Chá verde
5 V. Tentativas
Desorientado pela maneira que fui acordado e por ter presenciado toda a cena dramática da minha mãe, andei a passos cambaleantes para fora, ela me bateu, entretanto, eu não me importava.
O silêncio noturno trazia uma calmaria que fugia de mim. Totalmente invadido por questionamentos internos.
Que horas poderia ser?
Como ela me encontrou?
Por que tanto escândalo?
Ter me visto em momentos íntimos com uma garota não poderia ser o fim do mundo. Evelyn precisava compreender que depois de anos, eu voltei a me enamorar. Todo aquele desencontro seria resolvido, assim que ela me escutasse, e se desse a oportunidade de conhecer Aurora.
Nós não havíamos trocado uma palavra da cabana até o Hotel. Todos os espaços normalmente ocupados ao ar livre estavam vazios.
Eu já estava com a adrenalina baixa e sentia uma necessidade de me explicar, porém, foi Evelyn quem quebrou o silêncio.
— Jamais esperaria tal atitude vinda de você e justo com ela! Você é tão cego meu filho. Protestou.
— Eu não fiz nada de errado, só me deixe explicar sobre o que você viu. Parei de andar. Ela não, pelo contrário, continuou a passos firmes.
— Você fala de eu ter te visto sem roupas dormindo com uma garota estrangeira?
Mirei suas costas.
— Eu gosto dela.
Evelyn paralisou.
Sem pensar nas palavras, eu abri o meu coração.
— Eu realmente gosto dela, e de como me sinto vivo e feliz ao seu lado. Toquei os meus cabelos e ao redor do rosto de modo exasperado. — Eu sei que nenhum de nós esperava que isso acontecesse, mas aconteceu. Eu estou envolvido e o que mais quero é ficar com Aurora.
Evelyn virou rapidamente.
Ela estava cansada, o rosto abatido, olheiras profundas, a pele tão bem cuidada estava pálida quase como um cadáver. O meu descuido com o horário havia afetado-a, e eu me detestei por ter deixado isso acontecer.
Aquela fúria tempestuosa no seu olhar poderia me atropelar, mas eu não estava com medo, eu precisava ser honesto.
— Como pôde se enganar dessa maneira? Como pôde mentir para mim?
Eu não me orgulhava das minhas mentiras, era um mentiroso confesso.
— Você não entenderia e eu estava certo, olha a sua reação.
Ela me encarou duramente. — Estou irritada por descobrir as suas mentiras e não quero mais falar sobre o que aconteceu.
— Então vai ser assim? Você não vai me dar o direito de defesa?
Os olhos dela se aqueceram, o estado de fadiga contribui para o seu estresse. — Está tarde e eu não preguei os olhos de tão preocupada com você, estou com sono e sem paciência para lidar com essa sua paixonite, nesse momento eu só quero dormir.
— Mas nós precisamos conversar.
Ela me fitou com as esferas pequenas, e eu sabia que era por ter a chamado pelo nome.
— Eu estou cansada, meu filho.
Contra a minha vontade eu concordei convencido de que a conversa estava temporariamente encerrada, dirigia-me para o acesso aos bangalôs.
— Aleksandr?
Virei à cabeça.
— Eu não vou envolver ninguém em nossos assuntos, tampouco você fará, só fique quieto.
Completamente certo de que no fim as coisas terminariam bem, eu esperaria o humor tempestuoso de Evelyn passar e tentaria conversar.
Quase caí pra trás ao ver a garota Stepanov a nossa espera na sala. Pelo movimento no Resort deveria ser madrugada e ela ainda estava acordada?
Ninguém dormia nesse quarto?
Anna estava sentada no sofá mais acordada do que Evelyn e eu juntos. Eu não tive como não olhar os detalhes do seu pijama com estampa do urso panda. Ela parecia uma criança no seu mundo rosa.
— Está tudo bem? Perguntou extremamente corada ao unir os joelhos por causa da minha encarada.
— Está sim, como havia falado antes o Aleksandr estava no bar perto da piscina.
Eu não era o único mentiroso ali. Compartilhar algo tão pessoal não fazia o meu gênero e se a minha mãe não iria falar, eu também ficaria quieto.
O dia seguinte seria uma nova tentativa de diálogo com ela. Sem paciência eu fui para o quarto.
Eu só gostaria de dormir e com sorte quem sabe sonhar com uma linda garota de pele tropical.
E assim aconteceu.
Aurora caminhava na praia de céu nublado, as ondas batiam na areia, o vento balançava os seus cabelos, ela estava séria em seu andar lento, distante mas não o bastante para não observá-la.
O vestido branco de renda assemelhava-se a uma noiva praiana que se destoava do ambiente sombrio. Aurora parecia andar até mim, mas por que ela aparentava estar infeliz?
O clima estava nebuloso como uma noite de chuva, no entanto, se iria chover porque ela estaria ali?
