Chapeuzinho vermelho
1 Capítulo 1: o passaro fugiu
Notas iniciais
Tenho absoluta certeza que vocês já ouviram uma história sobre ela, mas mesmo assim introduzirei com a parte que vocês acham que conhecem.
Era uma vez uma garota de lindos olhos azuis e cabelos tão densos e escuros quanto à noite. Por causa de uma capa vermelha que ela sempre usava sua mãe a chamava de chapeuzinho vermelho.
Quando Chapeuzinho tinha oito anos sua mãe que morava na floresta junto com ela, lhe fez um pedido, aflita:
— Filha.
— Sim, mamãe.
— Quero que vá até a sua avó do outro lado da floresta e entregue a ela essas coisas que eu preparei.
Chapeuzinho poderia ter suspeitado de sua mãe a deixar andando sozinha pela floresta, mas ela era ainda muito pequena para pensar que sua mãe estaria fazendo algo com intenções ruins e aceitou.
Sua mãe olhou para ela e seus olhos castanhos brilhavam e a deu um beijo na testa. Depois pegou a cesta e a entregou.
— Filha, Lembre-se – disse a mãe de chapeuzinho enquanto fazia carinho no rosto da filha – nunca tire a capa.
Chapeuzinho sorriu.
— Não se preocupe mamãe.
— Quando chegar lá, eu quero que você pegue um pequeno baú que fica no quarto abandonado, tudo bem?
— Está bem.
Chapeuzinho sorriu para sua mamãe e saiu. Ainda pôde ouvir sua mãe gritar para ela não tirar a capa, mas continuou andando. Chapeuzinho ainda não sabia, mas só veria sua mãe muitos anos depois daquela despedida. Talvez por isso ela não se lembrasse tão bem dos olhos cheios de lágrimas da mãe, de suas mãos levantadas no alto a dando tchau ou até mesmo de sua pele negra como carvão a qual ela havia puxado.
Apesar disso chapeuzinho continuou a andar e como vocês também devem saber ela se encontrou com vários animais por ai e até mesmo um lobo que a mostrou o caminho para chegar à casa da vovozinha. Essa parte é importante comentar, afinal os lobos dominavam as florestas e o reino graças à rainha que era perversa e também uma deles.
Quando ela chegou à casa da vovozinha esse lobo já se encontrava lá e ele a deixou que entrasse. Ao contrario do que as histórias dizem, chapeuzinho percebeu na hora que o lobo se disfarçava de sua avó e saiu correndo. Felizmente, como vocês sabem também, um caçador que por ali estava perto matou o lobo salvando a pequena garotinha.
— Quem é você, garotinha de pele escura e olhos azuis?
— Minha mãe me chama de chapeuzinho.
— Não devia andar por aí sozinha. Os lobos caçam por aqui.
— Por que? – perguntou chapeuzinho com inocência. Ela não sabia que os lobos caçavam para alimentar a rainha.
— O motivo não importa. – ele entrou na casa. Passou pela casa e viu que ela estava vazia. – parece que a pessoa que morava aqui...
— Minha vovó – ela o interrompeu.
— Parece que ele conseguiu se alimentar de algo antes de morrer. Sinto muito.
A pequena Chapeuzinho Vermelho podia até ter ficado triste, mas por algum motivo não sentiu nada. Ela correu para dentro da casa e foi ao quarto onde encontrou uma caixa de ferro pouco maior que um coelho grande encapada com tecido que tinha desenhos de flocos de neve. Ela a pegou e voltou rápido indo em direção ao caminho de volta.
— Onde você está indo? – perguntou o caçador.
— De volta pra casa da mamãe. Adeus.
Ela já ia começar a sair pelo caminho quando ela a chamou de volta.
— Te acompanharei para que não fique andando sozinha por ai.
— Tudo bem.
Eles foram andando pelo caminho todo a pé. Já que a égua dele estava com a pata machucada devido a um espinho da floresta. Como vocês já puderam ver a história começou a mudar e a partir daqui talvez vocês não conheçam mais nada. Essa não é a história de uma simples camponesa e nem mesmo de uma princesa a espera de ser salva por um príncipe. Essa é a história da caçadora dos lobos.
