Cenas Pós-Créditos

1 Cenas Pós-Créditos


O filme tinha acabado. Nós víamos os créditos rolarem na tela multicolorida em meio a uma música dançante dos anos setenta, esperando as cinco cenas pós-créditos que todo mundo no facebook estava elogiando.

A primeira apareceu tão rápido depois do filme que nem sei se poderia ser contada como “pós-crédito”, mas né? Isso era bem pequeno comparado ao resto que diziam online... A propósito, o filme que a gente estava – ou o correto seria “está”? – vendo é Guardiões da Galáxia Vol. 2. E, por “a gente” eu quero dizer Amanda, Clara, Rick, Bernardo e eu.

A ideia tinha sido do Rick. Ele adorava essas coisas de super-herói e não parava de falar sobre esse filme quando saíram os trailers... No fim, acabamos juntando um grupo e fomos tentando combinar o melhor possível. Tudo bem que metade do rolê simplesmente não conseguiu vir pelos mais diversos motivos, mas, ainda sim, ele conseguiu convencer pela insistência Amanda, Clara e Bernardo, todos da sala dele, e eu, que era do noturno.

Nós cinco fazíamos a mesma faculdade – do que não importa. Eu e Rick já nos conhecíamos há um tempo porque tínhamos amigos em comum e bem, não sei dizer como aconteceu, mas aconteceu.

Sim, exatamente isso. Essa coisa clichê que é gostar do cara claramente hétero que cruelmente acaba se tornando um dos seus melhores amigos sem você nem perceber. No começo de tudo aquilo, a situação parecia muito daqueles núcleos B de série – porque núcleos com casais gays sempre são B na maioria das séries... – com todo aquele platonismo que todo mundo já conhece.

Se ficasse só por isso talvez a coisa nem tivesse ficado tão difícil, mas né? Às vezes o destino gosta de brincar com gente... Tudo começou de verdade, digamos assim, depois que ele terminou com a namorada.

Sim, ele tinha uma namorada! Mais clichê que isso impossível, hein?

Mas, então, continuando... Ele tinha uma namorada e eles terminaram. Até aí tudo normal, porque todo mundo termina e tudo mais. O problema é que o menino me resolveu ficar com um amigo – reparem no “o” – nosso durante uma festa. Nem sei dizer o que isso me provocou na hora. Foi como se tudo que eu já cultivasse por ele, sem ter muita consciência, confesso, pudesse de fato se transformar em realidade.

Eu tenho que dizer: me afobei. Ainda na mesma festa falei bem na cara dele que podíamos tentar ficar numa festa aí no futuro, mas também... Do jeito animado que eu tinha ficado, foi mais forte que eu...

Opa! A segunda cena pós-créditos apareceu!

Coloquei rapidamente meus óculos 3-D – é extremamente difícil achar uma sessão que não seja 3-D nesses dias – e tentei prestar atenção na cena.

Só que o Rick estava bem ao meu lado. Já foi difícil ficar o filme inteiro me contendo pra não esbarrar na mão dele sem querer – ou querendo mesmo. Só não digo que foi um martírio porque o filme tinha realmente umas piadas bem engraçadas...

A cena acabou pouco depois de começar, fazendo-nos tirar os óculos.

Confesso que eu estava morrendo de medo de ficar um silêncio constrangedor e eu não conseguir mais disfarçar ao lado do Rick, mas, pela graça dos deuses, Clara perguntou quem eram os personagens novos que tinham aparecido e nosso grupo se encheu de conversa de novo.

Eu fingia que prestava atenção, acenando com a cabeça nos momentos certos e tentando não ficar olhando só para o Rick, enquanto que minha cabeça voltava para tudo que já tinha acontecido naqueles últimos meses. Valeu mesmo a pena sair da fantasia pra viver tudo isso?

Enfim, aconteceu que a “festa aí” demorou muito para acontecer... Eu acabei tentando me aproximar mais dele e conversar mais também, tanto pessoalmente quanto por whatsapp, e isso só aumentava minhas expectativas que ele também não tinha esquecido o que eu disse na festa e que iríamos ficar juntos de verdade...

