Chá verde

11 XI. A Sra. Dushkin


Kátia Stepanov foi nos visitar na aconchegante casa campestre dada por ela e o seu marido ao bebê que estava a caminho. Eu não estava satisfeito, mas a verdade tinha que ser dita, o meu pequeno apartamento não tinha espaço para uma família, o bebê já havia ganhado muitos presentes dos avós, até a minha mãe tinha dado um enxoval feminino, alegando ter certeza que se tratava de uma menina. Eu preferiria esperar para ter certeza.

A primeira visita que nós havíamos feito para conhecer o lugar foi realizada numa quinta-feira. A casa era bonita e mobiliada, olhar aquela cena era como ser visita na casa de alguém, Anna até o momento estava com o semblante sereno, mas quando ela pusera os olhos no quarto destinado ao nosso filho. Eu soube que a minha mulher havia sido conquistada. Brilhantes esferas azuis demonstravam encantamento. Apesar da minha relutância em me mudar, começar um casamento com uma discussão não era o que nenhum de nós queria, sendo assim, eu engoli o meu orgulho e não me opus em aceitar o presente.

A mudança foi rápida, pois os móveis que eu usava pertencia ao dono do apartamento. Apenas alguns objetos pessoais como porta-retratos, livros e quadro, as roupas que eu tinha. Anna fez questão de doar a maior parte e como ela conhecia os meus gostos, comprou muitas roupas e sapatos para mim, Anna finalmente conseguiu organizar as roupas que estavam na casa dos seus pais com as roupas que estavam em meu antigo apartamento em um só lugar.

A nossa primeira noite foi em um novo lar foi em um clima envolvente, musica baixa ao fundo, iluminação dimerizável, eu estendi a mão em um convite para a dança, ela aceitou a puxei pela mão e a trouxe para perto ao ponto de os nossos narizes se tocarem, porém, eu não a beijei, coloquei a mão direita atrás do seu delicado ombro, enquanto Anna colocava a mão esquerda sobre o meu ombro, a mão que estava livre eu entrelacei nossos dedos formando duas letras C.

Movi o pé direito para o lado em um movimento suave, sendo seguido por Anna, após dar o primeiro passo com o pé esquerdo, arrastei outra vez o direito até os dois se encontrarem. Fiz os mesmos movimentos na direção contrária.

Guiei Anna em todo o processo, ora nos afastava, ora nos aproximava, descia a mão pelas suas costas em um cálido carinho, os nossos corpos seguiam o movimento sem pressa.

Quando novamente a trouxe para perto, toquei em seus lábios, decidido a beijá-la.

Eu queria fazê-la minha.

A nossa conexão era mútua, uma troca de olhares revelava todas as nossas intenções, aquela mirada selvagem silenciosamente me dizia o quanto Anna me queria também.

{...}

Instalados na casa nova, a minha mulher usou o seu tempo livre para decorar o quarto da nossa filha, as paredes brancas foram ganhando formas ao receberem tons de bege, adesivos de paredes, os quadrinhos de arte francesa se parecem com um desenho 3D. A luminária de corda e o tapete trouxeram um complemento bonito ao espaço. Anna espalhou algumas pelúcias pelo quarto como um urso, elefante e girafa como decoração.

Os móveis do berço, cômoda e poltrona de amamentação foram feitos sob medida para evitar que o bebê esteja exposto a muita luz ou a corrente de ar. Anna escolheu manter o berço longe da janela que recebeu uma leve cortina que permitia a entrada de luz natural para facilitar no processo de amamentação.

Foi divertido ver e participar da montagem do quarto do nosso filho.

Ao notar a sua abstração eu continuei a observá-la pegar a girafa de cima da poltrona.

Onde seus pensamentos estavam?

Fui até ela e levantei o seu queixo.

— O que há?

Ela mordeu os lábios antes de responder.

— Você quer que seja um menino ou uma menina?

Ah! Era isso.

Do jeito que ela era poderia pensar que eu queria um garoto, por ser segundo algumas pessoas a preferência da maioria dos homens.

Mas a verdade era que eu não me importava se fosse menino ou menina, eu só queria um bebê saudável.

— Eu não tenho escolha.

Anna não gostou da minha resposta.

— Como não? Ela levou as mãos ao ventre.