Quando chegaram à casa de Chapeuzinho a porta estava aberta e havia grossas marcas de garras na porta e ela entrou correndo e o caçador que armou o arco entrou logo em seguida.
— Mamãe – chamou Chapeuzinho – onde você está? Eu lhe trouxe a caixa.
Ela ainda andou mais um pouco dentro da casa e não havia realmente ninguém. O caçador entrou e observou o lugar o examinando. Depois ele abaixou o arco e colocou a flecha na aljava. Chapeuzinho agora estava sentada no chão e chorava com as pequenas mãos no rosto.
— Foi um ataque de lobos. – o caçador se abaixou perto dela — Mas tenho certeza que eram lobos da rainha. Talvez eles quisessem algo da sua mãe.
— Mas o que?
— Eu não sei. Acho melhor esperarmos que seu pai volte.
— Eu não conheço o meu pai. Ele não mora conosco.
— Sinto muito.
Chapeuzinho se levantou rápido e pegou a caixa. Ela a abriu e viu que dentro havia uma capa idêntica a que ela usava. Mas essa era muito maior e cabia somente em uma adulta.
— Por que minha mãe iria pedir para eu pegar uma capa igual a que eu uso?
— Eu não sei, mas acho bom que você a leve. – disse ele com o rosto preocupado – o que ela disse a você da ultima vez?
— Ela havia me pedido que sempre usasse a capa.
— Então faremos isso. Agora vamos. Não quero que você fique por aí sozinha. Cuidarei de você.
— Tudo bem – disse chapeuzinho limpando as lágrimas – eu não tenho mais ninguém mesmo.
— Acho melhor irmos agora então. Pois pode escurecer e é muito ruim encarar a floresta durante a noite.
O rosto de Chapeuzinho se iluminou.
— Talvez nós possamos ir á cavalo.
Ela ajeitou o vestido e saiu correndo até atrás da grande árvore que ficava atrás da casa e para sua alegria o velho cavalo marrom escuro de sua mãe estava ali.
— Como vai, Senhor Rajado?
“A garotinha está bem, como posso ver” ele disse e balançou o rabo animado “queria poder ter feito algo para salvar a sua mãe, mas, como você mesma vê, eu estava preso aqui atrás da grande árvore”
— Não se preocupe – disse ela sem muita verdade – você pode levar a mim e aquele caçador para a casa dele?
Rajado bateu a pata dianteira no chão e acenou com a cabeça, animado “tudo para poder cavalgar um pouco, mas, por favor, quero algumas maçãs para comer” e ela sorriu. Chapeuzinho depois de muito esforço conseguiu subir no cavalo que estava sem cela e o conduziu até o caçador que estava sério.
— Ele pode nos levar. – disse ela animada – Mas disse que só irá fazer isso por algumas maçãs.
— Está dizendo que o cavalo falou? – ele soltou uma gargalhada – talvez eu dê a ela feno quando chegarmos a minha casa.
O cavalo bufou de indignação “Não levarei alguém que me desdenhe desta forma” reclamou.
— Olha – disse Chapeuzinho – ele disse que se você não o tratar de forma melhor ou o entregar o que ele deseja você não poderá ir com ele.
— Ele é apenas um cavalo, garotinha, não possui desejos – ele foi à direção de rajado, mas o cavalo relinchou e deu alguns passos para trás, quase fazendo Chapeuzinho cair – Não deixe ele se mover para que eu possa subir.
— Me desculpe, mas ele se recusa a deixar você subir a não ser que você diga que concorda em lhe dar maçãs para comer.
— Você diz como se ele estivesse falando mesmo. – ele disse debochando, mas viu que ela olhava para ele sem entender o que havia de absurdo na idéia. – Você acha mesmo que ele falou isso?
— Eu não acho – disse ela sem entender – Eu sei que foi o que ele me disse.
— Talvez você queira que ele fale com você para confirmar.
“Este não é como você e sua mãe, pequena, ele não tem sensibilidade o suficiente para entender-nos” disse o cavalo que parecia enojado com o caçador.
— Pessoas não falam com outros animais, garota. Eles tão pouco entendem o que nós dizemos.
