Meus dias passam se arrastando, imaginando um dia que nunca virá. Por um erro meu, perdi tudo no qual um dia confiei. Em que um dia, acreditei poder ser a verdade de meu mundo, e é com esse mundo que hoje darei um fim. Mar, linda e majestosa, como todo o sonho tem seu despertar, meu reinado eis de chegar ao seu fim. Um fim impetuoso dominará hoje a cidade que um dia dominei.

Chamo-me Atlântida, herdeira e governanta do trono de Mar, cidade recheada em poder e supremacia divina. Sou filha daquele que o nome muitas vezes foi clamado, Netuno. Ó meu querido pai, se não tivesse deixado esse mundo, não seria obrigada a dominar e destruir essa cidade á que tanto batalharam a construir.

Para os que não conhecem esta história, direi como as últimas palavras de quem agora, é a única que governa, permanece e desfruta dos últimos segundos de Mar. Os outros moradores estão afastados da cidade, por última ordem de sua monarca. Por aqui não ser mais uma cidade segura, ou então, apropriada aos olhos dos impuros.

Lembro-me do último dia que vi Gaius, do último dia que vi meu pai, e o último dia em que pude ser uma mulher digna de meu posto. “Siga ordens”. Deveria seguir ordens, leis, por mim e acima de tudo, por todos. Meu cargo deveria ser ocupado por alguém digno e puro para saber governar sobre este mundo.

Meu dia de partida de Mar, não havia sido planejado. Estava rindo e me divertindo com todos na mesa, com todos aqueles que colocavam seus nomes a minha escolha para ser o mais novo soberano de Mar. Nenhum prendia-me a atenção por seus modos e personalidades mais do que forçados, tentando me apresentar perfeição. Nada além de embuste, grande perda de meu precioso tempo, que agora, não é assim mais tão precioso. Um de nossos empregados, porém, um de nossos garçons, estava realmente simpático. Era muito belo, e sempre disse que a mulher que o conquistaria teria uma grande preocupação por sua beleza, mas, nada além disso. Pelo menos, era o que pensava.

Estava sentada a mesa ouvindo elogios forçados enquanto brincada rodando um talher em meu prato já vazio, algo raro de se acontecer. Após pedir licença, e pelo estado bêbado de meu pai, logo pude sair daquela sala tortura. Notei que alguém chamou-me antes de sair do castelo, era um de nossos empregados, novamente aquele garçom. Provavelmente alguma pergunta mal esclarecida sobre o que gostaria para o meu banquete no casamento, que a meu ver, seria a única coisa decente e que tiraria aproveito. Mas, em um minuto, pensei que manter os modos, e não comer, nem beber nada durante toda a comemoração, demonstrando requinte, seria o mais adequado á se fazer.

Indo um pouco afastado do palácio, seus olhos de costume verdes estavam mais castanhos, de tom aveludado. Seu cabelo ruivo escorregava por sua testa. Olhou rapidamente para os lados, como se fosse algo sigiloso o que viria a dizer. Acompanhei seu medo e procurei por alguém que nos visse, e vi ao longe, na torre do castelo, em sua janela, Gaius. Bebia muito como de costume, e estava rindo e sorrindo com a mulher que amava, sentada em seu colo. Sorri timidamente com uma cena tão confortável e carinhosa após um dia tão desgastante. Fiquei feliz em saber que havia amor e felicidade verdadeiros dentro dos muros do castelo, o que até agora, jurava ser algo que só existisse fora de seus portões. O amor e a amizade são os sentimentos dos plebeus. Isso para nós nobres chama-se acordos e alianças.

—E então? –Ríspido perguntou o garçom.

—“E então”?- Repeti desentendida.

—Qual deles você escolheu?-Falou aumentando um pouco o tom de voz. “Sinto muito, mas não entendi”, comecei á dizer. Mas logo me interrompeu-Não diga não me entender! –Grunhiu- Qual deles será o novo governador de Mar?!

—Não sei, ainda não decidi. –Respondi primeiro, ganhando tempo para melhor pensar na resposta. “Pensarei melhor em minha escolha durante esta semana”, achei o mais adequado. Pedi licença e, antes que pudesse-me retirar, puxou-me o pulso, e tocou levemente meus lábios com os seus. Por mais que não quisesse, um beijo se fez presente. Emburrou alguma coisa para dentro de minha boca junto de sua língua e, só largou-me desse contado após engolir o pequeno objeto. Afastei-o rapidamente. Jamais pensaria em fazer algo como aquilo em alguém como ele. Estava um pouco arfante e tossi ruidosamente por não saber o que era que havia engolido. Olhei-o com fúria, mas, estava cansada demais para tomar uma atitude. Meu dia havia sido tão cansativo que havia me levado à exaustão?

