Chapeuzinho Vermelho
1 Rotkappchen
Notas iniciais
Marilyn encarou o céu, escuro e com promessas de chuva. Ela devia se apressar, pois o caminho até a casa de sua avó, apesar de relativamente curto, era cheio de voltas e alguns obstáculos chatos. Ela se encontrava quase de frente com a bifurcação, ambas dariam na cabana de madeira, mas um tinha mais empecilhos que o outro, e, ainda assim, era o mais seguro, pois de acordo com a sua mãe, com tanto barro e troncos caídos, apenas insetos passariam ali.
Ela tinha apenas um problema, não se lembrava de qual era qual. Ela visitava muito pouco a casa da avó, primeiro por que ficava no meio de uma floresta, segundo por que se a velha foi para o meio da floresta, ela certamente não gostava muito de visitas. Mas agora estava doente, e precisava que alguém levasse alguns remédios da cidade para ela. E a mãe incluíra alguns agrados para a sogra, uns bolinhos deliciosos (ela sentia o estômago roncar apenas com o cheiro, sua mãe era ótima na cozinha quando decidia preparar alguma coisa, o que era raro, um talento desperdiçado) e uma garrafa de vinho que costumava ser seu preferido antes de se isolar abruptamente. Ela encarou o caminho por vários minutos, tentando decidir qual era o seguro e qual não era, quando uma mão tocou seu ombro.
Ela pulou para longe do toque, assustada, e viu que a mão pertencia à um homem, aparentando ser pouco mais velho que a própria e encarando-a com uma expressão confusa.
— Desculpe, te assustei? Não foi minha intenção. A senhorita parece perdida, apenas queria saber se poderia lhe ajudar.
Marilyn o avaliou de cima a baixo, ele vestia uma camiseta branca um pouco suja, calças marrons e botas grossas. E tinha uma barba daquelas espessas cobrindo mais da metade do rosto. Decidiu que ele tinha cara de um daqueles caras que trabalham na floresta, e talvez realmente pudesse ajudá-la.
— Eu... eu estou bem. Estava apenas me perguntando qual era o caminho certo para a casa da minha avó.... Você deve ter visto. Fica numa clareira, é uma cabaninha simples, toda branca, tem uns troncos para lenha jogados atrás da casa. Eu me esqueci qual era o caminho seguro. Poderia me dizer.
— Mas é claro, conheço a tal casinha. O caminho da esquerda, não tem erro.
— Obrigada, moço! Já vou indo, então. – Ela disse, disparando pelo caminho indicado. Tinha a impressão de ter ouvido um “Espere”, mas como não ouviu mais nada, pensou ter sido fruto de sua imaginação. Bem que queria que ele a chamasse, era até bonitinho... mas ela saiu com tanta pressa que nem se apresentaram direito. Burra, ela pensou, continuando o caminho.
Enquanto caminhava, notou que não haviam inconvenientes poças de lama nem troncos caídos por onde passava. É claro, ele indicou o caminho sem obstáculos. Ela devia ter previsto isso. Parou de andar e suspirou, se sentindo incrivelmente tola. Mas o sentimento logo passou, quando sentiu um cheiro maravilhoso que não vinha da cesta. Olhando para os lados, viu inúmeras flores selvagens, tão coloridas e cheirosas! Certamente sua avó gostaria delas, não podia ser uma velha tão estranha assim. Com esse pensamento, começou a colher flores, organizando-as em um buquê.
Depois de um bom tempo assim, sentiu o estômago roncar, e se perguntou se a avó se incomodaria se ela comesse só um bolinho. Pareciam tão saborosos... unzinho não ia fazer falta. Mas enquanto debatia se deveria ou não comer os bolinhos que não eram para ela, sentiu gotas de chuva caindo sobre seu corpo. Ah não, é daqui para pior, ela pensou, puxando o capuz do casaco vermelho até cobrir o rosto. Enfiou as flores na cesta e correu pelo resto do caminho, a chuva aumentando e trovoando atrás dela. Para sua sorte, logo deu de cara com a famigerada cabana, e se abrigou sob o telhado da varanda. Começou a bater na porta, chamando a avó (e, para convencê-la a abrir logo, mencionou os presentes).
A porta se abriu, mas ninguém estava atrás dela. Mesmo estranhando, ela entrou na casa, chamando a vó um pouco mais baixo. Estava tudo escuro e ela mal conseguia ver um palmo à sua frente. A única fonte de luz era a lareira, sobre a qual havia um caldeirão que borbulhava.
— Ora querida, venha cá. – A velha senhora chamou, da direção geral de onde devia estar a cama. – Desligue o fogo para mim, sim? Soube que estava vindo e preparei uma janta, deve estar faminta.
— A senhora está rouca? Eu trouxe os remédios... E minha mãe mandou uns presentinhos!
— Sim, sim, o vinho. Ponha-o sobre a mesa e venha aqui.
Marilyn franziu o cenho. Era para ser surpresa, pelo menos isso que sua mãe havia falado. Mas se ela decidiu avisar.... Estranho, mas não alarmante. Abaixou o fogo para ter uma fonte de luz e se encaminhou para onde pensava estar a avó.
