Change
1 Capítulo 1
Notas iniciais
— Onde ela está? — Dr. Edwards perguntou assim que tomou coragem de sair de sua sala, horas após o ocorrido.
Em nenhum momento ele esteve indiferente a toda a confusão que se desenrolava ali do lado de fora. Ele havia ouvido os tiros. Os dois tiros. E então gritos, vários gritos. E então silêncio. Doloroso e mórbido silêncio.
Dawn ainda estava caída em uma poça de seu próprio sangue seco. Podia ver os olhos arregalados e mortos. Eles pareciam continuar encarando-o. Não mais cheios de ordens, e sim, congelados em uma careta de puro pavor agonizante. Um buraco de bala jazia bem no meio de sua testa.
Agora um dos tiros estava explicado. Mas e o outro?
— Ela quem? — um dos policiais perguntou, tirando-o de seu devaneio. Ele não se deu ao trabalho de olhar para ele.
Agora que Dawn estava morta ele temia pelo que aconteceria no hospital. Apesar da sujeira por debaixo dos tapetes, Dawn mantinha os policiais controlados, e ele tinha certeza de que se assumisse tudo dali em diante aquele tipo de coisa jamais aconteceria.
— Eles a levaram? — continuou.
— Ela… a menina...Dawn a matou… — o outro pareceu dar-se conta da pessoa que o doutor procurava.
Ele então percebeu que havia uma mancha menor de sangue, alguns passos a frente.
Edwards engoliu sonoramente. Não. Ela não. Ela tinha tanta esperança… Apesar de tudo o que havia passado, e todas as outras coisas terríveis que fizeram como ela dentro do Grady, ela continuava cantando. Sim, ela continuava mantendo seu coração aquecido com fé. Ele só esperava que pelo menos tivessem lhe dado um funeral adequado.
— O corpo… — murmurou após alguns segundos.
O policial o levou até o pátio. A bagunça habitual de viaturas e entulhos e restos do que um dia fora um acampamento continuavam ali, com exceção dos malditos cretinos comedores de carne que estavam realmente mortos.
Uma caminhote vermelha se sobressaía no horizonte, visivelmente em melhores condições do que os outros carros presentes.
— Eles a colocaram ali — o homem apontou para o automóvel. — Eles iriam levá-la, eu acho. Havia uma mulher gritando tão alto que ela não podia estar morta. Era perturbador. Mas foi tão rápido… Os cretinos vieram e os cercaram. Eles apenas correram para longe. Tiveram que arrastar a mulher.
O doutor sentiu um ódio lhe corroer aos poucos, a bile subindo pela garganta. Tudo o que Beth queria era sair do Grady e reencontrar sua família, e agora eles simplesmente abandonaram seu corpo, sem ao menos uma luta. Ela merecia mais. Eles estavam esperando para que os cretinos a encontrassem e devorassem como um pedaço de carne qualquer? Beth merecia um funeral. Ele iria fazer isso por ela.
Uma vez ela havia lhe contado uma história sobre alguém que continuava fazendo funerais mesmo no mundo sujo de agora. Ela havia dito que aquilo era… bonito. Singelo e puro de uma forma que só aquela menina era, apesar de toda a angustia, perda e sofrimento que ele sabia que ela carregava.
— Precisamos tirá-la de lá — disse irritado.
— Ela está morta — o policial repetiu.
— Eu já ouvi essa merda — bradou impaciente. — Ela merece um funeral. Um de verdade.
Edwards não esperou que o outro policial o seguisse, simplesmente abriu os cadeados do portão e marchou em direção ao carro sem olhar para trás.
Ela valia o risco? Era uma boa menina, pura, doce e incrivelmente forte, mas estava morta, e inferno, ele estava indo buscar seu corpo.
Comedores de carne se aproximavam por todos os lados. Uns quatro, talvez, mas ele não tinha nenhuma arma consigo. Diabos, dali a alguns minutos seria apenas um maldito cadáver também.
Ele merecia, é claro. Deveria ter a ajudado a fugir, tê-la salvo das garras de Dawn, e agora também pagaria pela merda do erro que havia cometido.
Bam, bam, bam, bam. Quatro tiros ecoaram ao seu redor. Alguém havia derrubado os mortos.
Um homem alto e sujo. A barba enorme por fazer, a camisa terrivelmente manchada de sangue provavelmente há muito tempo.
— Vamos levá-la — ele gritou.
— Não. Vamos enterrá-la aqui — Edwards berrou de volta, tirando coragem de onde não sabia que existia.