Em pouco tempo, um sorriso em seus lábios apareceu, esboçou um sorriso cruel, intimidador, que fez com que um frio gelasse meu estomago. “O que foi, princesinha? Algo preocupa-te?” foi o que disse. Estava um pouco tonta e comecei á perder noções de espaço, desequilibrando-me momentaneamente.

—Imundo! –Gritei- Como ousa?! Sou da realeza, e tu não passas de um...-Falei entre tosses e esfregando freneticamente meus lábios com força. “’Imundo? ’ ‘Como ouso? ’ ‘Não passo de um? ’ Um o que? Um empregado? Um plebeu? Nada além disso?” Respondeu e gargalhou alto. Eu ainda tossia. Algo dentro de mim corroía-me, rasgava-me, aquilo que havia engolido machucava e fervia enquanto descia pela minha garganta, escorregando por mim. “Irei perguntar de novo e, quero uma resposta dessa vez. O que foi, princesinha?”. Ele ria, gargalhava. Enquanto eu, acabava-me em tosse.

Minha voz saia falha, e gaguejei levemente:

-O-O que...? O que foi aquilo... Que me obrigou a engolir? –Falava com as mãos na garganta como se aquilo fosse aliviar aquela ardência. Aproximou-se de mim com um olhar malicioso.

— Acalme-se, princesinha –As palavras escorriam-lhe a boca. Sua mão agarrou uma mecha do meu cabelo a rodopiando de leve. Bati em sua mão, e logo me afastei — Logo logo não vai estar mais assim tão...Altruísta...-Concluíu dando-me um olhar feroz. “O que quer dizer com isso?”, escapou de mim em um tom vazio. Murmurando com si mesmo, pude notar que estava dizendo algo sobre comprimidos e efeitos e, cheia de preocupação, logo me pus á ordenar que dissesse algo. Admirado pela minha resistência e, abrindo um largo sorriso ácido, começou á dizer:

—Quer que lhe explique? Está bem, eu explico. Assim sejam feitas as vontades de vossa alteza! –Clamou curvando-se como deboche, num riso amargo- Acha mesmo que daríamos a chance de uma mulher escolher o destino do império? Acha mesmo que deixaríamos uma mulher ser chamada de soberana –Cuspindo as palavras, riu como se houvesse ouvido a melhor das piadas.–Meu nome é Dioniso, décimo quinto rei de Thar, filho de Semele. –Gesticulou orgulhoso, virando-se de costas para mim.

—Semele? –Indaguei- A princesa Semele? –Minha voz começara a ficar rouca. Olhou-me por cima do ombro, parecendo divertido.

—Está mais pálida querida, quer um copo d’água? – Comentou rindo novamente- Sim, sou eu! Governei em meu reino por poucos anos. Era o rei, o governante, o altíssimo mais festeiro daquele reino e de todos os outros mais! –Colocou o dedo indicador diante dos lábios e fingiu pensar, andando ao meu redor- Mas sabe, meu reino era muito alegre até aquele incidente. Não se esqueça, querida. Causo intoxicação com aqueles que bebem com a minha pessoa, infelizmente.- Passou uma das mãos em meu rosto e logo tratei de afastá-la. Olhou-me insinuante, dizendo ser lindo me ver daquele jeito, á sua mercê. E prosseguiu – Por ser assim, um rei tão... Como devo classificar?

—Insano?- Falei tentando recuperar alguma força e ajeitando o corpo.

—Festeiro –Corrigiu- Acho que acabei saindo um pouquinho do meu controle, e, bem, bebi demais em meu reino. Aprendi a nunca mais fazer festivais de vinhos — Comentou se balançando.

—O que?! –Gritei- Você sabe que mesmo sendo uma divindade da festança, todos os que bebem com você partem desta vida! O que foi que você fez, Dioniso?!- Imaginando todos aqueles que beberam com ele naquele festival perderem a vida, percebi que, com aquele que estava na minha frente, jamais teria qualquer segurança.

—Pois é, eu também não sei o que me deu. -Falou passando as mãos no cabelo- Acho que estava bêbado.

—Que irresponsabilidade absurda! -Gritei enfurecida.

—Dei-me um tempo, princesinha, depois disso nunca mais teve festival nenhum lá -Falou caindo na gargalhada.

—Imundice! –Abominei.

—Como ousa chamar-me assim?! Continuo sendo um Deus!

