Chá verde

8 VIII. Bem-vindo


Nos braços de Anna eu tive um sono tranquilo ao ponto de não me incomodar com seus abraços durante a noite. Quando a alvorada terminava, deparei-me com uma Anna adormecida, eu não conseguia voltar a dormir, então, eu permaneci numa observação silenciosa da bela loira de cabelos espalhados no travesseiro. Ela parecia irreal quase como um anjo de lábios avermelhados.

Apoiei em meu antebraço para admirá-la, eu nunca teria pensado em ter intimidades com ela e tudo o que aconteceu entre nós não foi premeditado...

Em um gesto cálido eu toquei-lhe os cabelos sedosos, Anna mantinha uma respiração baixa, eu nunca havia percebido suas pintinhas quase imperceptíveis espalhadas no rosto.

Controlei a vontade de contornar a sua bonita face.

O celular de Anna começou a tocar, eu estendi a mão com o objetivo de silenciar o som, não queria que ela despertasse...

Entretanto, ela começou a se mexer, sua respiração ficou mais forte, esperei seu tempo de sonolência passar, ela deu um suspiro audível ao recuperar os sentidos e lentamente abrir os olhos.

O sorriso dela era tão bonito...

No entanto, a sua mudança repentina me pegou desprevenido.

— Algo errado?

Anna rapidamente puxou o lençol para cobrir a boca.

De tudo o que aconteceu ela estava preocupada justamente com isso? Anna era graciosa até quando não queria.

— Relaxa Anna.

Ela maneou a cabeça, se sentou, puxou as cobertas e em seguida correu para o meu banheiro, só saiu de lá com os dentes escovados.

— Melhor?

Caminhou para perto de maneira tímida.

— Bem melhor!

O silêncio chegou até nós, então ficamos os dois naquela expressiva troca de olhares, o brilho no olhar de Anna me alertava de suas esperanças.

Era à hora de falar sobre nós, esclarecer as coisas.

Mudei de posição numa mudança de postura, era à hora de falar a verdade.

— Anna sobre o que aconteceu foi...

Vi-a se achegar mais numa clara intenção de toque, sentou-se ao meu lado.

— Para mim foi especial, eu gosto de você Alek, eu acho que...

Não faça isso.

Interrompi-a desesperado, sem coragem de olhar em seus olhos.

Eu era um maldito covarde.

— Me desculpe Anna, mas eu não... Não posso fazer isso.

Anna se levantou da cama sem se importar com a sua nudez e de maneira tensa a vi procurar suas peças íntimas, encontrá-las, vesti-las para em seguida deslizar o vestido sobre o corpo.

— Anna, espere... Eu...

Ela me ignorou numa procura pelo celular ao localizá-lo no criado mudo o pegou.

— Você não precisa me dizer mais nenhuma palavra, eu já entendi. — Falou sem me olhar ainda centrada na checagem do celular.

— Olha, Alek, eu preciso ir embora, a minha mãe me ligou duas vezes e eu não a atendi. — Pegou a bolsa despercebida no canto. — Obrigada por tudo, por quaisquer coisas ou por nada.

De semblante decepcionado eu a vi sair apressadamente pela porta, eu fiquei lá atônito com a certeza de que eu havia magoado. A reação de Anna Stepanov me deixou desnorteado, tudo foi mais sério do que eu pensei.

Eu não iria procurá-la, era sensato deixar as coisas se esfriarem entre nós.

Não era fácil ter que lidar com o meu humor quanto mais com o de uma mulher, mas realmente eu não estava tendo sorte naquele dia, pois Evelyn Dushkin apareceu na minha porta em um começo de tarde fria, vestida com uma cachemira.

— Oi filho.

Fiquei em silêncio, enquanto a olhava fixamente.

— Já que não atende as minhas ligações há meses, eu precisava ao menos te ver, saber como estar se precisa de algo?

Eu sabia o quanto ir até ali havia custado para Evelyn, ela não fazia o gênero mãe carinhosa, estava mais para o estilo de mãe PHD, ela pensava saber de tudo, mas, na prática, tinha muito a aprender como todos nós.

Evelyn não admitia ou talvez não conseguisse enxergar seus próprios erros, nunca a vi pedir ajuda a ninguém nunca, ela tinha uma autonomia autoritária que influenciou completamente na minha criação.

Dei espaço para a sua entrada.

Como ação de praxe ela analisou o lugar com olhos curiosamente críticos.

— Como ver, eu ainda estou vivo e aparentemente bem.

Ela me lançou um olhar de cima a baixo.

— Você está mais magro também precisa fazer a barba e cortar os cabelos.

Sorri incrédulo ao bater continência.

— Algo mais? Perguntei irônico.

Aquela olhada cerrada era característica.

— Não precisa me tratar dessa maneira.

— Não estou fazendo nada, eu irei aparar a cabeleira.

Mostrei estar pensativo e continuei. — Talvez eu pinte os cabelos de verde também.

Os olhos dela quase saltaram da cara.

— Não está falando sério, está?

