Notas iniciais
Boa leitura!

O rio que corta aquela parte da cidade parece tão convidativo visto do alto do telhado, por um instante me vejo pulando, me jogando contra a correnteza naquela água gelada e espessa.

Batendo contra as pedras.

Quebrando os ossos lentamente.

Me afogando naquela água suja que banhava os rios da grande metrópole.

Bem vindo a São Paulo, cidade da garoa.

Bem vindo a minha vida, tempestade de sentimentos em constante conflito.

Sempre gostei da vista assistida do alto daquele prédio. Não sei de quem ou para quê esse prédio existe. É uma construção de tijolos antigo com aparência abandonada. Sempre foi fácil escalar os oito andares pela escada de incêndio, sempre foi meu lugar favorito.

Venho aqui depois da aula. Há pelo menos três anos. Gostava de silenciar as coisas. Observar a camada de poluição que paira sobre a cabeça de todos os paulistanos.

Gosto de morar aqui. Há quem diga que São Paulo é uma cidade feia, cinza, sem nada a oferecer. Mas eu discordo. São Paulo tem seu encanto.

Talvez, como o próprio Criolo já dissera. Não existe amor em Sp. Mas começo a acreditar, é que não existe amor em lugar nenhum.

Tudo é uma grande farsa inventada pela indústria para alimentar os cofres capitalistas.

O amor alimenta nosso ego, mas ele também nos destrói.

Ele é tudo. E ao mesmo tempo nada.

É uma ilusão dos sentidos. Causa uma falsa dependência. Uma angústia desnecessária. Conflito e demência.

Jurei nunca me sentir assim.

Mas é exatamente assim que me sinto.

Demência.

Conflito.

Amor.

Angustia.

Bernardo.

Estou terminando de fumar meu último cigarro, prometi para meus pais que esse ano excluiria hábitos ruins da minha vida. A lista é grande, e honestamente nem sei se vou conseguir. Uma adolescência sem hábitos ruins não é de fato uma adolescência. Não quero ser um jovem adulto. Não quero ser um adolescente responsável. Mas quero que meus pais tenham orgulho de mim. Mesmo não fazendo nada para merecer.

Esmago a bituca do cigarro com a sola do nike surrado. Meus dedos fedem a tabaco, isso me enjoa.

—Você vai acabar morrendo de tanto fumar.

Diz Cecília enquanto termina de subir a escada de incêndio.

Uma hora de espera.

Cecília era a única pessoa que compartilhava aquele lugar comigo. Talvez, por ela sentir o mesmo que eu. Aquele era nosso refúgio.

—Eu pensei que iria morrer de tanto te esperar — consulto o relógio.

Ela dá de ombros.

—Tive que ajudar minha mãe na galeria — ela dobra os joelhos quando senta ao meu lado — sabe… Depois que meu pai foi embora as coisas ficaram estranhas.

Nos olhamos.

Silêncio.

Sei da separação dos seus pais. Da barra que ela deve estar enfrentando. Não deve ser fácil. Eles pareciam felizes. Mas o amor é isso. Uma falsa felicidade. No fim, ninguém sabe o que se passa dentro de cada um.

Cecília tem olhos de um castanho claro, beirando o mel, suas bochechas são rosadas e cheias, ela tem dezesseis anos — temos a mesma idade. Seu cabelo castanho é reluzente a luz do crepúsculo.

—Eu sinto muito. — É tudo que consigo gesticular.

Somos amigos há tempos. Deveria dizer algo mais profundo, talvez um “vai ficar tudo bem.” Mas ela me conhece. Não sou bom em demonstrações de afeto.

—Tudo bem, meu pai é um babaca.

Cecília tem algo que invejo, ela nunca dramatiza. Não importa a situação, ela sempre parece estar bem. Nada parece abalar seu bom humor. Queria ser como ela, não dramatizar, levar numa boa. Mas não consigo. Preciso expor minha indignação. E sempre acabo estragando tudo.

Ficamos em silêncio por um bom tempo. Então ela me pergunta como foi minhas férias. Lembro de Bernardo. De tudo que aconteceu. Me arrependo.

Desvio o olhar e digo que fiquei em casa. Nada demais. Ela parece acreditar. E algo dentro de mim quer acreditar também.

— Você e a Cibelle estão numa boa?

Cecília não gosta de Cibelle, mas gosta ainda menos do silêncio. Ela quer sustentar o assunto. Falar sobre qualquer coisa é melhor do que não falar nada. Ela sempre dizia.

Balanço a cabeça.

— Sim. Estamos numa boa.

Tirando a culpa, estou numa boa. Não deveria. Me sinto mal. Não acho justo com ela. Mas aconteceu. Não vai acontecer novamente. Pelo menos é nisso que devo acreditar.

Mais minutos em silêncio. Depois Cecília conta que ficou com um garoto da Mackenzie, estudante de direito. Ela conta sobre as férias, sobre a viagem que fez com os primos para o litoral de São Paulo.

Queria contar para ela sobre minhas férias, contar que me envolvi com um cara. Contar todos os erros cometidos. Ela iria me encarar serena, mas iria dizer que sou um babaca. E que deveria contar para Cibelle sobre meu deslize imperdoável.

Desisto da ideia. Ela não precisa saber. Na verdade, ninguém precisa.

