Charlotte a Herdeira da Trapaça

11 Capítulo X - Raposa Dourada


Leo mais parecia um cão raivoso, só faltava babar, porque rosnando de ódio ele já estava. Arthur por sua vez estava quieto no canto dele, folheando um dos livros que tinha percebido que Charlotte tinha tirado fotos, o sorriso nos lábios dele irritavam Leo, que achava que era apenas para provocá-lo. Quando na verdade ele estava admirado pela astúcia da garota em conseguir um pouco de informação sem chamar atenção.

Ao mesmo tempo que podia ver algumas poucas coisas úteis de verdade naquelas folhas, como Kai não tinha tocado no assunto não seria ele a tocar, estava em paz lendo um pouco para variar e sorrindo sozinho.

Se todos os outros fossem assim, não estaríamos tão mal. Pensou, cada membro do clube de misticismo e mitologia era uma ovelha cega sendo guiada não por um lobo, mas por um leão e o destino delas era um tanto óbvio.

— Vai deixar esse cara rindo cínico ali, depois do que ele fez?! — reclamou, mas seu tom de voz foi mais de ordem do que a saúde pede.

Quando os olhos azuis, antes pensativos que contemplavam o nada tramando algo, se voltaram para ele com ódio e aquela chama tremulando nas íris. Teve que engolir seco, Arthur tinha conseguido o tirar do sério sem nem abrir a boca, na verdade nem tinha sido proposital, mas agora o sorriso realmente era cínico e com intuito de irritar o caçador de dragões revoltado.

— Se está achando seu trabalho tão insuportável assim, garoto. Vou ter o prazer de chamar sua instrutora e fazer dele bem suportável perto do que ela vai fazer com você. Ou já se esqueceu do que acontece com insubordinados? — Ele estava de bom humor, apenas ameaçou. — E, Arthur vá tirando o cavalinho da chuva porque eu não sou fã do que você anda aprontando, mas como o resultado foi mais positivo que negativo, talvez eu não te espanque se você parar de rir como uma hiena na carniça.

— Esse livro é fantástico — comentou voltando a ler, escondendo seu sorriso triunfante ao máximo possível.

Se estivessem num desenho animado, Leo estaria vermelho com fumaça saindo dos ouvidos ao apito de um trem e bufando como um rinoceronte irritado, tinha ficado quieto, mas isso não significava estar de acordo. Só não queria outra agradável visita de sua instrutora, uma ao ano era até demais para ele.

Num salto, Arthur, largou o livro e travou a mandíbula, irritado.

— O maldito corvo de novo. — Se dirigiu a Kai.

Leo não entendeu, Arthur estava de olhos fechados e falando num corvo, coisa que para Kai também fazia sentido já que ambos estavam com a mesma expressão irritada, só ele não entendeu.

— Derrube. — Foi a ordem que obteve, Arthur continuou parado onde estava e sem fazer nada. Kai já tinha notado a cara de quem estava fora de órbita de Leo. — Uma coisa que pessoas como você não têm é um animal totem, a representação espiritual animal da sua alma, o que é bem conveniente quando você quer estar em dois lugares ao mesmo tempo. Quem é bom e sincronizado com seu totem ao nível do Arthur, consegue ver através dos olhos de sua alma e até controlar o corpo espiritual como se fosse o dele. Você voa em cima de um dragão, o Arthur tem asas.

Leo estalou a língua e se retirou chutando um móvel qualquer, ótimo agora o garoto passarinho estava tendo mais valor e utilidade que ele. O orgulho dos dragões, algo realmente impossível de se controlar.

— Não dá, leão no solo. Só posso continuar sendo uma maldita coruja observando, ótimo! — Se jogou de volta no sofá.

— Bem, você acordou a raposa, Parker, agora vou fazer ela tomar forma e força, sua ideia de auto-defesa não é tão péssima assim no final. — Kai disse um tanto irritado, Arthur não saberia dizer pelo que especificamente. — Tem uma raposa dourada desperta naquela alma.

***

Noite dos infernos. Era o que o cabelo bagunçado, as olheiras, olhos vermelhos e cara de quem morreu de Charlotte diziam claramente. Não tinha conseguido dormir de jeito nenhum, estava com aquela sensação de arrepiar a espinha de estar sendo vigiada e não conseguiu dormir antes do dia clarear e, mesmo assim, quando ia conseguindo ter um mínimo de descanso mais um sonho envolvendo um lobo e correntes lhe tirou a paz.