Bem que eu poderia pintá-los mesmo, mas realmente só estava perturbando-a com bobagens.

Limitei-me a sorrir minimamente.

Havia algo Evelyn não iria até ali apenas por preocupação tinha algo a mais, eis a questão: o que seria?

Evelyn correu os olhos pelo espaço mais uma vez, uma mulher que agia sempre com resolução estava hesitante?

Vamos mãe me diga o que realmente veio fazer aqui...

— Alek, você não acha que já está na hora de voltar para casa? Eu conversei com Nikolai e...

Aquele homem não merecia morar no mesmo teto que pertenceu ao meu pai que tanto trabalhou para comprar uma casa em que ele pudesse viver em paz, para no fim o seu projeto terminar sendo um covil de alguém estupidamente cretino.

Não retrocederei, eu me manteria o mais longe possível daquele cara e se a minha mãe estava incluída no pacote, sejamos realistas em encarar a verdade.

Ela deu um passo para frente e eu um para trás, o meu desentendimento com Anna me trouxe cautela, discutir com Evelyn era demais para mim.

— Não termine essa frase. — Pontuei calmo no intento de amenizar o clima. — Eu sei que a sua intenção é das melhores, entretanto, eu realmente não quero voltar a morar naquela casa, eu não sei o que você achou do meu apartamento — Fiz um gesto. — Mas eu realmente gosto desse lugar e estou feliz aqui.

A minha sinceridade desarmada deixou Evelyn feliz, ela até mesmo se aproximou de mim para afagar o meu rosto.

— Isso é bom e acalma o meu coração de mãe.

Ter desavenças com Anna e Evelyn no mesmo dia só podia ser penitência por algum pecado, era difícil lidar com o comportamento de ambas tão parecidas e, ao mesmo tempo, tão diferentes.

O que quer que eu tenha feito de errado ainda cobrava seu preço ao trazer algumas semanas depois Anna ao posto, ela estava mais séria e só me dirigiu a palavra para dizer a quantidade de litro que queria, escolhi respeitar a sua formalidade.

Era melhor assim, Anna era boa demais para mim já não bastava eu ter ficado com ela, eu ainda tinha a magoado, e se Anna continuasse a se manter nessa decisão, eu seguiria firme em respeitar a sua escolha de me ignorar.

Nós ficaríamos bem dessa maneira, ela não sabia o favor que eu a estava fazendo livrando-a da minha presença, ela merecia bem mais do que eu poderia lhe dar, não queria brincar com os seus sentimentos.

Concentrei-me no trabalho, em não ser um antissocial e a evitar as ligações de Evelyn, havíamos nos magoado demais, precisávamos nos manter afastados, quando ela aparecia casualmente em meu apartamento eu realmente me esforçava para não a expulsar porta afora.

{...}

Eu tinha que dar um jeito na minha vida e no inverno do ano seguinte me limitei a estudar para retornar às aulas de exatas da universidade, eu precisava ao menos ter melhores oportunidades empregatícias. Voltei a frequentar a universidade no segundo semestre, a boa e calorosa recepção de Anna me desarmou, depois de tudo, ela ainda esboçava alegria a me ver, estava feliz com a minha volta abraçou-me cordialmente, o toque dos seus cabelos curtos chegara ao meu rosto.

— Bem-vindo de volta Aleksandr Dushkin.

Devolvi o abraço e sussurrei.

— É Alek. — Voltamos ao nosso pequeno impasse, Anna gostava de me provocar.

Diante da minha correção, sorriu divertida ao se afastar.

— Qual será a sua primeira aula?

Ela voltava a me tratar do mesmo jeito de antes e só ali eu havia me dado conta que sentia falta da sua espontaneidade.

— Teoria da Contabilidade.

Mordeu os lábios em um gesto atípico.

— Boa sorte.

— Obrigado, eu vou precisar. — Disse meio preocupado.

Anna me olhou por três minutos, incerta, talvez com medo de ser rejeitada.

— Se precisar de ajuda eu posso ajudar.

Eu sabia que poderia, afinal ela realmente era boa com exatas uma pena não ter escolhido a área para se especializar.

Somente depois da viagem à Polinésia Francesa que eu descobri a paixão de Anna por Biologia Marinha, uma perda para o império Stepanov de Gerard e um ganho para a biota marinha.

Tive problemas para encontrá-la pessoalmente, apesar de estudarmos no mesmo lugar, não possuímos o mesmo ciclo de amizade, houve um período em que eu me vi perdido em cálculos, sem ter nenhum tipo de ajuda eficaz.

Algumas vezes eu observava de longe a interação social da loira com seus amigos, ela se comunica de maneira atenciosa com todos a sua volta, Anna atraia atenção aparentemente sem nenhum esforço, eu percebi os olhares dos caras em sua direção, eles a queriam.

— Oi Alek! Era uma colega de classe de cabelo ruivo que eu não conseguia lembrar o nome.

— Oi.

— Eu gostaria de saber se você está precisando de ajuda na disciplina?