—Não me importa. Não me importa!- Apontei a ele – Um monarca que não cumpre suas responsabilidades não tem merecimento de reconhecimento por seu posto! – Ele abriu a boca para falar algo, mas vi que a voz morreu em sua garganta. Sentia-me cansada mas, nem que estivesse morta, deixaria de pensar daquela forma. – Não importa o que diga, Dionísio, ou o que um dia foi seu posto! Não passa de um insolente desalmado e, acima de tudo, tirano! –Olhava-me com a boca aberta, parecia que nunca haviam dito algo assim.

—Mas...

—Mas nada! Suma de minha frente! –Falei fazendo um sinal com a minha mão dizendo para ele desaparecer de minha vista, como se fosse para eliminá-lo. Passando por ele, sabia que ele me observava enquanto afastava-me. Olhei para seus olhos um último instante, fitando-o com frieza e suspirando pesado. –Se me der licença, tenho meus deveres de “alteza” – Disse voltando a andar. Olhei para o castelo e, por um momento, meus olhos percorreram a janela onde estava aquele casal. Já não estavam lá, espero que não tenham visto nada do que ocorreu.

—Com licença, majestade... – Falou um soldado entrando pela porta de minha sala de estudos.

—Sim? –Olhei para a porta me desprendendo um pouco do que escrevia naquele caderno com pena e tinta- “Majestade”, Gaius? Desde quando costuma chamar-me assim? –Falei voltando a atenção ao meu caderno e retomando a escrita.

—Atlântida... Bem.–Ele gaguejava.

—O que houve, Gaius? –Perguntei ainda escrevendo.

—É que, bom...-Olhei-o com o rabo dos olhos. Alisava nervosamente a nuca, dei um suspiro longo, mais de cansaço do que de desgosto. Esfreguei meus olhos com a mão esquerda enquanto colocava com a direita a pena da mesa. Apoiei meu rosto com ambas as mãos, e dirigi-lhe total atenção.

—E então?

—Não é algo fácil de falar Atlântida! Se você estivesse no meu lugar estaria pior! Já imaginou se fosse eu o comprometido e estivesse flertando com um dos empregados do castelo?!- Ele arregalou os olhos, tinha dito sem pensar. Fechei meus olhos e suspirei, aquilo realmente era o que ele pensava, ou qualquer um que visse pensaria. Novamente esfreguei meus olhos, agora com ambas as mãos. Estava cansada e sonolenta, e ainda não havia terminado meu trabalho mesmo sendo tão tarde da noite – Desculpe, Atlântida. Sei que é injusto com você fazerem isso e...

—Não — O interrompi. Levanto-me e vou em direção á uma estante que ficava ao lado daquela escrivaninha. Procurei entre alguns livros até encontrar o que procurava. Fiquei na ponta dos pés para puxá-lo da prateleira – Não é injusto — Peguei o livro e abri-o ao meio, lendo suas escrituras.

—Como assim? Agora concorda com isso? –Questionou estático, mais um suspiro cansado de minha pessoa.

—Não mas, infelizmente, não há o que possa fazer sobre isso. –Sentei-me à mesa e comecei a ler o que continha no livro, fazendo com que o meu dedo indicador passasse junto aos meus olhos pelas palavras para que não me perdesse da leitura, parando em alguns momentos para escrever mais algumas coisas naquele caderno.

—Então, se aceita isso, por que estava flertando com o garçom? –Senti o tom de confusão em sua voz. Tive uma vontade insana de bater naquela mesa e gritar em plenos pulmões tudo o que estava preso em minha garganta desde aquela tarde. Vê-lo achando que deixaria meus deveres com o meu povo de lado por algo tão absurdo como amor a primeira vista que é algo que não acredito. Ele deveria saber que não era assim! Mas contive-me, tomei todo o ar que pude e soltei-o com calma, mantendo minha paciência. – Atlântida?

—Sim, sim, estou ouvindo. — Falei dirigindo-lhe atenção – Só que

—O que é isso em seus braços, Atlântida?- Exclamou

—O que? –Indaguei, estava com uma fisionomia séria e irritada no rosto.