Demorou, mas finalmente a festa chegou e acabamos realmente ficando juntos. Foi mágico, não vou mentir. Minhas amigas – nenhuma era muito amiga dele – ficaram comemorando no fundo quando finalmente aconteceu, tenho até uma foto que elas tiraram pra provar o quão doidas elas ficaram naquele momento...

Só que o Rick, bem, o Rick era libriano demais para ficar na dele. Não que ele tenha ido atrás da Bruna, mas, pelas nossas conversas, dava para perceber que ele estava se apaixonando por ela. Na verdade, parando para pensar, ele até estava começando a ficar caidinho até mesmo antes de ficarmos juntos de fato... Engraçado como a gente torce as coisas que lembra pra sempre ser a vítima dos outros né?

Nem vou perder muito tempo contando o que aconteceu depois. Saímos juntos e ele cortou o nosso protótipo de relação amorosa. Por causa dela, óbvio. Não teria porque ele não fazer isso.

Sendo sincero, tudo poderia ter acabado ali. Ele ficando feliz com ela e eu superando tudo que não aconteceu – porque mais faltou acontecer do que aconteceu de fato. O problema é que eles terminaram duas semanas depois de ficarem juntos.

E vem a terceira cena pós-créditos, me acordando dos meus devaneios para mais uma diquinha do que provavelmente pode acontecer no Guardiões da Galáxia 3.

Eu não conseguia prestar atenção. Não tinha como. Ele me apresentou esse mundo dos super-heróis e dos quadrinhos. Agora toda vez que lia algo a respeito me lembrava dele e toda a tristeza e solidão voltava para mim, como um verdadeiro murro no estômago dado pelo próprio Capitão América. Ali, no cinema, assistindo isso do lado dele, toda essa sensação parecia muito mais forte. Por que raios eu acabei aceitando vir aqui?

Eu poderia fingir que não faço ideia, mas isso seria apenas mentir para mim mesmo. Sei muito bem porque vim. Foi pelo mesmo motivo que voltei a correr atrás dele pouco depois do término com a Bruna.

Eu escutei ele se lamentando e como tudo tinha dado errado, sentindo que aquilo era uma segunda chance pra mim fazer tudo certo e não deixar ele escapar das minhas mãos outra vez...

Esse é um pensamento meio egoísta? É sim. Nem tenho como me defender disso...

— Murilo? – aquela voz que eu conheço muito bem me acorda dos meus devaneios – Pode tirar os óculos... Essa cena pós-créditos já acabou...

Meu deus! Eu não sabia onde enfiar a cara! Como pude ficar tão distraído que nem percebi que cena tinha acabado?! Não fica sem-graça! Não fica vermelho!

Eu tirei os óculos enquanto pensava o mais rápido possível em uma desculpa plausível...

— Desculpa gente, hoje estou meio avoado... – não consegui.

Rick me fitou com aquele olhar preocupado que eu vi as várias vezes que desabafamos tudo um para o outro sobre tudo, até nossa relação. Não era culpa dele, não tinha porque ele se sentir mal por tudo isso... Pelo menos, eu não queria que ele se sentisse assim...

Acabamos tentando combinar de sair várias vezes um tempo depois do término. Conversávamos sobre tudo e sempre nos perguntávamos o que achávamos um do outro. Sinceridade total nesse aspecto, o que me deixava muito feliz e me fazia sentir o garoto mais sortudo do mundo. Afinal, quando é que se arranjar alguém não só pra ficar, mas também para filosofar sobre a vida?

E, ah, como fazíamos isso! Às vezes um assunto simples como um programa de tv ou algum comentário sobre a faculdade nos levava até os meandros mais profundos da crítica, da existência e dos nossos sonhos. Era como se pudéssemos nos abrir com segurança um pro outro, pois tínhamos certeza que nada nos faria mal.

Talvez por eu não ter reparado o fim da cena pós-créditos anterior, a quarta veio bem mais rápido. Tentei me focar rapidamente no que estava acontecendo a minha volta, pra não cometer o mesmo erro de antes.

A cena acabou sem grandes rodeios. Eu acabei fazendo uma pergunta para ele sobre ela até como uma forma de me redimir de nem ter prestado atenção na outra.