“E como sempre acham que por sua falta de entendimento, pensam que somos nós os desprovidos de inteligência” o cavalo bufou e virou a cara.
— Eu não concordo com você, caçador. Minha mãe e eu sempre conversamos com os animais e eles costumam ser inteligentíssimos. Muitas vezes entendem coisas melhor que nós.
— Você realmente acha que fala com esse animal.
— Já lhe falei que não acho – disse ela sem ânimo – apenas concorde com o pedido dele e vamos embora.
O caçador olhou confuso para ela e para Rajado que ainda parecia não gostar nem um pouco dele. E depois concordou com a cabeça. “eles sempre concordam para poder montar” Chapeuzinho riu e o caçador montou.
— Com o que você está rindo?
— Nada. – disse ela – Vamos?
— Sim.
Ele conduziu Rajado, que segundo o cavalo conduzia até bem para um homem deselegante e sem inteligência. O caçador mantinha seus olhos verdes na estrada. Ele tinha cabelos louros e parecia ter uns trinta anos bem vividos.
Quando chegaram a sua casa havia uma égua preta que Chapeuzinho cumprimentou educadamente. Havia também vários outros animais atrás de uma cerca que ficava ao lado da casa pequena de madeira. Na porta uma mulher de espessos cabelos castanhos e olhos castanho claro esperava sorrindo, mas então ela viu chapeuzinho e seu sorriso sumiu. Entendam que essa mulher esperava apenas o seu marido para o jantar escasso e não uma garotinha como chapeuzinho e isso fez com que a mulher odiasse a garota.
— Olá, mulher. – disse o caçador.
— Olá, Hunter – ela sorriu educadamente e depois se virou para chapeuzinho com o rosto sério – quem é essa garotinha?
— É a nossa nova moradora... desculpe está falando dessa forma – disse ele ao ver que ela parecia em choque com a resposta.
— Não temos comida o suficiente para alimentar mais uma boca – disse ela com firmeza, mas depois sua voz vacilou – e também só possuímos mais outro quarto.
— E ele está desabitado – disse Hunter descendo do cavalo – e ela perdeu a família inteira para os lobos da rainha.
A mulher olhou para a criança com compaixão e tristeza e voltou para o marido concordando.
— Tudo bem.
— Então vamos entrar.
— Muito bem. Vamos jantar.
O jantar foi simples e escasso, e segundo o caçador haveria momentos que poderiam ser piores, pois o inverno era rigoroso naquela casa.
— Diga para mim, criança – disse a mulher – qual o seu nome?
— Minha mãe sempre me chamou de Chapeuzinho.
— Mas tenho certeza que esse não é o seu nome verdadeiro. Não é mesmo?
— Não precisa contar agora, entendeu – disse o caçador sorrindo – agora vou levá-la ao seu quarto.
Chapeuzinho notou que a mulher parecia insatisfeita com as palavras do marido, mas o seguiu. No quarto havia uma cama de carvalho escuro e Hunter quase encostava a cabeça no teto. Um velho cobertor estava do lado da cama e havia também um boneco feito de palha.
— Bem vinda ao seu novo quarto. – ele disse sorrindo
— De quem ele era? – perguntou Chapeuzinho curiosa.
— Era do nosso filho – disse ele com tristeza.
— O que houve com ele?
— Você conhece a história do nosso reino? – perguntou Hunter.
— Não.
— Deite-se e eu lhe contarei.
Chapeuzinho correu até a cama e cobriu-se com uma coberta fina que estava em cima da cama e o caçador sentou-se na cadeira ao lado da cama onde a outra coberta se encontrava. Ele olhou para Chapeuzinho e sua voz assumiu um tom melancólico.
— Há muito tempo, no nosso reino havia um rei bondoso que se apaixonou por uma forasteira. Ele se casou com ela e juntos eles governaram por muitos anos de forma sábia e próspera e o povo prosperava mais e mais a cada dia que se passava. Eles tiveram uma filha e essa deveria ser treinada para ser a futura rainha.