—Que droga é essa nos seus braços?! –Berrou apontando para meus braços, que estavam cheios de feridas brilhosas. Aquilo tinha aparecido á algumas horas após o incidente durante a tarde. Puxei mais as mangas de meu vestido, tinha sempre o costume de deixa-las enroladas quando sozinha, e por descuido meu, não as puxei quando Gaius chegou à sala. – Atlântida-Me chamou com peso na voz – O que está acontecendo?– Senti meus olhos encherem d’água. Mesmo com o treino forçados das tropas, com os grandes preparativos para o casamento, mesmo estando tão cansado, perguntava-me se estava bem sempre que podia, assim como eu á ele. Ainda não havia escolhido quem seria o nome governante de Mar, mas os preparativos já estavam em andamento desde antes de conhecer o representante de cada província. Continuava calada, olhando para o caderno a minha frente, minha atenção estava totalmente vidrada em segurar as lágrimas que se acumulavam em meus olhos – Atlântida...-Chamou-me novamente, sequei os olhos com as mangas do vestido, e o olhei esboçando um sorriso fraco. O casamento, aquele beijo forçado e as palavras de todos esperando a melhor escolha de minha parte estavam acabando com a minha resistência. – O que houve?

—Só estou cansada –Sussurrei. Minha garganta ainda não estava dolorida. Conheço Gaius desde minha infância. Fomos criados juntos e, sempre que podíamos, fugíamos de nossas famílias para assistir o treino dos soldados do castelo. Até o dia que pegaram a gente. Era um dia de verão e, estávamos escondidos atrás de um dos arbustos do quintal, assistindo a marcha dos guerreiros no pátio até que o chão começou a se afastar de nós. O comandante pegou-nos pelas vestes e levou-nos até os soldados. Todos ficaram paralisados momentaneamente e, ajoelharam-se á mim mostrando fidelidade á vossa alteza. O comandante perguntou-me o porque de tal interesse e explicamos o quanto ficávamos encantados por tal firmeza e, á partir de então, passamos á frequentar os treinos como aulas, aprendendo cada detalhe que podíamos. E, assim que os anos se passaram, eu me tornei alvo maior das exigências do povo e, logo, uma mulher que treina na elite da defesa pública não parecia trazer confiança ao povo. Era o que dizia meu pai. Gaius, porém, subiu ao posto de general da guarda real.

—Cansada? Pare de mentir pra mim, Atlântida. –Respirei pesado mantendo-me calada. Logo, se agachou ao meu lado e olhou em meus olhos – Atlântida...-Ele me puxou o braço direito e arregaçou a manga devagar. – Quem fez isso com você?- Falou voltando a me fitar.

—Foi no treinamento. -Menti.

—Treinamento? –Ele falava baixo e assenti – Que treinamento?

—Treinamento de camuflagem.

—Mesmo? –Disse pedindo certeza, assenti novamente.

—Foi o único treino que fiz ontem sem que meu pai soubesse. — Prorroguei a falsidade.

—Entendo. –Falou, levantando-se e se apoiando na mesa, dando um suspiro longo e mantendo os olhos fechados. Gaius atualmente está no início de sua fase adulta, assim como eu. Sua pele era um tanto bronzeada e seus cabelos eram num castanho escuro quase morto, em um firme cacheado. Nossos corpos haviam mudado muito desde que nos conhecíamos, afinal, nos conhecemos muito novos. Sua mãe era uma das muitas criadas do meu palácio quando ainda era muito pequena. Não tendo ninguém á quem deixar o filho pequeno, levava-o no colo pelo castelo, assim como minha mãe levava-me na época. A única diferença entre minha mãe e nossa camareira era, além dos detalhes físicos bem opostos, era que a camareira, não abandonaria o filho por nada neste mundo.

Assim como nossas mães, tínhamos aparências bem diferentes. Enquanto o corpo de Gaius apresentava alguns músculos bem definidos e sua altura fosse a média de homens altos, eu era um tanto pequena. Minhas medidas nunca foram totalmente exemplares, sendo elas sempre mais largas do que deveriam. Meu cabelo sempre foi branco puro com uma tonalização azulada em suas pontas. O rosto esboça algumas manchas desde a maçã do rosto até o final têmpora em azul e verde. Essa parte do meu rosto em questão, tem o tom mais claro que o resto de meu corpo, num tom quase porcelana.

Não havia puxado quase nada da aparência de meu pai, tirando os mesmos olhos brilhantes e azuis. Era o atual soberano de Mar e expunha isso fortemente em suas vestes sempre gritantemente pesadas e caras. Sua barba ia até metade de sua barriga, em um grisalho morto, assim como os fios de seu cabelo longo. Era alto, e sempre andava acompanhado de seu manto e cajado. Seu cajado tinha a função espiritual de seu reinado.

