Notas iniciais
Boa leitura!

É uma surpresa quando Cibelle aceita se encontrar comigo, entre todas as possibilidades que pudesse haver quando resolvi ligar para ela aquela manhã, me encontrar era a menos provável.

Combinamos o encontro em uma lanchonete próximo ao colégio, chego cinco minutos depois do horário combinado. Cibelle beberica um suco de laranja, ela não me olha quando chego, tampouco me responde quando eu me desculpo pelo pequeno atraso.

Me sento de frente para ela, tudo se silencia ao meu redor. Sinto o coração bater mais forte.

Aquele momento era delicado, quando eu liguei para ela não imaginei que estaríamos ali agora, não imaginei que Cibelle aceitaria se encontrar comigo. Talvez o telefonema foi uma forma de me punir, imaginei que se ouvisse os xingamentos de Cibelle, poderia me sentir mais culpado e talvez um pouco menos pior. Mas Cibelle foi indiferente no telefonema, da mesma forma que estava sendo agora.

— O que você quer, Charles?

Cibelle quebra o silêncio de uma forma impaciente, como se estar ali fosse um sacrifício, e eu sabia que era. Se aquele situação toda já era um caos para meus sentimentos imagine para os sentimentos de Cibelle. A quebra de confiança é algo difícil de superar.

Olho ao redor, a maioria dos frequentadores do lugar eram estudantes, de colégios da região quanto das faculdades.

Volto a olhar Cibelle, ela desvia o olhar. Eu sei que ela me odeia. Eu não a culpo. Em seu lugar eu também me odiaria.

— Eu sinto muito, Cibelle. Por tudo que eu fiz. Todo mal que eu causei.

Cibelle estreita seus olhos enquanto me encara, eu sei que ela deve estar pensando, ela me acha um grande cretino com desculpas esfarrapadas.

— Você acha mesmo que sentir muito vai mudar alguma coisa?

Um sorriso surge nos cantos dos seus lábios, mas não é amigável. Cibelle está sendo sarcástica.

Meneio a cabeça.

Ela está certa, o que eu posso fazer? Em certos momentos nada parece ser o suficiente, Nada parece valer a pena de verdade. Estamos tão habituados com o poder de um perdão que temos a falsa crença que tudo pode ser perdoado. Mas estamos errados. Algumas coisas simplesmente não tem perdão.

O garçom passa, ele tem uma bandeja nas mãos, ele me olha. Sei que ela encara meu olho roxo.

— Você se arrepende? — Ela pergunta.

Eu a encaro, seus olhos estão fixos no suco. Eu sei que ela quer chorar. Mas ela não vai. Não na minha frente.

— Sim.

Cibelle me encara, eu noto um brilho estranho em seus olhos, eles estão marejados.

— Eu me arrependo por ter sido tão canalha com você.

Ela desvia o olhar, e eu também. Eu não deveria ter pedido esse encontro, eu não estou preparado para enfrentar esse momento. Acho que nunca vou estar.

O silêncio que acontece no momento seguinte é constrangedor, Cibelle termina o seu suco, chama o garçom e pede a conta. Sei que aquele era o fim.

— Eu só queria dizer — ela ergue seu olhar para mim — não concordo com o que Bernardo fez. Ele não devia ter brigado com você.

Cibelle pressiona os lábios, seu cabelo está solto em um tom mais claro.

— Eu só queria que você tivesse sido sincero comigo — Cibelle faz uma pausa — eu não me importo se você gosta de garotas ou garotos. Eu me importo com a traição. Se o nosso namoro não estava bom… Era só terminar.

Cibelle se levanta, ela ainda está com o uniforme do colégio.

— Adeus, Charles — Ela joga a mochila nos ombros — espero que você fique bem.

Eu ergo meus olhos, mas Cibelle já ruma em direção a porta.

***

A volta para o colégio foi estranha, para não dizer constrangedora. Desde que entrei no colegial essa foi a primeira vez que meu pai me levou de carro para aula. Minha mãe insistiu que era melhor, sei que no fundo ela tinha medo que eu me metesse em confusão novamente. Eu não a culpo.

Cecilia está na calçada de frente para prédio do colégio, ela acena para meu pai e então me abraça.

Os hematomas da briga com Bernardo estavam quase invisíveis, mas ainda sentia meu corpo dolorido.

— Como você está? — Ela indaga enquanto caminhamos.

Eu dou de ombro.

— Normal.

Posso notar as pessoas me olharem, todos ali tem uma opinião sobre o que aconteceu, todos ali se acham no direito de me julgar, bem vindo a droga da sociedade século XXI.

Seguimos em silêncio para sala de aula, Cecília não me diz nada sobre os dias que fiquei afastado, e eu também não pergunto.

Sigo para meu lugar no fundo da sala, Cecília senta ao meu lado e saca os livros.

— Eu vou te passar tudo que você perdeu.

Eu concordo mas no fundo sei que não estou preocupado com a matéria perdida. Nunca fui um aluno modelo, e eu tinha total consciência disso.

Noto professor Xavier entrar na sala. Ele tem aquele mesmo olhar severo. Seu olhar vem em minha direção. Sei que ele me acha um garoto rebelde. Sei que ele vai fazer alguma insinuação acusatória contra mim.

— Bem vindo de volta, Senhor Alexander. Espero que não se meta mais em confusão.

Abro um sorriso sem simpatia. Até o senhor Águia tinha sua droga de opinião formada sobre mim.

A aula segue em velocidade lenta, quase posso ouvir os ponteiros do relógio, estou distante dali. Não queria pertencer ao colegial, queria pular essa fase da minha vida.

