Mestice finalmente chega ao castelo. Ao adentrá-lo o cenário era totalmente diferente da cidade vazia e destruída onde esteve, estava movimentado com os guardas executando diversas funções e se preparando para a guerra.

A maioria dos guardas simplesmente ignorava a presença da bruxa, saindo do caminho quando possível, porém um pequeno grupo não saiu de perto e, ao contrário do esperado, aproximavam-se de Mestice ao vê-la. Eles eram diferentes dos guardas comuns, aparentavam ter a idade do rei ou um pouco mais. Usavam armaduras mais reforçadas, longas capas verdes e o brasão da família real, um leão. Todos eles carregavam um ar de superioridade juntamente com largos e cruéis sorrisos.

Os guardas a cercaram sem cerimônia. O mais baixo deles aproximou-se e levou a mão ao rosto de Mestice. A bruxa estava totalmente encurralada e, espantada com a situação, deu um tapa na mão do guarda.

— Ficaram loucos o suficiente para me tocar? O que querem?

— Esta pergunta é nossa, bruxa imunda. — O mais velho deles, certamente o líder, deu alguns passos à frente. — Onde pensa que está indo? Ver nosso rei? Não permitiremos.

— O que? Saiam da frente. Tenham medo. Posso matá-los quando eu quiser.

— Oh, permita me apresentar. Sou Menphís. — Ele faz uma reverência sarcástica. — Somos os Sepujis, guardas reais e inquisidores do rei, a elite desta podridão. Sou o líder deles e tu és só mais uma bruxinha. Não a tememos, já queimamos dezenas de tua raça.

Mestice sentia um misto de medo e excitação. Estava encurralada e ninguém a ajudaria. Mesmo que gritasse por ajuda, talvez chamasse a atenção de mais guardas, que se juntariam a eles. Porém ela não estava tão indefesa, pois havia ido até a floresta e pego algumas de suas coisas. Só restava a bruxa apostar tudo o que tinha.

— Homens, todos iguais. — Mestice puxou suas vestes para baixo, mostrando os seios enquanto falava lentamente. — É isso que querem, uma bruxinha para brincar? Se conseguirem me derrotar, serei sua escravinha.

Os guardas sorriram, apesar de não ser a ideia inicial, eles gostaram do que a bruxa lhes mostrou. O mais baixo avançou contra ela e subitamente foi agarrado por uma força invisível que o prendeu na parede. Ele estava pasmo, com os olhos revirados e só conseguindo mexer minimamente a cabeça. Mestice tinha algo como um bastão pequeno com adereços na ponta.

Por um momento os sepujis ficaram paralisados, mas logo recobraram o controle, partindo para cima da bruxa. Iniciaram o combate, Mestice os jogava longe e eles voltavam com suas fúrias redobradas, a atacando com espadas. De seus braços escorriam filetes de sangue, mas Mestice continuava firme contra eles.

Repentinamente algo os fez parar. Logo perto de onde estavam, ficava a sala do trono, de onde começaram a sair gritos e sons de coisas voando pelo aposento e se chocando contra a parede, como cadeiras e louça se quebrando. Dharok gritava indignado com West. Sua voz parecia a tormenta, não havia escapatória de sua fúria. Sua voz se movia unindo todos em um mesmo temor.

Como a tormenta que afoga os barcos que invadem seu domínio, Dharok queria afogar em os inimigos que invadiram seus domínios, afogá-los em sangue.

O rei abriu a porta em uma raiva colossal e viu o tumulto que estava acontecendo a poucos metros de seu trono. Mestice olhou em seus olhos e tremeu, não havia nada neles. Seu rosto estava fechado como aço e um pouco do cabelo ainda cobria uma parte dele. A presença de toda aquela fúria deixava tudo mais pesado, aquilo fazia a bruxa ficar em êxtase. Naquele momento o que ela mais queria era servir ao seu rei enquanto ele conquistava tudo o que lhe era possível. O rei estava virando sua doença.

A raiva que estava aflorada em cada átomo de Dharok aumentou quando viu que encurralavam a bruxa que tinha salvo. Deu um soco na parede com o lado da mão, chamando toda a atenção para si e entre gritos perguntou:

— O que estão fazendo?

— Milorde. — Em uníssono os sepujis responderam, fazendo ao mesmo tempo uma reverência.

Dharok puxou Menphís pela gola de sua roupa e o deixou perto o suficiente para sentir o hálito quente do rei.

— Lhe fiz uma pergunta. —Sua voz era como trovões retumbando no corredor.

— Estávamos apenas falando com sua convidada.

— Sabe bem o que penso sobre mentiras, Menphís. Você me conhece a anos, desde a época em que era meu subordinado na Sepujis.

— Milorde, estamos todos incomodados com uma bruxa no castelo. Ela pode fazer mal a vossa majestade, estão com medo. Nossa política é matar bruxas, iríamos resolver a questão.

— A bruxa me pertence, é minha serva. O reino mudou, eu sou o rei, é a minha política! Tenho que enfrentar inimigos fora de meu reino e não tolerarei traidores dentro do meu castelo, seu covarde.

O rei tirou sua adaga dentre as roupas e fez um movimento em arco tão rápido que Menphís só pôde ver quando a lâmina o atingira na garganta.

— Dharok... mas somos am... amigos.

— Não costumo ter amizade com mortos.

Tirou a lâmina que atravessara o crânio dele pela garganta e o cadáver tombou no chão como um tronco, espalhando seu sangue pelo piso. Por um momento a feição do rei voltara a ser calma.

— Eu precisava mesmo mudar a liderança dos sepujis. — Falou consigo mesmo e logo depois retomou seu semblante de aço.

— E agora, mais alguém se opõe a Mestice? Não farei como fiz a Menphís, não os matarei, apenas queimarei suas famílias.

Alguns minutos se passaram em um silêncio pesado e ninguém falou nada, apenas olhavam para os próprios pés.

— Ótimo, tudo voltou ao normal. Retomem suas funções, as coisas estão esquentando. — Falou com a calma de alguém que passeia na primavera.

Limpou o sangue de sua lâmina na roupa e voltou ao trono com Mestice o seguindo. Lá dentro, Mestice viu pedaços de madeira quebrados perto da parede e, do lado direito do trono, apenas West com sua feição habitual.

— Fico feliz que voltou, Mestice, mesmo em meio a tanto caos. Bom que não decidiu ficas na floresta. Precisarei de todo o apoio possível.

— Não sou muito a favor de me meter em assuntos do reino, mas quem sabe posso ver um pouco de sangue. — Ela dá um mínimo sorriso maldoso.

— Claro, claro. — Falou o rei sem tanto interesse, em sua cabeça haviam mil outros pensamentos.

— O que são eles, os se-pu-jis?

— São a guarda real, a elite do reino e a força tarefa exclusiva do rei, com certa autonomia que outras partes do exército não tem. Composto apenas por membros da realeza, nobres e filhos de alguns membros do clero que não seguem as ideias dos pais. Todo membro da realeza é obrigado a participar. Fui o líder, até virar rei. West, como filho de alguém do clero que não segue o sacerdócio, também foi. Como não havia ninguém da realeza e o segundo no comando, West, também saiu, Menphís o assumiu para mim. Terei de fazer algumas mudanças nisso. — Dharok lançou um olhar a West.

— Parece que meu reizinho não é tão frouxo quanto pensei. — Mestice solta uma risadinha. — Reizinho assassino, acho digno. Voltarei aos meus aposentos, sua serva lhe deseja uma boa noite.