Função espiritual é o objeto que marca seu reinado em Mar, mantendo a vivacidade dos oceanos intacta, ou seja, causando uma reação em todos os mares quando usado. Sempre que o cajado de meu pai batia no chão, uma onda se quebrava em alguma parte do mundo. O sucessor do trono, não podia tornar-se governante de Mar, enquanto não descobrisse o seu, é uma das leis de Mar. E eu, ainda não descobri o meu.

—E os treinos, Gaius? Estão muito cansativos? –Disse voltando à atenção ao livro e o caderno.

—Um pouco mais puxados que o normal, mas nada que eu e as tropas não aguentemos. — Falou olhando para o que escrevia. Murmurei em resposta.

—Tem certeza que não poderá ou não quer voltar?

—Querer não é poder. –Retruquei.

—Maiores dominantes de poder em Mar que você e seu pai, não existem. — Dei um riso irônico.

—“Maiores dominantes de poder” e nem podemos escolher com quem iremos casar. – Retruquei ríspida.

—Ah! E voltando a este assunto, – Falou voltando a fitar-me – O que achou?- Não respondi, ignorando a pergunta insolente. Ele suspirou. -Já sabe o que quis dizer.

—Não, não sei, Gaius! Quer saber sobre quem escolhi ou sobre o garçom? Quer saber como eu sinto-me ou como irei agir? Afinal, são e sempre serão coisas bem distintas enquanto ainda me manter em meu cargo como realeza. –Respondi.

—Quero saber de tudo.

—Ainda não me decidi em nada.

—Vai adiar isso até ser obrigada a escolher um, não?- Ri baixinho.

—Já me conhece tanto assim?- Ele sorriu.

—Acho que sim.

—E se, conhecesse-me tanto assim, saberia que não quero nada com o garçom. –Comentei em ênfase.

— Então, explique-se.

—Não foi o que pareceu. Por favor, sem conclusões precipitadas.

—Sim, sei disso. Mas então, o que aconteceu?

—Ainda não sei, mas ele me fez engolir alguma coisa que ainda não sei o que foi. Algum tipo de comprimido ou cápsula, pelo o que ele disse e pareceu.

—“Comprimido”? –Falou pensativo.

—Sim.- Fitava-me curioso, enquanto escrevia –Terminei. –Comemorei baixo, fechando o livro e deixando a pena no centro do caderno. Levantei-me e fui levar o livro para a prateleira- Ainda não sei para o que era, só sei que...-Disse ficando na ponta dos pés para novamente alcançar a prateleira, olhei para trás e fiz cara de rabugenta- Dava pra ajudar?

—Claro–Falou sorridente, pegando o livro e guardando-o.

—Obrigada.

—E o que mais?

—Não sei para que servia.

—Até agora nenhuma... –O interrompi.

—Mudança física, mental ou mágica? Não, nenhuma- Lembrei que só havia ficado um pouco cansada após engoli-lo e das leves manchas em meu corpo. Tirando isso, tudo estava em total normalidade. Suspiramos de cansaço, parecia que ele não estava dormindo muito bem, estávamos frente a frente. — Gaius...- Chamei, enquanto levantava o olhar do chão em encontro ao meu – Vá dormir.

—Mas hoje é dia da minha guarda noturna.

—Há quanto tempo está na noturna?

—Mais de uma semana, Atlântida. Mas, não estou cans...-O interrompi novamente.

—Precisa dormir e ponto final.

—Mas, Atlântida...

—Isso é uma ordem! –Falei grossa, tirando seu sorriso por um tempo e me fitou sério- Vai ir contra a palavra de sua superiora?

—Não, Majestade...-Respondeu

—Ótimo, vá dormir. Amanhã irei, pessoalmente, assistir aos treinamentos. Quero que esteja disposto assim como os outros, quero resultados. — Falei indo em direção à porta, ele deu um fino sorriso.

—Sim, senhorita. — Aceitou saindo da sala e fechando a porta atrás de nós, saímos em direções opostas.

—Ah! E antes que me esqueça, — Disse virando-me para ele- Como sua esposa está?

—Está ótima, obrigado por me perguntar. –Dei um sorriso doce vendo seu rosto iluminar de importância- Achamos muito nobre o gesto de deixá-la em casa pela gravidez e, ganhando ainda mais que seu salário esperado. –Ajoelhou-se á minha frente- Sou eternamente grato, Majestade.

—Vocês não são meus aliados, muito menos meus empregados. São meus amigos, assim como poucos, muito poucos, dos trabalhadores deste castelo. Era o mínimo que poderia fazer em recompensa a sua lealdade, soldado. –Declarei. Despedimo-nos e seguimos andando.

