Charles de Botas
1 Charles de Botas
Meu nome é Charles, mas me chamam de Botas, e eu sou um gato.
Por que eu uso botas? Muito simples, eu não tenho as patas traseiras, já faz uns dois anos que isso aconteceu.
Meu atual dono fez próteses de pernas para mim, isso me obrigou a andar de maneira bípede, já que, minhas patas ficaram desproporcionais às minhas ‘pernas’.
No começo, eu era atacado pelos outros gatos por ser diferente e não tinha como me defender, pois, as patas traseiras de um gato são muito importantes na hora de uma briga.
Por várias vezes, cheguei a casa machucado, meu dono percebeu o que estava acontecendo e me deu essas botas, mas não me ajudou muito, eles continuaram a me atacar, e eu já estava começando a me acostumar com isso.
Meu dono viu que as botas não ajudaram muito, então resolveu me ensinar à esgrima para me defender. Ele também mandou fazer uma espada com as minhas medidas, e ela está comigo até hoje.
Meu dono atualmente está muito doente, eu ouvi que é a tal de peste negra, mas ele vai superar isso logo, afinal ele é muito forte. Ele está dormindo agora, já faz algumas horas, acho que até uma doença pode fazer alguém tão forte ficar cansado.
Pergunto-me, quando ele vai acordar, talvez devesse treinar um pouco minha esgrima, além de uma forma de me defender, é um bom passa-tempo.
[...]
Que estranho, já faz dois dias que ele está dormindo... Não pensei que essa doença fosse cansar ele tanto assim, afinal, ele é muito forte...
— Então ele morreu mesmo... – Ouvi uma voz vinda do corredor – É uma pena, mas o que aconteceu com aquele gato?
— Ainda está lá com ele... Não acho que ele entenda o que está acontecendo...
— O que? Jogue aquele maldito gato fora! Não Entendo por que ele mantinha algo tão sujo dentro de casa! – A primeira voz voltou a falar, mas agora em um tom irritado – Aliás, o que o corpo dele ainda faz aqui? Já era para ter sido queimado junto com os outros!
— Sim, senhor!
— Droga! O que irei fazer se a casa estiver contaminada, ninguém irá querer comprá-la, ainda mais se tiver pelo de gato por tudo...
Após isso não ouvi mais nada, pois eu já tinha pulado a janela e fugido para onde os meus poucos amigos, gatos, normalmente ficam.
Não acreditava que meu dono havia morrido, ele era muito forte, mas...
[...]
Alguns dias se passaram, mas esqueci de contar quantos.
A fim de descobrir quem era responsável pela peste negra, eu me concentrei em ouvir de outros humanos sobre a doença... Aparentemente foi causada por ratos...
Fui à busca de informações, mas nenhuma era concreta como a dos ratos serem responsáveis pela doença, por isso, me infiltrei em meio aos ratos, para saber qual raça deles era responsável, não poderia sair matando todo e qualquer rato que visse... Ou podia?
Enfim, descobrir que eram ratos chamados de “Rattus rattus”, essas idéias criativas dos humanos... São ratos-pretos comuns... Por ai que irei começar...
[...]
Você vai ser minha primeira vitima... Não pensei que encontrar ratos fosse ser tão difícil, parece que eles estão sempre se escondendo.
Vamos lá, se eu não me engano, ratos vivem em colônias com mais ou menos... Não sei a média, mas tanto faz, vou matar todos...
O primeiro já foi simplesmente com um corte, e eu já vejo o próximo...
10...
...20...
Droga, apenas vinte dois desses, eu espero que eu encontre mais nas próximas colônias
[...]
Três semanas não foram o suficiente nem para chegar a 300 vitimas... Se continuar assim, vai demorar muito para extingui-los, e com isso, mais pessoas irão morrer como o meu Dono... Não posso aceitar isso... Nem que eu procure-os 24 horas por dia eu não vou deixar essa peste se espalhar mais...
[...]
Já faz um ano que iniciei minha busca... A doença não parou de se espalhar... Mesmo que eu ficasse exausto de tantas noites viradas caçando ratos... Parecia não surgir efeito...