— Anna, eu só quis dizer que não tenho preferência, o que vier será bem-vindo e amado.

— Nenhum palpite?

— Não.

Ela me fitou de sobrancelha levantada.

— E sobre o nome?

— Estou aberto a sugestões. Segurei em seus quadris.

— Não vale. Ela franziu o cenho.

— Porque não?

— Nós temos que escolher juntos.

— Claro.

— Então me diga um nome que você goste.

— Masculino ou feminino?

— Um de cada.

— Tudo bem, deixa-me pensar por um momento.

Nomes.

Pensei no peso do nome na vida de alguém em como nós éramos reconhecidos por ele, então eu disse.

—Isaac.

— E se for menina?

— Abigail.

—Isaac e Abigail. Repetiu Anna como se saboreasse o som da pronúncia de cada nome.

— Em quais, você pensou?

—Damir e Ekaterina.

Bons nomes.

— Gostei de Damir.

— E eu de Abigail.

Segundo mês

As náuseas que se mantiveram ausentes no primeiro mês gestacional chegaram com o vômito, à fadiga aumentou, Anna também sentia uma sensibilidade anormal nos seios.

Terceiro mês

Com a diminuição das náuseas e com autorização médica, Anna voltou a se exercitar moderadamente, eu a acompanhava nas caminhadas.

Quarto mês

O feto já se movia e a minha mulher começava a sentir os seus chutes, o apetite dela ficou apurado novamente, no quarto mês nós descobrimos que a vovó Evelyn estava certa ao afirmar se tratar de uma garotinha. Anna se emocionou ao saber da notícia e eu não me contive também.

Quinto mês

O cansaço de Anna aumentou, a barriga começou a pesar e ao longo do dia eu sempre oferecia algum líquido, ela também evitava ficar de pé por longos intervalos entre os repousos, ela passou a dormir pela parte da tarde.

Sexto mês

As dores se tornaram mais intensas principalmente nas costas, devido ao peso da barriga. O repouso de tornou fundamental.

Sétimo mês

A nossa filha já respondia aos estímulos de som e se mexia mais do que nunca, eu passava horas ao lado de Anna me comunicando com a minha garotinha, a chamava de filha, dizia que estava ansioso para vê-la e pegá-la em meus braços. Os tornozelos e pés de Anna inchavam, eu aprendi a fazer massagem para aliviar suas dores.

Oitavo mês

O bebê já não se movimentava tanto, por falta de espaço, e mede em torno de 45 cm e pesava 2,5kg. Foi o mês mais difícil para Anna que mostrava dificuldades para dormir e as contrações vieram a ser mais fortes.

Nono mês.

A minha corada Anna estava deitada em meu colo, eu acariciava os seus cabelos loiros de maneira terna. O rosto dela estava redondo com as maçãs proeminentes, como o ventre estendido, na maioria das vezes ela usava vestidos soltos que lhe deixavam confortável, Anna já estava no oitavo mês de gestação e havia ganhado cerca de 10 quilos.

O corpo estava mais robusto, os seios maiores, eu havia notado mais não ousei comentar nada. Eu achava que ela estava linda com aquele barrigão de grávida, todavia, mulher era algo que se deve ter cautela ainda mais em situação de gravidez, os hormônios, a sensibilidade. Tudo tornava a situação delicada, eu não queria fazê-la chorar por uma palavra mal interpretada.

Apoiei a mão sobre o seu ventre volumoso, suas mãos foram para cima da minha.

Nosso bebê estava saudável, a saúde de Anna estava ótima...

— O que está pensando?

Olhos curiosos me fitavam ansiosos.

— Em nossa menina.

Suas esferas brilharam e ela sorriu abertamente.

— Nossa amada Abigail Stepanov Dushkin.

{...}

No final de setembro e início de outubro quando o clima em cores outonais apareceu. Eu lia um livro sobre pais de primeira viagem com Anna deitada em meu peitoral, o silêncio era aconchegante. Eu alternava entre folhear o livro e acariciar os longos cabelos loiros de Anna que estava sonolenta ao meu lado, ela se mexeu para se levantar quando eu vi um líquido transparente escorrer entre suas pernas.

A minha princesinha iria nascer, eu estava agitado e emocionado.