Olhei para trás por um momento e o vi se distanciando. Abri minhas mãos à frente de meu corpo e concentrei-me. Uma neblina azulada, emanecente de luz foi se formando e indo em direção a suas costas. Pareciam o abraçar, envolvendo-o e adentrando seu corpo de forma sutil á não ser percebida. Estava recolocando suas forças, repondo sua força vital. Assim que achei o suficiente, abaixei as mãos. Dei um sorrisinho por isso, e fui em direção ao meu dormitório. Enquanto caminhava, cambaleei e senti uma queimação insana em meus braços e pernas. Sentia-me fraca, ofegante. Apoiei meu corpo contra a parede, escorregando por ela e parando sentada no chão. Puxei meu vestido e suas mangas e notei que as manchas agora estavam presentes em minhas pernas também, se aprofundando em minha pele, queimando minha carne e tornando sua luz ainda mais forte. Gritei rouco e cobri novamente meu corpo, me encolhendo em um canto do corredor, chorando em prantos enquanto mordia o vestido para evitar que os demais notassem.

Assim que a dor diminuiu e se tornou novamente uma ardência levemente constante. Respirei fundo e levantei-me, com as pernas bambas. E voltei a caminhar em direção aos meus aposentos.

Haviam dois guardas a frente do saguão que dava ao meu quarto. Cumprimentei –os como de costume e, fui até uma mesa que ficava junto a parede. O pequeno saguão tinha o piso de mármore lustrado e as paredes com papel desenhado de cor vinho. Uma mesa posicionada abaixo da janela juntamente com um vaso contendo uma orquídea azul era a única decoração do ambiente. Notei que a planta não estava muito bem, estava um pouco murcha. Reuni a força que tinha, mesmo com a dor que sentia e fiz o mesmo que fiz com Gaius. Posicionei minhas mãos a cada lado da flor, mas, ao invés de uma fraca neblina, simplesmente, fiz um movimento para cima, como se fosse para que seu perfume subisse até minhas narinas para prová-lo. E no momento que subi as mãos, foi se deformando. Ficando com uma cor mais viva e com pétalas mais delicadas. Respirei fundo para sentir seu perfume adocicado, e só então notei ambos os guardas, um a cada lado meu, boquiabertos pelo meu feito. Olhei pela janela, a lua estava linda e emitia uma forte luz sobre Mar. Aquela paisagem era maravilhosa. Puxei fortemente o ar para me relaxar e ter uma noite de sono tranquila, tentando acabar internamente com o incomodo daquelas manchas fervescentes. Segui para o quarto. Estava exausta, e precisava dormir. Deite-me na cama olhando o teto. Por mais que estivesse cansada, praticamente exausta, meus pensamentos não ajudavam a cair no sono. Revirei-me inúmeras vezes para encontrar um lugar confortável naquela cama imensa, mas, nada de um sono, nem sequer um cochilo. Acostumei-me com o tédio e falta de paz para um sono tranquilo então, fiquei admirando as sombras do quarto dançarem pelo teto escurecido.

Acordei depois de um tempo. Pareceu que havia caído no sono sem notar. Olhei para um grande relógio em minha parede, nele dizia que ainda era tarde da madrugada. Então, encolhi-me na cama para ver se consegui juntar um pouco de sono com o estado sonolento que deveria estar, mas já estava totalmente desperta, sabia que isso não iria acontecer. Levantei-me e fui até a sacada, abrindo-a. A brisa gelada juntamente com aquele céu escurecido congelou meu corpo. Aquilo me fez ficar ainda mais acordada, como num banho de água fria. Ver as águas dançando sobre Mar era uma imagem linda, majestosa, aconchegante.

Mar havia sido construída há milênios, mas ainda estava intacta. Vivíamos á milhões de metros da superfície. No centro da cidade, tínhamos uma torre. A torre dos guerreiros de pedra. Nela, ficavam guardados todos os objetos espirituais desde o primeiro governador de Mar. Sendo a verdadeira fonte e essência de poder de Mar. No segundo andar daquela torre imensa, existiam os guerreiros de pedra. Figuras dos primeiros combatentes em nome de nosso lar. Eles eram criaturas imortais que, sempre que meu pai ou governante acordava-os, lutavam vorazmente por Mar. Eles eram nossa certeza de vitória. E, no terceiro e último andar da grande torre tínhamos o Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento de Mar. Da última ves que conferi seus experimentos, tinham criado o metal mais resistente já criado. Recomendei que só usasse-o, porém, para a produção de armaduras, somente. Acima de Mar, existia uma enorme cúpula de metal, coberta de enormes engrenagens. E, na entrada de nosso reino, duas enormes figuras armadas guardava o portão normalmente fechado. Vivíamos envoltos em água, sim. E, aquela cúpula, somente servia para proteção. Além de sua proteção metálica, possuía três feitiços sobre ela: Fortarium – Feitiço também existente no castelo, dando força suprema ao objeto enfeitiçado. Mendacium – Era o feitiço do portão. Aqueles impuros eram vistos pelos olhos dos vigilantes que ficavam de guarda e, infelizmente, eram brutalmente mortos, sem qualquer piedade. E Coeliz – Tornava a cúpula transparente para quem a visse de dentro para fora. Podíamos ver inimigos se aproximando á distância.