Ao menos sem poemas da Disney dessa vez. O pesadelo daquela vez tinha um novo personagem, um ser de luz cujo ela não conseguiu identificar a forma que falava com ela tão claro quanto a voz da razão. Ela encarou seus antigos remédios para dormir, ficar calma, por longos minutos. Estavam vencidos há tempos, guardava as embalagens para ficar encarando-as as vezes, forçar um pouco de sono com dois remédios daquele era fácil, mas largar o vício deles não foi fácil.

Ainda mais que todos os “psi” psiquiatras, psicólogos, psicoterapeutas e psicopedagogos brigavam por ela ter parado com eles, ótimo incentivo para largar um vício — mas talvez, não tivesse sido a melhor das decisões. — Não queria nunca mais depender daquilo, talvez por isso os encarasse as vezes, para lembrar que não podia depender deles de novo, lembrava da época que dependia deles e do quanto odiava depender de algo tão minúsculo.

— Nada de tarja preta pra senhora dona cabeça, se quiser dormir vai ser que nem gente normal — resmungou como se sua cabeça fosse outra pessoa.

Tinha escola e dois sujeitos para perseguir, descobrir até mesmo o signo deles se necessário, ia arrancar até o nome do lugar onde o tataravô deles tinha nascido, além de ter começado a desenvolver uma língua codificada no meio da noite para poder registrar tudo com mais segurança.

— Você é oficialmente, completamente, doida, senhorita Charlotte — Deu risada de nervoso contemplando os esboços no caderno de desenho, mas ela tinha escrito uma palavra naquela língua de códigos cuja não lembrava de ter feito, ela não tinha escrito nenhuma palavra, ainda estava estabelecendo qual símbolo para qual letra e coisas assim. — Corvo…

A palavra estava escrita naquela língua codificada que ela tinha inventado, só ela poderia ler, mas realmente não lembrava de ter formado uma palavra. Ignorou, seus irmãos brigando na porta do banheiro para ver quem entraria primeiro era mais importante, assim que ela botou os pés no corredor algo estranho ocorreu.

Uma dor como uma cólica tão forte que respirar doía, um enjoo como se tivesse comido algo estragado e os olhos lacrimejando sem motivo aparente. Um mal estar sem pé nem cabeça, num piscar de olhos, ele chegou.

Não precisou pedir para saírem da frente, Jace ao ver a irmã praticamente verde e com uma mão tentando segurar o vômito empurrou Jason e saiu da frente, ela entrou no banheiro e pelo barulho vomitou muito, agora nenhum dos dois sequer queria ir ao banheiro. Charlotte tinha uma saúde de aço, não conseguia lembrar da última vez que havia visto ela doente.

— O que deu nela? — Phelipe perguntou aos gêmeos, os sons de dor seguidos por vômito não eram nada agradáveis.

— Noite em claro, muito refrigerante e porcaria… Eu acho — respondeu Jason.

Tinha que ir a escola, não queria perder tempo, mas como diabos iria naquela situação? Tempo, um dia inteiro era muito tempo, não era hora de estar doente, não tinha aproveitado da insônia para traçar um plano rápido de como manipular os Callaghan para ficar em casa.

Mas quem disse que o organismo se importa com isso?

Ela não conseguia acreditar, Phelipe tinha obrigado os gêmeos a irem para escola normalmente e agora tinha saído, deixando Charlotte com febre, náuseas e dores sozinha em casa, há um bom tanto de quilômetros do hospital mais próximo.

— Desse jeito vou precisar de um hospital — resmungou olhando a temperatura no termômetro que ainda insistia em fazer “bip bip” —, mas claro que vou a pé pra lá…

Voltou a se deitar na cama, colocando uma toalha gelada na testa, aliviando um pouco a dor de cabeça. Fungou, aquilo parecia uma junção de gripe com virose e cólica, também podendo ser chamado de inferno.

— Que tipo de pai larga a filha sozinha e doente em casa? — Ouviu, mas quem tinha dito?

Não tinha ouvido barulho de passos, de portas ou qualquer coisa. Levou a mão na altura dos olhos, alcançando as têmporas com o polegar eo indicador, franziu o cenho.

— Delirando de febre, tudo uma maravilha…

— Você realmente acha que está delirando? — A mesma voz, agora portando um tom zombeteiro.

Um, dois, três… Nove segundos. Saltou da cama pronta para pegar a primeira coisa que servisse para bater em alguém, pela distância da voz não estava tão próxima, tinha tempo.

Mas a toalha voou de sua testa, caindo no chão, ela escorregou na toalha, bateu o quadril na mesa de estudos, tentando pegar algum equilíbrio tropeçou no próprio pé, seu nariz escorrendo lhe incomodou, assim como seus olhos lacrimejavam, perdeu de vez o equilíbrio, noção de qualquer coisa e ia de encontro para o chão.

