Notas iniciais
POV Garry

Minha história toda começa numa manhã de terça feira, estava voltando de meus estudos em Puy de Düme uma das montanhas mais altas da França, perto de duas cidades St. Étienne e Sarlat-la-canéda de jeito nenhum iria pra Paris, não sou do tipo de garoto que se interessa em atender os desejos fúteis daquelas modelos magricelas só porque venho de uma família de artistas.

Uns dois dias atrás eu tinha recebido da governanta da casa, dame (senhora em francês) Blanche uma carta de meu avô, seu nome... Guertena, achei que esse nome fosse proibido de ser pronunciado em casa, tanto que nunca falo meu sobrenome na frente de ninguém faz anos. Meus pais sempre discutiam por causa disso, meu pai amava os quadros de meu avô, ele o considerava um artista incompreendido por sua excentricidade e fazia questão de ter alguns quadros dele pendurados na velha mansão da família, já minha mãe não gostava nada daqueles quadros que sempre a causavam arrepios na espinha, lembro de que quando eu era pequeno e fiquei hospedado na casa de meu avô eu ter ouvido sons de risos baixos, passos, coisas arrastando mas o pior de tudo fora numa noite de tempestade onde vi meu nome escrito de forma macabra na parede em azul turquesa.

Eu era muito novo na época, creio que tivesse uns 6 ou 7 anos mas nunca mais me esqueci da cena, eu andava somente com uma blusa branca de longas mangas que não cobriam somente a ponta de meus dedinhos e mais parecia uma camisola em mim, arrastava meu lençol esfarrapado, desde sempre fui um francês incomum, ao contrário de mais da metade da população e de meus pais nunca fui de ser muito chique, tinha meu jeito largadão e esfarrapado e muita gente reparava nisso, as crianças nem tanto, o que me fez apegar mais a elas mas voltando aos fatos eu estava sem muito sono a noite, tive que ir a cozinha beber água, na época não tinha medo de quase nada a não ser de tempestades, andei silenciosamente nos corredores altos e largos do casarão antigo, até chegar a cozinha, estava tudo o maior breu a não ser pelas poucas luzes da tempestade que iluminavam tudo com um clarão, saltei do banquinho que usava pra chegar no balcão e ia voltando pro meu quarto, andei bastante e cada vez que andava os corredores me pareciam muito largos, a essa altura eu tinha me perdido completamente até que ouvi som de passos atrás de uma porta, alguém acordado seria minha melhor solução, eu estava a ponto de chorar de medo e precisava de alguém pra me guiar de volta pro quarto, com alguma dificuldade eu consegui me esticar e abrir a maçaneta redonda que dava pra um quarto cheio de quadros cobertos por panos, coisas de pintura por todo o lado, quadros inacabados mas o pior de tudo foi ver pouco a pouco algo sendo pintado em azul turquesa num quadro todo em preto cuja tinta escorria a cada pincelada, quadro iluminado pelo clarão da tempestade que veio com um grande estrondo.


" Venha brincar com a gente Garry Guertena"


Já faziam muitos anos que ninguém falou meu sobrenome então... como eles podiam saber sobre isso, eu nem queria saber, dei alguns passos pra trás trêmulo e gotas grossas de lágrimas se formavam em meu rosto, a porta se fechou em um estrondo e ouvi algo como a fechadura sendo trancada, tentei desesperado girar a maçaneta pra sair dali enquanto ouvia sons de algo se arrastando até mim, nem vi o que era, só queria sair daquele inferno o quanto antes, sabia que iriam me pegar, que iriam fazer sabe-se lá o que comigo, continuei desesperado de olhos em choque abrir a porta e gritando, depois bati com ambos os punhos fechados pra alguém pelo amor de Deus me tirar dali até a governanta abrir.


Blanche — ah, mounsier Garry, o que está fazendo num lugar desses a essa hora da...


Garry — GAAAAAAAAAAAAAH!!!


Lembro de ter saído correndo de lá chorando como nunca, entrei no meu quarto e me escondi nas cobertas com o rosto chocado, tinha medo de fechar os olhos e no minuto que fizesse isso essas bestas viessem pra me levar embora, não dormi a noite toda e também não falei com a Dame Blanche também e nem com ninguém sobre isso, dormi no colo de minha mãe na manhã seguinte e nunca mais voltei pro casarão de meu avô, porém, até hoje aquelas vozes assombram meus pesadelos.