Entre todo aquele silêncio, vejo alguém andando no jardim do palácio. Eram quatro pessoas. Um estava com vestes requintadas e seu manto balançava, mostrando o brasão de outro reino. Um símbolo parecido com um dragão esbravejando quentes labaredas. Não reconhecia aquele brasão. Junto á ele estava um rapaz esquio e jovem, com cabelos negros. Um homem velho andava ao lado deles com passos decididos. Ele tinha grandes músculos e algumas cicatrizes que reluziam ao luar, sendo muito mais velho do que o rapaz. O último membro do grupo era uma mulher de busto farto e cintura fina. Seu cabelos eram tão pretos quanto suas vestes e acabavam no fim de sua cintura. Eles iam em direção á porta do castelo, quando o jovem com o brasão olhou para mim. Parando em um momento, chamou os demais companheiros comentando alguma coisa enquanto olhavam-me. Ele apontou para mim e vi que seus lábios se moldaram dizendo “Cace-a”. A garota se desdobrou no chão como se fosse se tornando uma pequena serpente negra, se enrolando como se preparando para dar um bote. E, quando pulou ganhou tamanho. Seu corpo era de um dragão, longo e coberto de escamas cor de carmim. Mantinha seu equilíbrio no ar mesmo sem a presença de asas, por seu corpo esquio e longo balançar-se nervosamente sobre os ventos vindos do norte. Era como um dragão chinês de cor avermelhada. Abriu rapidamente a boca para abocanhar-me, corri para dentro do quarto e fechei a janela. O animal bateu contra a superfície que estremeceu, mostrando como uma película dourada em torno do castelo inteiro, nossa proteção de magia. Balançou a cabeça como que atordoada olhando para baixo, para o homem de capa. O rapaz apenas assentiu. O dragão olhou rapidamente para os lados como que procurando a melhor opção para adentrar ao fortaleza. Começou a rastejar pelas paredes do castelo sumindo de minha vista. O homem de capa olhava para mim enquanto falava algo para o homem velho. O homem por sua vez assentiu e deu um grande salto. “Quebres enviquitum”, pensei comigo, uma magia poderosa que fazia ficar extremamente leve ao ar, e estritamente forte em contato com outra superfície. Pulava formando crateras ao encostar-se ao chão, aterrissando em minha janela. Batia contra ela, descontrolado. Fazendo-a estremecer, mas ela não cedia, uma magia protetora a mantinha rígida. E então, socou a parede e vi que seu braço atravessou-a, quase alcançando-me. Arregalei os olhos e corri pelos corredores, “Alguém desligou o escudo de segurança!”. Tudo o que ouvia era o barulho dos meus pés descalços batendo ao chão, minhas feridas fritando em meus membros, o alarme de invasão e minha respiração ofegante. Tudo isso em uma fração de segundos.

—Alteza? Onde vai?! Precisa ficar aqui!–Advertiu nervosamente um dos guardas

Não respondi. Desci rapidamente as escadas, segurando minha camisola esbranquiçada e segui apressada para o porão. Cheguei a grande porta de metal e loucamente coloquei o código. A porta pesada se abria devagar, nem esperei que ela abrisse-se totalmente para entrar. Parei por um momento ao ver que, a frente do enorme diamante azulado e esverdeado que agora não emitia luz alguma por ter sido desligado, estava o rapaz alto e esquio de alguns minutos antes. Mas, como ele entrou aqui tão rápido?! Ele sorriu, “Da mesma forma que entrei em sua mente” ele respondeu. Estremeci. Ele pode ver meus pensamentos?

—Sim, eu posso. –Respondeu em voz alta. E então, um estronco, e sinto uma forte pancada em minha cabeça que, logo, me fez cair no assoalho de metal. –E agora, vou te mostrar como uma noite pode ser escura. –Falou abaixando-se próximo ao meu rosto. Vi que atrás dele apareceu o grande homem, provavelmente ele me deu a pancada. Logo após do dragão, batendo algumas vezes nas paredes. Deu um giro no ar e, jogou-se no chão dando forma a mulher que colocou as mãos na cintura.

