ㅡ Luxanna..? ... Luxanna!

A moça de olhos azuis límpidos piscou algumas vezes, desorientada. Um homem alto de armadura brilhante, feições que demarcavam o cansaço em seu rosto duro, a olhava com um certo grau de censura que a fez se encolher instintivamente, envergonhada. Kahina não era uma pessoa ruim. Os anos que passara treinando com ele já foram suficientes para constatar aquele simples fato. Entretanto, esses mesmos anos a mostraram seu lado rigoroso e isso não era algo com que ela gostasse de brincar.

ㅡ Sim, senhor? ㅡ respondeu, sua voz hesitante, como uma criança malcriada que espera que o castigo seja dado.

Muitas vezes a jovem aprendiz olhava para aquele rosto tão familiar e imagens de rios fluíam por sua mente, a água correndo de maneira serena, imperturbável, passando por tudo e todos sem lhes dar a menor importância. Abrigando em suas profundezas cardumes de peixes agitados que nadavam corrente acima. Muita gente dizia o mesmo, mas em tom de deboche, aludindo aos sulcos profundos que as rugas de seu rosto cavavam em suas bochechas, testas, nos cantos de seus olhos. Todavia, Luxanna nunca pensou nisso como algo ruim. Ela até achava que aquilo era charmoso, à sua maneira. Fazia parte dele e combinava com sua personalidade.

Kahina parecia estar mastigando o sermão na ponta de sua língua, mas após um segundo, decidiu engoli-lo.

ㅡ Há algo que preciso que faça para mim ㅡ disse por fim, levantando-se e dando a volta pela mesa, um envelope lacrado em mãos ㅡ Creio que você saiba onde fica o Quartel General dos Caçadores, certo?

Luxanna sentiu-se rígida como uma árvore à simples menção daquele lugar. Fora lá apenas uma vez antes e preferiria não ter ido. Não que tivesse alguma experiência pessoalmente traumática do lugar, mas o que ele representava, e o que seus prisioneiros a faziam encarar, era uma realidade muito perturbadora para si.

Sentiu, sem perceber, que seus punhos se fecharam firmemente. Assentiu depressa, o olhar fixo nos sapatos, decidida a não mostrar-se receosa, principalmente na frente de Kahina.

Este, se percebera algo, fingiu não ver nada e seguiu com as instruções calmamente.

ㅡ Preciso que entregue isso ao Capitão dos Caçadores, Sir Dilon ㅡ disse enquanto estendia o envelope à moça ㅡ Eu iria pessoalmente, mas preciso cuidar de uma... pequena situação com um novo recruta. Posso contar com você para entregar isso ainda essa tarde?

Sentindo que eram feitas de chumbo, Luxanna ergueu as mãos para apanhar o que lhe era dado.

ㅡ Sim, senhor ㅡ respondeu ㅡ Irei imediatamente. Com sua licença.

Após uma breve saudação, que foi retribuída por seu mentor de uma forma muito mais calorosa do que ela esperava, Luxanna deu-lhe as costas e saiu a passos rápidos pelos corredores altos e iluminados, descendo as escadas dois degraus de cada vez e finalmente atingindo a rua movimentada, pôs-se no caminho pelo qual teria feito o possível para não percorrer de forma nenhuma.

O Quartel General dos Caçadores não era a construção mais imponente da Capital. Tampouco era exatamente próxima do burburinho da cidade. Não poderia ser. Os seus prisioneiros causavam desconforto demais na população para que fossem tolerados tão próximos. Ele ficava a noroeste do palácio, a algumas milhas de distância, e, quando ela finalmente avistou os portões de ferro daquela estrutura escurecida e de janelas estreitas, precisou parar por um momento, sentindo o ar entrar queimando em seus pulmões que pareciam não saber exatamente o que fazer com aquilo.

A cada passo que dava, sentia o coração bater violentamente contra as costelas. Mal ouviu o guarda que a acompanhava, sequer via por onde passavam. Seguiram por corredores apertados que não se pareciam em nada com os do bureau que acabara de deixar, dobraram diversos cantos até finalmente chegar ao escritório do comandante em questão...

... E ele não se encontrava.

ㅡ Sinto muito, parece que ele saiu sem avisar ㅡ explicou o soldado um tanto envergonhado ㅡ Se não for problema, eu posso entregar o envelope à ele.

Luxanna balançou a cabeça de leve.

ㅡ Obrigada, de verdade, mas se não for problema, prefiro esperar que ele retorne.