O sinal para o intervalo toca, Cecília diz que precisa passar na biblioteca, digo que falo com ela depois. Sigo sozinho para o pátio. De longe vejo Cibelle com Tatiane. As duas estão sentadas na lanchonete, comendo seus retrospectivos sanduíches. Elas parecem alegres e naquele momento eu sinto que deveria superar o que aconteceu. As coisas acontecem por alguma razão e talvez toda a história com Bernardo serviu como a lição de não ser tão idiota. Tão fácil. Tão egoísta.

Caminho para arquibancada, os garotos jogam futebol, mas Bernardo não está lá. Eu não o vi, e sinto alívio por isso.

Sei que todos ali viram ou ouviram falar sobre a briga, não era comum — pelo menos em colégios como aquele — alunos se pegarem em briga de punho na hora da saída. Ainda mais pelos motivos da minha briga com Bernardo. Mas aquilo não me abala, não me incomoda. A opinião daquela massa rotulada como classe média não tem significado nenhum na minha vida. Sei que logo vou estar saindo dali, e tudo o que aconteceu — isso inclui Bernardo — vai parecer uma lembrança distante e retorcida de uma adolescência vivida com seus altos e baixos.

O dia no colégio foi tão tedioso quanto qualquer outro dia, mas estava aliviado por não ter esbarrado com Bernardo pelos corredores. Mas minha alegria durou pouco, estava usando banheiro quando ouço o disparar da descarga em uma das cabines privativas. Continuo a lavar a minha mão e então eu o vejo pelo espelho. Ele tem um olhar escurecido, amargurado. Não deve ter sido fácil ser arrancado do armário daquela forma. Ele era o filho hétero perfeito para seus pais. O namorado troféu. Talvez ele esteja sentindo sua masculinidade fragilizada. Bobagem.

Eu noto o choque de Bernardo ao me ver, talvez ele também estivesse evitando esse encontro.

Ouço seu suspiro atrás de mim, mas eu não me atrevo a olhar novamente. Quero manter uma distância segura do seu olhar e toda a droga de feitiço que ele me traz.

Desligo a torneira e pego duas folhas de papel toalha.

Bernardo está do meu lado lavando suas mãos.

Eu sinto clima pesando a cada segundo que fico ali ao seu lado. Bernardo não diz nada, mas eu sei que ele odeia aquilo tanto quanto eu.

Estou prestes a sair do banheiro quando ele diz:

— Seu rosto não ficou tão ruim.

Seu comentário parece abnóxio mas foi ele que fez aquela droga no meu rosto. Não havia inocência em sua fala.

— Talvez o seu punho não seja tão forte.

Digo em tom de provocação.

Bernardo solta um riso pesado, quase como um choro.

Ele puxa o rolo com o papel, enxuga a mão, se vira, está olhando diretamente para mim.

— Foi mal por isso — ele começou em um tom arrependido — eu achei que você tinha contado tudo.

— E isso te dar o direito de me esmurrar daquela forma?

Bernardo meneia a cabeça em silêncio, eu sei que ele sabe da sua culpa.

— É complicado pra mim. Eu não sou gay.

Suspiro impaciente, não estava a fim de ouvir os lamentos da falsa sexualidade de Bernardo.

— Bernardo, eu não tô nem ai para o que você é ou deixa de ser. Para de querer tanto um rótulo. Aprenda a lidar com a sua sexualidade.

Bernardo não me olha, mas eu sei que ele está triste. Talvez eu nunca vou o conhecer verdadeiramente, mas eu conhecia um pouco dos seus trejeitos.

— Eu sinto muito, Charles.

Eu me lembro de Cibelle, lembro de suas palavras.

Sentir não vai mudar nada. Penso.

— É tarde demais para sentir alguma coisa.

Digo abrindo a porta do banheiro e a batendo atrás de Bernardo.

Eurico está me esperando em seu carro quando eu deixo o colégio, uma ruga surge em minha testa quando ele buzina.

— O que você está fazendo aqui?

Pergunto apoiado na janela do banco do carona, seu carro é um Uno Attractive na cor prata.

— Eu vim te buscar.

Eurico sorri.

E aquele sorriso ainda é capaz de animar meu dia.

— Me buscar — ironizo — Sério que você está fazendo vigilância para meus pais?

Eurico ri destravando a porta.

— Entra ai, garoto problema.

Sorrio jogando a mochila no banco de trás.

Eurico arranca com o carro.

— Eu vou tocar esse final de semana — Eurico quebra o silêncio minutos depois de sairmos da República — eu gostaria muito que fosse. É em uma balada na Augusta. Vai ser legal.

Eu encaro Eurico com um meio sorriso. Eu não era fã de baladas, na verdade, eu nunca havia ido em uma.

— Meus pais não vão deixar.

Eurico abre um sorriso travesso.

— Seus pais me adoram.

Ele se gaba de uma forma engraçada.

— Eu acho que o seu convencimento ficou um pouco evidente.

Sorrio.

— Claro que eles vão deixar. E não se preocupa com RG, sua entrada está garantida.

— Achei que você fosse um cara exemplar.

Eurico pisca para mim.

— Tenho meus momentos de rebeldia.

Eu encaro Eurico, ele tinha um ar tão sereno. Não importa o quanto minhas últimas semanas estavam sendo ruins, quando eu estava com ele eu sentia que as coisas poderiam ser diferentes. Era um lance quase espiritual. Algo que só acontecia com ele.

— Eu vou — Eu ergo minhas mãos como se me rendesse — Mas quero levar uma amiga.

Eurico desvia o olhar da direção e me olha com os olhos estreitos cheios de malícia.

— Uma amiga? Ou uma paquera?

Eu dou risada batendo em seu ombro.

— Não. É Cecília. Minha melhor amiga.

Eurico concorda sorridente.

— Então traga Cecília.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.