O outro homem parecia estar tão cansado que simplesmente concordou.
Outras pessoas se aproximaram. Havia uma garota em especial que parecia simplesmente desolada. Sua irmã? O doutor concluiu. Havia ouvido algo como isso em uma de suas conversas com a menina.
Não importava como, mas eles conseguiram removeram o corpo desfalecido da pequena loira do porta-malas. Por que diabos eles a colocaram ali? De uma forma esquisita parecia cruel colocá-la naquele lugar, apesar de estar morta. Ele não quis seguir o pensamento.
O primeiro homem a carregou sofregamente pelo caminho de volta. Seus ombros caídos como se ela fosse pesada demais para suportar, mas Edwards sabia que a menina era tão pesada quanto uma pena.
Era a dor que pesava. Sim. Ele fechou os olhos para o resto do mundo, mas agora podia ver. Uma vez fora das paredes claras do hospital ele podia finalmente enxergar.
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Rick a carregou pelos corredores. O silêncio era tão cortante que poderia machucar. E machucava.
Era como se pudesse ouví-la cantando. Aquele canto doce e despreocupado que apenas ela tinha. Daquela forma que apenas ela sabia fazer, como se depositasse fé e otimismo em cada estrofe. Quase podia enxergá-la com Judith no colo, passeando pela prisão como se o mundo fosse normal.
Lembrava-se de quando Daryl disse que ela “se foi”. Logo concluiu que ela estava morta, mas era diferente sem ter que lidar com aquilo realmente.
Tantos haviam se perdido pelo caminho, até mesmo sua esposa, mas Beth era diferente.
Beth era como uma vela em uma sala escura. Uma luz fraca, mas sempre brilhante, iluminando todos que se aproximavam de si. Matá-la foi como matar a única esperança que eles ainda tinham. A única que havia se mantido pura até o final.
Ele a depositou com cuidado sobre uma maca. Pessoas e mais pessoas pareciam aparecer do hospital. Alguns pareciam curiosos, outros até mesmo tristes. Ninguém estava indiferente. Era impossível simplesmente estar indiferente a Beth Greene.
O doutor que havia os levado até lá balbuciou algum comentário sobre limpá-la e vestí-la. Eles queriam algo digno.
Até um tempo atrás teria achado uma grande merda, uma besteira, mas vê-la tão pálida… tão… morta? Era doloroso.
Maggie já parecia mais composta, apesar de as lágrimas continuarem a correr ininterruptamente por seu rosto.
Todos queriam um momento de despedida. Era espantoso como uma menina tão pequena e cheia de vida havia afetado tanto cada um dos presentes. Mas agora estava acabado.
Eles iriam seguir em frente. Como sempre fizeram.
Quando sua vez chegou, Rick sentiu-se um idiota por estar ali. Ela estava morta, mas ele ainda assim sentia uma necessidade assombrosa de estar exatamente ali.
Rick achou estranho as roupas de Beth estarem tão limpas. Ele já havia visto pessoas serem baleadas na cabeça e a sujeira que aquilo podia fazer, mas Beth era tão frágil… Como se um aperto mais forte pudesse a quebrar em pedacinhos.
Segurou sua mão. Uma estranha sensação de calma o atingiu, apesar do momento desagradável. Ela parecia… morna?
Impossível. Ela estava morta há horas.
— Eu sinto muito — murmurou beijando seu cabelo, não se importando com o fato de estar grudento pelo sangue coagulado. Ela ainda assim continuava com seu cheiro de mel e flores do campo. Tão Beth.
Ele devia ter confiado em seus instintos. Negociar não estava entre eles.
Sentiu algo quente pinicando seu pescoço. Como uma respiração. Fraquíssima para ser audível. Estava alucinando, logo concluiu.
Abaixou seu rosto para o seio esquerdo da menina, o ouvido apertando contra o coração.
Tum...tum...tum. Um batimento tão fraco que não fosse o silêncio mortal seria simplesmente impossível de se ouvir. Estava ficando louco? Tum...tum… Mais dois batimentos fracos o provocaram.
Lembrou-se do que Shane havia dito há muito tempo atrás, parecia até ser em outra vida. Ele havia dito que a confusão, o barulho e o desespero simplesmente destruíram seus sentidos a ponto de ser incapaz de ouvir seu coração fraco e incapacitado. Congelou por um longo minuto.
— Doutor! — ele gritou tão alto que sua garganta arranhou.
Um átimo depois o doutor arruivado estava prostrado na porta, os olhos arregalados pelo susto que o grito havia lhe causado.
— Beth está viva.
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