Não que desconfiasse do pobre coitado, mas preferia entregar a correspondência pessoalmente. Kahina havia lhe confiado aquela tarefa, e ela se sentiria infinitamente culpada se, por algum acaso, o envelope não se encontrasse nas mãos de seu destinatário são e salvo, como deve ser. Ela deu um pequeno sorriso ao seu guia, a fim de demonstrar que não pretendia ofendê-lo com a recusa. Este, muito educado, disse-lhe que poderia esperar dentro do escritório enquanto ele próprio iria descobrir o paradeiro de seu comandante.

É curioso como a mente tende a se desprender da realidade quando menos o desejamos e, entretanto, quando nos vemos diante da oportunidade de nos jogarmos aos nossos devaneios sem interrupções, é quando menos somos capazes de fazê-lo. Sentada à uma cadeira à um canto da salinha abarrotada dos pertences de seu dono, Luxanna via-se completamente alerta, sentindo cada segundo passar com dolorosa lentidão. Pela janela atrás da mesa, entre duas enormes estantes, ela via as nuvens vagando pelo céu que ia se tornando cada vez mais alaranjado, assinalando que o final de mais um dia se aproximava.

Quando começava a cogitar a possibilidade de ter de retornar no dia seguinte, a porta finalmente se abriu, revelando o comandante dos Caçadores de Magos.

Os joelhos da jovem involuntariamente se flexionaram, impelindo-a para fora da cadeira.

ㅡ Comandante Dilon! Espero não ter sido impertinente em esperar pelo senhor em seu escritório. O soldado que me guiou até aqui disse que eu poderia...

ㅡ Sim, sim ㅡ interrompeu-a com um aceno de mão ㅡ Me avisaram que eu era esperado. Senhorita Stemmaguarda, correto? Como tem passado sua tia?

ㅡ Muito bem, senhor, obrigada. Estou aqui a pedido de sir Kahina. Ele precisava lhe entregar esse envelope com urgência e como estava ocupado, pediu para que eu o fizesse em seu lugar.

Disse tudo aquilo em um só fôlego e estendeu-lhe o envelope por fim.

O Comandante lançou um olhar crítico à moça, como que avaliando-a. Luxanna sentiu-se exposta, como se uma faca lhe cortasse as entranhas a mostra. Ela conhecia o comandante Dilon apenas de vista. Ele era um homem jovem, para o cargo que ocupava, mas exalava grande autoconfiança, como se fosse uma questão óbvia o motivo de ele estar ocupando um alto cargo. Se Sir Kahina lhe lembrava uma teia de rios, o comandante Dilon seria uma montanha gigantesca, cuja superfície rochosa era dura e impenetrável, com cavernas repletas de estalactites prontas para furar quem se aproximasse. Uma visão verdadeiramente majestosa, se contemplada com a devida distância.

Após um período que Luxanna considerou longo demais para seu próprio conforto, Dilon tirou-lhe o envelope das mãos com mais delicadeza do que ela teria esperado e, virando-lhe as costas, cortou o selo para examinar o conteúdo.

Tratava-se de uma carta. Luxanna pode apenas observar a letra rebuscada de seu mentor antes que o comandante a dispensasse com um aceno da mão, profundamente absorto na leitura de sua correspondência, fosse o que ela fosse.

Alívio foi a primeira coisa que sentiu ao sair daquele ambiente claustrofóbico. O sentimento, entretanto, não foi duradouro, ao perceber que não fazia ideia de como voltar para os grandes portões de entrada. Não prestara atenção em como chegara ali. A jovem percorreu alguns corredores, escolhendo-os aleatoriamente, na esperança de encontrar alguém que pudesse lhe indicar a saída. Todavia, parecia que o sol se fora e levara junto consigo todos os soldados.

Fazia sentido, pensou, uma vez que era de fato o cair da noite. A maioria ia embora, para suas casas, para suas famílias, e apenas alguns guardas permaneciam de vigia.

Começou a realmente se preocupar quando parou de ver janelas e começou a ver uma série de celas, todas vazias.

Seus passos, embora leves, ecoavam. Como gotas caindo ritmicamente em uma poça d’água, solitária, esquecida. Cada vez mais hesitante, até que parou.

Não havia saída.

À sua frente, barras grossas e intrincadas de metal se entrelaçavam.

Por trás delas, um homem acorrentado a olhava com os olhos apertados tentando distinguir sua forma, oculta pelas sombras.

Sua voz, grossa, rouca, como quem não fala há tempos, cortou o silêncio daquela tumba.

ㅡ Quem está aí?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.