“Mas uma noite uma mulher apareceu. E não se engane ela não era feia. Muito pelo contrario, não havia mulher tão bela quanto ela. Quando o rei a conheceu ela o enfeitiçou e fez que ele acreditasse que sua esposa, a rainha, o tivesse traído. Ele mandou que caçassem a rainha e sua filha, que ainda era apenas um bebê, e as matassem quando as encontrassem. Felizmente ninguém nunca a encontrou e ela se manteve exilada por muito tempo.
“Essa mulher então se casou com o rei e ele a fez sua nova rainha. Porém algum tempo depois ela o matou e tomou seu lugar como rainha tornou os lobos como seus soldados. O reino temeu a morte e a reconheceu como rainha. O reino sucumbiu a miséria da rainha tirana e muito guerreiros e soldados como eu deixaram o reino para viver nas florestas”
— Isso é muito triste. – disse chapeuzinho com sinceridade.
Ele olhou para frente e continuou a história.
— Depois disso os lobos eram livres para caçar a qualquer um do lado de fora do reino e matá-lo. A rainha queria que todos os antigos guerreiros do rei se juntassem a ela, porém eu não voltei e para mostrar a força que ela tinha mandou que matassem o meu filho e a todas as crianças que viviam nas florestas. – o caçador parecia agora triste – depois disso eu me tronei caçador de lobos e eu os mato para que seu reinado de terror sobre as florestas acabe.
“Acredito que depois talvez seja por isso que sua mãe mandou que você saísse sem ela. Para que não estivesse na casa para ser morta também...”
Ele olhou para ela que agora dormia tranquila, se ela havia ouvido o motivo da morte da mãe ele não saberia, pois ela nunca mais comentou sobre aquilo. Ele deu um beijo em sua testa e saiu do quarto.
— Não gosto de ninguém mais morando aqui. – disse a sua mulher com o rosto fechado.
— Sei o que você pensa disso, mas ela não pode morar em nenhum outro lugar. Se deixarmos ela lá fora, os lobos a devorarão.
— Ela não é o nosso filho.
— E você já foi mais compreensiva que isso.
— Não gosto dessa situação.
— Não acho que seja necessário que você goste ou não da situação. Apenas cuide bem dela.
Ela olhou para ela com raiva, mas se curvou em concordância e saiu.
No dia seguinte, Chapeuzinho acordou com o rosto pesado. Ela saiu pela casa e chegou à cerca onde rajado se encontrava junto de outros animais.
— Olá, Senhor Rajado.
“Olá, criança” ele balançou a crina e depois foi em busca da mão dela “Onde estão as maçãs?”
— Sinto muito, eu não tenho. – ela olhou para o lado onde havia uma ave grande e majestosa completamente marrom – Olá, senhora ave – disse chapeuzinho e foi se aproximando devagar – não precisa ter medo de mim.
“Como se eu fosse ter medo de alguém tão pequeno.” Disse a ave com desdém.
— Perdão se lhe ofendi. – disse ela sincera – sabe onde posso encontrar maçãs e outras coisas para comer?
“Por que eu lhe faria isso?” perguntou a ave em desafio “não pense que só por que me entende, eu lhe farei de minha ama”
— Não pensaria uma coisa dessas. Mas se você me mostrar, talvez eu possa lhe recompensar com algo.
A ave ainda a olhou com arrogância, mas bateu as asas e começou a voar devagar e chapeuzinho pegou uma cesta grande e a seguiu. Ela era ainda maior com a asa aberta e tão majestosa que fez os olhos de Chapeuzinho brilhar. A ave foi subindo cada vez mais alto e então desceu ainda mais rápido pegando um rato que se debatia com veemência até que parou e ela o comeu.
— Não acredito que fez isso.
A ave ao ver a cara de nojo de Chapeuzinho não pareceu se importar “não é por que você fala com ele que eu vou deixar de me alimentar. Sou uma águia, não como folha”
— Você possui nome?
“Minha mãe costumava me chamar de Zeus”
— Então, Zeus, já se alimentou?
“Sim e aqui estão as coisas que você procura. Vigiarei para que você pegue tudo que quer e seja rápida”
Chapeuzinho concordou com a cabeça e foi na direção de uma árvore grande com várias maçãs vermelhas e subiu na árvore com rapidez para pegá-las. Ao lado havia um grande lago e ela se esforçou ao máximo para pegar os peixes com a mão e Zeus a ajudou nesse serviço. Depois que terminou colocou os peixes de um lado e as maçãs do outro com cuidado para que não se misturassem. Ela pegou o maior peixe e o entregou para Zeus que agradeceu e o comeu com rapidez e voracidade.
