou com aquele olhar de quem já me conhecia bem demais.

— Zane, você sempre diz isso. Mas pra conhecer alguém, a gente sempre tem tempo.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, olhando pro chão antes de responder:

— Talvez. Mas no meu caso, o “alguém” parece nunca aparecer.

— Às vezes, aparece quando a gente menos espera — ele retrucou, abrindo a porta do carro.

Sorri de canto, achando graça da convicção dele


Notas finais
💌 Nota da Autora: Muito obrigada a todo mundo que está lendo, comentando, votando e acompanhando essa história! 💕 Vocês não têm ideia do quanto isso me motiva a continuar escrevendo! Se quiserem, me contem aqui nos comentários o que acharam desse capítulo — eu AMO ler as teorias e reações de vocês 🫶 Até o próximo capítulo! ✨