A dor que estava sentindo fez com seus músculos se contraíssem então não conseguia colocar os braços como apoio ou nada, o destino era beijar o chão.

— Não saia atropelando tudo, tome cuidado, raposinha — Alertou a voz.

O tranco em seu braço de alguém a segurando não foi tão grande quanto o tranco mental.

Raposinha. Um sujeito estranho de seus sonhos usava aquele apelido, ao mesmo tempo que lhe soava familiar, era incomodo, seus olhos se arregalaram, seu corpo por alguns segundos travou, mas logo se soltou, caindo sentada.

O rosto curioso a fitava no chão.

Um homem alto, apesar de ser magro seus músculos estavam bem definidos, a pele caucasiana ressaltava a característica que mais lhe chamava atenção: dois olhos azuis. Mas não era o azul comum que se encontra em tonalidades de olhos, os de Arthur por exemplo ela poderia descrever como gelo em certos pontos, uma geleira azulada eram suas íris. Muitas pessoas descreviam olhos azuis como o céu ou como o mar.

Mas que tom de azul era aquele? Era tão frio quanto os de Arthur, mas era calmo como a água do mar e despertava a curiosidade do céu da noite. Eram com toda certeza únicos, nunca tinha visto tão bela cor em lugar algum. O cabelo castanho claro, onde a luz batia numa parte específica fazendo-o parecer um tom de loiro escuro, estava bem arrumado e quase na altura dos ombros.

Delírios de febre não te seguram quando você está caindo. Pensou consigo.

— Ei, você está bem? — indagou o sujeito, a medida que sua sobrancelha esquerda descia a direita subia, fazendo uma expressão que ela tinha mania de fazer desde criança.

A reação dela foi realmente… marcante, fechou os olhos e começou a falar “esquizofrenia” sem parar. Quando abriu os olhos e o homem continuava lá, agora rindo da cara de demente dela, alguma coisa nela aceitou que aquilo estava realmente acontecendo.

— QUEM EM NOME DE JESUS, MARIA E JOSÉ. É VOCÊ?!

— Não lembrar é diferente de negar — comentou estendendo a mão para ajudá-la a levantar. — Você já tem a resposta, sabe disso.

“Você vai entender quando for a hora, ou foi isso que ele disse, não importa agora, só não pense que seu próprio pai te traiu ou não se preocupa, porque ele não é aquele homem.”

As palavras de Arthur passaram em sua mente como se ele estivesse ao lado dizendo-as novamente, a resposta entalou em sua garganta.

Não conseguiria responder, mesmo que tentasse. Seu corpo petrificou naquele chão frio, seus olhos nem sequer piscavam vendo aquele homem de expressão sincera e que apesar de calma, sua presença deixava claro que não era o tipo de pessoa que você gostaria de irritar.

Não era o educado a se fazer, mas ele conhecendo a personalidade dela nem mesmo estranhou, apesar do incômodo, estava bem claro que ela estava negando a resposta piscante como um outdoor em letras garrafais diante de seus olhos.

Se levantou sozinha, apesar das dificuldades. Seus punhos cerrados, cenho franzido, o olhar atento que ela raramente deixava a mostra, pelo nervoso mordia o lábio com tanta força que acabaria fazendo mais uma ferida em cima de onde já haviam marcas de feridas anteriores.

O ambiente estava tenso, aqueles segundos pareciam séculos para Charlotte que tentava formular uma palavra.

— Dê o fora! — Deu as costas querendo voltar para cama, apanhando a toalha no percurso. — Não estou com tempo nem saúde pra sandices hoje.

Ele suspirou. A reação dela era tão previsível que chegava a ser patética.

— Astrid, não me tome por um homem idiota que perde tempo com crianças revoltadas. — Sua voz era dura, e apenas aquilo foi suficiente para virar uma pedra de novo.

Seu corpo inteiro sabia que ir contra a vontade daquele sujeito não era bom, cada átomo de seu corpo sabia disso com clareza. Mesmo assim, Charlotte não era conhecida nas delegacias de Nova Iorque apenas por arrumar brigas com bêbados que ela nunca conseguiu machucar de verdade, mas sim pela teimosia em insistir nisso apanhando tanto através dos anos.

— Quem é você pra saber algo de mim? — Sua língua afiada já soltava a resposta antes mesmo que ela pudesse pensar nas palavras. — Ninguém. Me julgue, me chame de revoltada, rebelde, diga toda a porcaria que tem pra dizer, porque você vai continuar não me conhecendo, então, só se faça o favor de dar o fora.