Ele me fez prometer. E eu levaria essa promessa comigo.

Eu ouço tudo. E ao mesmo tempo não ouço nada. Minha cabeça está longe. Penso em quatro semanas atrás.

Bernardo me fita do topo da escada, finjo não notar, não quero que ele perceba que sei que estou sendo observado.

Continuo a mexer nas rodas do skate. Estou sem blusa. Faz calor.

Estamos em silêncio há pelo menos vinte minutos.

Bernardo me oferece água. Aceito. Ele levanta corre até a cozinha e volta com duas garrafas, me joga uma. Abre a outra e toma.

Olho para ele enxugando o suor do rosto. Ele me oferece um sorriso.

“Isso vai demorar?” Ele pergunta.

Nego em silêncio.

Ele concorda e volta a se sentar.

Estamos sozinhos. Sua casa tem quatro andares, estamos no subsolo, uma espécie de porão, abaixo da garagem. Não há portas ou janelas, a iluminação é reduzida a uma lâmpada no teto. Mas a pouca iluminação não me incomoda. E não parece incomodar Bernardo.

“Eu não sei como consegui zoar as rodas do skate.”

Fico em silêncio.

Ergo o olhar.

Cabelo loiro cortado em um topete perfeitamente no lugar, olhos castanhos, queixo quadrado, uma réplica de plaquete do exército no pescoço, camiseta regata, ombros largos.

Garotos como ele normalmente me irritam, típicos filhinhos de papai. Garotos de classe média que se acham os donos do mundo.

Mas por algum motivo gosto dele. Mesmo que nossas conversas sejam reduzidas a partidas de futebol, pista de skate e cumprimento em festas.

“Acabei” Digo quando finalmente termino de apertar as rodas.

Ele me olha. Parece agradecido. Me oferece cinquenta reais. Eu recuso.

“Não quero seu dinheiro.”

Bernardo parece ofendido, mas me oferece um sorriso. Se fosse em outra ocasião podia jurar que ele estava me flertando.

Ele dá um passo em minha direção. Eu recuo.

“Eu preciso ir.”

Digo vestindo a camisa.

Ele assente, mas não parece ser uma despedida.

“É verdade o que dizem?”

Bernardo diz aleatoriamente.

Jogo a mochila no ombro.

“O que dizem?” Pergunto sem entender.

Bernardo coloca um dos pés no skate o fazendo deslizar pelo chão áspero do porão.

“Que você…” Ele para, me olha, desvia o olhar. Sei o que ele vai dizer. E não estou com paciência para aturar isso.

Suspiro subindo alguns degraus.

Ele me segue.

“É verdade, não é?”

Subo dois degraus por vez. Quero me livrar desse babaca.

“Não enche, cara!”

“Você gosta de garotos?”

Paro no topo da escada.

Me viro para encará-lo. Ele está perto demais.

Droga.

Nossos rostos estão frente à frente. Ele parece perder o equilíbrio mas se mantém firme.

Nossos olhos estão unidos, não consigo manter o olhar. Desvio.

Eu sei que ele sabe que curto os garotos, tanto quanto curto as garotas.

Ele parece se divertir. Me sinto constrangido.

“Qual é a sua?” Pergunto sério.

Ele sorri. Seu sorriso é traiçoeiro. Seus olhos estão semicerrado. Não é um sorriso gentil. Ele quer me provocar.

Dou um passo para trás ameaçando abrir a porta. Ele segura meu pulso com força. Dou um sobressalto. Bato contra a parede.

Me sinto frustrado. Eu sou a caça e ele o caçador.

“Está com medo?” Sua voz é firme. Isso me assusta.

O skate foi um pretexto. Ele quer zoar comigo. Eu sei.

“Cara, só me deixa ir embora. Eu tô perdendo a paciência!”

Sua mão vai parar no meu rosto, me sinto acuado, quero empurrar ele. Mas não quero começar uma briga. Ele é de família influente. E eu sou um zé ninguém. Ele vai acabar com minha vida. Ele vai ser a grande vítima.

Meu coração bate forte.

Seus dedos descem pelo meu rosto, apertando meu queixo. Posso sentir sua respiração.

Que merda está acontecendo? Penso.

“Você quer me beijar?” Ele pergunta. Um tremor passa pelo meu corpo.

Eu não quero. Na verdade, eu quero fugir desse maluco.

Que droga aquele playboy achava que estava fazendo?

Não tive tempo de responder sua pergunta, era tarde demais.

Sua língua invadia minha boca sem permissão. Tentei recuar. Empurrar aquele idiota escada abaixo. Mas só quando senti sua língua úmida eu tive a certeza que queria aquele beijo tanto quanto ele.

E aquele foi o começo. O começo de todo o fim. De toda a merda que iria acontecer.

Estava realmente perdido. E tive certeza quando seu olhar cruzou o meu.

— E então foi isso… Charles Alexander? Você me ouviu?

Olho para Cecilia. Só então percebo que estava distante demais. Não sei sobre o que estávamos falando.

Concordo.

E ela prossegue.

Fala sobre outras coisas. Dou risada em alguns momentos. E concordo com ela em outros. Mas não presto atenção.

Nos despedimos algum tempo depois, já no térreo do prédio ela monta em sua bicicleta, eu no skate.

Notas finais
E ai, o que acharam?