“Olá, garotinha” disse uma voz preguiçosa e sarcástica.
— Ah, olá senhor. – disse chapeuzinho virando para de onde a voz vinha. Ali havia um corvo – Como se chama?
“Sou o grande Odin. Nunca havia visto uma criança humana que entendesse o que falo. Vejo que está na companhia de uma águia marrom”
“Não se aproxime dele criança” Zeus pousou em um galho alto “ele não passa de um corvo, mas age como se fosse realmente significante”
“Grande águia, arrogante como sempre, não é mesmo?” ele desceu e pousou perto da cesta de Chapeuzinho. “Talvez pudesse me dar um de seus peixes, criança”
— Sinto muito. Não posso te dar desses peixes, mas se eu voltar amanhã lhe darei um.
O corvo olhou para Zeus e de volta a chapeuzinho. Acenou com a cabeça e saiu voando.
“Odeio corvos”
— Por que, senhor Zeus?
“Digamos que seja uma desavença mitológica, criança. Agora vamos.”
Quando eles chegaram à casa do caçador, tanto ele quanto a mulher estavam dentro da casa e pareciam discutir.
— ... ela pode ter se perdido. Devia estar cuidando dela, Marieta.
— Quando eu a vi, ela estava junto aos animais e parecia conversar com eles. Não foi culpa minha.
Chapeuzinho entrou na casa e eles não pareceram notar ela no mesmo momento. Mas quando o caçador a viu ele a abraçou preocupado.
— Por que brigavam? – quis ela saber.
— Você havia sumido. – disse a mulher – Ficamos preocupados.
— Sinto muito. Trouxe isto para o almoço – ela estendeu a cesta e Marieta a pegou impressionada. – tem peixes e maçãs aí. Mas as maçãs são para o Rajado.
— Eu... obrigado.
Chapeuzinho acenou com a cabeça e pegou as maçãs para levar para Rajado. Ele estava lá fora ansioso. Chapeuzinho reparou que havia uma ave pequena e negra em cima dele.
— Rajado, eu trouxe suas maçãs. Odin o que faz aqui?
“eu pensei que talvez a senhorita não se importasse que eu viesse aqui algumas vezes me alimentar, sabe” sua voz era tão repleta de sarcasmo, mas Chapeuzinho não se importou e apenas concordou com a cabeça “ótimo, se puder dizer isso a aquela águia que vive aqui eu ficarei feliz”
Rajado pegou as maçãs que chapeuzinho tinha colocado no vestido e comeu algumas, depois dividiu as outras com a égua que estava ao seu lado.
— Chapeuzinho – chamou o caçador – poderia falar com você?
Ela foi correndo até ele e sorriu.
— O que foi?
— Como você pegou aqueles peixes? – ele se agachou.
— Com as mãos.
Ele pareceu impressionado com a resposta e colocou a mão sobre o ombro dela.
— Eu iria ensinar ao meu filho como ser um caçador. Iria ensiná-lo como atirar com uma flecha e a como manusear uma espada. Acho que jamais ensinaria a uma filha minha a fazer estas coisas, mas eu a ensinarei. Podem não existir caçadoras por ai, mas eu duvido que algum caçador saiba se comunicar tão bem com os animais quanto você. Aceita a minha proposta?
— Claro – disse chapeuzinho sorrindo.
— Ótimo. Venha comigo.
Ele se levantou e foi andando e chapeuzinho o acompanhou. Eles chegaram até uma cabana pequena onde ele tirou um arco pequeno com aljavas, um cinto com uma espada e depois mais uma faca grande com um cinto que se prendia na perna.
— Este a principio será seu instrumento de caça. Eu lhe ensinarei a usá-lo.
— tudo bem.
— você precisará usar calças em baixo do vestido para colocar a faca e também eles ajudarão para que não necessite usar tanta saia como as mulheres usam.
— Posso fazer isso.