Ver o seu rosto abatido partiu o meu coração. Eu só queria saber qual era o motivo de tanta melancolia?
O eu do sonho continuava imóvel como se não tivesse a capacidade de falar e de se mover. Era como se eu estivesse paralisado totalmente petrificado sobre os meus pés.
Droga! Tudo o que eu queria era caminhar, falar com ela e dizer que nós ficaríamos bem, todavia, eu não conseguia me comunicar.
A sensação de paralisia causava uma vertente crescente de aflição. Como era terrível querer reagir e não conseguir. O desespero tomava conta de mim preso naquela estranha paralisia.
O clima obscuro, o rosto colérico de Aurora no seu caminhar cabisbaixo.
Abri os olhos sentindo o meu coração pular no peito. O suor molhava o meu rosto. A expressão triste de Aurora rondava a minha mente, o pesadelo que a envolveu sugou a minha energia. Puxei as cobertas para baixo.
Eu estava mentalmente cansado, com a boca seca, sem vontade de me mexer, preenchido com o angustiante sentimento de inércia.
Fechei os olhos numa tentativa de me livrar da sensação ruim. Eu tinha questões mais importantes a resolver e não precisava de um pesadelo para me tirar de órbita.
Concentrei-me na lembrança feliz de um bonito rosto que rondava a minha cabeça, nos olhos alegres, no sorriso atraente... No corpo que eu desejava...
Toc. Toc.
Alguém batia na porta.
Não. Não.
Deixe-me aqui.
Apenas vá embora.
— Aleksandr? Você já acordou São quase 12 h.
O que fazer?
Fugir de tudo fingindo que eu ainda dormia? Ou enfrentá-la de uma vez? O assunto Aurora continuava a me fervilhar os pensamentos.
Eu precisava resolver tudo, mas do que isso, eu precisava de Aurora.
À noite mal dormida exigiu seu preço ao me levantar para conferir se eu estava vestido. Sim. Eu ainda usava as calças, abri a porta.
A minha mãe estava disposta sem qualquer sinal de olheiras.
Evelyn entrou no quarto.
— Devido ao que aconteceu ontem, imaginei que você iria querer conversar comigo, e como a Anna saiu para nadar, eu vim esclarecer alguns pontos.
Qual era a necessidade de se ter tanta preocupação com a Anna? Ela era o menor de todos os problemas, na realidade, ela não estava envolvida.
—Eu não tenho muito a dizer, só quero relembrá-lo Aleksandr que tudo o que eu queria falar eu já disse. Eu não o quero perto daquela garota.
— Não é tão simples assim.
— É simples. Você quer complicar tudo. Obedeça e fique longe.
Trinquei os dentes.
— Não.
— Você não sabe nada sobre a vida, só está deslumbrado por essa aventura que encontrou longe de casa.
Fechei as mãos em punho ao lado do meu corpo.
— Você não entendeu. Eu estou apaixonado pela Aurora, a quem você rejeita sem conhecer. Eu quero ficar com ela e irei lutar por isso.
— Àquela garota não faz parte da sua vida, ela não se encaixa em nossa realidade.
Qual seria o motivo de todo esse desprezo de Evelyn por ela?
Encarei-a de lado.
— Por que toda essa aversão a garota?
Evelyn mudou o peso nos pés.
— Eu não quero que você nutra sentimentos por uma relação fadada ao fracasso.
— Você não tem o direito de decidir isso.
Ela olhou profundamente nos meus olhos e disse. — Guarde o que foi bom, mas não deixe essa lembrança dominar a sua vida.
Eu não queria guardar memórias, eu queria viver da maneira que eu desejasse.
— Antes que eu me esqueça, amanhã nós iremos para casa.
Todo o processo de assimilação me fez reagir de maneira feroz.
“... Nós iremos para casa”.
— Não!
— Não seja infantil, nós voltaríamos em questão de dias.
— Eu não posso ir agora, preciso ver Aurora, falar com ela e explicar a minha situação.
O olhar que Evelyn me lançou foi a resposta que eu procurava, mas não era a que eu gostaria. Distante, sem demonstrar qualquer emoção, ausente do que eu mais queria encontrar, ausente da compaixão. Por mais que eu tenha tentado explicar a grandeza dos meus sentimentos, Evelyn se tornou irredutível na sua decisão.
— Vá em frente e destrua a minha vida.
— Você não sabe o que diz, vejo que perdeu o juízo por causa daquela Infeliz.
Dei um passo para frente.
— Não a chame assim. Falei entre os dentes.
Irado com ela e comigo mesmo diante da minha impotência sem poder fazer nada. Eu não poderia escapar nem se quisesse e acredite-me queria e muito, queria pegar a minha mala e fugir com Aurora para um lugar onde a minha mãe não pudesse nos encontrar, livres para viver a nossa história.
Odiei profundamente ser filho de Evelyn Dushkin. Odiei ser adolescente, pois, se eu fosse adulto poderia ter livre arbítrio. Diante da opressão de Evelyn, me isolei no quarto, ter dezessete anos me impedia do direito de ir e vir e me fazia ser refém das suas escolhas.