Dirigir mais rápido do que o meu normal, Anna se mostrava forte, mas eu sabia que ela estava sendo atingida pelas dores de parto. Então, redobrei a atenção na condução.

Às 17h00min horas de um dia de primavera o som de um choro forte vindo de uma recém-nascida extremamente rosada enchia aquela sala do hospital de amor. E sim. Eu chorei ao vê-la, a segura-la e eu não estava sozinho, Anna chorava de alegria também.

O meu coração parecia aumentar de tamanho pela pessoinha que acabou de nascer.

Entre os tombos e tropeços que eu tive que enfrentar, de problemas pessoais, as crises financeiras, no fim as coisas deram certo. Hoje eu quase não reconheci o homem que fui antes de Anna e da nossa filha em minha vida, é claro que os nossos problemas iniciais não se dissolveram no primeiro ano de casamento, mas já tínhamos feito um longo percurso entre concessões de ambas as partes.

A nossa convivência não era das mais fáceis mas também não era das mais difíceis, Anna possuía muita paciência e dedicação àquele casamento. Ela me olhava como se eu fosse um bilhete premiado, sendo que a parte nobre da relação era ela e a nossa linda criança de olhos calorosos.

Aos 24 anos eu começava a me realizar profissionalmente no ramo da construção civil, eu finalmente havia conseguido trilhar o meu próprio caminho. — Olhei para a aliança côncava de ouro que repousava em meu dedo anelar, e por um instante me pareceu pesar mais do que os 20 quilates.

Nesses quatro anos de casamento eu me sentia acomodado numa união estável ao lado da minha bela e dedicada esposa, grato por tudo o que havia me acontecido nos últimos sete anos. Olhei com amargura através das persianas a bela vista do distrito de Basmanny, eu podia ver através das janelas as construções neoclássicas em frente aos gramados e bancos da antiga Khitrova Square. Eu gostava de Basmanny não era tão agitada como Presnensky o meu sogro se mostrou insatisfeito pela minha escolha mais uma para a minha coleção de coisas que eu faço que o desagrade.

A minha ascensão profissional não ocorreu como eu planejei, no entanto, eu já não dependia mais da ajuda do Stepanov, era difícil ser dependente de alguém ainda mais quando se tratava do pai da sua mulher, finalmente eu caminhava com as minhas próprias pernas e a sensação era incrivelmente boa.

Ouvi algumas batidas na porta ao dizer um “entre”, vi a figura da minha secretária Sônia Adamovich seguido de um “com licença Sr. Dushkin”, adentrava no ambiente, com mais um dos seus terninhos de cores neutras, a senhora revelava um semblante sério.

— A Sra. Dushkin telefonou agora a pouco para perguntar se o Sr. Irá almoçar em casa hoje? Adamovich inquiriu de uma maneira profissional.

A bela Sra. Dushkin possuía uma agenda profissional organizada, amava a profissão de bióloga marinha. Entre pesquisas de monitoramento, consultoria, artigos e materiais científicos. Ela equilibrava o amor pela profissão com o amor a nossa pedra preciosa, sua personalidade detalhista era conhecida pelo costume de confirmar a minha presença. Segundo Anna poderia aparecer pretextos que poderiam mudar os planos do dia, todavia ela conhecia muito bem a minha preferência em fazer as minhas refeições em família.

— Diga-lhe que irei almoçar em casa.

A tranquilidade do meu casamento me traz equilíbrio em todos os sentidos da minha vida. Levei minha mão em punho aos lábios como se quisesse morder o dedo indicador, eu aproveitei para pedir-lhe que me trouxesse uma xícara de chá-verde.

Adamovich na sua maneira reservada me disse um “com licença” antes de sair.

Encarei a tela do notebook e retornei às anotações iniciais do projeto de construção, no meu caderno, eu gostava de escrever as anotações a mão, era um hábito comum para mim.

Na sua maneira silenciosa a minha secretária entrou mais uma vez na minha sala, deixou o chá e saiu. Ela era competente e falava pouco, qualidades que eu apreciava.

Dei um gole no líquido morno, conferi as horas no relógio de pulso e voltei a escrever as notas, para que tudo ocorra o melhor possível e sem surpresas, é claro. Era mais um Contrato misto com a responsabilidade pela mão de obra dos trabalhadores e fornecimento dos materiais necessários para o serviço.