— Precisarei que você também esteja livre para lutar. Então terá que deixar de usar a sua capa.
— Acho que isso não será possível.
— É mesmo? E por quê? – disse ele intrigado.
— Mamãe me aconselhou a nunca tirar a capa. Não posso simplesmente negar o ultimo pedido dela.
— Tudo bem. Então pegue suas coisas e eu lhe ensinarei.
Ela pegou e levou as coisas com ela. Todos os dias eles treinavam antes e depois do almoço sem descanso, mas chapeuzinho nunca se esquecia de levar maçãs para o velho Rajado que pouco tempo depois teve um filhote com a égua de Hunter. Ela também nunca se esquecia de sempre separar dois dos maiores peixes, um para Odin e outro para Zeus. Acontece que quando ela tinha quatorze anos, Marieta a mulher de Hunter morreu com uma doença que ninguém sabia como curar e somente ela e Hunter sobraram na casa.
Algum tempo depois rajado e a égua que não possuía nome morreram de velhice e enquanto o pequeno potro ainda era muito novo para que eles o levassem as caças elas eram feitas a pé, mas isso nunca endureceu o coração de chapeuzinho que continuava bondosa. À medida que foi crescendo teve de substituir a velha capa pequena pela que sua mãe tinha lhe deixado na caixa e os caçadores não chamavam mais a ela de chapeuzinho, mas sim a grande chapéu vermelho, terror de todos os lobos. Ela já era considerada a melhor caçadora de lobos, por sua perspicácia e sua facilidade em encontrá-los e por muito tempo aqueles que viviam nas florestas pensaram estar livres da besta.
Um dia, porém, quando Chapéu possuía dezoito anos e colhia flores atrás do lago que uma vez Zeus havia lhe mostrado, ouviu um barulho alto de uivado e saiu correndo deixando o seu cavalo sozinho no lago. Quando chegou, viu a casa destruída e havia varias marcas de lobos nas portas e paredes. Ela alcançou o arco e a aljava que fez há pouco tempo e preparou a flecha procurando sinal de algum lobo dentro da casa e o único que viu foi um morto no meio da entrada. Ela continuou andando pela casa onde avistou Hunter caído no chão. Ela colocou a flecha e o arco dentro da aljava e caiu no chão a encontro do semimorto caçador que um dia a salvou de um lobo.
— Hunter.
— Chapéu. É você?
— Sim. Sou eu. – ela ouviu asas baterem do lado de fora e viu que Zeus saiu voando para longe e em uma direção que nunca havia ido antes – O que ouve?
— Eu tentei matar todos eles, mas eram muitos. Mas você está bem como eu vejo.
— Sim, eu estou.
— Zeus foi embora não é mesmo?
— Sim – disse ela por um momento odiando a águia.
— Reencontre-o pra mim, por favor. Ele era do rei e pediu para que eu cuidasse dele. Pode fazer isso por mim.
— Por que?
— Porque ele está retornando a seu antigo dono. Encontre-o.
— Mas...
— Pode me fazer esse favor, Chapéu?
Ela olhou para ele e sorriu.
— Claro que farei.
— Obrigado, filha. – ele passou a mão pelo resto dela devagar – Leve a capa que você fez pra mim consigo. Acho que você precisará.
— Levarei, Papai.
O coração de Chapéu pareceu parar de bater por um segundo. Ela olhou para ele que tinha a respiração fraca. Seus olhos verdes estavam fechados e Chapéu pesou em dar o golpe de misericórdia para acabar com o sofrimento do velho caçador, quando ela ouviu um barulho vindo de fora da casa e se escondeu entre os móveis caídos. Eles eram altos e fortes, mas pareciam distraídos demais para serem guerreiros.
— Quando o senhor pediu que viéssemos aqui eu pensei que a casa estaria inteira. – disse o mais alto.
— Eu vi lobos indo para mais a leste. – disse o outro olhando para Hunter que estava caído — Devem estar no rastro de algum vilarejo, ou apenas estavam a procura de Hunter, afinal ele é o caçador mais procurado pela rainha.