Andei de um lado a outro.
O que mais me irritava era saber que quando se tratava dos motivos dela, eu andava em círculos sem obter respostas.
Eu não entendia!
A vontade de quebrar o quarto não me faltava, descontar a raiva chutando os móveis e nem isso eu poderia fazer, o preço a ser pago seria alto demais. Dinheiro esse que sairia do bolso vazio da minha mãe. Imaginei a cena de Evelyn incrédula pela destruição provocada, e em seguida desesperada pela conta em seu nome, afinal, ela ainda era a minha responsável. Pensei amargurado.
Caminhei até a porta e abri, tentaria sair. Coloquei a cabeça para fora. Evelyn repousava no sofá estava mais do que óbvio a sua intenção de me vigiar.
Voltei para o quarto.
Como eu poderia encontrar Aurora estando em outro país? Nós não havíamos trocado contato.
Sentei no estofamento em frente à janela, a impressionante vista não prendia a minha atenção.
Tudo conspirava contra mim.
O que eu tinha feito de tão ruim?
O sorriso de Aurora dominou a minha mente.
Só me apaixonei.
Pela segunda vez Evelyn apareceu no meu quarto para mais uma tentativa de conversa, eu que tentei tanto e só recebi pedradas.
Eu não me dei ao trabalho de olhar para ela. Ouvir Evelyn buscar uma lufada de ar.
— Filho, eu sei que nesse momento, estou sendo retratada como um monstro na sua mente, e hoje você não é capaz de entender o esforço que estou sendo obrigada a fazer. Suspirou pesadamente. — Tenho esperança que um dia você entenderá a razão disso.
Depois de dois passos relutantes ela estava atrás de mim. — Por favor, não me odeie tanto, você está prestes a ter um futuro brilhante e quer pôr tudo em jogo por causa de uma garota que você mal conhece.
Como se ela realmente fosse uma mãe que se importasse com os meus sentimentos.
Cansado de ouvir toda aquela encenação, fiquei de pé.
— Ah! Sim? O que você acha de começar a me explicar os seus motivos?
Como se quisesse reprimir uma reação ela engoliu em seco. — Não é tão simples.
Fingir não ter escutado.
— Façamos melhor, comece me dizendo como soube onde eu estava?
Eu não era tão ingênuo como ela pensava.
— Eu te seguir.
— O quê?
— É isso mesmo que você ouviu.
A minha mãe estava sem limites, fazia o que queria sem se importar se a sua interferência pudesse afetar outras pessoas.
— Por quê?
Ela me olhou como se eu a tivesse subestimado, talvez eu tivesse mesmo.
— Você realmente acredita que eu não notava os seus sumiços constantes? A sua mudança?
— Você não passava muito tempo perto de mim para notar.
Ela balançou a cabeça.
— Eu sempre estou atenta a você.
Gostaria que não fosse tanto, só assim eu ficaria tranquilo para esclarecer tudo.
—Essa sua implicância está além das fronteiras, não é? Você não gosta da Aurora.
— Ela não é para você.
— E você chegou a essa conclusão sem ao menos conhecê-la? Perguntei incrédulo.
— É bem mais do que isso, não vale a pena tanto sofrimento para se viver uma paixão de verão que se resume há poucos dias.
Aquela mulher poderia ser inacreditável quando queria.
— De acordo com você eu deveria ser grato pela sua “boa”ação, não? Fui irônico. — Quer que eu agradeça agora?
Ela expressou a perda da paciência ao enrugar a testa.
— Esse seu comportamento rebelde não ajudará em nada.
Eu a encarei duramente.
— Eu tentei conversar com você, explicar os meus sentimentos por Aurora, dizer a importância dela para mim, e o que você fez? Hã? O quê?
Diante do seu silêncio, eu continuei. — A primeira coisa que passou pela sua cabeça foi antecipar a droga das passagens, você nunca me ouviu, nunca entendeu o que se passa comigo, e não venha me dizer que um dia eu entenderei o motivo de toda essa sua perseguição com a garota, pois eu nunca entenderei!
Diante da minha explosão Evelyn perdeu a fala brevemente, mas cedo demais voltou a se expressar.
— Entendo que esteja irritado, mas não grite comigo, eu ainda sou a sua mãe.
Virei de costas.
— Que falta de sorte a...
Eu estava a ponto de lhe dizer palavras ofensivas que doeram em ambos, infelizmente, constatei tristemente que nada que eu falasse ou fizesse a dever daquela ideia.
Respirei fundo e recomecei. — Você não quer me ouvir. Falei abatido. — Ao invés disso veio aqui tentar me convencer da sua “ajuda” em me afastar da minha garota, não perca o seu tempo nem o meu com suas palavras artificiais, elas não vão me convencer da sua “boa ação”.
Sem nenhum acordo a vi sair cabisbaixa.
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