— Você parece tanto comigo que chega a ser espantoso… — constatou bufando em seguida. — Ei, não me dê às costas quando estou falando com você!

Segurou o punho dela, não machucou e nem tinha esse intuito, mas foi suficiente pra ela se virar com os dentes rangendo de tão cerrados, irritada. Contudo, bastou um passo à frente dele e insistir em puxar o pulso dela que toda aquela presença “raivosa” se desfez.

Murmurou um “me larga”, a voz já estava embargada.

— Você não vai gostar disso nem um pouco.

Ela não teve tempo de entender, um dedo alcançou sua testa antes e ela caiu de joelhos como se fosse um saco de batatas. Tontura e fraqueza abateram seu corpo junto a mais longínqua memória.

Cenas e cenas de coisas de quando ela era criança, sua vida toda passando diante de seus olhos, apesar dos momentos bons e felizes, ela chorava e soluçava como uma criança. A maioria das memórias era triste, dolorosa.

Quando acabou ela estava arfando sentada, os cotovelos apoiados nas pernas seguravam a cabeça em pânico de onde os olhos mais pareciam cachoeiras, dois rios de sofrimento guardado.

— Desculpe te fazer sentir isso tudo de novo, mas ia acabar te machucando focar só nos que eu queria. — Apoiou um joelho no chão, fitando-a sentindo a mesma dor, senão maior, que a dela.

Uma crise de pânico se instalou em seu peito, até mesmo respirar era pesado e difícil. Ele não esperava que ela fosse reagir tão mal assim, se esperasse não a teria colocado naquela situação.

Não exitou em envolver aquele corpo tão ferido em seus braços, como ansiava a anos. Um abraço forte e pelo qual ela não esperava, não era a cura para aquela doença infernal que lhe atormentava, não fez aquele sentimento devastador sumir de seu peito, mesmo assim ajudou um pouco.

No mínimo que ajudou diminuiu aquele fardo tão pesado, podia respirar um pouco de novo. Tinha algumas poucas memórias em sua vida de um abraço como aquele, graças a retrospectiva que tinha ganhado lembrava de todos claramente agora, todos eles sem exceção, vinham daquele homem.

A palavra que tinha ficado engasgada em sua garganta saiu num fio de voz tão fino em meio ao choro.

Mas os instintos dela ainda falavam alto o suficiente para se afastar o quão rápido pôde, não irritou ou incomodou ele, era algo esperado dela. Com a cabeça confusa fez o que seu corpo já fazia automaticamente, mas não teve tempo.

Antes que conseguisse bagunçar os próprios cabelos, outra mão já o fazia.

— Você não pode impedir que os pássaros da tristeza voem sobre sua cabeça, mas pode, sim, impedir que façam um ninho em seu cabelo. — comentou sorridente, ela fazia aquilo desde criança por se lembrar daquelas palavras como algo que a marcou. — Fico feliz que você nunca tenha esquecido…

Estava sentada em sua cama, no seu quarto, mas aqueles olhos de tom azul único, aquele sorriso franco. Era como estar num campo pacífico, sentada apreciando um riacho pequeno correr, o estado mais pleno de paz que poderia imaginar.

— Você está doente porque sua alma e seu corpo estão em conflito — Quebrou o silêncio —, amanhã posso te ajudar com isso, hoje seu corpo não está em condições, na verdade… — Puxou um pequeno frasco de um bolso. — Isso vai ajudar, mas se você não colocar as coisas nos trilhos tudo vai voltar, se o espírito não está em harmonia com o corpo. — Estalou a língua. — Pode matar.

— Reconfortante… — comentou pegando o frasco, analisando-o e tentando descobrir do que se tratava afinal.

— Boa ideia a do aikido, vai ajudar, já que só posso te treinar nos finais de semana. — Se levantou. — Pode tomar de uma vez, vai servir até estar tudo no lugar. Me encontre amanhã e depois na clareira de sempre.

Ela não precisou gritar o que estava pensando para ele rir e mudar a forma de seu corpo, logo retomando a original.

— Truques são minha especialidade, raposinha. Agora eu tenho que ir. — explicou brincalhão. — Você viu, não viu? Apesar de não interferir diretamente, eu sempre estive lá, do seu lado, vou fazer tudo que puder para sempre estar.

Ela bebeu todo o líquido amargo e rançoso do frasco, fez cara feia e quando abriu os olhos ele não estava mais lá, não sabia se era dor, saudade ou ansiedade. Talvez fosse os três.

Treino? Isso não me parece coisa boa… Pensou se deitando, não sabia o que a estava aguardando na próxima esquina da vida, mas agora ao menos se sentia um pouco mais segura.