— É realmente um problema ser tão bom em caçar quanto ele é, e parece quase morto. – ele se aproximou de Hunter e Chapéu já ia se preparar para atirar – Vamos levá-lo agora. O nosso senhor falou que o queria vivo e saudável. Não quero perder a cabeça por não conseguir isso – Chapéu desceu o arco e o mais alto olhou na sua direção, mas ela já havia se escondido novamente.
Eles pegaram o corpo de Hunter e o levaram com pressa. Chapéu esperou por um momento até que eles estivessem longe o suficiente. Ela queria segui-los, mas sabia que a maior chance de seu pai sobreviver estava com aqueles dois homens desconhecidos. Chapéu pegou um papel, pena e tinta e escreveu um carta breve de cuidado com sua assinatura e a marca de cera de Hunter e foi lá fora em busca de sua pequena coruja.
— Atena.
Chapéu gritou e a ave poucos minutos depois apareceu animada, suas penas amarelas misturando-se com as brancas como a união entre o inverno e outono.
“Chamou, senhora?”
— Atena. Quero que entregue essa carta para Connor no vilarejo, mas tem que ir muito rápido.
“Sou uma ave rápida, senhora. E mil vezes mais rápida do que aqueles que pretendem atacar o vilarejo”
— São lobos – ela alertou.
“Consigo ser mais rápida que eles bem facilmente, não se preocupe. Eu os ultrapassarei.”
— Depois que fizer isso, você pode voltar para aqui ou ir atrás de mim. Eu estarei indo a oeste, tudo bem?
Chapéu prendeu a carta na pata de Atena e a viu voar rápido e graciosamente como a jovem coruja costumava voar e depois que a ave já estava um pouco longe entrou na casa e subiu até o quarto e pegou mais dois vestido e duas calças e mais algumas outras coisas para o frio. Passou pelo velho quarto de Hunter onde havia uma capa longa cinza com pelagens de lobo cinza esbranquiçados que Chapéu havia feito pra ele quando fosse caçar no frio. Ela olhou tristemente para a capa e depois a pegou e a colocou junto das outras roupas em um saco grande e depois foi até a velha cabana e pegou todas as armas que ali estavam e também mais dois arcos extras. Ela os embrulhou e colocou dentro de uma bolsa. Foi até o cavalo no qual havia dado o mesmo nome que seu pai.
“Pensei que você havia me esquecido.” Disse ele bravo.
— Sinto muito – Chapéu colocou as roupas em uma das bolsas e depois pegou todas as armas que estavam dentro da bolsa e as tirou para conferi-las e para sua decepção estavam em sua maioria cegas. Havia somente outra espada que apesar de a ponta estar um pouco torta o fio estava afiado e ela jogou as outras para longe. Felizmente a maioria das facas estava boa e a corda grande estava completamente inteira e não estava ameaçando arrebentar em lugar nenhum. Ela notou que também os arcos estavam bons e o estoque de flechas estava praticamente inteiro e completo. – Não está muito pesado, está?
“Aguentaria coisas muito mais pesadas com uma só pata.” Ele bateu a pata dianteira no chão e Chapéu fez carinho no seu pescoço. “colocou comida também?”
— Não. Os lobos devoraram tudo que tinha na casa. Vou ter que caçar comida antes de partirmos.
“Então esperarei aqui” ele saiu andando devagar comendo as pequenas gramas no chão enquanto Chapéu colhia maçãs e outras frutas. Ela também pegou alguns peixes e comeu uma parte no almoço e guardou alguns para o jantar em outra bolsa que estava vazia. Depois de almoçar e guardar todas as outras coisas na bolsa, Chapéu viu que Odin se aproximava curioso.
“Para onde você vai, criança?”
— Vou à procura de Zeus. Hunter me pediu.
“Então eu irei com você. Não quero ser abandonado no meio desse lugar solitário”
— Pensei que você achasse que todos aqui lhe serviam apenas como comida e poleiro.
“Mas como todos os outros animais foram mortos e viraram comida de lobo. Prefiro ir com vocês. Como você pode ver o outono já está quase acabando e eu não quero enfrentar o inverno sozinho e sem os peixes que você caça pra mim” ele voou para dentro da capa de chapéu ela fez Rajado sair cavalgando por onde ela havia visto o grande Zeus voar.
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