A peste negra é muito forte, em pouco mais de um ano ela conseguiu contaminar metade da Europa, além de já ter matado milhares de pessoas... Eu não pude fazer nada... Mas, nem por isso eu desisti...
[...]
Segundo ano, após a morte de meu dono pela doença, a Europa já foi quase completamente contaminada, apenas restando a Alemanha e alguns países ao norte... Apesar de o número de pessoas contaminadas caindo... Não é por causa de uma cura, mas sim por fatalidades decorrentes dos sintomas da peste negra... Todo o meu esforço foi inútil...
Até agora! Eu enfim descobri que tinha alguém controlando os ratos pelas sombras, aparentemente o chamam de “Luvas”.
Eu até mesmo sei onde posso encontrá-lo, e é para lá que eu estou indo agora, hoje esse cara me paga!
[...]
— Vejo que chegou até aqui Botas...
— O que?! Não pode ser...
— Que foi? Só por que sou um gato, não significa que eu não possa liderar os ratos...
— Traidor! Por que faz isso?
— Pelo mesmo motivo que você... Apesar de ter me arrependido... Não há como voltar atrás agora...
— Eu estou aqui para proteger os humanos, você os mata. Como podemos ter o mesmo motivo?
— Parece que você não entende seus próprios sentimentos... Deixe me esclarecê-los...
— Não quero ouvir nada que venha da sua boca, seu maldito!
Avancei para cima dele, com um corte lateral com meu Florete, mas ele desviou para trás, estranhamente ele é bípede também, e ele usa luvas, talvez por isso o apelido...
Ele continuou indo para trás, até uma lata de lixo que ficava no fundo do beco onde estávamos. De trás da lata vários ratos surgiram e avançaram contra mim, parece que ele pretende me distrair com esses subordinados para fugir, mas eu não vou deixar que ele fuja, não antes de eu matá-lo.
Meu Florete avançava enquanto perfurava os corpos dos ratos, apesar de meu corpo não ser como um humano, eu consigo me movimentar como um enquanto lutando, já que passei os últimos três anos da minha vida matando ratos como esses, então a minha experiência ajudam com os meus movimentos.
Antes mesmo que eu pudesse perdê-lo de vista, todos os ratos estavam mortos no chão, então comecei a persegui-lo, e o alcancei com um pouco de dificuldade, mas dessa vez ele não me escapa.
— Parece que não poderei fugir do destino tão fácil assim...
— Do destino talvez fuja, mas de mim, já é outra história
— Entendo, ficaste tão cego quanto eu...
— Cego? Posso ver claramente que foi você quem matou meu dono...
— Oh, parece que não preciso esclarecer seus sentimentos... Você acabou de fazê-lo...
— O que quer dizer?
— Você não está fazendo isso pelos seres humanos... Está fazendo por vingança a seu dono... Assim como eu...
— Se está à procura de vingança por seu dono... Por que matar humanos?
— Por que foram eles que o mataram! Meu dono era um cientista gênio, ele criou essas mãos mecânicas para cobrir minha deficiência em minhas patas dianteiras! A máfia tentou recrutá-lo, mas ele recusou, e acabou sendo morto...
— Mesmo que essa tal máfia tivesse o matado, não precisava matar vários outros humanos inocentes!
— Você sabia, não sabia? Nem todos os Rattus podem passar o vírus, alguns até não tem o vírus... Mas, você matou todos que viu pela frente, não?
— Eu não podia arriscar... Nem me controlar...
— Por isso disse que ficamos cegos... Cegos pelo ódio, pela Fúria... Ambos queríamos vingança... Não importava quem estivesse em nosso caminho...
— Esse ódio que sinto... Ele vai passar?
— Sim... Mas, ele se tornará em arrependimento e dor... Arrependimento por começar algo que não podia controlar... E a dor de lembrar-se de todas as vidas que tirou...
— Eu queria uma segunda chance...
— É o que todos queremos... Uma chance de mudar tudo... Mas, só temos uma chance... A vida é um jogo de azar... Quanto mais você tenta, maior a chance de perder tudo... Porém maior pode ser seu prêmio...
— O que devo fazer agora?
— O que quiser... Faça o que quiser...
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