Olhe-a surpreso, será que era tão óbvio assim que eu estava perdido?

— Ah! Valeu. Mas eu estou conseguindo me virar. — Falei com a segurança que eu não sentia. Continuei olhando em direção a Anna que sorria para o cara na sua frente.

— Ok. Se precisar...

Eu deveria ter aceitado, mas me mantive firme em dizer não.

No decorrer dos dias notei tardiamente que o mesmo loiro visto dirigindo o carro no dia em que encontrei Anna começou a aparecer com certa frequência na saída das aulas à espera dela.

O jeito que ele a fitava como se comportava era como se quisesse marcar território. Se eu fosse nobre me manteria afastado de Anna, porém eu agia de maneira oposta, queria me aproximar dela, queria recuperar a sua amizade e de maneira calculada eu a esperei perto do seu prédio de estudo quando ela passou, acenei.

Ela me cumprimentou e como acontecia toda vez que ficávamos sem nos falar, me perguntou como eu estava, como ia às minhas aulas.

— Estou meio perdido, mas estou conseguindo manter a média.

Anna manifestou surpresa com a boca em formato de O.

— Você sempre foi um ótimo aluno.

— A temporada fora do campus está cobrando o seu preço.

Eu teria que recuperar o controle.

Anna estava vacilante em suas miradas. — Eu sinto muito Alek, te ofereci ajuda e literalmente esqueci...

Eu estar tendo problemas não era culpa dela, eu daria um jeito, movimentei as mãos.

— Você não tem...

Eu queria dizer que ela não tinha nenhuma obrigação comigo, sua vida deveria estar uma correria, ela tinha suas próprias matérias para se preocupar, no entanto, ela me interrompeu.

— Posso ir à sua casa hoje depois da aula?

— Anna você não precisa...

Pela segunda vez ela me cortou.

— Então estamos combinados.

Sorriu satisfeita diante do meu silêncio, ela beijou-me no rosto.

No primeiro dia Anna me instruiu a destacar com marcador as partes que eu estava tendo dificuldades para revisarmos, sua explicação sobre o teorema fundamental de cálculo era bem clara em suas definições principais.

Eu deveria estar louco por ter sido tão cretino com Anna, eu deveria saber que ela não era uma mulher de momentos, a definição de aprender com os erros não entravam na minha cabeça e mais uma vez eu impulsivamente a beijei e com seu consentimento a toquei.

Um erro irresistível, mas ainda assim um erro...

Eu a segurei pela cintura e senti os pelinhos do braço dela se arrepiarem contra mim. Anna estava mais calorosa transparecia uma emoção diferente quando eu a tocava. Quase como um fenômeno da ressaca em um mar furioso.

Apoiei o meu rosto no vão do seu pescoço alvo, tendo o cuidado para não esmagá-la, apesar do frio, nós estávamos suados. Anna era especial demais, importante demais para eu me aproveitar do momento, ela merecia alguém que tivesse algo para oferecer, ela merecia ser amada...

— O que está pensando Alek?

Fiquei quieto, eu não queria expor os meus pensamentos, aquela conversa poderia esperar.

— Está arrependido de ter ficado comigo de novo?

Na última vez que nós ficamos juntos não terminou de uma maneira agradável, então sua reação cautelosa era esperada.

— Não.

Falei a verdade, eu não sentia nenhuma gota de arrependimento pelo que fizemos, o problema estava em dar o próximo passo à culpa ainda me perseguia.

— Está pensando em um meio de me dispensar, não é? O azul suave dos seus olhos se tornou sólido.

Às vezes Anna era tão absurda.

— Anna...

Ela se sentou de frente para mim com o lençol ao redor do corpo.

A intensidade que mantinha no olhar me desarmou.

— Por que não quer ficar comigo? Acha-me tão insuficiente ao ponto de não me querer por perto?

Afaguei o seu rosto confuso.

Não era comum ver uma mulher tão atraente como Anna se mostrar tão insegura…

As minhas maçãs do rosto se ergueram, os meus lábios ficaram pressionados, não era hora de sorrir, a sentei no meu colo.

— Você não é insuficiente para ninguém sensato, Anna.

O Zé-ninguém ali era eu.

Anna ainda me olhava confusa, os cabelos loiros caiam nas laterais do rosto.

Fiz uma pequena trilha com o indicador na curva do seu maxilar.

Um dia ela perceberia que eu não era o cara certo.

— Então qual é o problema? Me acha feia? Perguntou-me ingênua ainda perdida em sua busca para encontrar o problema em si, sem perceber que o problemático era eu.

Ela estava sendo obtusa, não tinha como ela ser feia a beleza europeia dos seus traços delicados afirma silenciosamente toda a sua formosura.

Ela não estava me ajudando a fazê-la entender que não poderíamos ter uma relação, eu seria insuficiente.

Uma jovem como ela com um ótimo futuro pela frente, não precisava de alguém como eu, e ainda sim, ela insistia em mim. E diferente da primeira vez eu não retrocedi na decisão de ficar com ela.