— Pai… — Murmurou colocando a mão na cabeça, onde alguns segundos atrás a mão dele estava, sorrindo de leve.

***

Sábado de manhã, olhava o vento soprar e balançar a cortina da janela do quarto. O sol estava escondido por detrás de algumas nuvens naquele céu nublado. Era tudo incerto em sua cabeça, mas queria mais incertezas, não saberia explicar afinal odiava ter perguntas sem respostas, mas agora queria mais daquele limbo, não tinha resposta alguma apesar de buscar arduamente por nem que fosse uma, queria mais daquilo.

Continuava a ter alguns sintomas incômodos, mas nada comparado ao que tinha tido de primeira mão, aparentemente o efeito daquele remédio já estava no fim.

— Treinar alma e corpo… Isso parece budismo — resmungou colocando um tênis.

Era cedo, perfeito para cavalgar sem deixar o animal fatigado, era a desculpa perfeita. Não ia envolver seus irmãos naquilo por ora, ela sumir floresta a dentro já seria suspeito o suficiente sem os dois furacões, não tinha ideia do que estava indo fazer, mas ia fazer de qualquer jeito.

Para surpresa dela não encontrou o pai quando saiu de casa, o carro não estava por perto também, ainda assim ia seguir o roteiro de sua desculpa. Pegou sua égua e seguiu rumo a clareira, a cavalo era mais rápido e menos cansativo afinal.

Quando chegou lá começou a cogitar que realmente tinha delirado de febre, não havia nada além da mata mediana que já lhe incomodava as pernas. Mas um barulho lhe chamou atenção, numa trilha estreita e fechada uma cintura de um tom dourado-avermelhado se fez presente.

Uma raposa de pelo belo, em seu colarinho como se fosse um cachecol ou um lenço o pelo branco dava destaque a cor de seus olhos, num tom de vermelho belíssimo.

Não pensou duas vezes quando o animal disparou trilha adentro, fez a égua correr mesmo que o ambiente não fosse bom para isso, perseguindo a raposa sem entender nada, só tinha muita vontade de alcançá-la.

Aquela pelagem reluzente, a corrida ligeira e charmosa, tudo naquele animal parecia chamar por ela e os galhos batendo em seu corpo nem sequer a incomodavam.

— HA! — gritou em plenos pulmões, fazendo a égua correr mais rápido ainda.

O galope forte e firme mais parecia de três cavalos, apenas ouvidos muito acostumados conseguiriam reconhecer que se tratava de um só cavalo em disparada. O animal bufava pelo esforço, quebrando galhos finos em seu peitoral e mantendo o passo.

A raposa não tinha vez, por mais que corresse o mais rápido que suas pernas suportam um cavalo era muito mais rápido, a égua tinha chego em cima poderia até atropelar a raposa se continuasse naquela velocidade, mas a marca da raposa não é a velocidade que ultrapassa a de um cavalo — porque ela não tem. — No reino animal quando você não tem força e velocidade, você tem que ter inteligência.

E naquele instante, Charlotte agia como uma pilha de músculos sem um pingo de inteligência, fazer um cavalo correr na mata fechada não é de todas a mais sábia das decisões, um galho bateu bruscamente em seu rosto, derrubando-a.

A velocidade fez a pancada ser mais forte ainda, cortando onde bateu e causando queimação, logo a sensação do sangue quente correndo se fazia presente, assim como o pulsar e a ardência, o choque maior foi bater a nuca com tudo no chão.

Uma queda daquelas era do tipo que pode matar. Correr indiscriminadamente montado na mata fechada machuca o animal e o cavaleiro, às vezes é fatal para um ou mais dos lados, animais são imprevisíveis em algumas situações e a culpa não é deles se o pior acontecer ao cavaleiro, ele que é racional ali e se pôs junto ao cavalo em risco.

Estirada no chão, sentindo um choque horrível pelo corpo todo, dor para todo lado. Seu corpo se revezava entre chorar e rir da própria desgraça, e grunhir de dor. A égua tinha voltado e empurrava o corpo ferido de Charlotte com a cabeça, talvez pedindo desculpa ou apenas a mandando levantar, logo em seguida começou a remexer os cabelos dela com a boca, Robin estava preocupada com a dona.

— Você caiu.

— Sério? — Grunhiu. — Não tinha notado, mr. Óbvio.

Notas finais
Capítulo duplo num dia lol O que vocês acharam? Mr óbvio tá atacando meu povo, protejam suas orelhas. Parece que o fogo no parquinho tá começando hahahaha