Estava tudo bem entre nós, apesar de nunca conseguirmos ficar juntos – romanticamente falando – porque não conseguíamos combinar de sair. Sempre tinha alguma coisa que ele ou eu tínhamos de fazer e nosso rolê ficava para segundo plano. Confesso que acho que isso foi parte do que ocasionou a volta dele com a Bruna.

Não foi fácil. Quando ele me disse que eles estavam conversando e que ela queria tentar algo de novo eu simplesmente não consegui acreditar no que estava ouvindo. Era o destino me fazendo de piada por eu ter achado que tinha uma chance.

Fiquei com tanta raiva! Porque ele voltaria pra ela se estávamos bem quase juntos?! Tive a cara de pau de dizer que não daria certo – não porque iria melar nossa chance de ser um casal, mas também porque se não tinha dado certo uma vez, como poderia dar de novo?

Sim, eu sei que estou sendo meio hipócrita por dizer isso sendo que me caí aos pés dele pela segunda vez.

No fim de três meses, que até me distanciei dele pra ver se superava de vez tudo que quase vivemos juntos e o repeteco de decepção, de fato, descobri – como não conversa mais muito com ele, não tinha como ele me contar diretamente... Até porque ficaria bem esquisito – que eles tinham terminado de novo.

A quinta e última cena pós-créditos veio, e, na verdade, eu só queria sair logo daquela sala e da tentação que era sentar tão próximo a ele...

Eu acabei me aproximando novamente dele por causa disso e, inconscientemente, fui dando investidas implícitas de que algo entre nós ainda poderia acontecer... Ah, por quê?! O que mais me deixa bravo é que mesmo depois de ficar três meses sem falar com ele direito, não tinha conseguido superar... Foi só ele piscar aqueles olhinhos que eu me derreti de novo.

Ele não aguentou, eu não aguentei. Acabamos combinando de sair – que ironicamente ocorreu sem quaisquer problemas – e conversamos tudo a respeito do que tínhamos sido e do que poderíamos ser um para o outro.

Não iríamos ficar juntos. Esse foi o acordo. Se ficássemos juntos, ele acharia outra menina pra se encostar e eu iria ficar ainda pior do que eu já estava. Ele precisava aprender a ficar solteiro e eu tinha de superá-lo, era isso que nós dois precisávamos se quiséssemos continuar amigos. E queríamos... Muito mesmo... Por mais que tivesse toda essa paixonite por ele, não iria aguentar perde-lo também como amigo, ainda mais ficando naquela situação estranha que tinha se posto entre nós nos meses de namoro com a Bruna.

Não, aquilo, não podia acontecer.

— Murilo? – ele disse, de novo, acordando-me de novo de meus devaneios – Tem certeza de que está tudo bem?

Eu voltei à realidade para perceber que Bernardo, Clara e Amanda já tinham saído da sala. Seria tão fácil. Tão romântico. Eu me levantava e beijava-o tendo como pano de fundo a tela branca do cinema...

— Tudo sim... – eu não podia... por mais que eu gostasse dele e ele gostasse de mim – Eu tô meio avoado mesmo...

— Ah – ele respondeu – qualquer coisa pode me falar viu? Eu tô aqui para o que der e vier.

É, eu não podia. Essa reação iria sumir se eu tentasse. Todo aquele companheirismo que a situação nos deu iria desaparecer depois de uns beijos e umas brigas. Uma hora eu iria superar aquilo e tudo ia ficar bem... Com certeza...

Não pude me conter em sorrir pra ele ao levantar-me do lugar para sairmos da sala do cinema.

Notas finais
E aí, o que acharam?
Tentei fazer o meu melhor com a música que ficou pra mim @.@' (aqui um link, inclusive, pra quem quiser ouvi-la: https://www.youtube.com/watch?v=mZad3r63wAI), nunca fui muito fã de Atlantis então peguei essa ideia de músicas que passam durante os créditos e todo esse clima de sonho sobre o que poderia acontecer se a realidade fosse diferente e onde essa ideia pode te levar (como diz na própria música kkk)
Obrigado por lerem o/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!