Cerne
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Sentado em sua parte do beliche, Leônidas ria sem pudor. Estava mais uma vez absorto por sua nova aquisição: relatórios enviados por uma sentinela, que claramente havia sucumbido pelo tédio.
Devia dormir, sem sombra de dúvida já devia estar dormindo, mas não não conseguia. Leônidas era... diferente. Suas feições eram claramente diferentes do estereótipo sulista, seus cabelos e olhos eram escuros, tão escuros que pareciam ter sidos esculpidos em ônix e sua pele não era muito alva, tais diferenças dificultavam a coexistência com o povo local: quando caminhava pela cidade era visto com desconfiança e por várias vezes foi hostilizado. Não que isso alguma vez lhe tivesse incomodado, era poderoso, sem dúvida poderoso.
Em seu mundo, era comum a manipulação dos elementos. A maioria conseguia manipula-los sincronizando o próprio animus com o do meio externo, outros conseguiam até mesmo realizar um processo forçado de formação. Porém, Leônidas era um caso bastante raro: o animus em seu corpo o tornava incapaz de realizar qualquer um desses processos. Isto ocorria por conta da neutralidade do fluxo de seu animus, o que impossibilitava a presença de tendências. Ou seja, seu controle se limitava ao próprio animus, fato que para àqueles que possuíam um fluxo viciado, na melhor das hipóteses ocorria de maneira muito limitada.
Fora a sua condição especial, outro fator era a naturalidade com que manipulava o animus, muitas vezes sequer percebendo que o manipulava. O animus naturalmente lhe revestia como um manto flexível, protegendo-o contra forças externas.
Não havendo ainda se graduado no Centro de Ensino, que funcionava como rito de maioridade, tecnicamente era uma criança, mas isto não significava uma situação de ócio. Apesar de sua situação delicada, era um membro ativo na sociedade local. As condições locais eram extremas, sua cidade natal “Crisântemo” estava localizada ao extremo sul do supercontinente Abigail, próximo ao Polo Sul.
Todos possuíam um papel a ser desempenhado na comunidade: até completarem sete anos, as crianças eram ensinadas pelos pais e familiares nos conhecimentos básicos: as tradições, o alfabeto, conhecimentos básicos sobre o ofício rentável da família e com o que não deviam mexer. Passados estes primeiros anos, as crianças recebiam aulas no Centro de Ensino. Lá, recebiam tanto ensinamentos gerais (a história de seu povo, conhecimentos sobre a geografia local, algumas noções sobre as relações políticas das tribos sulistas) como também, os de natureza mais específica.
Para este último é necessário um teste vocacional. O aluno deve, antes de tudo, demonstrar aptidão para uma determinada área. Este estágio também definiria seu papel como membro ativo na sociedade. E Leônidas, dentro de algumas horas, iria prestar o temível teste vocacional.
— De que tanto ri? — Perguntou uma voz feminina vinda da cama abaixo- Só temos que nos levantar daqui à duas horas, se for rir, ria em silencio.
— Perdão- respondeu com humor na voz — eu a acordei, Niger?
— Oh, Claro que não- respondeu com ironia- Tua irmã continua dormindo, o que está falando contigo é um demônio. Quero saber se gostaria de uma carona para o Purgatório: teu lugar de origem.
— Tão doce.
— Não me enrole. Já me acordou, quero saber o motivo.
Leônidas olhou pensativamente para o relatório em seu colo. Por um momento, pensou em mentir. Porém, logo abandonou a ideia. Niger possuía um faro especial para mentiras, era funcionalmente uma caçadora: possuía um olhar afiado e uma mente atenta aos detalhes. Mentir era inútil, concluiu.
— Estou lendo um dos relatórios enviados pelos Postos de Observação. O autor é um soldado chamado: Lair. Ele vem, já a algum tempo, utilizando os relatórios como uma espécie de diário. Atitude condenável, mas admito que estou torcendo por um final NaLa.
— Sério, Leon? Roubando, novamente? Quando irá parar? Quando Darién finalmente desistir e mandar açoita-lo? — Seu tom de voz cansado era resultado das diversas discussões pelo mesmo motivo: Leônidas não conseguia parar. Via estes furtos como parte de um jogo, Leon furtava e na noite seguinte Darién aumentava a segurança. Este processo se repetiu tantas vezes, que o “jogo” evoluiu à um ponto inimaginável: o sistema de segurança atual de Darién rivalizava com os utilizados nas Celas Escuras, prisões projetadas para conter criminosos capazes de ameaçar todo uma nação.
— O que quis dizer com “final NaLa”? — Niger por fim pergunta já temendo a resposta.
— Natasha e Laír. Escute, ela se sente atraída por outro, então há um triangulo amoroso acontecendo. Constantemente disputam entre si, mas nunca chegando a trocar golpes- Leon acrescenta um "pelo menos isso" num tom exasperado e continua, para desespero da irmã- Ah Niger, você não faz ideia do quanto Laír sofre com esta relação, qualquer um que leia os relatórios com atenção percebe que a garota tem medo de compromissos e usa o outro guarda como um meio de afastar Laír. É impossível não se emocionar. Me irrita, mas sinto que ele deve ficar com a Natasha. Eles combinam tanto! Chorei horrores, quando eles começaram a sair. Acho que dessa vez é sério.
Niger precisou de um certo tempo para assimilar algo que, a seu ver, era um comportamento ridículo e um desperdício de tempo e talento por parte do irmão.
— Nunca mais te pergunto nada- respondeu irritada.
Passou-se alguns minutos sem que nenhum dos dois dissesse algo: Leon estava absorto com sua novela e Niger irritada com a personalidade do irmão. Finalmente, Niger quebra o silêncio:
— Leon- chamou.
— Diga.
— Você ainda possui o primeiro relatório?
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