— Aqui, querida, aqui... – A idosa tentou ajudar a neta a encontrar o caminho.
De certo modo ela encontrou, tropeçando por cima da cama.
— Desculpa, vó! Mas por que não tem nenhuma luz aqui? E a senhora está quente... é febre? Não sei se tem remédio para febre, deixa eu olhar.... Onde tem uma vela aqui? Não consigo ver nada!
— Não precisa de vela! Venha aqui.... Sua pobre avó está com saudades! Onde já se viu, faz mais de dois anos que não me visita.... Que tipo de neta é essa, que deixa a avó sozinha por tanto tempo nessa floresta onde não mora ninguém?
A loira sentiu as bochechas queimarem.
— Mas a senhora que quis se mudar para o meio do nada! E além do mais, tem uns lenhadores simpáticos por aqui.
A velha riu.
— Lenhadores? Não seja tola. Esta floresta não tem lenhadores! Eu tenho certeza disso.
— Oras, claro que tem! Acabo de falar com um agora mesmo...
— Não há lenhadores aqui, menina. Apenas lobos. – A voz da idosa estava ficando mais grossa.
— V... Vó? Está tudo bem? – Marilyn perguntou, se levantando do chão.- A senhora... – Ela parou quando suas mãos, que tentavam encontrar uma mão, tocaram uma grande e peluda pata. Ela se afastou, tão assustada que não conseguia gritar. Ouviu um movimento vindo da cama e saiu correndo em direção à porta, se guiando pela pouca luz vinda do fogo. Graças aos deuses não havia desligado como fora pedida.
O lobo era mais rápido e a alcançou com facilidade após se livrar das cobertas. A menina pegou uma das cadeiras da mesa e jogou no animal, fazendo-o colidir com a lareira, fazendo a cauda peluda ficar em chamas por alguns segundos antes de o caldeirão virar por cima da fera. Um pedaço do que estava cozinhando rolou até os pés da loira, que gritou ao perceber que era uma cabeça. A cabeça de sua avó, provavelmente, mas não queria ficar pensando nisso, e voltou a correr para a porta.
Conseguiu passar antes do brutamontes, que ainda estava sacudindo os pelos encharcados. Agarrou um machado jogado perto da lenha momentos antes do monstro – não era um lobo, era enorme, quase do tamanho de um hipopótamo – passar quebrando a porta, rosnando com os dentes afiados e perfeitos para dilacerar carne e ossos à mostra. Ela não pensou duas vezes antes de atacar o bicho assim que este avançou em sua direção, acertando o machado entre onde estariam as costelas. A fera cambaleou e Marilyn aproveitou o momento para disparar a correr pelo caminho pelo qual viera, o desespero crescendo ao ouvir pesados passos e o som do rosnado em seu encalço.
Nervosa, acabou se perdendo em meio ao mato, tropeçou na lama escorregadia e caiu. A menina cobriu o rosto com os braços, soluçando, sabia que o monstro não demoraria muito para encontrá-la e fazer o que fizera com sua avó. Preferiu se focar no barulho da chuva ao invés do da respiração ofegante de seu carrasco quando este se aproximou.
E então ouviu ganidos e uivos de dor que afogavam qualquer outro ruído na floresta. Ela tremeu, chorando um pouco mais alto, e assim ficou até que duas fortes mãos tocaram seus braços e os afastaram do rosto, vermelho, inchado e encharcado.
— Está tudo bem com você? – O mesmo homem que havia lhe indicado o caminho mais cedo estava parado, olhando-a com preocupação. Estava coberto de sangue, sem a camiseta e respirando pesadamente.
— E- O... O m-monstro... E... eu não...- A cabeça da garota estava correndo a mil, não conseguia processar ou verbalizar uma frase completa. Ela queria saber onde ele estava enquanto sua avó era morta cruelmente ou até mesmo onde estava o demônio gigantesco que a perseguira, mas nada saia de sua boca, que apenas abria, fechava e tremia em choque.
— Calma, calma, o lobo está morto. Estava caçando-o há anos. Perdi minha irmã para aquele animal sanguinário. –Ele falou, um momento de dor cruzando sua face enquanto ajudava a menor a se levantar. – Mas agora eu peguei ele de jeito. Não vai mais devorar nenhum inocente.
— .... Obrigada. – Ela finalmente falou, ainda olhando para o chão.
— Não há de que. Me chamo Otávio, e você? – Ele perguntou, botando uma mão sobre os ombros da loira para guia-la.
Eles caminharam em direção à cabana de Otávio, o caminho todo Marilyn apenas olhava as pedras e o barro no chão, falando quase nada e apenas respondendo o que ele perguntava no automático, o coração desacelerando pouco a pouco. Estava a salvo. Estava a salvo, a fera estava morta, ela estava bem. A melhor certeza que já sentira em sua não muito comprida vida. Se ela olhasse para cima e finalmente visse os mesmos olhos dourados com um brilho cruel que vira no monstro na face de Otávio, não teria tanta certeza.
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