A carta que recebi de meu avô foi até muito estranha pra mim, pelo que eu saiba ele havia falecido muito antes de eu nascer, mas dizia o seguinte.


"Caro neto ou neta,


Se estou escrevendo isso é porque as coisas que eu tinha feito pra que esses quadros fossem expostos até agora não foram o suficientes e que meu prazo para mantê-las trancadas na galeria em minha casa falharam, nesse minuto, pelo que calculei, os donos do museu Carré d'Art de Nîmes já devem estar se preparando para expôr minhas peças, por certo tempo ninguém estaria em perigo porque as mantive bem presas mas agora, com minha morte, já não posso fazer mais nada pra impedir, muito menos você eu suponho então peço que faça exatamente o que eu mandar e não questione minha decisão somente confie em mim porque você é a única pessoa que sabe muito bem o que está acontecendo assim espero.


atenciosamente, seu avô"



Garry — drogue père (droga vô..) *no trem debruçado sobre uma das janelas*


O trem se dirigia em direção a Nîmes, meu destino era o Carré d'art, ficava próximo ao Maison Carrée, um templo romano construído entre 16 e 19 a.C. na época do imperador Augusto uma das quase inexistentes obras de uma das raízes do povo francês. Meus pensamentos sobre tudo isso foram interrompidos pelo agent de la billetterie, ou bilheteiro que batia do lado de fora da portinhola de onde eu estava.


bilheteiro — mounsier Garry...


Garry — oui?


bilheteiro — Je tiens à vous avertir que nous sommes presque à notre destination (quero avisar que estamos quase em nosso destino)


Garry — oui, oui, reconnaissant je serai prête dans une minute (sim,sim, estarei pronto num minuto)


O trem dá uma freada meio brusca e vários passageiros saem de uma vez, nem esperam a fumaça dos motores se dissipar na estação.


Garry — avoir beaucoup plus de gens que d'habitude à Nîmes ce moment de l'année ... (tem muito mais gente que o normal em Nîmes essa época do ano... )


Bilheteiro — oui mounsier Garry, Nîmes est que cette année, avec plusieurs nouvelles attractions est auditoires étrangers pro, notamment les familles américaines, beaucoup d'entre eux viennent ici. (sim senhor Garry, é que esse ano Nîmes está com várias atrações novas pro público estrangeiro, especialmente famílias americanas, muitas delas estão vindo pra cá.)


Garry — américain est? (americanos é?)


Somente prossigo com minhas malas ao hotel mais próximo, o menos sofisticado que tivesse, apesar de possuir alguns recursos não queria usar o dinheiro de meus pais, queria usar o que eu ganhava, de lá prosseguiria ao museu, antes de entrar lá a porta me pareceu mais larga e aquelas risadas... melhor respirar um pouco, estava de dia e não poderiam me atingir, além disso eu já estava velho, tinha que encarar meus medos, pego uma rosa azulada de meu bolso "essa é a sua garantia de passe para lá, assim não importa se ela te quiser lá dentro ou não você vai entrar no mundo dele".


Garry — passe pra que afinal...? Do que está falando vovô...par Dieu... (por Deus)


Me dirijo mais adentro do museu analisando os quadros mais iluminados pelas pinturas, algumas pessoas estavam lá, analisava fixamente os quadros de lá tentando encontrar alguma pista, até notar que uma das pinturas estava faltando... estranho... me pergunto se tem algo haver com essa rosa estranha... Uma garotinha passa rapidamente por mim, não sei o que me deu, acho que foi um sentimento de angústia muito forte mas decido ignorar, volto a olhar pro quadro e pros outros, impressão minha ou estão perseguindo ela? Pego a rosa azul de meu bolso e assim que a tiro as luzes piscam e dessa vez vejo algo pintado bem ameaçador.


"VOCÊ NÃO FOI CONVIDADO!!"


Depois disso algumas mãos me puxam dentro de uma pintura tentando me matar sufocado, me sinto quase morrer, tinha certeza que ia morrer então me deixei levar, creio que acharam que morri porque senti meu corpo ser jogado mas num lugar escuro, lembro de alguém me acordar, era você IB e depois disso estava num lugar que relembrou a minha infância, um corredor muito escuro cheio daqueles quadros de novo...


...par Dio, onde fui me meter agora...