Levei aquilo ao qual havia dito como ameaça e, em um salto, coloquei-me de pé, me afastando. Juntei minha pouca força e puxei fortemente o ar preenchendo meus pulmões. Olhei fria ao homem como que aceitando o desafio. Ele logo fez um sinal. A dama atendeu ao chamado como um animal domesticado e novamente se transformou naquele ser esquio pulando rapidamente para abocanhar meu braço. Desviei rapidamente e a segurei pela cauda, a puxando e estalando todo o seu corpo no assoalho frio. Batendo fortemente todo o corpo, permaneceu ao chão, desacordada. Um jovem e um homem velho. O homem velho encheu os pulmões e socou o chão formando um grande estrondo e desnivelando o piso claro. O impacto fora tão forte que me jogou contra a porta entre aberta. O homem pareceu rugir e notei que a mulher não estava mais ao chão. Levantei-me rapidamente quando, usando sua cauda, bateu fortemente em minhas costas me fazendo cair de joelhos diante ao homem velho que levantou ambas as mãos para me atingir. Contornei o movimento e agarrei-me em seu braço, subindo até sua cabeça. Concentrei meus mantras e uma esfera brilhosa se formou em minha mão, que logo se colidiu com a cabeça do homem que caiu no chão tonto. Olhei ao redor mas antes que pudesse achar a mulher, passou por debaixo de meu corpo, me erguendo com seu corpo aos ares e me jogando da altura de até onde o teto alcançava, me chicoteando daquela altura. Caída no chão, fiz um circulo rodando as mãos, concentrando energia. Assim que se aproximou novamente, atirei em seu abdômen, fazendo-a grunhir de dor. O jovem entendeu o chamado da garota e, se tornou vários. Existiam no mínimo seis dele por toda a sala. Olhei para as figuras duplicadas tentando adivinhar a verdadeira. Comecei á se sentir tonta e, vejo o homem velho em minha frente. Segurando meu ombro, me soca fortemente o estômago. Tusso ruindosamente,um pouco curvada, apoiada em uma das paredes, quase vomitando no piso torto. Enquanto estou naquela posição, seu braço envolve meu pescoço e sou jogada ao chão. Comecei á me debater pela falta de ar, tentando inutilmente afastar seu braço de minha garganta. Colocou-se em minha frente, segurando meu pescoço e socando fortemente minha face diversas vezes. O jovem afastou-o. Eu não desisti. Puxei os pés do homem velho com os meus, fazendo-o cair no chão e levantei-me. Estava cansada, ofegante. Tentei correr em direção á porta mas, toda a sala estava oscilante. Senti uma mão no meu ombro, concentrei-me novamente e fiz a esfera poderosa, virando-me e pressionando contra o abdômen do malfeitor. Porém, assim que o atingiu, se desfez, sem efeito. Estava perdendo. Eu realmente estava? Minha magia, o que está acontecendo com ela?!

A mulher abocanhou meu braço me fazendo rodopiar, e caí de joelhos no chão gelado. Olhei para cima, clamando misericórdia. O homem socou fortemente meu peito, fazendo-me escorregar até atingir o outro lado do ambiente, chocando o corpo com a porta, agora, escancarada. Fiquei olhando-os com respiração ofegante e visão embaçada. O jovem era o único que se aproximava. Agachou-se ao meu lado e colocou a mão em meu queixo. Tentei bater em sua mão e vi-o com uma fisionomia preocupada. “Você não irá morrer.”, declarou em minha mente. Eu tentei virar o rosto, contudo puxou-me de volta á posição inicial. O homem tinha os olhos tão negros como a própria escuridão. Abriu a boca e como num grito abafado, uma matéria viscosa preta começou a escorrer de seus olhos, juntamente com sua boca. Aquela substancia começou á subir meu corpo e ele começou á mostrar traços de insanidade, tremendo a cabeça, rindo enquanto vomitava aquilo sob mim. Debatia-me molenga, enquanto aquilo criava uma espécie de casulo ao redor de meu corpo. Começou a dominar, subia meu corpo e começou á pressionar meus pulmões. Assim que abri a boca para tentar puxar algum resíduo de ar, entrou-me pela boca. Tentei gritar, mas, aquilo desaparecia com a minha voz. Sugou meu nariz e já tinha engolido meu cabelo. Tampou o olho esquerdo, o direito. Apagava minha existência. E então, desacordei.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.